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sábado, 1 de julho de 2017

De Volta à Stonehenge e o Massacre Raw X Jpeg

               

              Fazia algum tempo que não observava. Murphy e a falta de tempo pareciam conspirar para tal. Em abril e maio, felizmente, tive algum trabalho. Junho costuma ser mais parado mesmo devido ao festival de Cannes. As agencias e produtoras (pelo menos as que me contratam) costumam virar os olhos para o velho mundo e nós, herdeiros dos Tamoios e Tupinambás, ficamos à mingua.  É claro que o tempo nublou na lua nova...
                Finalmente chegou o quarto crescente, já no fim do mês, e apesar da condição aquém do ideal me dignei a cumprir uma tarefa que vinha me agoniando um pouco. Terminar de observar e fotografar todos os Globulares Messier de Ophiucus. Assim teria no meu “quíver” todos os Messier da tríplice fronteira (Sagitário, Ophiucus e Escorpião) e uma significativa amostra de globulares dos céus.
                Com isto em mente e com a cara metade viajando o projeto tem que ser corrido. Só me faltavam dois destes anciões do universo para concluir minha nada hercúlea tarefa. M 14 e M 19. 
                Desta forma me organizo para que na Sexta feira, 30 de junho de 2017 (exatamente no Quarto crescente. 50% disco lunar iluminado) eu consiga abater as vítimas.
                Claro que não foi tudo tão fácil assim.
                As coisas começaram correndo (quase) conforme o script. As crianças não tiveram aula (mais uma paralização dos professores). A babá/governanta/secretária chega só as 11:30. Desta forma por volta de 12:00 eu estou trocando o focalizador do Newton (meu refletor 150mm f8). Na verdade, estou reinstalando o original. Este se empenou há mais de um ano atrás e finalmente mandei ele ao torneiro para ser concertado. Vinha operando com um focalizador muito vagabundo há muito tempo...  Ainda longe de ser o ideal a mudança já melhorou muito as coisas.
                Depois disto me digno a colimar o telescópio com alguma seriedade. Gasto meu tempo. Localizo meu kit de chaves allen e começo ajustando o secundário de forma bem mais precisa do que de costume. Depois gasto o tempo no primário. Mesmo sem um colimador consigo um resultado bem satisfatório. O melhor em muito tempo...
                Vou organizando tudo e deixando todo o equipamento reunido na sala. Hoje a brincadeira será na sobreloja da “Stonehenge dos pobres”. No telhado de meu prédio. Não visitava o local há muito tempo. Mas com os meus sonhos de ir para Búzios destroçados por meu irmão que esta super ocupado e pelo caseiro que vai entrar na faca semana que vem era minha única opção. Sempre ensaio que vou visitar meu tio que possui uma casa com um belo jardim e um horizonte sul bem livre. Mas com os alvos que tenho em mente nascendo a leste acho que a Rocinha será uma fonte de poluição luminosa assassina para os pálidos globulares. Fora o fato de meu carro se encontrar na oficina.
                Finalmente uma grave crise. Ao sentar para almoçar me lembro que ainda não peguei tudo que preciso... E aí sumiu a fonte de Mlle. Herschel (Uma cabeça equatorial HEQ 5). Depois de abandonar o prato na mesa, muitas blasfêmias e uma desesperada excursão ao centro da cidade em busca de uma substituta minha babá/governanta/secretária me manda uma mensagem segundos antes de eu comprar uma nova fonte. Localizou a fonte original entranhada entre o caos que impera nas roupas de minha amada filhota aborrescente. Pena que esta já se encontra de castigo devido a mal comportamento. Seria redundante castiga-la de novo... 
                Finalmente me lembro de que tenho que pagar a conta de meu celular. Uma rápida corrida ao banco e posso começar a trasladar o equipamento para a “laje”. Na verdade na sobreloja não existe uma Laje de fato. É bem pior que isto.... Vejam a foto que abre este post e imaginem a mão de obra que é se equilibrar sobre as telhas e não quebrar nenhuma.
                A derrota está planejada e é audaciosa. Incrivelmente e fugindo a tradição tudo acontece como um relógio...
                Utilizo a passagem de Acrux pelo meridiano para afinar o alinhamento polar. Mas apesar de não observar da Stonehenge dos Pobres há tempos aqui eu faço o alinhamento polar até “de ouvido”.  Assim as 17:44 tenho meu alinhamento polar feito. De dia ainda. É incrível como Acrux é visível de dia... 
                Agora é esperar alguns minutos para ter certeza que vou obter estrelas “boas” para o alinhamento do “go-to”. Já aprendi que dependendo de onde estarão os DSO´s que você pretende capturar é bom escolher estrelas guias para o seu Synscan (o Go-to de Mlle. Herschel) que “cerquem” a região. Utilizo quase sempre a opção de utilizar duas estrelas para isto. A opção três estrelas demanda os horizontes livres e isto é virtualmente impossível da maioria do s locais.  Nesta noite foram Antares a Arcturus as estrelas escolhidas. Se revelaram uma sábia decisão. Mlle. Herschel se comportou de forma brilhante durante esta curta noite. Todos os objetos buscados caíram dentro do campo de visão do sensor de minha câmera. Normalmente trabalho ao contrário. Primeiro localizo os objetos visualmente e depois os fotografo. Mas com o Synscan quase cravando tudo que pedia preferi fazer assim e garantir que o foco não tivesse que ser refeito para cada objeto. Mesmo com o “novo” focalizador cravar o foco é uma ciência inexata... Para que isto ocorra perfeitamente o ideal é utilizar uma estrela brilhante o suficiente para ser percebida no LCD. Mas na maioria das vezes esta estrela não existe no campo a ser fotografado e você precisa utilizar uma estrela mais distante marcar o ponto de foco no tubo do focalizador e depois pedir para que sua cabeça se dirija ao objeto desejado. Como nem sempre ela chega no ponto certo você tem que tirar ela do foco e focar para observação visual. Os DSO´s não chegavam exatamente centralizados mas chegavam sempre no canto inferior direito do sensor. Daí um mais uma ou duas fotos para ajustar e se resolvia tudo...
Antares 3200 ASA 30 Seg.

                Para marcar o foco utilizei Antares. Com uma exposição de 30 segundos e 3200 ASA percebo que que o alinhamento polar se não está perfeito está muito bom. Vai segurar 30 segundos ”na boa”. Mesmo porque o claro fundo de céu do Rio de Janeiro (ainda mais com a lua bem presente) não permitiria mais que isto mesmo... E de qualquer forma sem um sistema de acompanhamento e com 1200 mm de distância focal seria muita sorte aproveitar ao menos 25% das fotos com exposições mais longas que isto.  No momento não posso “tourar” US$ 300,00 no brinquedo. As coisas estão bem difíceis.
Como um teste fui visitar M4. Esta ao lado da estrela e é um alvo visual fácil. Mesmo distante ainda do twilight astronômico e com Copacabana já toda acesa atrás dos Morros do Cantagalo e dos Cabritos percebo o globular visualmente me utilizando de atenção e visão periférica.  Faço algumas exposições deste para checar o foco novamente e o ruído. Há bastante nebulosidade no ar, ainda está claro e a poluição luminosa se faz presente. Isto também se traduz em muito ruído. M 4 eu fotografo com apenas 20 segundos de exposição. M 4 apresenta esta espinha dorsal em seu centro que o torna um dos gobulares mais charmosos do céu. 
M4 -16X20 seg. +8 darks 2X Drizzle no DSS.  Nenhum tratamento adicional. 

                Sabendo que ainda é muito cedo arrisco escolher M 19 no comando de mão de Mlle. Herschel. Tiro uma foto e lá está o globular. No canto direito e abaixo do visor LCD. Um pequeno ajuste e poucas fotos depois percebo que existe muito ruído. Especialmente nos arquivos em RAW. Minha câmera permite capturar simultaneamente uma imagem em RAW e uma em Jpeg . Decido tentar baixar a ASA para 1600 e aumentar a exposição para 30 segundos. Melhora bastante.
M 19 -28X30 Seg.+16 Darks 2X Drizzle no DSS. Fitswork.

                Normalmente (sou um preguiçoso) só faço as capturas em Jpeg. Mesmo sabendo que vou conseguir extrair mais detalhes com o formato cru. Mas como atualizei meu Deep sky Stacker (3.4.4) e posso agora trabalhar em RAW sem ter que passar todas as fotos no Adobe DNG para trabalhar acho que daqui para frente passarei a utilizar as imagens sem compressão. Outra vantagem (esta inimaginável)) é que o processo de stacking se dá muito mais rapidamente utilizando-se arquivos em RAW em vez de Jpeg. Enquanto o Deep Sky Stacker (com o mesmo valor de threshold) detecta em torno de 17 estrelas em cada uma das fotos em RAW utilizando-se os arquivos gerados em Jpeg o programa contabiliza mais de 100. Desta forma a “leitura” dos dados para o processo de empilhamento se arrasta por mais de 30 minutos contra 3 ou 4 em RAW. Chego à conclusão que o DSS confunde estrelas com artefatos.... Quando chegam os resultados (especialmente de M 14) é definitivo. Nunca mais deixarei de fazer os registros em RAW. Ainda que para publicar as fotos seja inevitável a conversão.... Foi um massacre. Até mesmo o número de fotos aceitas pelo DSS foi muito maior com os arquivos em RAW.
                Tenho estado menos maníaco e alterado velhos hábitos. Atualizei o Câmera Raw do Photoshop, larguei o Chrome para utilizar o Opera e assim vai. Aliás tenho que fazer um elogio a este browser. Seu VPN “built in” é uma mão na roda e apesar de evitar o Pirate Bay tenho me conformado com os tempos de crise e utilizado praticas pouco ortodoxas para botar meu cinema em dia. Fora o fato que a qualidade da imagem na Netflix é muito ruim...
M14-35X30seg+ 16 darks Asa 1600 2X Drizzle DSS  -Fitswork

                Depois disto ainda falta M 14. Este bem mais tênue e difícil que M 19. Ainda baixo no horizonte (são 19:13 horas ainda) arrisco enviar Mlle. Herschel em seu encalço. E lá está ele. Discreto mesmo para o CMOS (tipo de sensor digital que equipa minha câmera).  Faço 38 fotos deste. Não creio que vá se resolver nem no empilhamento. Muito baixo no horizonte e ainda no bafo de luz da cidade. Percebo também uma leve névoa indo até alto no horizonte.
                Depois de tirar todas as fotos retiro minha câmera do telescópio e parto para inspeção visual destes dois novos amigos. M 14 é um espirito com a ocular de 25 mm. Uma daquelas coisas que recordam as reflexões de Spinoza sobre o existir. Mas está lá. Com muita visão periférica e hiperventilação. Depois M 19. Este bem mais material que seu colega. Com a 25mm ele está no limiar da resolução. Desconfio de algumas estrelas “flicando” na ocular com visão periférica e percebo uma modesta condensação com visão direta.  
                 Fico feliz com o resultado da rápida missão na Sobreloja. As 17:44 minutos estava com meu alinhamento polar pronto. As 18:21 tirei a foto de Antares. Cincos mais tarde estou fotografando M 4. As 18:42 tenho minha primeira foto de M 19 e as 19:46 a última de M 14. Pouco depois das 20:00 estou com todo o equipamento dentro de casa e posso ar atenção ao meu pequeno. Afinal já está há uma semana sem ver a mãe. E saindo assim cedo do telhado nem sou acusado de ser o tarado do Bloco B. Mas confesso que gostaria de ter feito um ataque também aos abertos entre Centaurus e Lupus. Não chega a ser preocupante. Eles devem permanecer por ali durante bastante tempo ainda...
                É incrível que se consegue fazer hoje em dia. Depois de algum processamento tenho estrelas resolvidas em M 14. Não achei que isto aconteceria. Acredito que se deu devido não só a uma captura de imagens um pouco mais caprichada (ainda que as pressas), utilizando uma ASA mais baixa do que costumo trabalhar (1600 em vez de 3200) e também um pós processamento mais paciente. A versão 3.3.4 do DSS á bem superior à anterior. Além de trabalhar com o RAW nativo da Canon (.CR2).  
                As duas fotos de M 19 abaixo foram submetidas a exatamente o mesmo tratamento. Foram empilhadas no Deep Sky Stacker, tiveram o gradiente de fundo reduzido no Fitswork, foram convertidas de Tiff para Jpeg no Photoshop e visitaram o Noiseware . A única diferença é que a da esquerda foi resultado das fotos capturadas em RAW enquanto a da direita foi vítima do Jpeg.  Por algum motivo (que desconheço) até o enquadramento é diferente...
Raw                                                                                                   Jpeg


                O revival da Stonehenge dos Pobres foi um sucesso. Em um daqueles raros dias que tudo funciona consegui a captura de dois DSO´s que podem ser considerados difíceis sob um céu Bortle 7/8. Especialmente M 14 foi uma grata surpresa. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ngc 5460 , Evolução e o PixInsight LE

   
    Estou lendo um livro bastante interessante. Seu título é auto explicativo. “ Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”.  Seu autor ( Yuval Noah Havari) nos conta como nos tornamos a única espécie do gênero Homo que sobreviveu. E de como fomos, provavelmente, os principais responsáveis pela extinção e/ou absorção de nossos parentes mais próximos. A seu ver a principal razão de nosso “sucesso” evolutivo deu-se por uma revolução cognitiva. Encurtando uma história longa  (recomendo que leiam o livro. É bem escrito e pode ser bem mais realista do que muitos “Sapiens” gostariam de acreditar ou até mesmo acreditam) ele nos conta que ao redor de 2,5 milhões de anos surgiram os primeiros humanos (membros do gênero Homo) que evoluíram de um simpático grupo de primatas que atendiam pela alcunha geral de Australopithecus (perceberam o “ Austral” no início do nome? “Os macacos do Sul” são, de certa forma, os antepassados de todos que você conhece. Galileu, Newton, Herschel, eu e você). Avançando o filme chegamos a 150.000 anos atrás. Neste momento o sapiens já está estabelecido. Mas não era de forma alguma o rei do Pedaço. Existiam pelo menos seis espécies do gênero Homo dividindo a terra com ele. E todas elas ocupando um posto bem “mais ou menos” na cadeia alimentar. Comíamos basicamente tutano. Os leões, hienas e afins comiam a carne. Nós roíamos o osso. Mas como Mestre Nestor Capoeira já dizia: “Parece que para mim osso não foi tão ruim assim”.   
Pelos próximos 70 ou 80 mil anos as coisas não mudaram muito. O Homo Sapiens continuava habitando a África oriental e só. Mas aí algo aconteceu. 70.000 anos atrás esta espécie de humanos (sapiens) começou a se espalhar pela Península Arábica e daí para a Eurásia. Bem rapidamente. Curiosamente conforme estes iam se espalhando as outras espécies do gênero Homo iam perecendo.  Apesar de bases fosseis insuficientes algo aconteceu. O Mundo seguramente era habitado por quatro ou mais espécies do gênero Homo. Os últimos remanescentes do Homo denisova desapareceram há 50 mil anos atrás. Mais 20 mil anos e os Neandertais se juntaram a lista dos animais extintos. E o diminuto Homo floresiensis nos abandona há 13 mil anos atrás. Só sobramos nós, o Homo sapiens.
                O que teria acontecido por volta de 70 mil anos atrás que levou esta espécie especifica de humanos a proliferar enquanto as outra minguaram?
                O autor acredita que em um último ato evolutivo o nosso cérebro e as “nossas sinapses” começaram a funcionar de forma mais eficiente. A nossa linguagem deu um salto e isto nos fez mais eficientes fofoqueiros e mais curiosos que nossos primos. E voilá.... Olhamos para o céu e criamos constelações e mitos. A tal da revolução cognitiva que nos levará a topo da cadeia. Seremos os senhores das moscas....
                Depois disto, como dizem, é história. Mais alguns poucos milhares de anos e todo o registro da humanidade (agora composta apenas por Homo sapiens) vai ser registrado de forma escrita.
                Depois disto a curiosidade do Homo sapiens nos levou até Ngc 5460.
                Possuo diversos projetos observacionais em andamento. Tendo concluído o “Projeto Lacaille” iniciei diversos outros. O mais ambicioso destes e que habita mais o terreno das lendas que da astronomia está o “Projeto Tudo que Existe”. Apesar do nome ele consiste em tentar observar “apenas” todo o Catálogo NGC antes de partir para o infinito.     
                Em noite de lua (quase) cheia e sem maiores pretensões   olho para a tela de meu lap top e pinço Ngc 5460 no Stellarium. Um aglomerado aberto perfeito para o “Projeto Tudo que Existe”. Posteriormente ele se revela também membro do “Projeto Dunlop 100”. Este mais modesto e ao alcance do “Newton” (meu refletor de 150 mm f8) e composto por uma lista observacional organizada por Glen Cozens na qual se reúnem os 100 objetos mais interessantes observados por James Dunlop durante seu pioneiro levantamento de nebulosas do céu Austral realizado em apenas 7 meses de 1826.
                Ngc 5460 é um delicado e disperso aglomerado aberto localizado a cerca de 2o de Alnair (z Centauro).  Tendo escapado de Lacaille sobrou para Dunlop  esta bela presa capturada em 7 de maio de 1826.  Esta é a entrada 431 de seu catálogo:
                “ Uma curiosa linha curvada de pequenas estrelas, de magnitude quase igual; duas estrelas ao leste”.
                O próximo sapiens a vislumbrar esta pequena joia foi John Herschel:
                “ Uma região de grande, brilhantes, 8, 9 e etc.. magnitudes; um aglomerado bem disperso. Um grupo brilhante. Uma delas uma dupla de classe III. (h3555) ”
                William Herschel (pai de John) dividia estrelas duplas em 6 classes. As estrelas duplas de classe III apresentam uma separação entre 5´´ e 15´´ de grau.
                Ngc 5460 é classificado como um aglomerado (pelo sistema Trumpler) como II3m. Ou seja: um aglomerado que possui pouca ou nenhuma concentração central, destacado das estrelas de fundo e moderadamente rico.

                O aglomerado é perceptível mesmo pela minha buscadora (10X50mm) mas se torna mais charmoso conforme aumento a magnificação. Visualmente considerei o melhor resultado obtido pela minha ocular de 17 mm (70,5 X). Assim resolvo a estrela dupla central e ainda possuo um campo interessante emoldurando o aglomerado.  Utilizando a 10 mm (120X) a estrela dupla central é ainda mais charmosa e bem separada. Não posso deixar de recordar-me de Ngc 5281 também em Centauros. 5460 parece uma versão maior deste. É uma impressão apenas. Ngc 5281 esta quase ao dobro da distancia. 
                O aglomerado reside a 2.300 anos luz e com isto podemos calcular que se espalhe por 23 anos luz. Estudos recentes apontam para uma idade intermediaria. 160.000.000 de anos.
                O aglomerado é bastante estudado especialmente porque aglomerados próximos permitem a compreensão de mecanismos que “freiam” estrelas as quais giram muito rapidamente já assentando na sequencia principal. Esta rápida rotação se dá como resultado da conservação do momentum angular durante esta fase final de contração a caminho da sequência principal. ( D.Barrado e P. B. Byrne). Parecem existir mais de um mecanismo agindo para se obter o mesmo resultado. A massa das estrelas é certamente um fator importante e mecanismos diferentes podem agir em aglomerados de diferentes idades. A curiosidade do Sapiens a serviço da astrofísica não deve ter sido um diferencial contundente no processo evolutivo que levou a extinção das outras espécies do gênero Homo. Mas certamente é fruto da tal revolução cognitiva.  Estas estrelas não deixarão de rodar mesmo que não acreditemos que elas giram. Mas mesmo assim sabemos disto. Deve ser algo muito duro para alguns poucos Sapiens que em razão desta mesma revolução cognitiva criaram mitos como uma Terra com apenas 6 mil anos... tanto os mitos como a ciência parecem ter sido uma exclusividade de nossa espécie.

                Localizar Ngc 5460 é bastante simples. Em locais de pouca poluição luminosa será possível suspeitar do mesmo com a vista desarmada. Em locais mias ingratos localize z Centauro e ele estará dentro do campo da buscadora. Mesmo em áreas muito ingratas com a estrela centralizada e utilizando uma ocular wide Field será uma fácil busca nos arredores.
                Ngc 5460 foi ainda um campo de provas para a capacidade de processamento de diversos softwares para tratamento de imagem que possuo. A captura foi feita de forma estabanada. Como era noite de lua (quase) cheia o alinhamento polar fora feito por aproximação e como membro do “Projeto Tudo que Existe” (já vai ser difícil observar visualmente todo o Catalogo Ngc. Se ainda tiver que fazer fotinho bonitinha vai ser ...) fiz apenas umas poucas fotos após observar o aglomerado. Não tomei notas e imagino que o produto final seja o resultado de empilhamento de menos de 10 exposições com menos de 30 segundos cada. As fotos do Projeto ficam geralmente esquecidas até que eu as reencontre e resolva apresentar os aglomerados no Nuncius Australis.
Resultado com o PixInsight

                Excepcionalmente Ngc 5460 acabou sendo   utilizada como uma primeira experiência com uma cópia do PixInSight LE que obtive.
                É uma versão freeware do poderoso soft. Mas não posso negar que apesar da experiencia ter sido bastante limitada o Pix me pareceu uma versão mais poderosa do Fitswork. Pelo menos no que se trata de remover o gradiente de fundo e de melhorar o ruído. As fotos originais foram empilhadas no Rot n Stack (o que já demonstra a total falta de compromisso no momento de captura). O delicado aglomerado não é muito mais do que se vê nas fotos por aqui... A interface não é tão amigável mas mesmo tendo apagado mais estrelas do que devia no processo de subtração do fundo creio que consiga melhorar os ajustes com pratica e paciência. Não posso negar que além de estrelas ele removeu vários hotpixels Esta primeira experiência foi apenas um reconhecimento. Vou dar uma pesquisada e ver alguns tutoriais. 
Fitswork e PS

Espero agora o tempo limpar para poder fotografar os Globulares Messier que faltam para um outro projeto em andamento. Tendo atualizado o Câmera Raw do meu Photoshop e com o Pix a disposição aguardo o “Paradoxo de Newgear” e a Lei de Murphy colapsarem para testar as possibilidades das novidades.
Imagino já ter chegado ao final do livro até lá. Os capítulos finais tratam da “Revolução Cientifica”.
               
               
               

                

segunda-feira, 5 de junho de 2017

M 10 : Um Nobre Globular

     


          Em vias de terminar meu projeto de fotografar todos os Globulares do catalogo Messier resolvi organizar a papelada e percebi que diversos destes DSO´s que já havia registrado não possuíam entradas independentes aqui no Nuncius Australis. Em particular os residentes em Ophiucus (que juntamente com Sagitário reúne a maior parte destes). No último post apresentei M 12. Assim não poderia deixar de dedicar o mesmo tratamento a M 10. No moderno clássico “Turn Left at Orion” (o qual recentemente finalmente observei todos os objetos listados...) estes se aboletam na mesma apresentação. E em muitos textos são citados como aglomerados irmãos.
            M 10 também é uma descoberta original de Messier e foi observado uma noite antes de M12 e uma noite depois de M 9. Por alguma razão que a própria razão desconhece estes serão apresentando em ordem decrescente e na contramão da história por este que vos escreve...
            Messier nos conta: “ Na noite de 29 para 30 de maio de 1764, determinei a posição de uma nebulosa que descobri na cintura de Ophiucus, próxima a trigésima estrela desta constelação de acordo com Flamsteed (os numeros Flamsteed continuam sendo muito utilizado para identificar estrelas visíveis a olho nu nas constelações e são utilizados depois que se acabam as letras gregas). Tendo examinado esta nebulosa com um telescópio gregoriano com 104X de ampliação não via estrela alguma; esta é arredondada e bela, com um diâmetro de 4 minutos de grau.  Ela percebe-se dificilmente com uma luneta comum de um pé (33 cm) ... Eu marquei esta nebulosa sobre a carta da rota aparente do cometa que observei no ano anterior”
            Como já é um a tradição aqui no Nuncius Australis apresentarei a seguir as clássicas observações de M 10 realizadas pela família Herschel e posteriormente a observação feita pelo Admiral Smyth no que foi o mais popular guia observacional do século XIX (“The Cycles of Celestial Objects”):
            “ Um Aglomerado muito belo e extremamente concentrada e sem nenhum traço de nebulosidade” (William Herschel)
            “Um soberbo aglomerado de estrelas bem concentrado, gradualmente mais brilhante em direção a seu centro. As estrelas estão entre 10a e 15a        magnitude e se dirigem para um clarão em seu centro. Um nobre objeto” (John Herschel)
            “ Rico aglomerado de estrelas condensadas. Este nobre fenômeno é de um matiz branco lúcido levemente atenuado em suas margens e se concentrando como um clarão em direção a seu centro. ”
            Podemos perceber que Smyth sempre é muito influenciado pelas impressões de John Herschel. A quem idolatrava...
            Aprofundando um pouco as pesquisas chegamos a Lorde Rosse que possuidor do maior telescópio do período clássico da astronomia nos conta que “ o aglomerado possui uma linha escura acima de seu centro ou melhor no seu sexto superior o que o torna muito mais tênue que o resto do conjunto”.
            Autores mais atuais como O ‘Meara notam regiões mais escuras ao longo do halo externo de M10, mas nada como descrito por Rosse. Com menos aumento O ‘Meara nos diz que “ as estrelas do halo externo possuem um brilho azul gelado enquanto sua região mais central apresenta uma luz salmão pálida. Parece até um decorador de interiores descrevendo o aglomerado... este também considera M 10 um alvo facilmente percebido com a vista desarmada. Segundo ele basta se perceber 30 Ophiuchi com visão direta e nossa visão periférica irá perceber claramente M 10. Stoyan é mais modesto e diz ser possível perceber M10 a olho nu em céus excepcionalmente favoráveis.  Burnham em seu “Celestial Handbok” dedica alguma atenção a aglomerado.
            Observando com o Galileu (meu refrator 70 mm f13) ou com meu binóculo 15X70 mm não chego a resolver estrelas e me inclino a concordar em gênero, número e grau com a descrição original de Messier...
            Observando com o Newton (meu refletor 150 mm f8) resolvo estrelas na sua parte externa facilmente. O aglomerado cobre facilmente 8´de diâmetro e é bem mais evidente que M 12. Não percebo cor.  Na foto feita (pouco mais de 10 exposições de 30 segundos com ASA 3200. Este é um cálculo aproximado já que a foto foi realizada ha mais de um ano...)  não percebo a diferença de gradiente descrita por Rosse, mas as regiões mais escuras são evidentes. Estou mais a concordar com Stoyan e acreditar que M 10 seja viável a olho nu no Atacama. Ou no semiárido. Estive em uma fazenda próxima a Ibotirama há alguns anos e o céu era impressionante. Mas mesmo assim somente para olhos treinados e sóbrios...
            A distância de M 10 é alvo de certa discordância entre os diversos autores. O ‘Meara nos dá modestos 14.300 anos luz. Já o mais antigo Burnham nos apresenta várias opções; Shapley (1933) o leva a distantes 33.000 anos luz. Kimnan o considera mais proximo que M13 e o situa a 16.000.  Já Sawyer (1963) aposta em 22.000 anos luz. Atualmente e depois do Hiparchos a distância aceita é de 24.750 anos luz (Stoyan). Seu tamanho é de 140 anos luz.
            Detalhados modelos dinâmicos “preveem” um colapso do núcleo de M 10 em alguns bilhões de anos. Isto vai levar a uma extrema concentração estelar em seu núcleo e mudar sua aparência. Algo me diz que surgirão mais estrelas variáveis que as poucas registradas até agora.

            Localizar M10 é basicamente localizar 30 Ophiuchi. Em locais escuros muito fácil. Na cidade parta de Zeta Ophiuchi e localize 30 com auxílio de uma buscadora ótica. O aglomerado se apresenta para uma buscadora 10X50 mais facilmente que M 12 logo ao lado.... De céus suburbanos (Bortle 6) é bem fácil. Na cidade grande é possível...


            Aproveite proximidade de M 12 para perceber como globulares são diferentes entre si. Este não só não sofrerá colapso de seu núcleo como poderá acabar se dissipando devido à baixa densidade de seu núcleo e da proximidade do núcleo galáctico. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

M 12 : Mais um Globular Messier

             

             M 12 é uma descoberta original de Messier. Este o observou pela primeira vez em 30 de maio de 1764. Há exatamente 253 anos do momento que escrevo estas linhas.
            Sua descrição é digna de seus equipamentos. E é deveras semelhante ao que observo quando utilizando o “Galileu” (meu refrator de 70 mm f 13): “ Esta nebulosa não contém nenhuma estrela, é arredondada e de fraca luminosidade. Próximo a nebulosa se encontra uma estrela de 9a magnitude; 3´ de diâmetro. ”
            O primeiro ser humano a perceber a verdadeira natureza deste globular foi William Herschel: “ Um brilhante aglomerado, 7´ ou 8´ de diâmetro, sua parte mais concentrada possui 2´. ”  
            Seu filho John é mais prolixo: “ Um rico aglomerado globular... possui “retardatárias” em linha e ramos estendendo-se até certa distância de sua parte mais condensada que possui 3´ de diâmetro. Esta vem quase como uma chama em seu centro. Possui uma estrela de 11a ou 12a magnitude em seu meio. ”  Seu grande fã e contemporâneo Admiral Smyth (em seu “ The Bedford Catalog”) vê “diversos manchas (spots) brilhantes próximas ao centro” e “ um cortejo de estrelas brilhantes e muitas pequenas estrelas periféricas em seu entorno. ”
            Lorde Rosse (dono do “Leviatã de Parsontown”) e o primeiro a perceber estruturas espirais em várias galáxias (e posteriormente em tudo ao seu redor…) fala do aspecto espiral do Aglomerado.
            Observando com o Newton (meu refletor de 150 mm f8) o aglomerado se apresenta como um globular não muito denso. É um daqueles “híbridos” que visualmente habitam aquela zona cinza entre globulares e abertos muitos densos (como M 11). Resolvo muitas estrelas mesmo com visão direta.
            Alguns autores (Stoyan, O´Meara e mais alguns) utilizam expressões como “gêmeos”, ” parentes” e “semelhantes” ao se referirem a M 12 e M 10. Eu não consigo (visualmente) encontrar nenhuma. M 12 é um globular de classe IX. M 10 é de classe VII. (Escala Shapley de concentração). M 12 é um pouco mais próximo que M 10 (20.000 anos luz contra 27.000 anos luz). A massa total de M 12 é de 200.000 massas solares. Ele é ainda menor que M 10 do que pode sugerir sua observação visual. Ele se espalha por aproximadamente 85 anos luz de espaço contra os 140 de M 10.


M 10 e M 12  -Ambos fotografados na mesma noite. Percebem-se mais diferenças que semelhanças...

De qualquer forma Buonananno sugere que ambos se formaram juntos e ainda se influenciam.  M 12 possui apenas 5 estrelas variáveis catalogadas e destas apenas duas RR Lyrae. Bastante atípico para um globular. Ele é um globular do halo interno e nunca se afasta mais que 20.000 anos luz do centro galáctico. Apesar de possuir mais de 12 bilhões de anos ele poderá ser um globular de vida “curta”. Devido a sua baixa densidade estelar (Classe IX) e passeando muito perto ao núcleo galáctico ele é exposto a intensas marés que poderão acabar por dispersar seus membros.  Em um interessante artigo de Otto Struve que localizei espalhado na Sky and Telescope de setembro e outubro de 1953 ele apresenta o “Limite de Roche” aplicado a aglomerados estelares. A leitura é fácil e as contas nem metem medo. M 12 é um bom exemplo para o processo.


            Localizar M 12 em locais de poluição luminosa pode ser um pouco mais difícil. Em búzios nunca o consegui perceber pela minha buscadora de 10X50. Como meu 15X70 é tarefa fácil. Localize Zeta Ophiuchi e desta localize 12 Ophiuchi. M 12 vai estar a meio campo de buscadora a este- nordeste desta. Cuidado para não confundir com M 10. Com pequenas magnificações (e telescópios) serão bem semelhantes. Mas a partir do momento que estes se resolverem M 12 é inconfundível. Muito mais “frouxo” que M 10.   

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Brincando de ATM

                O Saara é popularmente conhecido como o maior e mais quente deserto do mundo. Ambas as informações são incorretas. O maior deserto do mundo é um lugar frio e gelado. É a Antártida. E o lugar mais quente do mundo é Bangu. (Brincadeirinha ... O Local mais quente da terra é o Deserto de Lut. No Irã. O Lugar é tão desolado que até recentemente não possuía medições confiáveis e constantes de sua temperatura.)
                Mas como carioca sei que a região da Saara merece o nome que tem. (Na verdade “a nossa” Saara vem de Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfandega.) Caminhando pela região em meados de fevereiro tinha a nítida sensação que Bangu, O Deserto de Lut, O Dead Valley e El Azizia no Saara original são oásis de delicias.
                Nas ruas decoradas por “Fatas Morganas” eu caminhava sentindo-me como um tuaregue malvestido. E em meio as minhas andanças adentro uma lojinha em busca de um pouco de ar condicionado. Fazendo de conta que procurava por algo na loja acabei por me deparar com um interessante Kit de experiencias astronômicas e astronáuticas. O preço era baratérrimo. Não me recordo exatamente o valor, mas foi menos de R$ 50,00. Nada, mas nada mesmo supera os preços dos “Salims e Jacobs” do Saara Carioca.  A região não possui seu nome somente devido a sigla formada pela sua representante legal. A colônia libanesa é proprietária de muitos dos negócios instalados na região. Por lá árabes e judeus convivem na mais perfeita paz.




                Uma das maiores surpresas que tive é que o pequeno e barato kit não é de fabricação Chinesa. Made in Germany. Quase inacreditável...
                Como era de se imaginar tudo encaixa, funciona e o manual é bem traduzido. Um choque cultural.
                Meu filho ainda é um pouco novo para muitas das experiencias possíveis terem graça. E minha mais velha é um fruto de seu tempo e experiências a desqualificam socialmente. E assim ela faz de conta que nada a interessa. Pelo menos até o pequeno começar a se divertir...
                Uma experiencia com um balão alongado, um pedaço de barbante e um canudo apresenta de forma rápida e didática a terceira lei de Newton (Lex III: Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi.). O pequeno adorou o brinquedo e está rindo até agora do meu latim... Só consigo falar o texto acima se imitar “sotaque de padre”.
                Depois disto um foguete movido a Cebion faz a alegria da galera.
                E finalmente o momento mais esperado. Vamos brincar de ATM. A construção de um telescópio.  Ou quase...

                Depois de um pouco de cola branca e algumas dobraduras de papel possuímos uma pequena luneta de 300 mm de distancia focal com uma lente primaria de 15 mm. Ou seja um refrator com lente de plástico f 20 (razão focal). A ocular por nós também construída me parece tratar-se de uma Kellner (ou uma Ramsden "melhorada") de 30 mm. Isto nos leva a possuir nas mãos uma luneta que amplia em 10X as imagens.







                Finalmente chegou a noite em que resolvi brincar com o brinquedo. Rapidamente descobri algumas coisas além do obvio ululante (que a luneta é um brinquedo e uma porcaria...)
                Seu campo de visão é bem maior do que eu supunha. Mais de 1o. Cabem duas luas cheias e um pouquinho mais em seu campo de visão.
                O conceito de seeing é muito bem explicado pelo brinquedo. Agora você percebe algum detalhe e logo depois não. Nunca tinha visto algo tão sensível as vontades da atmosfera terrestre.
                Feita de papel cartão ela é muito sensível também a flexão. Tem que ser tratada com muita delicadeza. O foco (realizado correndo um tubo de papelão dentro de outro) é possível. Mas não flexione o tubo...
                Não posso deixar de imaginar que as lunetas utilizadas por Lacaille em seu levantamento dos céus austrais eram apenas um pouco melhores que o "Cacareco". Tudo bem que as lentes não eram de plástico. Mas ele descobriu M 83 com elas. Inacreditável...
                Deixando tudo isto de lado e  dando uma de São Tomé apontei o “Cacareco” para os céus e tive algumas surpresas.
                Acrux é mesmo uma estrela dupla.  Alpha Centauro é suspeita (o seeing brinca com ela...).
                Na Lua as grandes estruturas são evidentes. Mares, as Montanhas da Lua e as maiores crateras “comparecem”.  Ou quase.  Os Montes Caucasus e Apeninos bem como o “estreito” que é definido por eles e que liga os Mares Imbrium e Serenitatis são claramente visíveis (nos momentos de seeing). Archimedes é possível.  As raiações de Copérnico são evidentes embora a cratera em si seja mais difícil. A aberração cromática, surpreendentemente , fica nas baias... 
                Pensando em Lacaille e seu catalogo de nebulosas aponto o brinquedo para a Caixinha de Joias. Percebe-se que não é uma estrela apenas embora se torne uma espécie de local confuso com algo vermelho no centro. Kappa Crucis, BU Crucis e MU Crucis lutam para se resolver uma da outra...  Cada vez respeito mais Lacaille. Já observei o Catalogo inteiro com meu 15X70. Mas ele é infinitamente superior as lunetas de Lacaille. A descrição do equipamento utilizado por ele se aproxima muito mais do “Cacareco” que de meu Skymaster...
                   Jupiter é uma estrela amarelada com quatro estrelas "escorts" bem fracas. Nos momentos de seeing bom.
                   Muito mais do que eu apostaria. 
                 Depois de muito insistir calculei que  a magnitude limite do brinquedo ( em noite de lua quase cheia e da Stonehenge dos Pobres [Bortle8] ) é entre 7,5 e 8a magnitude. 



                O brinquedo deixou meu filho curioso e eu também. Pretendo tentar montar algo como a luneta de Galileu na próxima brincadeira de ATM...
                    

terça-feira, 9 de maio de 2017

M 107 - O Ultimo Globular Messier

                


                 M 107 é uma das entradas controversas do Catálogo Messier. É uma descoberta de Mechain (“sócio” de Messier na obra) e a descoberta mais tardia de todo o Catálogo. Foi registrado em abril de 1782. E assim tarde demais para ser incluído na lista final original do catalogo.
                O Catalogo Messier em sua forma “final”, como publicado na Connaissance du Temp para 1784, possui apenas 103 entradas. Assim como revistas astronômicas o Connaissance é publicado com uma certa antecedência. A de 1784 foi publicada em 1781.
                Mechain observou “ uma pequena nebulosa no lado esquerdo de Ophiuchus entre as estrelas Zeta e Phi. ” Méchain informou Messier de sua descoberta. Notas manuscritas provam que este sabia de sua existência, mas nada indica que ele tenha observado M 107 pessoalmente.
                Em um artigo, hoje clássico, escrito por Owen Gingerich e publicado em duas partes na Sky and Telescope de agosto e setembro de 1953 nos conta que como Hellen Sawyer Hogg, em 1948, trouxe a luz uma carta de Méchain para Johan Bernoulli e uma publicação no Berliner Astonomisches Jahrbuch onde se apresentam o que viriam a ser M 105, 106 ,107 e 108. E apoiou a inclusão destes na lista de Objetos Messier. Estes formariam junto com M 104 entradas póstumas do catalogo Messier. É importante frisar que as anotações descobertas na cópia pessoal de Messier de seu catalogo feitas por Flammarion provam que M 104 foi observada pelo mesmo. Burnham em seu “ Handbook” considera M 104 como a última entrada valida do Catálogo Messier.
                Herschel (que sempre ignorou as descobertas de Messier em respeito ao mesmo) inclui M 107 em seu   “Catalogue of One Thousand new Nebulae and clusters of Stars” (1786). É a entrada H VI. 40.
                Smyth apresenta M 107 em seu “Cycles of Celestial Objects” como uma descoberta de William Herschel:  “  (Maio ,1837) Um aglomerado grande, mas pálido e de pequenas estrelas na perna esquerda do “Encantador de Serpentes”. Existem cinco estrelas telescópicas, dispostas a formar um crucifixo, quando o aglomerado está alto no campo. Mas a região logo além é comparativamente deserta. Foi descoberto por William Herschel em maio de 1793 e registrado com 5´ ou 6´ de diâmetro. ”
                M 107 é um aglomerado globular localizado a 20.900 anos da terra.
                O aglomerado é um alvo difícil para binóculos e irá se apresentar de forma quase estelar. Apesar da descrição de Smyth, ele não possui mais que 3´visualmente.
                Observando como Newton (meu Refletor de 150 mm f8) sob os céus de Búzios (Bortle 6 ou 7) ele é pouco mais que um esfuminho com alguma granulosidade nas bordas.  Não percebo nada na buscadora.  Com observação atenta percebe-se um núcleo mais concentrado e brilhante. M 107 não é um aglomerado muito concentrado e com telescópios grandes se resolve quase na integra. Creio que o Newton resolva suas bordas em céus mais generosos.  Possuidores de grandes telescópios podem ter seus “Momentos de Rosse” (suas cadeias deestrelas podem lembrar braços espirais em uma galáxia.)

                Localizar M 107 pode ser trabalhoso, mas nada hercúleo será necessário. A partir de Antares localize Zeta Ophiuchi  (Saik). Fica a 16 o ao norte. (Cerca de cinco dedos com a mão bem fechada). A partir daí ele estará a cerca de ½ campo de buscadora (2,75o) a sudoeste. Outra forma é imaginar uma linha entre Beta Scorpii e Beta Ophiuchi. Zeta estará no primeiro terço do caminho... em meu projeto para fotografar todos os Globulares Messier em Ophiuchus ele foi o antepenúltimo. Faltam 2...
                M 107 é um globular X na escala Shapley. Bem frouxo (a escala vai até XI).  Sua magnitude ´de 8.8. Seu raio é de aproximadamente 40 anos luz e ele possui aproximadamente 13.95 bilhões de anos.  Um ancião entre anciões.
                  A foto que abre o post é resultado de um stack de cerca de 15 fotos com 20 segundos de exposição ASA 3200. É definitivamente mais do que eu consegui perceber visualmente em uma noite de pouquíssima transparência.
   
MPG/ESO 2,2 Meters Telescope . Observatório La Silla - Chile - Imagem: ESO

                A melhor época para a observação é justamente em junho... 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ngc 4526: Uma Gálaxia Quase Perdida

              

                  Costumo utilizar o Stellarium (um misto de carta celeste com programa planetário) para organizar minhas sessões observacionais. Suas versões mais atuais parecem ter passado por uma maquiagem a fim de se apresentarem menos formais e mais atraentes especialmente aos mais jovens e/ou aos iniciantes. Desta forma diversos do DSO´s apresentados  são nomeados com apelidos clássicos , pomposos ou chamativos.
                Ngc 4526 é um destes objetos .  Enquanto passeava pelo aglomerado de Galáxias de Virgem e buscava por novidades fora do catalogo Messier me deparei com “ A Galáxia Perdida” (The Lost Galaxy). O título não me era conhecido e tão pouco a galáxia. Não sabia de onde o Stellarium tirou o belo e misterioso apelido.
                Mistério deve ser a palavra-chave por aqui. Venho assistindo uma “nova” série no Netflix. Um belo e misterioso conto de terror. Penny Dreadful. Em uma mistura de terror, mistério, poesia e cenários vitorianos que mostra a busca de Sir Malcolm Murray (um explorador inglês e proprietário de um belo refrator que decora seu escritório), Vanessa Ives (uma médium e uma beleza...) e Ethan Chandler (um pistoleiro americano) por sua filha Mina sequestrada pelas forças do mal. Isto deve ter me influenciado em ficar encantado com a possibilidade de buscar por uma “Galáxia Perdida”.
                Não bastasse a sincronicidade destes eventos em um dos episódios Ives se encontra com Frankenstein (ele também participa da série e tem claro parentesco com Ngc 4526) e este cita a abertura de um de meus poemas favoritos de Blake (Auguries of Innocence) que possui claro caráter astronômico (Blake embora muito esotérico é também um profundo entendedor dos mistérios do universo...): 
                “To see a World in a Grain of Sand / And a Heaven in a Wild Flower
                  Hold Infinity in the palm of  your hand  / And  Eternity in an hour”
                Não faltassem coincidências sem nada a ver com as leis fundamentais do universo na minha busca por Ngc 4526, “A Galáxia Perdida”, ela foi localizada por um erro do Synscan (Uma espécie de computador de bordo de minha cabeça equatorial) de Mlle. Herschel. Pedi para esta buscar por M 49 e Ngc 4625 apareceu centralizada na ocular de 17 mm.  E assim a “Galáxia Perdida” foi achada.  Mas é importante lembrar que ela estava entre os objetivos da missão exploratória pretendida.
                Embora chamada de “A Galáxia Perdida” no Stellarium Ngc 4526 é extremamente brilhante e fácil de ser localizada. E como ao buscar por informações sobre esta em meus alfarrábios não encontrei ela listada com este belo e misterioso apelido no “Deep Sky Companions: The Hidden Treasures “ de Steve O´Meara  fiquei com a pulga atrás da orelha. Me parecia muito pouco provável que O´Meara (que assim como eu adora “batizar” DSO´s) deixasse isto passar. Na verdade, O´Meara aplica a mesma um outro apelido. “ The Hairy Eyebrow Galaxy” (A Galáxia da Sobrancelha Cabeluda). Fui em busca da verdade. Ou pelo menos de alguma lenda para justificar o título.
                Existem duas características que são associadas as lendas e que são antagônicas entre si.  A primeira nos diz que “ Por trás de toda lenda há um fundo de verdade”. E a segunda fala “ que as lendas são mentiras que ganharam a autoridade do tempo”.
                E como boa lenda a raiz da confusão sobre Ngc 4526 remonta há muito tempo. Nada em escala astronômica mas a origem já seria velha quando nasci. E eu nasci no século passado.
                Tudo indica que a “Galáxia Perdida” original não é Ngc 4526. O nome foi primeiramente utilizado por Leland S. Copeland em um artigo escrito para a Sky and Telescope de fevereiro de 1955. A matéria chamava-se “ Adventures in the Virgo Cloud”. E a galáxia por ele assim chamada foi Ngc 4535.  Esta encontra-se apenas meio grau ao norte de 4526. E é um alvo bem mais difícil. Especialmente visualmente.
                Burnham em seu “Handbook” confirma:
                “... Estas são as galáxias Ngc 4526 e 4535, a primeira uma elíptica bastante extensa ou um sistema S0 com um centro brilhante, a outra uma grande espiral com baixo brilho de superfície, medindo 6´X4´.A partir de sua enevoada e fantasmagórica aparência em telescópios amadores esta foi batizada “The Lost Galaxy” por L.S. Copeland”.
                Seguindo a investigação localizei a fonte original. A edição de fevereiro de 1955 da “Sky and Telescope”. Ngc 4526 mereceu uma investigação “detetivesca”.  Abaixo a foto original dos suspeitos. Baixei todas as “Sky and Telescopes” para o ano de 1955. Sensacional...
Harvard Observatory - sky and  telescope 1955.

                Para não deixar pedra sobre pedra ainda localizei um post no fórum “Cloudy Nights” onde um dos membros levanta a hipótese de Ngc 4526 ser chamada em mais de um atlas digital (Stellarium e o “The Sky””) de “The Lost Galaxy” devido a habitar entre duas estrelas de 7a magnitude que podem disfarçar sua presença ou natureza. Isto explicaria sua presença no “Hidden Treasures” do O´Meara. Este costuma apresentar objetos que mesmo não sendo impossíveis a telescópios amadores podem esconder sua natureza devido a sua posição no espaço.
                É uma descoberta de William Herschel e foi primeiramente observada em 18 de abril 1784. Isto também é alvo de controvérsias. Ha fontes que falam em 13 de abril. Nada a respeito de 1 de abril...
                “Brilhante, bem grande, bastante alongada, muito mais brilhante no centro. Localizada entre duas estrelas de 7a magnitude. (H I- 31= H I – 38) ”.
                Podemos perceber que Herschel a catalogou duas vezes. Entradas repetidas também podem ter gerado alguma confusão a respeito de quem seria a “Galáxia Perdida”. A mesma é membro da lista chamada de “ 400 de Herschel” que reúne as mais interessantes e acessíveis entradas do enorme levantamento de nebulosas realizado por William (com o auxílio luxuoso de sua irmã Caroline) Herschel.
                Ngc 4526 é um alvo bastante brilhante e facilmente percebido mesmo com visão direta. O fato de habitar entre duas estrelas de 7a magnitude ao contrário de a tornar um “Tesouro Escondido” a faz fácil de localizar e mais fácil ainda de se identificar entre o mar de galáxias que habitam a região.
                James Mullaney em seu guia fundamental para aqueles que decidirem encarar o desafio de observar “Os 400 de Herschel” concorda com minha opinião:
                “...Felizmente, como indicado por Herschel em sua descrição, acontece desta habitar entre duas estrelas de 7a magnitude no primeiro campo (estas estrelas habitam a Via-Láctea), ajudando a distinguir de suas vizinhas”. “
                Os campos em Virgem são ricos em pequenas condensações e podem ser bastante enganadores. M 49 (que era meu objetivo inicial) reside a menos de 1o de Ngc 4526 e apesar de ser um dos “monstros” do aglomerado não brilha muito mais que nossa galáxia.
                Ao observa-la rapidamente percebi sua aparência de estrela enevoada. Seu núcleo é realmente muito brilhante. Galáxias lenticulares são amigas do amador. Costuma ter um brilho de superfície alto e núcleo bastante evidente.

                Como já falei cheguei até Ngc 4526 por um descaminho de meu sistema de Goto. Posteriormente a visitei com mais ‘”Fair play” e a percebi navegando a partir de Rho Virginis com meu 15X70. Mesmo com o uso de binóculos (pela buscadora 8x50 isto não é tão obvio, mas seu núcleo se apresenta) ela revela sua natureza nebulosa. As duas estrelas escudeiras ajudam bastante para saber onde se concentrar com sua visão periférica.  M 49 é também um belo marco para se localizar Ngc 4526. A galáxia é tão brilhante que em um primeiro momento cheguei a considerar ter chegado a M 49.
                Nossa galáxia nem tão perdida realmente apresenta alguma semelhança com o monstro incompreendido de Mary Shelley. Parece uma concha de retalhos em sua estrutura.
                Atualmente Ngc 4526 é classificada como uma galáxia lenticular mista (SAB 0). Isto implica em tratar-se de uma galáxia elíptica aonde se suspeita de uma barra central, com braços típicos de uma espiral clássica e um núcleo amorfo levemente elipsoidal.  Na foto do Hubble pode se perceber todas estas estruturas. Ainda que umas mais que as outras.  Uma área central de caráter lenticular com uma espiral empoeirada ao seu redor.  Esta poeira empresta o apelido de “sobrancelha cabeluda” dada por O´Meara. Nada disso é percebido visualmente mesmo com grandes telescópios amadores.
                Ngc 4526 é sempre lembrada por duas supernovas recentes que em astro fotos por efêmeros momentos a emolduraram entre suas duas estrelas escudeiras.
Ngc 4526 com a supernova 1994d. HST.

                Uma delas em 1994 (1994d) foi um evento do tipo Ia e chegou a atingir 11.8a magnitude. 
                Anteriormente Ngc 4526 era considerada a uma distância semelhante a M 49 fazendo parte do sub aglomerado sul de Virgo. Como supernovas são do Tipo Ia são uma das velas padrões mais precisas conhecidas a nossa galáxia se aproximou de nós cerca de 15 milhões de anos luz de nós. A distância aceita para a região de M 49 no aglomerado de Virgo é de 55 milhões de anos luz. Ngc 4526 atualmente habita a modestos 40 milhões de anos luz. Aceito estes valores ela possui cerca de 68.000 anos luz de extensão.
                Ngc 4526 é um alvo nobre e extremamente interessante. Fácil em se falando de galáxias.


                Uma galáxia nem tão perdida assim...