Translate

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Céus Escuros e as Noites de Gilgamesh


  
Sempre fui um defensor de que a astronomia observacional é factível debaixo de céus urbanos. Mesmo em condições extremas (Bortle 9). É verdade. Como a astronomia é uma ciência esta deve ser comprovada de forma empírica. E sendo comprovada se estabelece uma verdade.
            Já observei todo o Catalogo Lacaille, boa parte do Messier e mais muitos DSO´s que pode ser enquadrados no “Projeto Tudo que Existe” da janela de meu apartamento. Este está encravado na zona sul do Rio de Janeiro. Uma cidade na casa de vários milhões de habitantes.
            Muitos dos DSO´s que observei nestas condições eram fantasmas de si mesmos. Zumbis. Mortos Vivos. Mas que assombravam a matéria o suficiente para serem percebidos mesmo sem auxilio mediúnico. Visão periférica, técnicas indianas milenares de respiração e muita paciência são capazes de os tornarem perceptíveis para alguma parte do cérebro. Parece ser o Lobo Occipital. Outra possibilidade seria todo o lado direito onde parecem habitar a imaginação, a criatividade e a memória...
            Chegaram as férias das crianças. E apesar de duro me vejo responsável para desenvolver o lado direito. Ao menos do menor. A mais velha já não quer mais saber de mim e a imaginação caminha por locais que prefiro apenas manter na casa da cumplicidade. Já tive 15 anos e era bem mais difícil do que a minha debutante.
            Vamos, de novo, só os meninos subir a serra. Ficam para trás a cara metade e a filha adolescente. Os planos são claros. Ele será afastado da tecnologia e do Youtube e eu irei comemorar a Aporema de Inverno. Para aqueles que não sabem esta é uma festa pagã que presta homenagem aos céus e que se passa na lua nova mais próxima aos solstícios e equinócios. Seu nome remonta ao cacique Aporema. Tudo indica que este possuía uma visão privilegiada e que era capaz não só de ver 12 estrelas nas Plêiades como de acertar uma flecha em uma lontra a mais de um lago de distância. O tamanho do lago e da lontra são alvo de debate. As Plêiades são conhecidas como as “Setes Irmãs”. Eu mesmo nunca consegui resolver mais que quatro sem usar o lado direito do cérebro e de muita imaginação. E mesmo assim seis ...
Canon T3 - Pentax 50 mm f 1.7 @ 2.8 - single frame 45 seg HEQ 5

            A astronomia é uma ciência. Logo a lógica deve ser respeitada. Meu carro é muito baixo, estou duro e as estradas de terra de Lumiar são de terra.  Embora as ideias de Marx andem em baixa ele criou um conceito que me parece mais uma lei fundamental que uma coincidência de Adams. Chama-se “mais-valia”. Eu, capitalista, uso de meu carro para ganhar dinheiro com o trabalho de outro. Coloco meu carro para trabalhar na mão de um membro do proletariado. Este deve me pagar uma grana para poder utilizar o “bem de capital” (o carro) para mim. Mais uma grana para o detentor de uma tecnologia (não sei se isso seria um “bem de capital” clássico), a Uber. O valor que este me paga é quase o mesmo que eu pago para alugar um carro de uma locadora de veículos (está mais capitalista que eu). Posto que posso arregaçar o carro nas estradas de terra, pedir outro carro em caso de pane e etc... faço excelente negócio. Não sei se “mais valia” ou se “valia mesmo”.  Aproveito aqui para me vingar da “Budget” e da “Avis” e dizer que são um serviço de merda. Mas justo que sou indico a “Movida”.
            De volta as observações astronômicas, mesmo que possíveis e assombradas de cidades grandes, um céu escuro é um raro prazer. Especialmente para o astrônomo urbano. A região de Friburgo é um excelente ponto para se observar. Mesmo sendo Friburgo uma cidade “grande” o clima é bastante limpo e a altitude sempre é um “Plus”.
            Durante anos o posto avançado do Nuncius Australis foi Búzios. Uma península bem seca. Sua vegetação cheia de cactáceas e uma falta de água famosa atestam suas qualidades. Mas a cidade cresceu, o quintal onde observava passou por reformas e virou um bar e tirando eu ninguém gosta de ficar no escuro. Foram instaladas mais de 9 lâmpadas em 40 metros quadrados. Bortle entre 7 e 8.
            Me transferi para Lumiar. Uma área rural muito mais escura. E onde, graças ao Lô Borges, olhar o céu e curtir a natureza não é coisa de maluco.
            Este post está virando quase um merchandising. Já fiz propaganda de locadora de carro e agora vou indicar um camping (com direito a casa para alugar). Cantinho Doce. Falar com a Renata que ela manda apagar luz e tudo para você poder ver céu. Minha amiga...  O céu é Bortle 3/4.  Sempre chego depois do fim de semana. Afinal ela tem um negócio para tocar.
            Saí do Rio com meu pequeno na sexta feira 13. Bons agouros até mesmo para um cético... Apesar de seguir por uma rota diferente da que normalmente sigo, e indicada por um “especialista” na região, demorei 4 horas para chegar na cidade. Normalmente levo três...
M 8 , M20 e M 21. Esta foi feita com a Pentax 300 mm f 4.5. Curiosamente sempre percebo mais ruido ( nos subs) desta lente que em outras. Mas não consigo entender a razão. A lente é um ED de altissíma quelidade. costuma culpar Heisenberg... 

            Já ia meio tarde para me encaminhar para o Camping e sabia que a casa que queria estava alugada. Destino: Casa de Gil. Um grande amigo e velho professor. Pai de 11 filhos e com dois destes que regulam com o meu sempre é um bom refúgio.  Produz uma batida de “Clorofila” de formula secreta. Leva uma pinga de 19 anos, Ora-Pronobis, mel, limão e sabe-se lá o que. Cúrcuma com certeza.
            Depois de nos aconchambrar na pequena e agradável casa resolvo que vou observar. A casa fica lá no topo de um vale bem fechado. Tanto o horizonte sul como o Norte são bem limitados. Alinhamento polar sem usar o drift é impossível. Como minha religião e minha paciência não permitem isto faço como um velho marinheiro e uso apenas o Cruzeiro do Sul. Não funciona para o “Newton” (1200 mm). Mas sou bom nisto e com uma Pentax 50 mm f 1.7 me divirto e faço belas fotos...  
            A que abre este post é um remake. Engloba a fronteira entre Escorpião e Sagitário e apresenta diversos DSO´s. É uma foto que sempre repito. Sagan, na série Cosmos, batiza um dos episódios de “A Espinha Dorsal da Noite”. Trata da Via Láctea. Respeitando esta bela imagem chamo a região de “A Décima Terceira Vértebra”. Abaixo e subindo em rumo a cervical aproveito e registro a região próxima a Antares já na fronteira desta com Ophiuchus. “A Décima Quarta Vértebra”.


               A condensação é um inimigo terrível para o observador. Já sabendo disto e sem ter montado os “dew heathers” que sempre me prometo passo muito tempo com um pequeno secador de cabelo nas mãos. Funciona. Mas é um exercício de disciplina. A cada 10 fotos um minuto de cabeleireiro.
            Algo que me emociona é pessoas que apesar de não serem observadores e que depois de alguns ‘showpieces” cansarem da novidade dão valor ao seu trabalho. A esposa de meu velho mestre (que em vez de observar fica, no frio, ao meu lado dando todo suporte necessário e transcorrendo sobre a “domesticação” da capoeira feita por Bimba) vem sempre trazer algo para comer ou um chá. E pergunta, com real interesse, sobre as condições do céu (adorou o conceito de “seeing”). Aliás se tornou uma adoradora de estrelas duplas depois de ir até Albireo).
             Vencido pelo frio, a infusão e a viagem vou dormir.

            Vem o sábado. Outro merchandising: Existe um açougue (daqueles de verdade) onde o dono faz suas linguiças, usa uma luva de malha de metal e te diz qual a carne que você vai levar para o churrasco porque hoje é esta que está boa para caramba que fica próxima ao Poço Feio. Chama-se Parada Obrigatória. Neste sábado a peça é uma costela de porco fresca (carne congelada lá é coisa para otário ou restaurante. Estes porque vão ter que congelar de qualquer forma e vão levar 50 kg.). O preço chega a ser revoltantemente barato para um carioca. Para os "locais" é caro. Mas admitem que é muito melhor que no Açougue Central. Ainda nos “comes e bebes” a cerveja Império, que não é feita de milho, arroz ou genéricos, cabe no bolso e não precisa devolver o casco. Estes tem sidos reciclados e estão usando muito para construção...
            Com toda esta farra me lembro que os maiores inimigos da observação são o próprio observador, seus amigos e a cachaça. Nesta noite a brincadeira é a olho nu. É impressionante a quantidade de constelações que consigo identificar. A casa do mestre é em Boa Esperança. Bortle 3.  Você já viu Aquário? Peixes?  E ainda por cima embriagado... De volta ao primeiro parágrafo deste texto – Sim, é possível observar no Rio. Mas é muito melhor em céus escuros. A navegação, até você se acostumar, é até mais difícil. Mas depois que acostuma... O catalogo Lacaille (que é um velho conhecido) é quase todo perceptível a olho nu. Duas noites mais tarde vou realizar o sonho de perceber (que é diferente de ver...) M 83 sem auxílio ótico. A foto abaixo é fruto de 10 exposições de 30 segundos.  Reza a lenda que é o objeto mais distante visível a olho nu para o habitante do hemisfério sul. M 69 que é membro do catalogo eu não percebi nem com reza braba. Há registros de observações a olho nu de M 81 e 82 no hemisfério norte.
M 83- Newton 150 mm f8 e Canon T3- 10 frames de 30 seg ISO 1600. DSS+ PI+ PS.

            Eu tinha feito uma promessa antes de partir para viagem. Eu iria observar. Astrofotografia é um vicio terrível. É adorável, prazeroso e mostra coisa que você não vê sem demandar muito esforço. Mas a astronomia é um exercício visual. Todo o Catalogo Ngc foi “descoberto” com a visão. E como dizia o profeta “O homem é o exercício que faz.”  A astrofotografia é uma arte difícil. Uma técnica fundamental e poderosa ferramenta. Mas é importante lembrar que não pode ser um fim em si mesma. Fotografar sim, mas ver o céu é a maior é diversão.
            Domingo é a final da Copa que é seguida de um churrasco na casa de um novo amigo. Este é o responsável pela horta do melhor hotel da região. Conheci o filho do dono que me prometeu liberar o Heliponto do estabelecimento para fotografar. Possui quase 360o de horizonte e se vê o mar. Aguardo oportunidade.
            Amanhece segunda feira e é momento de me deslocar para o camping. Um horizonte mais livre e, seguindo o cronograma, noite de observação a sério. Eu queria ser fiel ao projeto. Observar e fazer breves registros fotográficos. Investir no “Projeto Tudo que Existe”. Neste quero as vezes observar todo o Catalogo Ngc as vezes observar apenas suas entradas mais obscuras. Lá quis acreditar que seria factível observar a porra toda. E fotografar estes de forma descompromissada. Não possuo muito tempo para observar e astrofotografia a sério implica em captura poucos (as vezes 1 ou 2...) objetos por sessão. Não vai rolar.
A galera...

            Vou eu, meu pequeno, Tonho (o pequeno do Gil) e João (o mais velho do professor). O ultimo contratado para cuidar dos menores enquanto eu observo. Funciona de forma espetacular. Durante o dia brinco com as crianças, meu filho pesca seu primeiro peixe, usam arco e flecha e são crianças que riem de um jeito que só criança ri. De noite eu observo e graças ao frio estes preferem se refugiar na pequena casa enquanto jogam no computador, fazem guerra de travesseiros, veem filmes e riem como só crianças riem. O céu é espetacular, o alinhamento polar é bem mais fácil com um horizonte mais limpo e eu sou feliz como há muito tempo não era. São tempos difíceis...
            Pulei uma parte da história. Na primeira noite, geralmente estabanada, não conseguia ver quase nada. Atribui ao alinhamento polar pobre ao telescópio que sabia descolimado e uma buscadora mal alinhada. Na manhã seguinte (antes de ir para açougue) fui colimar o Newton e percebi que o primário não estava sujo. Estava imundo. Nunca acredite que você não deve limpar seu espelho. Besteira. Aproveitando da oficina abri o Newton todo e com uma solução de sabão bem fraca limpei o bichinho. Só de olhar para ele vi que tinha ganho de 2 a 3 magnitudes.
            Um objetivo pré-estabelecido era a Bug nébula. Como geralmente acontece por aqui este não compareceu. Na verdade, alguns objetivos planejados no entorno da cauda do Escorpião me foram recusados pelo Synscan. Embora este tenha funcionado brilhantemente em outras regiões do céu. Mas se recusou a localizar a Nebulosa do Inseto (NGC 6308) e da “A Pegada do Gato” (Ngc 6334).  
M 53 

            Me conformo e sigo em frente. M 53 era o penúltimo globular Messier que me faltava observar e fotografar. Não é mais. Fica faltando apenas M 72.

M 27

            Como o Synscan está funcionando bem o norte do equador celeste sigo rumo a Nebulosa do Haltere, M 27. Céus escuros lhe fizeram muito bem. Cheguei a conclusão que nunca a tinha a observado de fato. Extremamente brilhante com visão direta. Nada de visão periférica e técnicas de Yoga...
A Asa da Mariposa- Ngc 6281

            Retorno a luta com o “Inseto”. Perco de novo, mas, no caminho esbarro com uma Mariposa. “The Moth Wing Cluster” (A Asa da Mariposa) se apresenta meio ao acaso durante a busca e após breve namoro me permite fazer umas “nudes”.
            Depois disto resolvo testar a escuridão em algumas galáxias. Cen A e M 83 nunca foram tão gentis. Com paciência e persistência consigo perceber muita estrutura em M83. O Cata-vento se apresenta com 70 X e melhor ainda com 120 X.
            Depois disto volto para o Horizonte norte. Fico todo feliz quando peço a Mlle. Herschel (minha cabeça equatorial HEQ 5) para localizar algo e quando chego na ocular o DSO está lá bem no centro. M 57. A nebulosa do Anel e a segunda planetária da noite. Faço algumas poucas fotos desta. Mas na noite seguinte as crianças conseguem deletar esta enquanto brincam no computador enquanto observo. Com 70 X o Anel é lindo e evidente.
            Caço também a Nebulosa Saturno, mas já cansado e querendo ver as crianças desmonto o circo e vou me reunir com elas.

            No dia seguinte começo cedo e quero visitar algumas novidades. A noite começa em alto estilo podendo ver a lua em conjunção com Mercúrio, Vênus. Júpiter e Saturno já bem alto no céu. E logo mais tarde Marte nascendo super brilhante por trás da Pedra Riscada e batendo Júpiter em mais de meia (0,5) magnitude. É uma “Noite de Gilgamesh”. Nestas se pode observar todos os planetas conhecidos desde a antiguidade.
Perdido na cauda de Escorpião caçando pela "Pegada do Gato"...

            Nesta noite comecei de novo tentando capturar Ngc 6334 com minha lente 300 mm. E novamente o Synscan se recusa a colaborar na região. Mas não quero ficar a noite toda tentando possibilidades de estrelas para alinhamento. Já tinha feito o alinhamento utilizando a rotina de “Three Stars Align” e depois que esta não cravou a “Pegada do Gato” voltei ao mais prático “ Two Stars Align” e com uma combinação que sei funciona bem na maioria das vezes (Acrux e Beta Cen) apesar de não se considerada ideal prelo manual do Synscan parto em busca das novidades.
M 26

            M 26 é um discreto aberto que simula bem um cometa falsificado e que nunca tinha visitado.
            
Ngc 5867 
Depois chego até um globular pouco frequentado e muito interessante. Mesmo com o céu escuro este é um daqueles DSO´s que se apresentam. Mas não são dados. Bem grande e tênue é conhecido como “O Globular Fantasma”.  Trata-se de Ngc 5897 em Libra.
Ngc 5986


            Sigo a viagem ruma a outro globular. Ngc 5986. Localizado em Lupus.  Pequeno, mas bem brilhante.
C 81 

            Mais um globular. Agora membro do Catalogo Caldwell (C81 ou Ngc 6352). Mais um Globular pouco denso em direção ao centro. Estamos em noite temática... Bem mais fácil que o “Fantasma”.
IC 4756- O Aberto é muito maior que a area coberta pelo  sensor. 

            Escolhendo um aberto ao acaso tenho grata surpresa. Um aberto enorme e feito sob medida para minha ocular de 40 mm. IC 4756. Possuidor de vários apelidos: O Aglomerado de Graff, O Jardim Secreto e o Aglomerado Tweedledee. Enorme é um daqueles que para ser todo observado é preciso passear com aumentos maiores. Sensacional.

            Depois visito Vega e faço uma foto desta. É uma estrela cheia de lendas e quero fazer um post a respeito.
M 11

              Um rápido pulo a M 11. Um aberto belíssimo e que visitei poucas vezes. Não fosse o colorido evidente seria quase impossívem diferenciar dos frouxos globulares que observei... O foco ficou bastante a desejar... 
 M 6

             Visito dois velhos amigos que nunca canso de visitar. M 6 , o Aglomerado da Borboleta e M 7, O Aglomerado de Ptolomeu. Neste céus escuros é possível resolver estrelas em ambos a olho nu. Ou quase...  Preciso usar meus óculos. 
M 7

            Depois dou uma namorada em Marte. A calota polar é a única estrutura que realmente percebo. Acho que a tempestade de poeira ainda está cortando o barato dos amigos “planetários” nesta oposição. ‘
            É tempo de desmontar tudo. Na manhã seguinte o plano é partir cedo de volta ao lar. Por mim ficaria até o fim da semana. Mas os custos da operação se impõem e tenho que retornar. Inicio a jornada de volta pela bela estrada Praia-Mar, sigo pela BR-101e chego de volta ao Rio vendo o “Gigante Deitado a partir da Ponte Rio-Niterói.  Agora é processar um monte de fotos e esperar pela Primavera.
           

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Ngc 6144: Escondido nas Luzes e nas Sombras


               

            Ngc 6144 é um globular que vive nas sombras. Tanto figurativamente como de fato. Habitando uma das mais belas paisagens dos céus nosso aglomerado reside a meros 40´ de Antares, o coração carmim de Escorpião, e a cerca de 1o a nordeste do muito mais famoso e muito mais próximo M 4. Este um dos globulares mais próximos da Terra e conhecido como o” Aglomerado Olho de Gato” pela faixa de estrelas brilhantes que cruza o globular.  Não só isto o nosso pequeno e discreto aglomerado habita “atrás” do complexo nebuloso a redor de Rho Ophiucus. Este uma nuvem de poeira localizada a meros 450 anos luz de nós e uma das mais próximas regiões de formação estelar. Barnard quando fotografou em 23 de maio de 1895 a região deixou bem claro quão deslumbrante é o cenário: “Uma vasta e magnifica nébula, intrincada em sua forma e conectada com muitas das estrelas brilhantes da região incluindo Antares e Sigma Scorpii e que possui escarças regiões de igual interesse em todos os céus”.  A região é um dos mais claros exemplos do que Herschel (descobridor de Ngc 6144) chamava de “Loch im Himmel”. Ou “Buracos no céu”.  Herschel “fantasiou” que tais regiões, por aparecerem geralmente próximas a ricos aglomerados estelares, poderiam ser fruto do vazio de matéria deixada por estes nas imediações de onde coletaram suas estrelas. No caso de Ngc 6144 tudo indicaria que ele seria resultado dos restos de M 4....
A paisagem...

                Apesar do que sugere a paisagem, as belas fantasias “herschelianas” se desfazem perante um quadro tridimensional. Enquanto Antares repousa a apenas 150 anos “atrás” do véu de poeira de Rho Ophiuchi, M 4 é um dos globulares mais próximos da terra a modestos 6650 anos luz de nós enquanto 6144 viaja distante a 21.000 anos luz de nós e a meros 8.500 anos do centro galáctico.
                Herschel descobriu Ngc 6144. É a entrada H 10 .VI de seu catalogo. A categoria VI de Herschel engloba “muito comprimidos e ricos aglomerados de estrelas”.  Nesta categoria de seu catalogo encontram-se muito aglomerados abertos brilhantes e muito ricos e brilhantes aglomerados globulares que Herschel considerava resolvidos. Ele descreve: “um muito condensado e consideravelmente grande aglomerado das mais tênues estrelas imagináveis, todas de uma cor “vermelho empoeirado” (dusky red color). A um passo de uma nébula resolvível.”
                Apesar da imensa extinção da região o globular brilha com magnitude 9.0. Mais brilhante que M 72 em Aquários e o mais tênue dos Globs Messier.  Isto indica que o brilho de Antares e “a poeirada” na região escondeu este de Messier e seus contemporâneos.

Ngc 6144 é cheio de antíteses.  Ele se acende em meio a poeira de Rho Ophiuchi e se “apaga” nas luzes de uma estrela gigantesca. Mas é uma figura poética e que que “explica” bem o caso.    Eu, mesmo sabendo onde ele se encontrava e existia, demorei anos para observa-lo de fato. Embora não seja difícil demanda alguma técnica e vontade. É um daqueles casos que de tão a vista está muito bem escondido. Mas como um aumento razoável e isolando o mesmo de Antares o aglomerado se revela e ensaia alguma resolução no Newton (meu telescópio newtoniano 150 mm f8). Nunca tentei um ataque a sério com o Galileu (meu refrator acro 900 mm f13).
                Com um tamanho real de 70 mil anos luz é um aglomerado pequeno e um exemplar dos chamados aglomerados do disco. Um pouco mais ricos em metais e mais jovens que os de halo. Mas não se emocione. Ngc tem cerca de 10 bilhões de anos (parece ser a idade mínima para globulares...)  e 1/56 do Fe presente no sol.      Muito semelhante a o mais conhecido M 80 que também habita por Escorpião.    

                O Chandra X-Ray Observatory localizou duas intensas fontes no aglomerado. Provavelmente variáveis cataclísmicas. Provavelmente dois sistemas compostos por uma anã branca primaria e uma estrela laranja gigante da sequência principal secundaria. Um dos sistemas foi confirmado pelo HST e pelo Chandra trabalhando em conjunto. Nestes casos a anã branca vai acretando material do disco da gigante laranja até o limite e explode (emitindo em Raio -X). A secundária, ao ter suas camadas mais externas “estripadas,” sobe de brilho. Uma vez ocorrida a explosão se reinicia o ciclo.  Mas não destroem as envolvidas como em uma supernova.
                Ngc 6144 é um bastardo. Nenhum dos guias observacionais clássicos o cita. Smith, Weeb, Olcoot e mesmo Burnham não apresentam o aglomerado (Burnham apenas o inclui no apêndice que abre cada entrada de constelações em seu Celestial Handbook e apresenta todas as estrelas (dignas de nota) e DSO´s contidos nesta). Bayer é o único dos observadores clássicos a descrever o aglomerado durante a elaboração do NGC. Tenho duvidas se mesmo John Herschel tenha observado de fato o aglomerado. Ele era um daqueles objetos sob medida para o “Projeto Tudo que Existe”. O globular se tornou mais popular em guias observacionais mais atuais. O´Meara o apresenta em seu “Deep Sky Companions: The Secret Deep”.  Neste ele nos diz que considera “bem visível com Antares em campo com um 5 polegadas a meros 33 X. E aparece como um bonito e uniforme brilho com cerca de 5´de diâmetro. Com visão periférica posso sentir uma irregularidade em sua forma e alguma granulosidade através de sua face, mas estes vislumbres são corrompidos pela luz de Antares.”  Mark Bratton em seu “The Complete Guide to the Herschel Objects” nos conta (e discorda de O´Meara) que o aglomerado está a 31.000 anos luz. E diz que “visualmente” é um objeto tênue e difuso localizado a leste de uma estrela de campo de 10a magnitude. Enevoado e mal definido este aglomerado globular é mais brilhante em direção ao centro. Levemente oval e alongado no sentido Norte-Sul. Algumas estrelas mais brilhantes se resolvem contra um fundo nebuloso”.   No super completo Catalogo do Lunginbuhl & Skiff a descrição é bem honesta. Especialmente para aqueles que observam mais ao norte do equador (para nós as coisas são um pouco melhores..) : “ Em um 150 mm este aglomerado é bem tênue. Um brilho pobremente concentrado 40´ a NW de Antares. Com 250 mm o aglomerado comece a se resolver parcialmente com 150 X. Estrelas de 13a magnitude começam a “piscar” sobre um fundo enevoado. Com 300 mm se resolve parcialmente. Uma faixa de estrelas alinhadas N-S se destaca do fundo.”

                Localizar Ngc 6144 é tão fácil como localizar Antares. Uma vez isolando este da gigante vermelha e com mais de 120 X de aumento o aglomerado começa a revelar algumas estrelas. Um grupo mais brilhante parece cortar o globular na sua região central e se apresenta fotograficamente com um telescópio de 150 mm (como descrito para um 300 mm na descrição de Luginbuhl). Esta barra remonta a uma mini versão de M 4 .  Seu vizinho mais famoso. 
                Um belo desafio para possuidores de telescópios de qualquer tamanho.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

M 20 : A Trífida e o Síndico


              M 20 é a Nebulosa Trífida. Uma das grandes damas da noite. Sua imagem é uma das mais icônicas da astronomia. Ícone é algo ou alguém que se distingue ou simboliza determinada época, cultura, área do conhecimento; imagem ou ídolo: a Guernica é um ícone do cubismo.

                M 20 é uma das representações, por excelência, de um DSO. Sua foto ilustra centenas ou milhares de artigos, capas de revista e o imaginário de todo e qualquer amador na astronomia.  Algo semelhante a nebulosa da águia e os pilares da criação (provavelmente a foto mais famosa do Hubble e da história da astronomia.  E assim como esta é muito melhor nas fotos do que a vivo. Uma modelo....
                No ultimo post do Nuncius Australis falei de M 21 e expliquei que não poderia falar de um sem falar de outro. Mas talvez pudesse até ter pulado M 21. Já a Trífida seria imperdoável.
                Missão dada missão cumprida. Vamos falar de M 20 com toda a atenção que esta merece. Este é um daqueles posts que foi até adiado devido a importância da moça. Algo com M31. Já até abordei o assunto, mas acabei me concentrando mais no seu entorno (a Nebulosa Porter-Mason) do que na sua parte mais nobre. Quem tem c... tem medo.

                Quem leu o post anterior sabe que M 20 reside e torna (em conjunto com a obra) esta região em Sagitário uma das mais dramáticas e lindas do céu. A Avenida Rio Branco da Via Láctea. A olho nú (e em locais escuros) ela faz par com M 8 (A nebulosa da Lagoa. Outra diva.) e com diversos abertos e campos estelares que tornam até difícil saber quem é quem. Ao contrario da Lagoa M 20 é pequena. Uma moça mais recatada. Porém de beleza muito delicada e traços incomparáveis. Uma DSO (gênero é algo ultrapassado hoje em dia...) de vários DSO`S. E não consigo imaginar a Trífida como algo diferente de uma musa.
                Como uma diva ela não revela seus segredos e nem seus agudos sem algum esforço. Me lembro até hoje (vão anos) da primeira vez que a vi. Ela não me deu muita bola e assim como Messier não percebi todos seus encantos. Ele é enganado por seu modesto telescópio e diz apenas “Aglomerado de estrelas, logo acima da eclíptica, entre o arco de Sagitário e pé direito de Ophiuchus.” Na sua descrição de M 21 ele fala de alguma nebulosidade envolvida.
                M 20 foi, provavelmente, observada anteriormente por Le Gentil em 1747. Messier a conheceu em uma noite especialmente feliz onde ele registrou ainda M 21, M19 e M 22.
                Sua experiencia (quero acreditar) foi muito parecida com a minha. Partindo de Kaus Australis fui navegando para oeste e esbarrei no caminho com M21. E obrigatoriamente cheguei também a M 20. Eram tempos do “Galileu” (meu Celestron 70 mm). Bambo que nem bambu em uma Eq 1. Ainda bem verde já sabia onde estava e treinei minha “averted vision”. Provavelmente influenciado pelas fotos que já tinha visto percebi alguma nebulosidade no que mais parecia uma estrela dupla. M 21 não me enganou e percebi apenas um aberto. Definitivamente não parecia as fotos do Hubble. A nebulosa escura que recorta a paisagem e empresta seu nome a dama não estava lá. Embora eu quase acredita-se nisto. Troquei a ocular pela 10 mm. Uma Kelner tabajara. Maior, mas sem nenhuma novidade. Como quem nunca comeu melado quando come se lambuza achei a paisagem sensacional.  Segui viagem e M 8 roubou o show.
                Tempos depois e já com o Newton (um refletor 150 mm) voltei a região e com os céus mais escuros (mas nem tanto) de Búzios e maior poder de fogo consegui perceber seu charme. Mesmo assim com muito tempo de observação e muito mais experiencia junto a ocular. E não eram as fotos do Hubble.
                Como disse as duas grandes musas são modelos fotográficos. E finalmente eu fotografei M 20. Continuou não sendo Hubble. Mas a Trífida se fez presente e merecedora de tanta seda rasgada.

                Visualmente ela é pequena e em escala de cinza. E/ou meu telescópio é pequeno (ele é). Mas é a Trífida. Percebe-se sua natureza e em céus escuros sua extensão (a Nebulosa Porter Mason) se faz presente e por um truque de contraste percebe-se até alguma cor...
                M 20 tem paternidade discutida. A Maioria dos autores concorda que Le Gentil observou a mesma enquanto inspecionou M8 (facilmente percebida a olho nu e um dos pontos mais brilhantes da Via Láctea). Stoyan defende que Messier é o pai da criança.  Já sua personalidade tripla parece ser percebida por John Herschel. Autores clássicos e habitantes do hemisfério norte (e possuidores de acromáticos) não fala nada a respeito (Smith e Webb). Herschel (filho) observou do hemisfério sul e com um refletor muito maior...  Ele foi quem batizou a criança. É o padrinho da Trífida. E a descreve assim; “... consiste de 3 massas nebulosas e irregulares gradualmente mais brilhantes em direção ao centro onde encapsula um forcado ou uma área vazia abruptamente sem luz como um vazio na nébula.... Uma linda estrela tripla é situada exatamente na borda de uma das massas nebulosas exatamente onde o vazio se bifurca em dois canais”.
                Burnham nos conta que sua estrutura Trífida é facilmente percebida com um telescópio de 200 mm. Com meu 150 ele é evidente com 120 X de aumento e em locais relativamente escuros. Do Rio de Janeiro é preciso muita fé...
                M 20 consiste de duas estruturas basicamente. A Trífida propriamente dita, que brilha intensamente em Ha e é uma nebulosa de emissão e um halo azulado (a Porter Mason) que é uma nebulosa de reflexão. A Trífida é a nebulosa de emissão e uma parente próxima de M 42 (a Grande Nebulosa de Orion). Porém muito mais jovem. A maior parte de suas estrelas nascituras continua escondida no escuro. Este aglomerado secreto não possui mais de 500.000 anos. Sua área ocupa algo como 15 anos luz e apesar de discussões parece se encontrar mais próxima que o entorno. Mas há divergência entre as fontes. Ela não pertenceria a imensa aglomeração OB de Sagitário. Estaria do lado oposto do braço de M 21. Em fotos do Hubble se perceba vários EGGs. Embriões de estrelas. Um local bem animado...

                Pela buscadora M 20 é um pequeno borrão em volta de uma brilhante estrela. Mas com M 21 para indicar o caminho é um alvo fácil. Conforme se vai aumentando o poder de fogo mais impressionante ela se torna. Céus escuros ajudam muito.
                Como modelo é uma delicia de se fotografar. Já fiz varias experiências. Atualmente resolvi levar astrofotografia mais a sério. Será alvo de uma expedição em breve. As fotos aqui apresentadas são fruto de algumas sessões observacionais, mas, sem muito compromisso. Estou vivendo uma história de amor com o PixInSight e creio que vá passar a fazer capturas mais a sério. Mesmo porque não preciso mais observar 40 objetos por noite. O fim da infância...
                 Uma das grandes damas da noite mesmo sem se apresentar. Uma diva com jeitão de Tim Maia...
- Vai Banda Vitória Régia. 
(Para quem não teve o prazer de ver o sindico se apresentar (vi 4 vezes) em noites ruins ele abria o show, mandava a banda arrebentar e voltava só para fechar o espetáculo. Dos quatro, três foram a sério. O outro foi a banda que tocou. Arrebentava...)

terça-feira, 12 de junho de 2018

M 21 : Uma introdução para M 20


                



            Há tempos devo uma apresentação de M 21 aqui no Nuncius Australis. Como venho retrabalhando diversas antigas fotos com o auxilio do poderoso PixInSight 1.8 e aproveitando o material para aprender a mexer com o software (que com muitos recursos não é exatamente autoexplicativo) acabei esbarrando em uma antiga foto de M 21.
                O problema é que esta trata-se de um crop sobre uma outra foto muito maior e que engloba a muito mais charmosa Nebulosa Trífida, M 20.


                M 21 é um pequeno aglomerado aberto que apesar de algumas opiniões divergentes não emplaca mais que I 2 p na classificação Trumpler (se você leva astronomia um pouco a sério deve conhecer a classificação Trumpler para aglomerados galácticos. Ou clique aqui). O p no final significa pobre... Assim é pouco mais que um nó de estrelas brilhantes.
                Há algum tempo escrevi a respeito de M 20. Mas por razões que vão muito além da vã filosofia acabei por dedicar o post mais ao apêndice (A Nebulosa Porter Mason) mais a norte da Trífida do que à M 20 propriamente dita. Provavelmente porque aqui no Nuncius Australis temos profundo carinho pelos astrônomos dublês de Dons Quixotes. Não que Mason fosse um “Cavalheiro da Triste Figura” como Burnham. Ele está mais para o “Cavalheiro da Triste História”.  

Treinando no PI. O programa não pinta. Mas funciona como um pau de arara. Se houver informação ele extrai. E com menos ruido que qualquer outro soft de processamento fotográfico que conheço. Pau a pau com o Photoshop só que com as ferramentas para astrofotografia já prontas. Esta captura foi feita com algumas poucas dezenas de fotos de 30 seg. ISO 1600. E para piorar a captura foi em Jpeg... A sessão de tortura começou com um Tiff empilhado no DSS ha alguns anos. 

                De qualquer forma é impossível falar de M 21 sem falar de M 20.  Embora exista a chance de que o alinhamento destes dois DSO´s trate-se apenas de uma das Coincidências de Adams (coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do universo embora possam sugerir ter...) é possível que a reunião não seja casual. Ambos estão localizados entre 4 e   5000 anos de luz nós e mesmo estando separados por 1000 anos luz eles habitam o mesmo Microcosmo. Na verdade, uma das regiões mais dramáticas da Via láctea. Especialmente se você levar em conta que M8, a Nebulosa da Lagoa, habita logo ao lado e esta forma certamente par com M 8 em uma imensa região HII próxima a “décima terceira vertebra” (a região central da Via Láctea...). Em um paralelo com o conceito de “Naturgemälde” desenvolvido por Humboldt não se pode compreender as partes sem uma compreensão plena da paisagem. Mas aí já estamos retornando se não a vã filosofia pelo menos a geografia.
                Assim sendo façamos como o açougueiro: Vamos por partes. Hoje falaremos de M 21 e amanhã de M 20....



                M 21 é um aglomerado galáctico facilmente localizado junto a M 8. Em ambientes de forte poluição luminosa, geralmente, se chega primeiro a M 21 (partindo-se de Lambda Sagitário ou de Mu Sagitário) no caminho para M 20.  Ambos ocupam o mesmo campo em uma ocular de grande campo. No meu caso uma 40 mm e até mesmo e com jeitinho na 26 mm.  Messier localizou M 21 na noite de 5 de junho de 1764 (uma noite muito produtiva pois além de M 21 ele “descobriu” M 20, M19 e M 22). M 21 é uma descoberta original de Messier (M 20 foi provavelmente notada anteriormente por La Gentil em 1747) e com seu modesto telescópio ele nos deixou o seguinte testemunho: “Aglomerado de estrela próximo ao anterior (M 20). A estrela mais próxima conhecida próxima a estes dois aglomerados é 11 Flamsteed Sagitarii. As estrelas nestes dois aglomerados são de 8a e 9a magnitude e cercadas por nebulosidade.”
                M 21 não apresenta nenhuma nebulosidade (pelo menos não sem auxilio de um filtro de nébula e de um telescópio muito grande). Stoyan nos conta que a 1o a nordeste de M 21 habita Sharpless 34. Mas é alvo difícil mesmo em astro fotos e perceptível apenas com auxílio de um telescópio de ao menos 300 mm e utilizando um filtro de banda estreita. Messier certamente foi enganado duas vezes naquela noite. Nem M 20 é um aglomerado aberto nem M 21 apresenta nebulosidade. Smith em sua descrição no “Cycles of Celestial Objects” parece desvendar o mistério no que diz respeito a M 21: “Um frouxo aglomerado de estrelas telescópicas em um rico entroncamento galáctico. Ao redor do centro um conspícuo par. A. 9 mag. Amarelada; B. 10 mag.  Acinzentada; Pa 317o. d. 30.9´´ (1875). Messier inclui algumas periféricas em sua descrição (na minha copia não...) e o que ele menciona como nebulosidade tem que ter sido um agrupamento de estrelas mínimas no campo.”
                Webb não chega a dar uma verdadeira descrição do aglomerado, mas fala “de uma região brilhante (...a lucid region).
                Embora haja alguma divergência M 21 se encontra a cerca de 4000 anos luz e está localizado no braço espiral de Sagitário. Um pouco mais perto que M8 e M 20. Faz parte da associação OB1, e como todos os seus membros, é um objeto muito jovem. Há evidências de dois ciclos de formação estelar no aglomerado. Park et cia. Acharam estrelas de apenas 4 milhões de anos enquanto a maioria dos membros tem uma idade derivada de 7.5 a 8 milhões de anos. Forbes identificou 105 membros abaixo de magnitude 15.5 em um campo de 18´. Autores classificam o aglomerado entre Trumpler I 3 r e I 3 p. Como a classificação Trumpler é área de palpite liberado eu arrisco I 2 p.


                Com uma magnitude de 5.9 M 21 é visível a olho nu de céus escuros. Mas a região tão rica e clara que é difícil isola-lo na paisagem. Será facilmente percebido como um pequeno nó de estrelas com quase qualquer auxilio ótico. O´Meara em um arroubo "Rossiano" diz perceber uma estrutura espiralada em M 21. (Ross foi o proprietário do maior telescópio de seu tempo. O Leviatã. Foi o primeiro a perceber claramente estruturas espirais em varias galaxias. Depois começou a perceber espirais em tudo que observava....) 
                Depois de observar este aglomerado ultrajovem é só seguir viagem para nossa próxima parada: M 20. A Nebulosa Trífida.  

domingo, 10 de junho de 2018

M 93 e a Impostura Científica


            


      M 93 é o palco onde se desenrola uma daquelas histórias cômicas e venenosa que costumam permear a existência humana. Sendo uma das entradas mais austrais do Catalogo Messier não é lá muito lembrado nos livros clássicos por sua aparência. O que é já é, por si só, uma grande bobagem. É um belíssimo e rico aglomerado aberto em Puppis. Especialmente para os felizardos que habitam ao sul da Nova Inglaterra...

     Carrega o karma de ser sempre lembrado não pela modesta descrição feita deste por Smith no “The Bedford Catalogue” no segundo volume de seu maravilhoso “Cycles of Celestial Objects”. Na verdade, é mais lembrado pela indiscrição e certa maldade do geralmente politicamente correto Admiral Smith.  Neste ele nos conta da proeza do Chevalier d´Anglos. 

       Besteira é uma palavra com vários sinônimos: absurdo, bestice, bobagem, asnada, asneira, asneirada, asnice, baboseira, bestagem, burrice, calinada, despautério, despropósito, dislate, disparate, estultice, estultícia, estupidez, idiotice, imbecilidade, insânia, necedade, nescidade, pachouchada, palermice, parvoíce, patetice, sandice, toleima, tolice, tontice.

         Smith inclui mais um: “Angosiades”. Depois veio a se referir a todas as gafes astronômicas como uma “Angosiade”. Em uma adaptação livre cometerei um barbarismo e utilizarei o termo “angosiada”. Nos tempos de Smith o francês era a língua mais prestigiada e os galicismos eram mais comuns que os anglicismos atuais...
Chevalier Dangos

          O Chevalier d´Angos  ( Jean Auguste D´Angos – 1744-1833) foi um dublê de químico e astrônomo obtendo resultado desastrosos em ambas as ciências. Cavalheiro de Malta (assim como Villegagnon) primeiramente colocou fogo no Observatório no `Palácio de Valetta realizando um experimento com fosforo. E posteriormente fez má fama descobrindo cometas inexistentes e/ou confundindo DSO`s com estes.  M 93 foi um desses casos e o erro foi divulgado amplamente por Smith. Encke, particularmente, o perseguia ferozmente.  Sua última “angosiada” antes de cair no ridículo total foi descobrir o planeta Vulcano. Este orbitaria mais perto do Sol que Mercúrio.

           M 93 carrega ainda a honra dúbia te ter sido a ultima entrada do Catalogo Messier descoberta pelo “Eu Profundo” de Messier. Daí para frente todas as entradas originais foram obras de “outros eus”. Especialmente Méchain.

         Messier descobre o aglomerado em 20 de março de 1781 e o apresenta de forma breve: “Aglomerado de pequenas estrelas sem nebulosidade”.

        Smith depois de destilar seu veneno contra o picareta D´Angos nos diz “um elegante grupo na forma de uma estrela do mar”.  E Webb é ainda mais conciso: “um brilhante aglomerado em uma rica vizinhança.”

     Burnham tem uma impressão muito semelhante à minha e percebe uma massa central evidentemente triangular ou em forma de cunha com estrelas se espraiando por um diâmetro aparente de cerca de 25´. Ressalta ainda que K.G. Jones percebe uma borboleta de asas abertas. Posso até conseguir perceber isto também...

      Algo que adoro no Burnham´s Celestial Handbook (além do livro todo...) é que as fotos que o ilustram não são tão melhores que as que consigo realizar por aqui. E M 93 especialmente elas são tão ruins quanto.  Quiçá piores. Deveria ser um hobby ingrato fazer astrofotografia amadora ( e mesmo profissional) nos anos 60.

        M 93 habita o lado oposto do braço de Orion habitando a 3400 anos luz de nós. Bonnato calculou que este se espalha por 23 anos luz e seu núcleo possui cerca de 2. 3 anos luz. Sua massa é calculada em 1700 massas solares e sua idade já vai na casa de 400 milhões de anos.

   Duas estrelas alaranjadas se sobressaem na paisagem. são membro reais do grupo e duplas. Fazem parte do catalogo Aravamudam e são Ara 2066 e Ara 2064. Como quase sempre sua cor é alvo de controvérsias...



     Scott Houston nos afirma que M 93 é perceptível a olho nu a partir de sua residência na Nova Inglaterra. Logo, aqui do Tropico de Capricórnio, deveria ser tarefa fácil. Sabendo onde olhar e em local bem escuro é factível...   Facilmente localizável a partir de Asmidiske ( Xi Puppis) e utilizando Aludra ( Eta Canis Maj) como apoio. Facilmente notado na buscadora

     O´Meara em seu “Deep Sky Companions: The Messier Objects” chama atenção para um interessante padrão que posteriormente a leitura percebi. M 93, especialmente pela buscadora, possui um padrão assimétrico que recorda um olho de gato. Recordando assim o globular M 4.

     M 93 é um belíssimo alvo visual onde se percebem estrelas de diversas magnitudes compondo um quadro com mais de 50 estrelas facilmente percebidas. Eu o enquadraria na classificação Trumpler como I 3 m. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

M 50 : Paternidade, PixInSight, Photoshop e Grande Greve


      


      Com o país a beira do colapso, minha conta bancaria solidária a nação, o carro sem gasolina e a lua quase cheia não me vejo observando tão em breve. Que fique registrado que este post foi realizado durante aquela que será lembrada como a “Grande Greve de Caminhoneiros de 2018”. Uma versão menos romântica e menos trágica que a “Grande Fome da Irlanda”. A última foi causada com a ajuda da Phytophtora Infestans. Ambas compartilham a pouca vergonha dos governantes.
Desta forma me resta caçar DSO´ que tenha fotografado e que tenham acabado relegados devido a outros objetos mais interessantes ou a capturas abaixo da média. M 50 é um destes casos.
            Mas engatinhando no PixInSight 1.8 (uma espécie de Ferrari dos programas de processamento de fotos astronômicas) achei que deveria dar as fotos de M 50 realizadas durante a Aporema (uma festa que remonta ao período pré-colombiano aqui na Pindorama) de janeiro uma nova chance. É impressionante o que se pode fazer com o bichinho. Especialmente se usar um coquetel de 1 parte Photshop e 1 parte PixInSight. É um caso típico de “O impossível a gente faz agora. Milagre demora um pouco...”.

Não é nenhuma Brastemp. Mas é M 50 "cuspido e escarrado"... 

            Primeiro M 50.
Trata-se de um belo aglomerado aberto.  Acho estranho que não seja mais cantado em prosa e verso. Embora, seja dito, que na língua de Camões exista pouca literatura sobre o céus... Nenhum guia observacional clássico foi jamais traduzido para o português.
            O grande aglomerado em forma de coração habita a constelação de Monoceros  (Unicórnio).  Sua paternidade é alvo de interessantes histórias envolvendo os tais guias observacionais clássicos. Smith em seu “The Bedford Catalogue” (que é como ele batizou o segundo volume do seu livro e guia “Cycles of Celestial Objects”. Como seria de se supor o Observatório de Smith se localizou em Bedford.) fala que M 50 é uma interessante dupla. O evidente aglomerado em sua volta era apenas um “plus”. E  ele nos diz que Messier descobriu o aglomerado em 1771 e o descreveu como “uma massa de estrelas mais ou menos brilhantes”.  Seu contemporâneo Reverendo Webb parece ter se impressionado mais... Se refere ao grupo como - Um Brilhante aglomerado, h (John Herschel) nos diz que com 30´. Com uma estrela vermelha. Entre Sirius e Procyon; 1/3 mais próximo da última. Em uma soberba vizinhança aonde o Criador teria “Semeado de estrelas, o céu é denso como um campo.”
            O guia de Webb foi substituído quase um século depois pelo hoje já histórico “Burnham´s Celestial Handbook”. Neste Burnham atribui a descoberta de M 50 a Cassini antes de 1771. Depois desmente Smith e nos conta que Messier descobre o mesmo de forma independente apenas em 1772 (é verdade. Messier observou M 50 em 5 de abril de 1772). Para alimentar nossa curiosidade acrescenta que Bode também o registra em 1774 procurando por um objeto reportado por Cassini. Importante frisar que estamos falando de Giovani Domenico Cassini (descobridor da Divisão Cassini nos anéis de Saturno). E que a descrição que leva a isto está no livro “Elementos de Astronomia” de seu filho Jacques Cassini (escrito em 1740).
            Tratando-se de DSO´s do Catalogo Messier costumo utilizar 3 fontes mais atuais para checar os fatos. A primeira é o Guia do Stoyan para os Objetos Messier (“Atlas of the Messier Objects; High Lights of the Deep Sky”). Este nos diz que é quase certo que M 50 foi uma descoberta de Cassini. Depois deste a próxima parada é o “Deep Sky Companions; The Messier Objects” do O´Meara.  Este também nos diz ser “possível” que M 50 seja uma descoberta de Cassini.  Por fim gosto de olhar a pagina da SEDS para o catalogo Messier. De novo é “possível” que Cassini tenha “furado” Messier. Na minha modesta opinião a raiz de todo o problema está no fato que Cassini de fato observou algo em Monóceros. Mas não marcou sua posição. Como Bode nos diz: “Em 2 de Dezembro de 1774 eu procurei observar a “estrela nebulosa” a qual M. Cassini diz ter visto entre o Cão Maior e Menor, e da qual não consegui localizar em local algum a descrição de sua posição. Eventualmente localizei, nesta região, ao norte de Theta, Um e Gamma na cabeça de CMa ou abaixo da barriga do Unicórnio um pequeno aglomerado em superfície nebulosa.”  Na região abundam abertos. Mas M 50 é um dos mais evidentes. Logo ...    
            Como falei o aglomerado é pouco cantado. O´Meara nos diz que M 50 é “um obscuro aglomerado em uma obscura constelação”. Um objeto Messier dificilmente pode ser muito obscuro. Mas levando-se em conta a lista ...Ok!
            Localizado a 2900 anos luz de nós e com um diâmetro aparente de aproximadamente 15´ pode-se calcular que o mesmo ocupe cerca de 13 anos luz de galáxia. Dependendo de quem o vê sua classificaçãoTrumpler varia entre I 2 m, II 3 m até II 3 r.  Como palpitar na escala Trumpler é permitido eu aposto em II 2 r. Ou seja um aglomerado que se destaca do fundo com leve concentração central e com mais de 100 membros. Clarie et al. Identificou 109 membros entre 175 candidatos no campo de M 50. Estudos mais recentes e com muito mais poder de fogo chegam a mais de 2000 membros com magnitude limite de 23.  Estudos ainda mais recentes indicam uma idade de mais de 100 milhões de anos. E assim é pouco provável algum parentesco (outrora suspeitado) com Ngc 2353 e a Nebulosa de Roseta.


            Localizar M 50 não é difícil. Seguindo uma linha que sai das Três Marias e segue para um local entre  Sirius e Procyon vai acabar te levando até ele. Há outros aglomerados na região para se esbarrar. Mas ele é o mais evidente. Que o diga Bode...

Antes de "roubar" no Photoshop. Apenas 12 exposições de 30 seg 1600 ISO stacked no Rot n Stack

            De volta a nossas fotos o “Aglomerado do Coração” foi registrado de Nova Friburgo em noite sem quase nenhum compromisso com a astrofotografia. E com um alinhamento polar realizado apenas para poder apresentar as crianças algumas maravilhas celestiais. O resultado foi que com o andar da noite as crianças foram dormir e o céu acabou ficando bem mais transparente que o esperado. E assim forcei uma barra para tirar algumas fotos de dois abertos do catálogo Messier que nunca tinha registrado (embora já tivesse observado ambos algumas vezes) M 50 e M 93 (do qual tinha recordações mais exatas).  M 50 me surpreendeu. Grande brilhante e colorido. Tinha que fotografar. E assim consegui cerca de uma 10 de imagens com bastante rastro.
            Provavelmente devido a isto estas fotos ficaram esquecidas por um bom tempo. Empilhei o lote utilizando o Rot n Stack. Fotos muito toscas não servem para o DSS (Deep Sky Stacker). Ele se recusa a empilhar.
            Ao longo do post   vocês devem ter percebido que fotos péssimas nunca ficam muito boas. Mas quase sempre é possível se obter um registro de DSO´s mais brilhantes sem grandes pretensões ou tempo. Evidentemente o material não se prestará a grandes ampliações. Mas será excelente referencia para a identificação de DSO´s. 
            Uma técnica pouco digna, mas muito funcional para reduzir o rastro das estrelas com o Photoshop. Duplique o layer de fundo e “escureça” o layer duplicado. Depois corra o layer superior sobre o de fundo e veja as coisas se ajeitando. O PixInSight resolve bem o gradiente de fundo de fotos que foram capturadas sem a realização de darks ou flats. Venho percebendo que em capturas realizadas com câmeras DSLRS os flats são mais importantes que os darks ou Bias. Outra coisa é que o PixInSight é um programa que demanda mais estudo... comecei a ler o “Inside PixInSight”.  Vou estudar. E na próxima lua nova quero fazer uma captura mais séria de alguns DSO´s para poder “brincar” mais a sério com o novo brinquedo.... Andei testando realizar o stacking no PI. Mas é bem mais trabalhoso que no DSS. O procedimento descrito no livro realmente pode ser que leve a resultados superiores. Mas não sei se tanto...

terça-feira, 15 de maio de 2018

M 68 : O Globular do Corvo


            


       O Catalogo Messier possui 29 aglomerados globulares. Há anos venho buscando fotografa-los. Devido a aquelas coincidências que nada tem com as leis fundamentais do universo (coincidências de Adams) M 68 acabou sendo o antepenúltimo destes que fotografei. Curiosamente foi um dos primeiros que observei. Ao contrario do que Messier nos diz em seu catalogo eu acho M 68 facilmente visível e graças a sua posição em relação as estrelas de Corvus facilmente localizável. Mas o tendo observado diversas vezes tinha como certo que já deveria ter fotografado o mesmo. Ao organizar minhas fotos descubro que não era verdade. E desta forma este que é um fácil aglomerado globular acabou sendo capturado em uma noite fria e nebulosa onde quase tudo deu errado. Mas como aqui no Nuncius Australis mais vale a captura que a foto propriamente dita chegamos ao ponto onde nos encontramos agora.

            M 68 carrega ainda uma outra coincidência consigo. Ele é o último objeto incluído na segunda parte do catalogo Messier. Este na forma que foi publicado possui 103 entradas e dividiu-se em 3 fases. Sua primeira versão (da qual sou o orgulhoso proprietário de uma cópia digitalizada) é de 1771 e foi publicada nas Memoires de l´Académie de Sciences de 1774. (Objetos de 1 até 45). A segunda parte é de 1780 e foi publicada no mesmo Memoires só que desta vez na sua edição para o ano de 1783. Incluindo aí as entradas de 46 até nosso querido M 68.  Sua ultima etapa foi publicada no Memoires de 1784. Que acaba em M 103. Postumamente foram incluídas as entradas de M 104 até M 110.

            Como disse Messier o considerava um alvo difícil: “9 de abril 1780 – Nebulosa sem estrelas abaixo do Corvo e da Hidra. É muito tênue e difícil de se perceber com os refratores; próximo a uma estrela de 6a magnitude.”

            A primeira vez que observei M 68 foi com o “Galileu” (um refrator de 70 mm f13). Estava na Armação dos Búzios. Embora não se resolva e seja apenas um esfuminho é bastante evidente e revela sua identidade mesmo para uma buscadora 8X50mm.

            A “paternidade” de M 68 é alvo de alguma disputa. Glyn Jones nos diz que foi Méchain seu descobridor. O´Meara também assim o diz em seu "Deep Sky Companions: The Messier Objects" Mas a maioria dos autores garante ser este um “Messier Original”. Este sempre deu os créditos nas descobertas de seu grande colaborador. 

      Herschel Pai (William) fala de um aglomerado bem concentrado sendo como sempre o primeiro a resolver os globulares de Messier. Já Herschel Filho (John) diz resolver este facilmente. Entre os guias mais clássicos de todos (Smith e Webb) também há conflito. Enquanto Smith parece apanhar do clima inglês e nos dizer que só percebe “uma nebulosa grande, arredondada e muito pálida” seu conterrâneo e contemporâneo e em geral mais modesto reverendo Webb fala em “bem resolvido” e de uma estrela rubi... M 68 pertence a classe X de concentração de globulares. Portanto mais para um aglomerado pouco concentrado do que para um muito e insolúvel grupo de estrelas muito espremidas.
Drizzle. 


            Observado com o Newton (me refletor de 150 mm f8) com 120 vezes de aumento eu pendo para o lado de Webb. Mas não resolve sua parte mais nuclear. Percebo estrelas no terço exterior do mesmo e nenhuma cor. Na noite que este foi fotografado as coisas estavam bem ruins e neste caso a descrição de Smith seria mais apropriada.

            M 68 é um aglomerado típico do halo galáctico. Possui uma orbita bem excêntrica, não habita perto do núcleo (entenda Ophiucus, Sagitário e Escorpião), sua orbita leva mais de 500 milhões de anos e pode estar a mais de 100.000 anos luz do núcleo galáctico. Segundo Stoyan tem mais e 10 bilhões de anos (o que me parece pouco...) e baixa metalicidade.  Possui 42 estrelas variáveis conhecidas sendo 40 destas do tipo RR Lyrae tão típicas de globulares.  Atualmente se encontra a 36.000 anos luz de (e se aproximando) e possui um tamanho físico de aproximadamente 120 anos luz.
            O biônico O´Meara acha que M 68 é um belo desafio para vista desarmada. Talvez no Atacama... Sendo um globular bem austral para o catalogo Messier é compreensível que este o considerasse difícil, mas de latitudes mais austrais é alvo fácil para binóculos 10X50 mm. Com grandes telescópios é fácil se perceber a estrela avermelhada citada por Webb. Localiza-se 5´ a noroeste do núcleo de M 68.


            Navegar até este é fácil. Considerando a linha que liga Algorab (Delta Corvus) até Kraz um passo siga aproximadamente mais meio passo e chegue até seu objetivo.
Rot N Stack Modo mean utilizando um dark frame auto gerado ( que geralmente leva a uma coloração meio esverdeada das fotos...). Esta imagem recorda muito o aglomerado quando o bservado visualmente em condições ideais com cerca de 60X de aumento ( exceto pelo verde)

            As fotos aqui apresentadas foram realizadas em noite muito enevoada e o alinhamento polar feito "de ouvido". O material capturado em RAW não rendeu. Fui obrigado a converter tudo em JPEG e empilhar as poucas fotos obtidas no Rot n Stack. O Resultado final foi muito ruido e algum verde... A fim de me livrar do verde que vemos na foto logo acima foi fácil . O Photoshop transforma tudo em uma escala de cinza com um único click... Astrofotografia é a maior diversão.