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terça-feira, 12 de abril de 2016

Astrofotografia, Lacaille e a Serrinha do Alambari

             
             Começam os planos para  completar a minha peregrinação cósmica autoimposta.  Ha anos venho buscando fotografar todos os objetos do Catálogo Lacaille para poder me dedicar a organização de meu livro contando a história da "invenção do céu austral" , de como um abade com equipamentos simplicíssimos conseguiu realizar o maior catalogo de céu profundo escrito até o meio do século XVIII e apresentar o "caminho das pedras" até as maiores joias escondidas no fundo  deste  céu abaixo do equador.
                A primeira coisa foi organizar todas as fotos que já realizara e casar estas com a cópia do Catálogo que possuo.  Para minha surpresa faltavam 3 elementos ( eu achava serem somente 2...) . E  sabendo os  butins que  faltavam organizar uma expedição até um local mais escuro que a" Stonehenge dos Pobres"" que vem sendo muito prejudicada pela já eterna obra de um metro que não vai ficar pronto dentro do prazo . As olimpíadas no Rio vão acontecer em uma cidade inacabada e repleta de canteiros de obras que receio acabem ficando assim por muito tempo. No fim a cidade vai estar falida , a olimpíada vai ter acabado e será novamente confirmado que políticos no Brasil são péssimos administradores e coisas ainda muito piores...
                A Armação dos Búzios seria a escolha mais óbvia e tradicional. Afinal o Catalogo foi inteiro capturado ou da Janela da Stonehenge dos Pobres ou de Geribá. Mas a casa lotada de gente e eu precisando aproveitar esta lua nova antes de recomeçar a minha eterna luta pelo vil metal   achei que seria uma boa ideia levar a família inteira para a Serrinha do Alambari. Um belo refugio entre Penedo e Visconde de Mauá que me garantiria céus mais escuros que a Armação. Achei uma simpática e barata Pousada localizada  a cerca de 1000 metros de altitude que me parecia perfeita para a missão. E assim lá foi toda  família. Eu, Newton, Mme. Herschel , a cara metade e as crianças . A já nem tão mais nenenzita " Nenenzita" ( ela odeia o carinhoso apelido. 12 anos são uma idade dura). E  o Fofusko com seus fofos 2 anos... 
                Antes de partir fiz algo que todos diziam ser um erro e uma temeridade. Limpei o sensor de minha câmera. E para isto usei apenas uma folha de Rosco Paper. Um papel utilizado para limpar lentes e que já utilizei ( também contrariando todos os  "especialistas")    para limpar os espelhos do Newton ( meu refletor 150 mm f8) ... Funcionou que foi uma maravilha.
                E Assim possuía 3 alvos pré determinados e que não retornariam ao porto sem combaterem o Nuncius Australis com todos os panos levantados e com a "Jolly Roger" tremulando.   
                Antes de partir chequei todo o equipamento e espanei a poeira. O check list foi completo ( pelo menos achei que seria...)  e levei as seguintes oculares : 
ü    A nova 40 mm ( ganhará em breve um post só dela...)
ü    A 25 mm wide field Skywatcher
ü    A minha favorita 17 mm
ü    A nem tão boa e velha 10 mm
ü    E uma 5 mm suspeita mas que poderá ser util com alguns planetas...
ü    Uma Barlow 2X ( Skywatcher "de fabrica")
ü    Duas velhas Kellner que são uma espécie de amuletos dos tempos do "Galileo" ( meu bom e velho refrator 70 mm f 13)
                Comprei ainda uma imensa prolonga com 10 metros de fio paralelo 2,5 mm para garantir que conseguira operar de um local bem escuro no terreno da simpática e humilde pousada.
                Apesar de durante o inicio do ano a Fortuna me ter sorrido a vida de gaffer freelancer no Brasil é sempre cheia de altos e baixos e ainda estou pagando tanto a Mme. Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 Pro) e meu novo carro que possui uma mala onde  posso transportar tudo que a cara metade exige e mais meu brinquedos...  Em momento tão delicado da vida politica e econômica na nação temo dizer que o dolar alto me ajuda um pouco( assim os gringos vem filmar por aqui e são meu nicho favorito de trabalho.) .  Mas em compensação a cara metade perdeu o emprego junto com milhares de brasileiros. São tempos de incerteza e poder observar o céu permite-me manter o Rivotril em doses minimas...
                Chegando ao meu destino me organizo para começar a diversão. Esqueci os contrapesos de Mme. Herschel. Entre a ira e o panico me lembro que a necessidade é a mãe da invenção e fabrico um contrapeso com uma lata de leite em pó e pequenos seixos que abundam na beira do Rio Pirapitinga. A Primeira noite não dá muito certo apesar de um deslumbrante céu. Depois de muito apanhar descubro que preciso de mais peso na montagem e que um kilo de chumbo pesa mais que um kilo de seixos...

                Com o auxilio de uma garrafa pet e de mais pedras acabo conseguindo que Mme. Herschel ache um ponto de quase equilíbrio e consigo fazer algumas fotos de Acrux e da Caixinha de Jóias . 


Começo a me preocupar com o " Projeto Lacaille".  Fico horas lutando com M 83 e não consigo  à localizar . Refaço o alinhamento do "go-to" da cabeça varias vezes mas ela não chega nem perto de algo chamado precisão.  Sabia que havia realizado o alinhamento polar com displicência , utilizando apenas a bussola do I Phone como instrumento de precisão. Com um contrapeso desequilibrado era abusar demais da boa vontade de Mme. Herschel. Não estava nem em Buzios e nem  na Stonehenge do Pobres onde sei " de ouvido" onde é o sul. Era um local novo e eu não deveria ser tão relaxado. Dou uma olhada em Jupiter e mais alguma bobagens . Como estava exausto devido a um mês de muito trabalho e de uma noitada animada na véspera acho melhor me retirar para combater com mais vontade na próxima noite.
Poço das Esmeraldas

                No dia seguinte fiz um belo passeio com a família e visitamos varias cachoeiras que residem dentro do terreno do Camping Club do Brasil. Reza a lenda que o Camping da Serrinha é o melhor do Brasil.  Depois de um "almojantar" na cantina do camping fiquei com medo de imaginar como seriam os outros campings do país...
                De volta  a minha bela , aconchegante e escura pousada me preparo para a noitada decisiva no projeto. Melhoro ao máximo meu contrapeso "paraguaio" e realizo um alinhamento polar bem preciso com o auxilio de Avior. Não gosto de realizar o "método do drift" e assim utilizo uma técnica que embora mais preguiçosa é bastante eficiente.
                Agora é a hora da verdade. Com Mme. Herschel alinhada com o polo parto para o alinhamento do "go-to" da montagem.  Utilizo a rotina de " Two Star Alignment" do menu do Synscan.  Acrux e Alpha Centauro são as estrelas guias...  
                Com o contrapeso tosco me dou por feliz quando todos os alvos que indico acabam  dentro do campo da Buscadora.  As vezes dentro da ocular 25 mm.
                Comprei recentemente uma ocular 40 mm. Ela finalmente justificou sua presença em meu kit.  Seu grande campo me ajudou muito na localização de alvos. O "go-to" ficou um pouco errático devido ao tosco contrapeso utilizado. Mme. Herschel ganhou ainda mais o meu respeito e se mostrou-se uma companheira valente e sem frescuras...
                Ngc 2546 é o Lacaille "mais fácil" que preciso fotografar. Um grande aglomerado aberto e que é rapidamente localizado na buscadora. Faço uma poucas fotos e reparo que o além de um alinhamento polar menos que perfeito e com um erro periódico bem aumentado devido ao   set up improvisado o meu querido "Newton" ( um telescópio refletor de 150 mm f8)  esta bem descolimado.  Penso a respeito e como astrofotografia aqui no Nuncius esta mais para "arma de destruição em massa" que para sétima arte deixo tudo como esta e faço mais algumas fotos.  Com apenas 10 exposições de 20 segundos em 6400 asa o resultado final não é lá estas coisas. desconfio que o Deep Sky Stacker ( um sofware utilizado para "empilhar" fotos ) não gosta muito de trabalhar com ASAS altas. O ruido da imagem o confunde e as vezes leva a " desastres binários". ( resultados de empilhamento desastrosos e sem nenhuma qualidade...) . Não chegou a tanto mas o resultado ficou ( na melhor das hipóteses) a la " anos 70". Pelo menos é um alvo fácil , que não demanda o céu escuro que possuo e  posso refazer as fotos sem maiores esforços...
No Deep Sky Stacker

No Rn´S +PS

                Agora a hora da verdade de novo. M 83 é , disparado, o  alvo mais difícil de  ser avistado no Catalogo Lacaille. Mas com paciência e perserverança acabou fotografada.  Foram utilizados todos os truques que conheço. Respirar fundo , visão periférica , tapinhas no telescópio e reza braba. Não sei qual deles funcionou mas acabei percebendo a peça na buscadora... E assim percebi que a missão seria cumprida. Senti um tremendo alivio e abri uma garrafa de tinto.
M 83- 30X 25 seg ASA 3200
                Com muitas imagens realizadas e com imagens feitas tanto em 6400 ASA e 3200 ASA o pós processamento das imagens de M 83 foi trabalhoso e o DSS não quis ser legal comigo. Mas incrivelmente os resultados obtidos com uma mistura de Fitswork , RnS e Photoshop foram mais que satisfatórios. Mas admito que os primeiro resultados obtidos com o DSS me deixaram preocupado. A coisa entre eu e M 83 estava se tornando pessoal...
                Falatava apenas fotografar Ngc 4833. Um discreto globular em Musca.  Com M 83 na guaiaca parece-me que o "go-to" resolveu me dar uma moleza e ele aparece centralizado na ocular 25 mm.  Faço diversas exposições do ultimo Lacaille que me faltava fotografar. Este o DSS não cria problemas...
Ngc 4833 - 12X 25 seg -  2X Drizzle

                Entre o inicio da empreitada e o final se passaram cinco anos , três binóculos , dois telescópios , duas câmeras fotográficas  e três montagens equatoriais.
                Agora era só alegria e coloco o Synscan da montagem para me guiar. Ele oferece um tour pela objetos mais interessantes da noite e assim não preciso sequer olhar para o Sky Atlas ou para o Stellarium. 
                Com Mme. Herschel finalmente se entendendo bem com a gambiarra eu começo a devanear  de como ela deveria ser esperta. Ou pelo menos de como as engrenagens nela estavam bem azeitadas e resistindo bem ao tranco. E com a 40 mm calçada o Tour me leva direto até Ngc 5138. Centauros A . Uma galáxia muito fotogênica e que é bem mais fácil de ser observada que M 83.  Novamente o DSS não se mostrou a melhor solução  para o material capturado.  Embora tenha se saído melhor que com M83.  É o único objeto fotografado nesta noite que não foi registrado pelo Abbe. Não sei como visto que reside em uma área explorada por este e certamente ao alcance de quem " descobriu" M 83...
DSS

Rn´S +Fitswork - 30X 25 seg 6400 asa.

                Depois a 40 mm faz a festa em seu terreno favorito . Grandes aglomerados abertos. E revisito e  faço alguns rápidos registros de M6 , M 7 , Eta Carina  e M 4. Todos membros do Catalogo Lacaille
M 6
                Gostaria de frisar que escolhi a posição do telescópio visando ver o que chamo de "meu céu". Este é olhando para o horizonte sul e engloba o que considero a mais bela região da Via Láctea. Se estende de Sagitário e Escorpião , cruza o conjunto entre Centauros e Crux ( e as constelações da Família Lacaille ) se estendendo pela finada constelação de Argos e abraça o Cão Maior. Depois a Via Láctea já adentra  uma area mais equatorial que embora linda não é mais o que podemos chamar do Céu do Sul.    E já não  mais visível da Stonehenge dos Pobres...
                Agora já vai tarde e percebo quão maravilhoso esta o céu.  Entre 3 e 4 na Escala Bortle.  Bortle 3 implica em que globulares brilhantes como Omega Centauro , M 22 e cia Ltda sejam facilmente visíveis a olho nu. Eles estão lá firmes e fortes . Não só isto. Ngc 2516 ( percebo estrelas individuais neste...) , Omicron Velorum e diversos abertos ao longo da via láctea são óbvios mesmo com visão direta. Mesmo alvos mais difíceis como Ngc 6124 ( que sempre achei impossível ver a olho nu e me fez achar que O´Meara era um cara exagerado...) eram percebidos sem esforço sobre humano.  Estrelas de 7a magnitude são percebidas.
                Guardo todo o material agradecendo a Mme. Herschel pelo esforço e me deito em uma canga com a caneca de vinho ao meu lado e fico namorando este céu até 4 da manhã. Fico tentando identificar a estrela mais tênue que consiga perceber . Mas não consigo definir qual é esta. Sempre parece ser possível ver algo mais fraco.  Se o céu na Serrinha fosse feito de alguma coisa  seria de um cristal bem fino.  Assim como o céu que Lacaille encontrou na Cidade do Cabo nos idos de 1751...


                 Agora de volta  a  astrofotografia. Não poderia deixar de falar do registro obtido da Nebulosa de Carina. Como falei o DSS parece não ter gostado das capturas feitas na Serrinha. Pelo menos da maioria destas. Me é então muito surpreendente que as 13 fotos que fiz da Nebulosa acabem sendo todas aceitas pelo mesmo e apresentando uma qualidade final muito acima do que poderia esperar. Definitivamente existem coisas que não se explicam no mundo digital... E no mundo mêcanico também. Por alguma razão o acompanhamento destas treze fotos foi melhor que os outros. Gostei muito do resultado final. Já realizei fotos com muito mais tempo de exposição somada da nebulosa mas acho este o melhor resultado que já tive na região. Creio que o céu escuro e a posição quase meridiana no momento da captura tenham ajudado...  
M 7

                Ainda no campo do pós processamento percebi que em muitas das capturas os resultados do DSS apresentaram um dos canais enlouquecido. Geralmente o azul . No histograma o azul apresentou formas muito loucas e dominou a paisagem. Creio ter algo a ver com dark frames mas não posso garantir. Ajustando muito no próprio DSS conseguia atenuar a coloração mas permanecendo muito ruido. Nunca tinha tido este problema.  As fotos de M 4 abaixo representam bem o problema...

DSS "dando defeito". A foto acima foi processada no próprio DSS e no PS. 

Resultado do DSS antes de algo ser feito em prol da causa... 

                Felizmente existem opções menos temperamentais que o DSS. Em especial o Fitswork e o bom e velho Rot n´Stack. E assim acabei conseguindo resolver todos os obstáculos que se apresentaram.
                Pretendia ainda ter mais uma noite para explorar o Aglomerado de  Coma-Virgem. Mas o tempo virou e  esta região não tão minha conhecida ( não é o " meu céu"...) ficou para a próxima.
                Viva os céus escuros!!!



                      

segunda-feira, 28 de março de 2016

A Espada de Órion




            A constelação de Órion domina o céu de nosso verão austral. Carrega sobre seus ombros as  brilhantes Betelgeuse e Bellatrix . Com as três Marias ( Alnitak , Alnilam e Mintaka) marcando o cinturão do caçador e com Rigel e Saiph para o sustentar como suas pernas é um das primeiras constelações que o astrônomo amador vai conhecer.
                Com pouco esforço  o amador vai perceber a espada de Órion dependurada em seu cinturão.
                Quando se olha para esta peça  a maioria vai concordar que a espada é representada por uma linha de três estrelas facilmente percebidas a olho nu. Sem muito esforço percebe-se que a estrela central se apresenta "esfumaçada".  Theta Orionis é esta estrela e o esfumaçamento é M 42 . A Grande nebulosa de Órion.  Poucas visões causam maior excitação ao astrônomo noviço que perceber a olho nu a mais famosa das nebulosas.  E esta só aumenta com o auxilio de qualquer equipamento óptico que começa a revelar ainda mais detalhes desta grandiosa paisagem. M 43 rapidamente se junta ao conjunto.  E este acaba por roubar a cena de uma das regiões mais belas do céus.  A  região é lotada de outras nebulosas e aglomerados que acabem sendo engolidos por M 42. Mas a espada de Órion apresenta varias outras histórias que merecem ser contadas .
                Logo de cara é importante notar que a estrela mais ao norte da espada de Órion não é só uma estrela ( assim como a estrela central que já falamos...) . Trata-se  de Ngc 1981. Um aglomerado aberto . Este agrupamento frouxo de 20 ou mais estrelas  cobre uma área comparável a uma lua cheia. Com o uso de Binóculos se resolvem cerca de uma dezena de estrelas. Nela se abrigam duas belas estrelas duplas que são as mais brilhantes do pacote. Struve  750 e Struve 743. Belas duplas binoculares.  Smyth em seu "Cycle of celestial Objects" destaca que Struve 743 é um belo desafio para pequenos telescópios e que requer um bom seeing para serem separadas. 
                Ngc  1981 foi identificada como uma entidade individual pela primeira vez por John Herschel em  1827.    Ele a descreve assim: "  Aglomerado bem brilhante , circular mas levemente irregular, estrelas (brilhantes)  dispersas".  
                Esta localizada a 1.300 aos luz de nós.  Faz parte do cinturão de Gould e possui uma idade de aproximadamente 5 milhões de anos . Um belo trabalho a respeito de Ngc 1981 foi realizado por  pesquisadores  brasileiros . (  http://arxiv.org/pdf/1005.3047.pdf ).
                Agora no extremo  sul surge a estrela mais brilhante da espada. Iota Orionis. E junto com ela uma daquelas confusões que merecem algum esclarecimento. Ngc 1980 é uma nebulosa associada  a Iota Orionis mas que a maior parte dos astrônomos ignora e que acaba se confundindo com  M 42 propriamente dita. Mas ele possui sua história própria.
                Ela nasce em 31 de janeiro de 1786 quando William Herschel  escreveu: " Iota Orionis e suas estrelas vizinhas são envoltas em uma nebulosidade leitosa extremamente tenue de grande extensão." Ele catalogou esta nebulosidade como  o 31o  objeto de sua classe V ( nebulosas extremamente grandes) .
                Qualquer um que observe Ngc 1980 vai perceber que ele esta envolta por um loop que se lança de M 42. Não só isto . Ngc 1980 é também um belo aglomerado aberto liderado por Iota Orionis ( esta uma tripla...) fazendo deste um objeto bem complexo . Como Herschel fala em estrelas envolvidas na nebulosidade  também é atribuída a ele a descoberta do aglomerado associado a nebulosidade  hoje conhecido como Ngc 1980. A fim de colocar mais lenha na fogueira hoje em dia ha quem chame o aglomerado de Collinder 72 e a nebulosidade apenas de Ngc 1980.  É importante lembrar que tudo isto faz parte da grande nuvem molecular de Órion que tem em seu coração M 42.
                Agora de volta a o meio da bagunça visitaremos o que é conhecido como o complexo de Ngc 1977. Esta nebulosa hoje dia conhecida como "The Running Man Nebula"  esta a 1500 anos luz daqui e foi observada por William Herschel em 30 de Janeiro de 1786 que a descreveu da seguinte forma: " A 1a  e 2a c Orionis e as estrelas a sua volta são envoltas  em uma nebulosidade  extremamente tênue e de brilho pouco homogêneo."
                Ngc 1977 é uma nebulosa de emissão e de reflexão das mais brilhantes e uma das maiores provas da capacidade de M 42 roubar o show. É incrível que esta só tenha sido registrada como um ente independente já no fim do seculo XVIII.  E novamente a nebulosidade tem estrelas envolvidas. Mas neste caso as estrelas são muito espalhadas para que se suponha que Herschel e seus modestos 15´ de campo de visão esteja se referindo a elas. E assim embora alguns considerem o aglomerado e a nebulosidade como Ngc 1977 a maioria dos livros ,  atlas e programas planetarios loteiam o "Complexo  Ngc 1977" em Ngc 1977 ,  Ngc 1975 e Ngc 1973. Tudo em volta de 42 e 45 Orionis...
                Depois de fazer este reconhecimento da espada visite Orion e percorra toda Grande Nuvem Molecular  que engloba tanto M 42 e 43 , os convidados acima apresentados e mais M 78 , a Nebulosa da Chama , a  Cabeça de Cavalo e diversos abertos no grande complexo OB de Órion.
256 exp X 30 Seg -Canon T3- zoom 75 -300 mm @ 75 mm f 5.6  HEQ 5 pro.
 
                Orion além de ser uma constelação dominante é uma das áreas mais dinâmicas nos nossos arredores  galácticos .  Um curso completo de astronomia em uma unica constelação.


Ngc 1647: A Lua Pirata

             

           Ngc 1647 é um aglomerado aberto pouco estudado e habitando próximo as Híades é muitas vezes ignorado pelo amador desavisado. Apesar disto tudo ele é figura fácil em  livros clássicos e esta presente em diversos desafios observacionais . É um dos "400 de Herschel" e esta presente entre os  "Hidden Treasures"  de O´Meara.

                Em uma noite dedicada a constelação de Touro acabei por fotografar este belo aglomerado aberto enquanto descansava a vista para continuar a busca por M 1.
                Embora diversos autores me digam que 1647 é percebido a olho nu eu sou obrigado a discordar. Mesmo em locais muitos escuros este esparso aglomerado galáctico com magnitude 6.4 deve requerer olhos muito mais bem calibrados que os meus...
                O apelido que aqui apresento é novamente uma invenção do O´Meara. A partir do que ele percebe com um binóculo 7X50 mm . Creio que sempre vou invejar a acuidade visual do cabra e sua criatividade. Mas as vezes acho que ele força a barra:
" Através de binóculos 7X50 Ngc 1647 é um adorável aglomerado apresentando-se como um fantasmagórico brilho arrendondado com um tamanho aparente maior ao de uma lua cheia que por isto chamo de "The Pirate Moon Cluster" ; as estrelas do aglomerado se apresentam em grupos disparatados que mimetizam as áreas claras e escuras que vemos na lua a olho nu ( e o que seria de uma história de piratas sem uma lua fantasmagórica?) "
                Definitivamente o aglomerado não me levou tão longe . O aglomerado apresenta , para mim, um padrão espiralado de estrelas sem uma grande aglomeração central. Uma espécie de M 7 em miniatura. Algo como uma galaxia em espiral onde os braços se resolvem em estrelas.
                Mesmo em minha buscadora (9X50) eu resolvo alguns membros no aglomerado e este não possui o tal brilho fantasmagórico. Não necessitei de  muita ampliação para resolve lo na integra e achei que o melhor resultado foi obtido com 40 X de aumento. O uso de maiores ampliações permite localizar diversas estrelas  duplas dentro do aglomerado.
             Pesquisando descubro que este tem mais semelhanças com M 7  que poderia supor apenas pela sua forma. Com cerca de  190 milhões de anos estes são contemporâneos . E como Ngc 1647 esta 11 vezes mais distante ele é na verdade maior que M 7.  Na verdade ele é muito maior que suas vizinhas mais famosas , as Híades.  Enquanto estas se espalham por  aproximadamente 14,5 anos luz nosso longínquo amigo se espalha por mais de 20 anos luz. Fosse ele 1000 anos luz mais próximo este seria como M 7. E visível por todo o hemisfério norte.
                Ngc 1647 foi descoberto por William Herschel em 15 de fevereiro de 1784. Sua descrição nos leva a crer que ele não  tinha certeza de este tratar-se de um aglomerado "puro sangue":
" Um aglomerado consideravelmente grande , com estrelas bem esparsas , talvez uma ponta aparente da Via Láctea ". 

                O Rev. Webb também descreve de forma confusa o aglomerado em seu " Celestial Objects for Common Telescopes":
"Estrelas de 8.5 a 10.0 magnitude. Arredondado par aberto". Provavelmente falta uma virgula entre arredondado e par aberto...
                O aglomerado é real e O´Meara contou cerca de 200 membros. Como o aglomerado é pouquíssimo estudado o numero de membros reais é duvidoso.   Sua distancia é aceita em 1700 anos luz de nós.

                A foto que abre o post é resultado do empilhamento de 15 fotos com 20 segundos de exposição . ASA 1600. Foram utilizados cerca de 6 dark frames. Foi utilizado apenas o Deep Sky Stacker no pós processamento. O telescópio utilizado foi um Newtoniano 150 mm f8. Canon T3. Montagem HEQ 5 Pro.
               

                Mais um dos "400 de Herschel" . E uma visita obrigatória mesmo na nobre vizinhança de Touro.  

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ngc 6752 e 6397: Os Globulares Marinhos

           
         

      O mês de fevereiro foi bastante intenso . Fui escalado para realizar um projeto na paradísica Fernando de Noronha.E minha esposa foi demitida.  Mesmo com todas as preocupações associadas ao trabalho em questão e a preocupação com o saldo bancário da cara metade  minha maior fantasia era sobre os céus escuros que poderia encontrar na ilha. Sabendo que cada quilograma de bagagem contaria para o transporte do equipamento necessário para  filmagem eu ainda assim consegui contrabandear meu "Pau de Dar em Doido" ( um binóculo 15X70) e Hipátia ( minha montagem EQ3-2) para trabalhar em conjunto com uma lente 70-300 mm.
                O céus são de fato muito escuros e em certas noites realizei sensacionais passeios com o " Pau de Dar em Doido". Mesmo que lutando contra um céu a "la Hermes de Aquino" ( Nuvem Passageira...)  eu tive visões incríveis da Plêiades , Híades e de diversos abertos em Auriga , Touro e etc... Uma noite foi especialmente recompensante deitado nas areias da Praia do Boldró . Percebi diversas galaxias no aglomerado de Virgem. Mas realizar longas exposições eram uma tarefa bem ingrata e a alternância de momentos de céu claro com chuva tornaram quase impossível a realização de astrofotografia. A única noite que me dispus a colocar Hipátia em campo terminou em correria para salvar todo o equipamento da chuva.
                O arquipélago é  um habitat diurno. Uma das maiores maravilhas astronômicas que você vai ver  é de caráter muito cotidiano. Diariamente eu via o por do sol. No ultimo dia me lembrei que gostava de escalar e em um ato de determinação escalei o "Piquinho" para observar este evento. Ainda nesta noite fiz algumas das poucas fotos astronômicas da viagem. Hipátia foi até Noronha a passeio.


                
                


                Como me disseram os locais oitenta por cento das maravilhas do arquipélago estão debaixo da água...








                De volta a "Stonehenge dos Pobres" eu , já saudoso de DSO´s e ainda sobre os efeitos da viagem, resolvi capturar dois globulares que pela forma  tem forte relação com o ambiente marinho.
                O primeiro deles é Ngc 6752 . Este foi apelidado por O´Meara como o aglomerado "Estrela do Mar".   Sua observação visual definitivamente justifica o apelido e em minha modesta foto realizada com forte poluição luminosa e com pouco tempo de captura o efeito permanece. Em registros mais "sérios" esta impressão se perde um pouco.  
                Localizado na constelação de Pavão  ( que é a encarnação celestial de Argo, o construtor do navio dos Argonautas) esta estrela do mar é o quinto globular mais brilhante dos céus e também um dos mais fáceis de ser resolver em estrelas individuais . Nem tanto devido a sua concentração ( que é bem alta) mas devido a sua proximidade de nós e a a magnitude de ramo horizontal (13,7) . Devido a isto tudo  Ngc 6752 é um dos globulares que sofreu colapso do núcleo mais estudados e que nos deu uma grande compreensão dos fenômenos envolvidos neste processo e de das estruturas geradas da evolução dos globulares em geral. Assim  sabemos que no núcleo interno deste de 20 a 40% de suas estrelas são binarias . Também foram encontradas diversas "blue stragglers"  e pulsares de raio X.
                Ngc 6752 se apresenta evidente em meu 10X50 e chega a começar a se resolver em suas bordas com o 15X70. Mesmo no Rio .
                Quando observado com o "Newton" ( refletor 1500 mm f8) ele apresenta seu caráter marinho claramente e justifica seu apelido. 


                

              Foi descoberto por Dunlop durante seu levantamento realizado em Parammata , na Austrália, em 1827. É a entrada de numero 259 de seu catalogo. Ele o descreveu assim:
"[Uma nebulosa bem grande e brilhante, com 5´ou 6´ de diâmetro. Uma figura arredondada e irregular e facilmente resolvida em um aglomerado de pequenas estrelas. Extremamente comprimida no centro ; A parte brilhante no centro é causada por estrela de magnitude considerável quando comparadas com outras na nebulosa. Me sinto inclinado a crer que se tratam de dois aglomerados alinhados ; a parte brilhante esta um pouco ao sul do centro da grande nebulosa"

                Com magnitude 5,4 ele chega a ser percebido a olho nu em locais bem escuros.  Partindo-se de Peackock ( Alfa Pavo) em direção a cauda do Pavão ele será facilmente localizado com auxilio de qualquer buscadora óptica mesmo em céus urbanos.  É um globular que merce mais destaque e que devido a sua posição muito austral é pouco comentado .Juntamente com nosso próximo convidado ele compõem bem com a sagrada trindade composta por Omega Centauro, Tucana 47 e M22.            Continuando em busca de globulares com algum "caráter marítimo" eu acabo visitando um dos poucos objetos do catalogo Lacaille que ainda não apresentei por aqui. Nossa próxima parada é em Ara e naquele que pode ser o aglomerado globular mais próximo de nossa casa. Ngc 6397.  Este foi apelidado por mim mesmo. Suas estrelas , com o auxilio luxuoso de meia garrafa de um espirito das highlands escocesas , me levaram a ver um cefalópode mutante . Um polvo com nove pernas. Daí para o lúdico exercício de batizar coisas muito maiores que as nossas estruturas cotidianas como algo que as "humanize" foi um passo . Nasceu o "Aglomerado do Polvo Mutante".  Com certeza bem maior e assustador que o pequeno exemplar que encontrei entocado e apavorado na Baia de Sueste...



                Ele forma um belo par com o aglomerado anterior e é também um dos 20 aglomerados globulares que sofreram colapso de seu núcleo e assim possuem uma imensa concentração de estrelas em pouco espaço. Algo  sempre interessante para a astrofísica ...

                Como falei ele pode ser o aglomerado mais próximo da terra. Atualmente as bolsas de aposta na Inglaterra pagam mais para ele do que para M4 . Mas a incerteza ainda admite reviravoltas e jogar no azarão as vezes compensa...  Sua distancia é estimada em 7200 anos luz de nós e  a de M4 é de 6.800.  Com magnitude 5.3 é um desafio para ser observado a olho nu em céus nem tão escuros . Estando perto de  Beta Ara ele é facilmente localizado com o uso de qualquer buscadora óptica.




                 
                 6752 ele se apresenta facilmente em meu 10X70 e começa a querer resolver-se em sua bordas . Resolvem-se varias estrelas com o uso do "Newton" e mesmo do "Galileo" ( um refrator 70 mm) .


                Ngc 6397 é o quarto Globular mais brilhante dos céus perdendo apenas para a já citada Trindade. E deixa no chinelo os tão cantados M 13 e M15...
                               O aglomerado cobre uma área significativa ( 0,5o) mas o que se percebe mais claramente é seu núcleo super denso. Afinal sofreu um colapso...
                Ele foi listado pôr Lacaille  em  1755 como a entrada de numero 11 da categoria III  de seu catalogo de Nebulosas ( estrelas acompanhadas de nebulosidade) ; Em sua tradicional síntese ele não diz mais nada... Cabe a Dunlop revelar sua natureza de forma um pouco mais expansiva: "  Nebulosa resolvida em estrelas.". É a entrada 336 de seu catalogo.
                É um outro favorito e mesmo sóbrio percebo seu aspecto cefalópode. ´Beta e Gama Ara formam uma bela e colorida dupla no caminho para o "Polvo Mutante " e este é um passeio que gosto muito de fazer.
                As fotos de Ngc 6397 foram realizadas em Búzios. São resultado de algumas dezenas de exposições de 20 segundos com o "Newton" e com uma Canon T3 . 1600 ASA. O Rascunho de polvo foi feito com o Photoshop. O empilhamento foi feito no DSS.
                Saudades de Noronha. Reza a lenda que o tempo é mais firme em setembro...


                P.S. Não fui  a nenhum ato contra a Dilma. Mas agora irei. Sinto que o contracheque da cara metade ( que não chega mais...) vai atrapalhar meus planos para fotografar o aglomerado de Virgem este mês.  

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Ngc 2392- A Nebulosa do Esquimó

              

           Ngc 2392 é mais conhecida como a Nebulosa do Esquimó .  Trata-se de uma Nebulosa Planetária de longa história. Era um alvo que ha anos eu ouvia falar mas nunca a havia observado. E como astronomia observacional é uma pratica mais associada ao sentido da visão que aos ouvidos eu  finalmente me dignei a visitar esta maravilha. 
                Ngc 2392 é um dos mais populares DSO que conheço. Ele esta presente em grande parte dos guias observacionais que possuo e sua história remonta vários séculos de observação.
                A primeira vez que tomei conhecimento desta foi  (mais uma daquelas coincidências que nada tem a ver com leis fundamentais) no primeiro guia observacional que comprei.   Já falei  aqui e vou falar de novo: Todo telescópio de pequeno porte deveria vir acompanhado de "Turn Left at Orion". Outra coisa que sempre falo por aqui e vou repetir : é uma vergonha não existir uma versão traduzida do mesmo e publicada no Brasil...  Na verdade eu percebi que entre os objetos sugeridos para o inverno ( quase todos os guias observacionais são escritos pensando -se no hemisfério norte. ) no " Turn Left..." só me faltava observar 2392.  Irresistível.
                Nebulosas Planetária costumam apresentar um brilho de superfície alto. O que faz delas um excelente alvo para locais com poluição luminosa. Por outro lado geralmente possuem um tamanho pequeno o que os faz difíceis de serem diferenciadas de estrelas de campo . Assim demandam certa  experiência  do observador.
                Chegar até "O Esquimó" pode ser  um longo caminho. Sou um apaixonado pelas histórias de exploração dos polos.  E assim não posso deixar de pensar em trenós puxados por cachorros e em Amundsen em suas sagas polares. Desta forma imagino a logística desta missão como uma longa expedição polar. Em primeiro lugar você deve localizar a constelação de Gêmeos. Suas estrelas mais brilhantes são Castor e Pollux.  São Alpha e Beta Geminorum respectivamente. A Imagem dos Gêmeos é algo até viável de se conceber  e assim localize o Gêmeo encabeçado por Pollux e descendo pela figura ( é o gêmeo mais a leste...) localize Wasat ( Delta Geminorum).  É uma estrela de magnitude 3,5 na altura da hipotética cintura de Pollux.
                Wasat por si só é um alvo dos mais interessantes . É a entrada de numero 283 no catalogo Bedford .  Smyth (em seu "Cycles of celestial Objects") nos dá uma interessante dica sobre como certificar-se de que estamos no local correto :
" Uma das estrelas de Greenwich de 2o classe na cintura direita de Pollux e esta exatamente no centro de uma  linha que liga o " Praesepe" ( o aglomerado M 44 em Cancêr) a Zeta Tauri no chifre sul de Touro e quase sobre a linha que liga Castor a Sirius" .
                Ele ainda nos diz que trata-se de uma dupla de belo contraste com uma primaria de um branco pálido e uma secundaria roxa.  " ... Este delicado objeto é difícil de se medir a distancia , devido a disparidade, mas não é  uma das mais difíceis estrelas  nos céus. "
                Wasat vem do Arabe al-wasat. O meio ou o Centro...
                Antes de retomarmos a nossa expedição  rumo ao "Iglu mais longe do Universo" eu gostaria de apresentar um daqueles descaminhos  pelo conhecimento inútil que torna a Astronomia tão adorável.
                Em seu "Cycles" Smyth se refere a diversas estrelas como sendo uma das " Estrelas de Greenwich" e depois dando uma classe a estas. Elas podem ser de  1a , 2a  ou 3a. Nunca tinha ouvido falar nisto e sempre achei que Greenwich era mais conhecida pelo observatório que pelos açougues. E Assim fui caçar a origem desta classificação.  Localizei sua origem em  um dos mais obscuros  papers de todos os tempos: Publicado no abrangente" Philosophical Magazine and Journal cohmpreending the various Branches of Science ,the  Liberal and Fines Arts, Agriculture, Manufacture and Commerce " este paper (perdido entre um estudo sobre  a costa da Austrália e outro estudo a respeito da melhor forma de se bater um prego no  sensacional "Almagesto do Século XIX)", nos conta que foi publicado pela Astronomical Society of London em 1 de janeiro de 1830 um reduzido catalogo com 3500 estrelas realizado a partir dos levantamentos de Flamstedd , Lacaille , Bradley, Piazzi , Mayer e Zach.  Nas tabuas elaboradas a partir dese catalogo as estrelas foram classificadas em três classes:
·         Estrelas de 1a classe- Estrelas de até 5a magnitude situadas em qualquer lugar do céu ...
·         Estrelas de 2a Classe- Todas as estrelas de até 6a magnitude ( inclusive) situadas até 30o do equador
·         Estrelas de 3a classe- Todas as estrelas até 7a magnitude até 10o da eclíptica

                Definitivamente não encontrei nenhuma razão obvia para tal classificação embora o autor garanta que este é o melhor sistema para a classificação de estrelas em tabuas náuticas e celestes. A lógica inglesa levou a tragédia no caminho até o polo sul... (veja aqui)
                Tendo chegado ao meio do caminho chegar até 2392 se torna mais árduo. A perna final da expedição é mais complexa . Afinal Wasat é facilmente visível a olho nu mesmo em locais de forte poluição luminosa mas "O Esquimó é difícil de ser percebido com pequenas ampliações e mesmo com minha ocular  25 mm é difícil diferenciar a nebulosa de outras estrelas no campo. Localizar 2392 sem auxilio de go-to é um exercício de paciência . Não é difícil chegar até o campo que você busca . Porém identificar quem é quem pode ser um pouco mais complexo.



                Entre os caminhos já trilhados existem trilhas de diferentes dificuldades. Como já falei Ngc 2392 está em muitos guias observacionais. Localizei o a bela nebulosa planetária  no já citado "Cycles" , no "Deep Sky Copanions: The Caldwell objects" e no "Herschel´s 400 Observing Guide" ambos de O´Meara , no também já citado " Turn Left at Orion" e no "Skywatch" de Phil Harrigton.
                Embora não seja duríssimo chegar até nosso alvo os caminhos a partir de Wasat são variados. 
               O "Abismo O´Meara" é confuso é sua proposta parece contar com locais de céu bem escuros já que ele imagina que veremos  estrelas bem tênues a olho nú...
                     Já o "Planalto de Smyth" é bastante vago. O Esquimó esta a cerca de 2,5o de Wasat. É tudo que se sabe...
                 A "Trilha Harrigton" é uma boa opção e apesar de uma descrição menos didática é provavelmente o mesmo caminho  proposto em "Turn left...". Esta consiste em depois de você ter chegado até Wasat centralize esta na sua buscadora e procure um triangulo reto de estrelas de  6a magnitude cerca de meio campo a sudeste desta. Centralize na estrela mais ao norte do triangulo e com sua maior ocular escaneie a região. Ngc 2392 vai estar cerca de 0.5o a sudeste desta. Dentro do campo de minha 25 mm.  Preste atenção e vai perceber que a estrela não faz foco. Troque a ocular para conseguir mais ampliação e vai perceber a Nebulosa planetária. Sua forte cor a zulada vai recordar um disco planetário e explicar a razão porque tais estruturas são chamadas de nebulosas planetárias.
                Mas certamente o caminho mais fácil e bem descrito é  " The Consolmagno Road" apresentada no "Turn Left at Orion".   :  Com Wasat na buscadora perceba  um triangulo equilátero onde Wasat é a estrela mais brilhante. A Estrela a nordeste deste triangulo é 63 Geminorum . Ela vai possuir duas companheiras bem modestas porém visíveis na buscadora. Centralize na primeira delas e mova o telescópio o diâmetro de  cerca de uma lua cheia para sudeste. Chegou!!!  ( 63 Geminorum  é outra parada interessante no caminho de 2392. Uma dupla fácil e membro do catalogo Bedford  que acompanha o "Cycles of Celestial Objects" de Smyth).
                A Nebulosa do Esquimó merece seu nome e mesmo em pequenos telescópios é possível perceber sua estrela central como o rosto de nosso Inuit e as partes expelidas da "atmosfera" da estrela serão sua parka.
                Ngc 2392 e uma descoberta de William Herschel e sua descrição é bem fidedigna e justa: " ( Observada em 17 de janeiro 1787)  Uma estrela de 9a magnitude com uma nebulosidade leitosa bem brilhante em todo entorno.  Um fenômeno bem   notável. "
                Em seu "Caldwell Objects" O´Meara nos conta que o filho de Herschel , John, examinou a descoberta de seu pai com um refletor de 450 mm e concordou com este. Ele observou " uma estrela de 8a magnitude exatamente no centro de uma atmosfera exatamente circular". Ele segue nos dizendo que o termo atmosfera era apropriado para o seu tempo. Durante o séc. XIX , quando Herschel ( filho ) virava sua atenção para os céus, as ideias de Kant ( em 1755) de que o sol  e os  planetas nasceram de uma nuvem giratória de gás e poeira fazia sucesso ( com razão) . Esta era ( e ainda é ) a Hipótese nebular.   A visão de nebulosas planetárias parecia suportar a hipótese. Na verdade a hipótese de Kant demorou seculos para se confirmar e nebulosas planetárias nada tem a ver com isto. Mas eram outros tempos. E a visão destas pode dar asas a estas idéias de forma bastante justificável.
                Nebulosas Planetárias  são uma das mais fugazes etapas da evolução de estrelas como  o nosso sol.  Depois de passarem por sua fase de gigante vermelha tais estrelas expelem sua camadas mais exteriores ( " sua atmosfera") e esta vira este belo detalhe decorativo ao redor de uma anão branca que irá queimar por muito tempo ainda. A nebulosa em si dura alguns milênios. Um breve suspiro em escalas cósmicas.




                Ngc 2392 sera um esquimó por uns poucos milhares de anos. Acredita-se que ela já tenha 10.000 anos. Como está a 5000 anos de nós ela deve ser visivel desde a aurora da História.   Aproveite esta coincidência para visitar um dos  "Iglus mais  distantes do Universo" e aproveitar a deixa para ver uma anã branca. Geralmente não se percebe as anãs branca no centro de Nebulosas planetárias.  Este DSO resiste bem a grandes aumentos e utilize o máximo que o seeing permitir.
                Realizei algumas dezenas de exposições de 25 segundos  com o Newton ( um refletor de 150 mm f8) e utilizando uma Canon T3 com asa 1600 buscando revelar o máximo de detalhes . A montagem utilizada foi uma HEQ 5 pro de Skywatcher.  Variando as opções   de pós processamento no DSS , Photoshop e Fitswork cheguei  a resultados diferentes. As que mais gostei preservaram bem a cor azul que é o que mais chama a atenção junto a ocular. Com o uso de Drizzle consegui alguns detalhes mas as custas de perder aquela bela coloração turquesa.  Acredito que poderia ter conseguido melhores resultados utilizando uma barlow na captura.
             
          Pretendo retornar ao "Iglu mais longe do Universo". Nebulosas Planetárias são alguns do DSO`s mais fotogênicos que conheço.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

M 65 e M 66: Duas Galaxias, um Erro e o Cometa de 1773

              


                M65 e M66 são duas galaxias e um equivoco histórico reunidos no mesmo lugar.  Em um tempo que temos acesso a informação de forma quase instantânea é sempre importante lembrar que esta nem sempre é confiável. Em um mundo onde qualquer garoto com nível médio incompleto e querendo passar no ENEM pode se  intitular com divulgador científico e cientista  é importante checar suas fontes.
                Desta forma qual foi a minha surpresa quando localizei um equivoco que se perpetuou durante mais de um século e que tem em sua raiz um cientista e divulgador de um tempo que tais títulos eram para poucos e bons...
                Recentemente falei por aqui da grande carência de guias devotados a astronomia observacional na língua portuguesa e abaixo do Equador em geral.  Com muitas poucas exceções não ha uma literatura que apresente os céus e suas histórias de uma forma interessante e honesta  ao mesmo tempo.  A ciência se encastela em redutos acadêmicos e não  se populariza.  Quando o faz é geralmente  por flanelinhas de noticias cientificas sem compromisso ou embasamento ... Se a farinha é pouca meu pirão primeiro.
                Ainda no século XIX a astronomia já possuía autores devotados a divulgação desta ao publico leigo. Serviss com seu "Astronomy with an Opera Glass" foi uma espécie de Carl Sagan sendo um sucesso editorial.  O patrono destes autores é provavelmente o Admiral Smyth . Com seu "Cycles of Celestial Objects" ele "cria " o formato do que hoje podemos chamar de  "manual do astrônomo amador moderno". Ele vai englobar  a história e evolução da ciência, o equipamento utilizado, as técnicas e os Objetos a serem observados.  Em seu "Cycles" ele apresenta o Bedford Catalog que será o campo de provas onde diversos futuros astrônomos irão se provar e conhecer os céus. A obra é até hoje uma referencia e suas descrições de DSO´s são verdadeiras obras de arte.  
                É no volume 2 ( que inclui o Catalogo Bedford) que nasce a confusão sobre a  autoria da descoberta de M65  e M66.
                Recentemente fotografei a dupla de galaxias que juntamente com Ngc 3628 formam o Tripleto de Leão. 
                Como geralmente faço depois de observar gosto de partir em busca de mais dados sobre as vitimas da noite. Quando estas se tratam de DSO´s do aglomerado Messier  eu possuo dois livros que são sempre os primeiros a serem visitados . Assim escapo da "exagerada" e nem sempre confiável pesquisa do Google.  São eles o " Deep Sky Companions: The Messier Objects" do O´Meara e o " Skywatch" do Phil Harrington. Outro que gosto muito é o ""Burnham´s Celestial Handbook". Todos eles habitam minha estante e não o HD... 

                O Harrington me diz que para localizar M 66 e M65  devo localizar o triangulo que marca os quartos traseiros da fera. Imagine uma linha ligando Zosma a Chertan e  continue rumo sul em busca de uma linha com três estrelas.Todas elas estarão acima de 7a magnitude e serão percebidas com qualquer buscadora óptica .Dai utilize a sua maior ocular  e dando "um passo" rumo ao leste você chegara ao seu destino.  
                Como Newton ( um Refletor de 150 mm f8) eu primeiramente percebi os núcleos das duas galaxias de uma forma estelar. Com visão periférica percebo uma tênue nebulosidade ao redor de ambas. Apesar de M 66 ser considerada "mais fácil" de ser percebida eu percebi primeiro alguma estrutura em M65.  M66 se apresente de "cara" para nós. Já M 65 mais de perfil... 

2X Drizzle 

                Depois disto vou consultar o O´Meara  e este me "garante " que ambas as galaxias foram registradas primeiramente por Méchain.  Que as teria indicado para Messier em 1780.
                É aí que a história começa  a ficar nebulosa ( eu sei que o trocadilho é de doer...) .
                 O Tripleto é conhecido também como o Grupo de M 66  e em ambas apresentações no Deep Sky Companion a descoberta tanto de M66 como de M65 é atribuída a Méchain em 1780. Estranhamente ,em um primeiro momento, nem dia nem mês são apresentados.
                Para complicar mais ainda na apresentação feita por Messier de M 65  no Coinossance diz simplesmente : " (Observada em 1 de Março de 1780)  Nebulosa descoberta em Leo. É bem tênue e não contém estrelas."

M 65

                Para tornar as coisas ainda mais confusas a apresentação (descrita no Deep Sky Companion  teoricamente como uma transcrição da  feita pelo próprio Messier) de M 66 nos diz o seguinte: " (observada em 1 de Março de 1780) Nebulosa descoberta em Leo; bem tênue bem próxima da anterior ( M 65) . Ambas aparecem n mesmo campo telescópico. O cometa observado 1773 e 1774 passou entre estas duas nebulosas nos dias 1 e 2 de novembro de 1773. Messier, sem nenhuma duvida, não as viu devido a luz do cometa."
                A frase final da apresentação deixou uma duvida no ar. Sofreria Messier da Síndrome de César ( Júlio César tinha o habito de falar de si mesmo na terceira pessoa) ou seria o verbete obra de Mechain? Ou ainda um adendo do próprio O´Meara?
                A fim de aprofundar as investigações resolvo partir para fontes na web. É importante lembrar que apesar do mar de desinformação que existe  na internet existem trabalhos sérios .  O site da SEDS ( leia-se Hartmut Frommert) é um belíssimo exemplo. especialmente quando se fala em Messier
                Frommert nos explica que M65 e 66  são uma descoberta original de Messier e que o erro  se dá na obra magna do Admiral Smyth , o "Cycles of Celestial Objects", quando ele provavelmente devido a uma confusão devido a "Síndrome de César " de Messier atribui a descoberta da dupla a  Mechain. O erro encontrou eco no trabalho de  Kenneth Glyn Jones em algum momento nos anos 60 e com isto se perpetuou em outros guias mais modernos.  Smyth  fala categoricamente em seu texto que elas foram apontadas por Mechain a Messier em 1780 e pareceram tênues e enevoadas para ele ( pagina 249 do Cycles...) .

M 66

                Frommert nos explica que Messier jamais disse que estas lhe foram indicadas por Mechain e que ele sempre deu créditos a seus colaboradores. O M do catalogo Messier é bem honesto com Mechain ( que realmente descobriu diversas das entradas no catalogo e levou crédito por isto).
                Solucionado o mistério a história seguiu seu rumo e ambas as nebulosas são descritas e observadas por William Herschel e posteriormente por seu filho que deixam belas descrições destas. Existe uma carta entre Herschel filho e Herschel pai apresentada no "Cycles" que demonstra claramente como ainda eram desconhecidas a estrutura e  a natureza das galaxias nestes tempos.   As observações históricas de M 65 e M 66 podem ser encontradas em :
                A distancia da dupla é também controversa . Varia entre 21 e 35 milhões de anos luz.  as mais recentes medições  se inclinam mais para os valores superiores... O tripleto de Leo forma um grupo maior junto com o grupo de M 96 também em Leo.

                   Arp inclui o grupo em seu "Atlas de Galaxias Peculiares" . A Interação gravitacional no grupo é claramente percebida no " esquadro" de M 66 e ficou bem evidente nas imagens obtidas

                As imagens feitas aqui são resultado de uma exposição somada de 34 minutos . São 68 exposições de 30 segundos   ASA 3200 realizadas com um refletor de 150 mm f8 montado sobre uma cabeça equatorial HEQ 5 pro.  A câmera utiliza é uma Canon T3 sem modificação alguma.
                As imagens foram "empilhadas" no Deep Sky Stacker e foi utilizado o Método HDR para os light frames. Foram utilizados apenas 16 dark frmes . Nem flat nem bias frames foram realizados.   Utilizei o drizzle em algumas das imagens. 



                M 66 e M 65  são belos alvos galácticos para a temporada de outono que se aproxima. Infelizmente não consegui enquadrar  Ngc 3628 que reside um pouco mais ao norte.  Algumas das galaxias do  Index catalog ( IC) chegam a se apresentar como fontes estelares ( seus núcleos) . Mas não fazem parte do grupo e são bem mais distantes e de magnitude inferior a 12...