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quinta-feira, 23 de março de 2017

Estrelas Duplas, Rayleigh, Dawes e a "Constante de Harrington"

Abertura        Critério de Rayleigh   Limite de Dawes
mm                          a/s                              a/s
50                           2.76                             2.32
60                           2.30                             1.90
70                           1.97                             1.62
75                           1.84                             1.52
100                           1.38                             1.14
150                           0.92                             0.76
200                           0.69                             0.57
250                           0.55                             0.45
300                           0.46                             0.38
400                           0.34                             0.28








Sem poder ir a céus mais escuros já há algum tempo (mesmo Búzios tem sido um projeto difícil de se concretizar) e as voltas com a finalização do “Projeto Lacaille” não tenho observado muito. Assim, quando muito, tenho tentado a sorte em estrelas duplas. Estas sobrevivem a intensa poluição luminosa na “Stonehenge dos Pobres” e sempre garantem alguma diversão para o astrônomo urbano.
                Quão perto pode estar uma estrela de outra e ainda assim serem percebidas como entidades distintas?
                Diversos experimentos observacionais foram conduzidos ao longo da história para determinar os limites de resolução de telescópios.
                Os dois mais famosos e constantemente citados na literatura são o “Critério de Rayleigh” e o “Limite de Dawes”.
                O “Critério de Rayleigh”, vislumbrado por John William Strutt, o terceiro Barão de Rayleigh, em 1878 prevê quão próximas podem estar duas estrelas a ainda assim serem percebidas como pontos separados. Utilizando dados empíricos ele chegou a seguinte conta:
                CR= 138/D 
                Onde CR é o “Critério de Rayleigh” e será expresso em segundos de arco e D é o diâmetro da objetiva ou espelho do telescópio (em milímetros).  
                Já o astrônomo inglês do século XIX William Dawes utilizou uma outra aproximação. Dawes derivou uma formula para calcular quão próximas podem estar duas estrelas de 6a magnitude e estas se apresentarem “alongadas”, mas não resolvidas separadamente. Sua formula:
                LD=114/D
                Novamente D é o diâmetro do telescópio e o Limite de Dawes também será obtido em segundos de arco.
                Fica claro que o fator isolado mais importante para saber se você vai ou não resolver duplas muito apertadas é o diâmetro de seu telescópio.
                Mas são aproximações... Muito s amadores irão exceder o “Limite de Dawes” com telescópios de 150 mm ou menores enquanto outros jamais vão alcança-lo. Isto vai acontecer porque a performance do telescópio será afetada por diversos outros fatores. Os mais comuns serão o “seeing” (estabilidade atmosférica), uma grande disparidade de cor e/ou magnitude no par, má colimação ou má qualidade da ótica utilizada. E logicamente a acuidade visual de cada observador.
                Telescópios grandes (mais de 250 mm) dificilmente atingem o Limite de Dawes. Mesmo os maiores telescópios amadores dificilmente mostrarão detalhes inferiores a 0,5 arc/seg devido a nossa atmosfera. Em outras palavras, um telescópio de 400 mm vai acrescentar pouquíssimo detalhes adicionais a planetas ou dividir estrelas muito mais próximas que um de 250 mm quando utilizados debaixo da maioria das condições observacionais comuns. Ainda que estes apresentem mais cor e brilho.
                Quando falamos em binóculos tanto o “Critério” como o “Limite” ficam meio que “furados”. Ambos os cálculos pressupõem um aumento muito maior do que o obtido com a maioria dos binóculos. Phill Harrington propõe que você deve utilizar o seguinte cálculo para determinar o que você vai resolver ou não em um binoculo. Leva em conta apena a ampliação permitida pelo binoculo:
LRb=240/M
Onde LRb é o limite de resolução binocular (em arc seg), 240 é a “Constante de Harrington” e M é a magnificação do binoculo. Desta forma um Binoculo de 15X70 mm vai ser capaz de separar estrelas a 16 arc/seg uma da outra.  Já um 10X50 irá separar estrelas a 24 arc/seg.  Abaixo uma tabela para valores comuns:
Magnificação        Limite de Resolução
        7                               34
       10                              24
       15                              16
       20                              12
       30                                8


                Estrelas Duplas são um dos alvos mais recompensadores para o astrônomo urbano. E também são uma de meus programas favoritos para encerrar minhas observações lutando para perceber tênues DSO´s eu gosto de escolher o menu de estrelas duplas que habita o Synscan de Mlle. Herschel (uma espécie de “computador de bordo” que controla a minha cabeça equatorial) e ver o que a noite reserva já sem tanto compromisso. É incrível a variedade de desafios e belezas que se escondem entre duplas. Algumas são de colorido encantador, outras levam você a explorar o máximo de ampliação que o seu telescópio e o seeing podem suportar e outra ainda simplesmente não se resolve em uma noite para se entregar na próxima. Mas só tentando para saber. Bela brincadeira...
Albireo "do Verão"...

Albireo




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

M 67 : O Barrete Frígio

       


            M 67 é aquele outro aglomerado aberto em Câncer. Dividindo a constelação com M 44,O Aglomerado do Presépio, que é facilmente percebido a olho nu este mais discreto e nem por isto menos belo aglomerado é menos visitado. As apagadas estrelas do caranguejo celestial não facilitam a navegação até o mesmo em locais de poluição luminosa.  E assim M 67 sofre uma daquelas injustiças celestiais comuns a vizinhos de grandes e brilhantes aglomerados.
            O Aglomerado foi descoberto por Johann Gottfried Köhler em Dresden, Alemanha, antes de 1779. “ Uma nebulosa bastante proeminente com um formato alongado”. Como seu registro nunca foi publicado Messier redescobre M 67 de forma independente em 6 de abril de 1780. Este o resolve parcialmente. Um aglomerado de pequenas estrelas com nebulosidade”. Ambas as descrições demonstram como o equipamento destes pioneiros era modesto. Já observei M 67 com o “Galileo” (um refrator de 70 mm) e o resolvi totalmente. Nada de nebulosidade envolvida.
            William Herschel é o primeiro a resolve-lo. Ele o descreve assim:
            “Um lindo e muito comprimido aglomerado de estrelas, facilmente observável com qualquer bom telescópio e onde observei mais de 200 estrelas no campo de meu grande refletor, com um aumento de 157X”.
            Leo Brenner (um controverso e muito “criativo” observador alemão do final do século XIX e início do sec. XX. Autor do primeiro Guia observacional de Céu Profundo em língua alemã (1902)) também deixa claro como eram simples os telescópios utilizados por seus descobridores: “ Na buscadora aparenta ser um retalho nebuloso, mas já com pequenos aumentos é reconhecido como um aglomerado estelar e esplendido objeto. Cercado por um semicírculo de estrelas mais brilhantes repousam 230 estrelas de magnitude 9 a 12. ”
            O Admiral Smyth é que associa M 67 ao formato que hoje leva a seu apelido: O Barrete Frígio. Quase um século depois O ‘Meara nos conta que muitos discordam da semelhança apresentada por Smyth. Ele mesmo acha que o aglomerado lembra um Cobra-Rei pronta para o bote e destaca que Flamarion acredita que o aglomerado recorda a uma espiga de milho e que Luginbuhl e Skiff criam sua própria metáfora e associam o mesmo a “uma arvore de fibras óticas”.
Brasão da Cidade do Rio 

            Somente para esclarecer: O chapéu frígio recorda uma mitra (aquele chapéu de bispo) e é também conhecido como o Barrete de Liberdade por ter sido utilizado pelos revolucionários franceses. O mesmo está presente no brasão da cidade do Rio de Janeiro.
            M 67 é um dos mais antigos aglomerados abertos conhecidos e estudo recente (Michaud e colegas, 2004) estima uma idade de 3.7 bilhões de anos o que é quase tão antigo quanto o sistema solar. O mesmo estudo acredita que ele manterá sua dinâmica de aglomerado por mais 5 bilhões de anos.  Muitos poucos aglomerados abertos atingem idades sequer próximas a isto. Ngc 188 é o único aglomerado aberto conhecido que (sem controvérsias...) é mais antigo que nosso convidado. A razão desta longevidade esta associada a sua riqueza e a sua grande distância do plano e do centro galáctico; o que evita interações gravitacionais destrutivas.
             A idade de M 67 nos permite ver neste um grande número de estrelas altamente desenvolvidas. É rico em gigantes vermelhas, com pelo menos 20 confirmadas. Possui também um grande número de anãs brancas (150). Foram descobertas também 23 “Blue stragglers” que são mais típicas em aglomerados globulares mais densos e antigos que os tradicionais aglomerados galácticos.
            Localizada a 3000 anos luz de nós pode-se derivar um tamanho de 21 anos luz para M 67.
            Observar M 67 em locais escuros não chega a ser difícil. O´Meara nos diz que em uma noite perfeita ele é visível a olho nu. Eu duvido.... Com meu binóculo 10X50 mm em céus Bortle 6 ele é perceptível como uma pequena mancha enevoada. Com meu 15X70 ele começa a se resolver.  Com o Galileo ele se resolve e conforme aumenta-se o poder de fogo mais estrelas irão comparecer.
            Stoyan nos diz que o equipamento mínimo para resolve-lo é um telescópio de cerca de 60 mm.
            Com o Newton (um refletor de 150 mm f8) consigo perceber várias dezenas de estrelas. Em céus muito escuros podemos checar a uma centena com 120X de aumento. M 67 é um alvo telescópico e nestes é muito mais interessante que seu mais conhecido M 44. Este devido a sua enorme área aparente é melhor observado com binóculos.  

            Para se navegar até M 67 localize Acubens (Alfa Câncer) e navegando rumo a oeste passe por 60 Cnc (fraca e avermelhada). O aglomerado se apresentará discreto na buscadora em locais de poluição luminosa intensa...
            A foto que abre o post é resultado de cerca de 1 dezena de exposições de 30 segundos com ASA 3200. Na verdade foi um aquecimento na noite em que me dediquei a fotografar M 66 e M 65.  Foi utilizado o Newton montado sobre a Mdme. Herschel (uma montagem HEQ 5 pro) e uma câmera Canon T3 sem modificação. Foram feitos uns poucos “dark frames”.  A imagem foi processada no Deep Sky Stacker.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

IC 2395: O Último Objeto Lacaille Perdido

    IC 2395 foi um dos últimos objetos do Catálogo Lacaille que observei. Não por razões técnicas. Apesar de ser um objeto do “Index Catalog” e que isto possa sugerir um alvo mais difícil ele é um DSO bem claro e navegação até o mesmo não chega a ser difícil.  
            Embora hoje em dia o acesso a informação torne o trabalho do pesquisador muito mais fácil do que nos tempos de Dreyer e que observar e registrar fotograficamente o Catalogo Lacaille não seja nem de perto uma tarefa tão árdua como organizar todos os DSO´s conhecidos até 1888 sempre é necessária alguma pesquisa  quando trata-se com documentos referentes ao séc. XVIII. Nem todas as entradas do Catálogo Lacaille são unanimidades e dependendo da fonte consultada podem haver discrepâncias. Para contribuir com a confusão o grande observador austral que se seguiu a Lacaille foi Dunlop. E este não é famoso pela precisão de seus dados.
            Meu primeiro contato com Lacaille se deu através do trabalho de Frommert em seu incrível site associado a SEDS. E neste a entrada Lac III. 3 é colocada em dúvida. Paira uma suspeita se este objeto é um equivoco total ou trata-se do aglomerado aberto vdB-Ha 47 (Catalogo van den Bergh-Hagen).
            Posteriormente e visitando outras fontes (colaborou para minha certeza o trabalho realizado por Stoyan com a colaboração de Binnewies, Friedrich e Schoeder) descobri que Lac III. 3 é, acima de qualquer suspeita, IC 2395.   
            O trabalho de Glen Cozens sobre os três primeiros grandes catálogos de DSO´s austrais também ajudou na conclusão embora em seu trabalho seja dedicado especialmente a Dunlop. E na verdade embora ele nos diga em um momento que Lac III .3 é, possivelmente, vdB-Ha 47 em outro ele associa este a IC 2395. Pela minha pesquisa a entrada 453 do Catalogo Dunlop é o mesmo aglomerado que IC 2395 no Index Catalog elaborado por Dreyer (o Index Catalog é um complemento do New General Catalog [NGC] e foi o primeiro catalogo elaborado já com auxílio da fotografia).
            Lacaille era muito metódico e a posição por ele indicada é extremamente próxima (um erro de 2´) para haver qualquer dúvida na identificação do objeto.  Já Dunlop foi duramente criticado por Herschel por suas anotações descuidadas e pelos grandes erros na localização de seus objetos. Herschel quando explorou os céus austrais localizou apenas 1/3 das entradas do Catálogo Dunlop.  Cozens em seu trabalho faz uma revisão do catalogo e identifica mais de uma centena de objetos além dos revisitados por Herschel. É importante lembrar que Dunlop trabalhava sem nenhum tipo de apoio. Seu trabalho é fundamental e belíssimo.
            Para tornar as coisas mais confusas, mas ao mesmo tempo encerrar a questão, retornei anos depois a página de Frommert para vdB-Ha 47 e descobri que a possibilidade deste e IC 2395 serem o mesmo objeto são enormes... enquanto IC 2395 foi descoberta por Bailey em 1908 vdB-Há 47 foi registrada pelo time van den Bergh- Hagen em 1975. Sua posição é muito próxima e a descrição muito semelhante. Com isto o outrora objeto Lacaille “perdido” e observado pelo Abbé em 17 de fevereiro de 1752 engaveta seu processo de identificação.
            Lacaille é sempre bem sucinto em suas descrições e utilizando minúsculas lunetas não poderia ser mais preciso:
            “Estrela de 6a magnitude conectada a outra por um traço de nebulosidade. ”
Sua descrição me lembra muito o que percebo utilizando uma buscadora de 7X30mm.
            Já Dunlop com seu telescópio de 9 polegadas e de espelho de metal apresenta uma descrição muito semelhante ao que vejo com o “Newton” (um telescópio newtoniano de 150 mm f8):
            “ Um grupo de 10 ou 12 estrelas pequenas e bem brilhantes a sudoeste de 409 Argus (Bode) ”
                Curiosamente IC 2395 , apesar de sua evidente graça, escapou de quase todos os "Guias Observacionais Modernos". Não entrou no Catálogo Caldwell e nem mesmo O´Meara em sua imensa série "Deep Sky Companions" fala nele. Burnham em seu "Celestial Handbook" dá um descrição sumaria da apresentação da constelação de Vela: "Mag. 6; Diam. 10´; Class E; Cerca de 16 estrelas mag. 9".   Uma tremenda injustiça e um excelente motivo para você visitá-lo.
            Sua estrela mais brilhante é de 5.5 a magnitude. Do tipo espectral B5. Em trabalhos mais recentes a idade do aglomerado é estimada em aproximadamente 7 milhões de anos. Em função da fonte esta estimativa varia entre 5 e 16 milhões de anos. De qualquer forma um jovem aglomerado galáctico localizado a 2500 anos luz de nós.
            Em um trabalho desenvolvido por Zoltan Balog, Nick Siegler, G. H. Rieke, L. L. Kiss, James Muzerolle, R. A. Gutermuth, Cameron P. M. Bell, J. Vinko, K. Y. L. Su, E. T. Young e Andras Gaspar e utilizado o Telescópio Spitzer foram identificados mais de 300 membros em IC 2395 e a presença de discos protoplanetários em aproximadamente 10% destes; Sistemas solares em formação. Com o estudo de nosso convidado eles nos contam como o Spitzer ampliou o nosso entendimento na formação destes discos.  Hoje sabemos que a acréscimo de gases em protoestrelas tende a estar cessando em 15 milhões de anos e que os discos primordiais devem estar se dissipando. A esta altura os chamados planetesimais (um projeto de planeta...)  já se formaram e a poeira produzida em suas colisões gera um disco de debris. Este disco regenerado revela indiretamente a presença de corpos planetários que garante a retroalimentação deste processo e nos permite rastrear a evolução de sistemas planetários ao longo de toda a faixa de idades estelares.  

            Localizar IC 2395 em locais escuro não é difícil. O mesmo se revela como uma estrela de 5a magnitude. Ou parta de Regor e seguindo uma corrente de estrelas de 4a e 5a magnitude você chegará a seu destino. Os outros abertos próximos são bem mais discretos que IC 2395 e não há como se enganar. Uma vez na região aproveite para conhecer Ngc 2660. É um interessante aberto com forte concentração central. 
             O aglomerado é bem mais interessante do que pode sugerir a fotografia que abre o post. Esta foi resultado de pouco mais de uma dezena de exposições com 20 segundos de exposição ASA 1600. Porém sofreu muito com a lua quase cheia na ocasião...

            
               


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poluição Luminosa , Ciganagens e a Escala Bortle

               Quando se fala em poluição luminosa a primeira definição que costuma ser apresentada é a seguinte:
                “Poluição luminosa é o tipo de poluição ocasionada pela luz excessiva ou obstrutiva criada por humanos. A Poluição luminosa interfere nos ecossistemas, causa efeitos negativos a saúde, ilumina a atmosfera nas cidades reduzindo a visibilidade das estrelas e interfere na observação astronômica. ”
                Durante um verão que tem tido um “que” de vida cigana pude experimentar diversas formas de poluição luminosa. Na primeira perna do verão e aproveitando a viagem de meu sogro a família foi se refugiar no apartamento do mesmo. Aproveitar sauna, piscina, academia de ginastica e mudar de ares. E ainda aproveitar a cobertura de seu prédio. Nesta podemos ter uma experiência ainda mais urbana que na Stonehenge dos Pobres (mas bem mais confortável...). Encravado na Rua da Passagem bem no coração do bairro de Botafogo as condições são de Bortle 8. Bortle é uma escala de poluição luminosa que vai de 1 até 9. Enquanto 1 é no canto mais escuro do Atacama 9 é algo semelhante as condições que encontro sobre a laje do sogrão.

A ESCALA BORTLE
Escala Bortle Cor em mapas de PL Descrição do céu
1  Preta  Local com céu escuro excelente:
·          Nelm (Magnitude limite a olho nu) 7,6 a 8.0
·          Luz Zodiacal, Gegenshein e faixa zodiacal são visíveis.
·          M 33 é obvia a olho nu
·          A via láctea junto a Escorpião e Sagitário apresenta obvias sombras difusas
·          Objetos terrestres (arvores, carros, pessoas...) são invisíveis.
2  Cinza   Local de céu muito escuro:
·          Nelm de 7.1 a 7.5
·          M33 facilmente visível com visão direta
·          A luz zodiacal continua suficientemente brilhante para lançar sombras longo após o nascer ou o por do sol.
·          Nuvens são visíveis como buracos escuros ou vazios no céu
·          Objetos terrestres só são percebidos vagamente, a menos que se projetem contra o céu.
Azul Céu Rural:
·          Nelm 6.6 a 7.0
·          Alguma poluição luminosa evidente ao longo do horizonte
·          A via láctea apresenta estrutura complexa
·          Aglomerados globulares brilhantes (Omega centauro, M22 etc..) são facilmente percebidos a olho nu.
·          M33 é notada com visão periférica.
·          Objetos terrestres vagamente percebidos entre 6 e 10 metros.
4  Verde Transição Rural / Urbano:
·          Nelm 6.1 a 6.5
·          Domos de poluição luminosa evidentes em diversas direções no horizonte
·          Via láctea apresenta estrutura apenas próxima ao zênite.
·          Luz Zodiacal é evidente mas se estica somente até metade do caminho até o zênite.
·          M33 é difícil mesmo com periférica e mesmo assim acima de 50 graus.
·          Objetos terrestre percebidos facilmente mesmo a distancia
Laranja Céu Suburbano:
·          Nelm 5.6 a 6.0
·          Indícios de luz zodiacal somente em dias especiais
·          Via Láctea se apresenta lavada próxima ao zênite e praticamente imperceptível junto ao horizonte
·          Fontes de Luz artificial presente na maioria, senão todas, as direções.
·          Nuvens são obviamente mais claras que o céu.
6  Vermelho Céu Suburbano Claro:
·          Nelm 5.5
·          Luz zodiacal invisível
·          Via láctea só percebida bem próxima ao zênite.
·          Nuvens muito brilhantes em qualquer lugar do céu
·          Omega Centauro ou M31 dificilmente percebidos a olho nu.
7  Vermelho Transição Suburbano/Urbano:
·          Nelm 5.0
·          Via láctea Invisível
8  Branco Céu Urbano:
·          Nelm 4.5
·          Céu alaranjado
·          Podem-se ler manchetes de jornal sem lanterna
·          Algumas constelações familiares são difíceis de perceber
9  Branco Mega cidade:
·          Nelm 4.o ou menos
·          Todo céu é claramente iluminado
·          Diversas constelações familiares são invisíveis
                

               Mas o horizonte sul do Rio sempre reserva alguma escuridão e é possível se retirar leite de pedra. E assim aposto contra a versão antrópica da poluição luminosa e resolvo fazer uma noitada fotográfica desafiando as baterias de fogo antiaéreo instaladas na praia de Copacabana. E ao contrário do que supõe a maior parte da humanidade é possível se observar do centro de uma grande cidade durante uma noite de lua nova.


                Embora a observação visual não seja a “piece de resistánce” da noite o alinhamento polar colabora com a coisa e faço algumas fotos de diversos objetos bastante claros. Revisito diversos objetos do catalogo Lacaille (que são alvos “fáceis” e sempre disponíveis para condições extremas...) e ainda capturo uma novidade e um dos mais charmosos globulares que conheço. Ngc 1851.
                  E de quebra faço diversas brincadeiras pela Grande Nuvem de Magalhães testando a capacidade fotográfica do Newton em aglomerados mais obscuros no ao redor da Nebulosa da Tarântula .


 IC 2488

Ngc 1851

Ngc 2044

Ngc 2060



Ngc 2100

Ngc 2516

Ngc 3293

Ngc 3766

A Roseta não sobreviveu bem a PL...

Tarântula ( Ngc 2070)

                Segue o verão e com o Stonehenge dos Pobres alugado por uma curta temporada para um holandês que parece gostar de muito calor e mantendo a ciganagem sigo para Búzios. Agora durante a Lua cheia...
                Embora a lua cheia não possa ser acusada de poluidora ela é muito mais nefasta para a observação de DSO´s que todos os vapores de sódios reunidos ao longo do calçadão de Ipanema.
                Logo que me iniciei na astronomia costumava observar na Lua cheia. Acreditava que evitando-se o quadrante onde esta se encontra tudo transcorreria bem.
                Apesar de muita insistência a temporada nos jardins de Búzios apanhou de forma feia da noitada sobre o terraço em Botafogo.

IC 2395



3 DRIZZLE

"Moon Nébula"


                Realizei novamente algumas fotos de  membros do Catalogo Lacaille tentando melhorar a seleção que possuo para finalmente encerrar um longo projeto que visa tornar-se um livro sobre as descobertas do Abbé nos céus austrais.
                Embora a lua cheia tenha sido cruel consegui um registro com alguma dignidade de IC 2395. Um dos “objetos perdidos” de Lacaille e que em um último instante decidi que deveria integrar o livro. O unico detalhe a favor das fotos buzianas é que enfim consegui limpar o sensor de minha câmera. Sem muito preciosismo utilizei apenas "Rosco Paper" ( uma espécie de papel higienico paea fotográfos) aplicado com muito cuidado sobre o sensor.   

                A Poluição luminosa, seja esta antrópica ou natural, é como a fumaça da música de Caetano. Sobe apagando as estrelas. E imagino que na Ipiranga com são João a escala Bortle atinja 9...   

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ngc 1851: O Aglomerado de Rosse

         
               William Parson, 30 Conde de Rosse construiu o maior telescópio de seu tempo. Um monstro (para época) com um espelho primário de 1.8 metros. Foi uma árdua batalha pois as técnicas para a confecção de um espelho deste tamanho simplesmente não existiam e os que tinham alguma experiência guardavam suas técnicas debaixo de sete chaves. A metalização deste foi resultado de muitas tentativas e erros. 

                O “Leviatã de Parsontown” era realmente um monstro. Sua operação demandava diversos assistentes. Entre eles  ninguém menos que  J. Dreyer ( entre 1874 e 1878)  , responsável e organizador do monumental “New General Catalog”  (Ngc) e do “ Index Catalog”( IC) .
                Apesar do inclemente clima irlandês Parson realizou, a partir de abril de 1845, diversas observações e desenhos. Seu grande legado foi a descoberta da estrutura espiralada de diversas nebulosas. Ele foi o primeiro a perceber o que hoje chamamos de galáxias espirais e os desenho por ele feitos   muito lembram modernas fotografias. 
30X 20 seg asa 3200 Newton 150 mm f8 Canon T3 -2X drizzle no DSS + Gimp + fits
A foto que abre o Post é resultado das mesmas fotos mas foi submetida a 3X drizzle no DSS; 
                Mas seu sucesso acabou por ser sua desgraça. Ele começou a ver espirais em todos os lugares. Até mesmo em aglomerados abertos.
                Assim o DSO que apresentamos hoje deve seu nome e sobrenome aos Jardins do Castelo de Birr.  Ngc 1851 (a entrada de numero 1851 do New General Catalog de Dreyer) também é chamado  de “O Aglomerado de Rosse”.  Embora não existam registros de que Lorde Rosse tenha alguma vez o observado.

                O apelido nasceu de minha primeira impressão ao fotografar Ngc 1851. Em uma noite devotada exclusivamente a astrofotografia eu tinha  obtido um foco mais aceitável do que normalmente obtenho com meu focalizador de cremalheira. E assim decidi que não iria mais tirar a câmera para caçar os DSO´s que eu tinha listados para a noite. Observando sob céus urbanos ( bortle 8)  caçar DSO´s utilizando somente a buscadora pode ser bem ingrato. Mas quando se fala em teoria das probabilidades é bom lembrar que ele poderia ser chamada de Teoria das Improbabilidades... E assim acabei por localizar o que desconfiava ser Ngc 1851 utilizando somente a buscadora. Logicamente que havia feito bem o dever de casa e tinha estudado bastante os mapas da constelação de Columba (a Pomba) aonde reside O Aglomerado de Rosse.
Sem nenhuma forma de ampliação esta foto é muito semelhante ao que você irá perceber junto a uma ocular de 30 mm. 

                Columba não é exatamente uma das constelações mais populares. Localizada logo abaixo de Lepus ( a Lebre) e desta forma habitando  fronteira pouco vigiada entre Cão Maior e  Puppis  perceber algo na região sob os faróis de xênon que iluminavam os céus de Botafogo as vésperas do réveillon foi um misto de improbabilidade e de eficiência tecnológica. O “go-to” de Mmde. Herschel (minha cabeça equatorial HEQ5) estava em noite de glória e apesar de não me enviar diretamente para Ngc 1851 me deixou bem perto. E assim mesmo pela buscadora haviam poucos suspeitos. Depois de fotografar um suspeito por engano acabei por identificar a estrela “peluda” no campo da buscadora.
                Logo que vi a primeira foto me lembrei de Lord Rosse. O pequeno globular possui “braços” se enroscando em volta de seu núcleo mais denso e brilhante e não posso deixar de me lembra de uma galáxia espiralando-se. O 3o Conde de Earl  iria amar a paisagem. Praticamente “confirmaria” sua hipótese...

                Ngc 1851 fica a aproximadamente 8o de Phact, a estrela alfa de Columbae. Com mag. 2.65 é uma estrela de muita história. Diversas construções no Egito antigo tinham sua construção orientada por ela.  Outra interessante estrela na apagada constelação é MU Columbae. Esta uma “estrela fugitiva” que deve ter sido ejetada da associação estelar de Orion devido a explosões de supernovas. Apresenta uma incrível velocidade se comparada ao meio interestelar a sua volta e deve dividir a origem de sua história com AE Auriga. Ambas deve ter se lançado em direções contrarias a partir da Nebulosa de Órion no momento que uma ou mais supernovas criaram o atual Loop de Barnard.  53 Arietis também faz parte desta coleção de fugitivas.
                Ngc 1851 foi descoberto por Dunlop e incluído como a entrada número 508 do seu catálogo de 1827.
                “ Uma extremamente brilhante, redonda, bem definida nebulosa, extremamente condensada, até quase o limite. Esta é a mais brilhante pequena nebulosa que já avistei. Tentei diversas magnificações neste lindo globo; uma considerável porção em suas margens é resolvível, mas a condensação central é tamanha que eu não consigo separar estrelas. Eu a comparo com 68 com,des Temps ( M68 e o catalogo Messier) e esta nebulosa supera em muito 68 em condensação e brilho”.
                Como não poderia deixar de ser Ngc 1851 também foi observada por John Herschel, o qual também se encantou com a peça. Com mais poder de fogo ele resolve o globular quase na integra.
                “Aglomerado globular soberbo, todo resolvido em estrelas de 14a magnitude; repentinamente muito mais brilhante em direção ao centro para um esplendor ou núcleo de luz. Diâmetro em A.R.= 15 ´´. A diferença em se observando este objeto com meu olho direito e depois o esquerdo é memorável.  Retornando do esquerdo para o direito, o objeto (em comparação) parece envolto em um filme opaco”.
                Utilizo esporadicamente esta técnica  (de observar hora com um olho hora com outro) e sempre percebo diferença. Mas atribuo isto ao fato que minha vista esquerda tem menos astigmatismo que a direita. Embora meu olho dominante seja o direito e por isto o use mais em observações. O efeito obtido por Herschel não me parece ter outra razão de ser.
                Em tempos mais modernos Ngc é incluído por Burnham em se “ Celestial´s Handbook”, mas este somente apresenta a descrição do Ngc.
                Sir Patrick Moore o inclui como a sua 73a de sua lista observacional e assim James O´Meara o descreve em seu “The Caldwell Objects”. Neste ele percebe os “braços espirais” que eu notei como “tênues asas semelhantes as que se vê em M13”. Ele deve ser referir as famosas “hélices” (“The Propellers”) que são bem evidentes sobrepostas no Grande Globular de Hercules e que foram descritas por Lorde Rosse.
                Ngc 1851 é um globular bem estudado e que traz folego a teorias recentes sobre como globulares (especialmente o que habitam o halo) tem uma formação bem mais complexa do que se supunha e que estes apresentam diversas fases de formação estelar. Desta forma se aproximando muito das chamadas galáxias anãs esferoidais e demonstrando como o antigo modelo monolítico de formação de globulares e galáxias ainda é incompleto.
                Ngc 1851 ainda é candidato a possuir um buraco negro em sua região central.



                Localizar o aglomerado em céus urbanos pode ser difícil. Na verdade, contei com o auxilio luxuoso de Mdme. Herschel nesta tarefa. Mas o starhopping mais obvio se inicia em Phact (Alfa Columbae) que será percebida ainda que discreta em céu urbano. Ela forma um triangulo reto com Beta e Épsilon Columbae. Com Épsilon na buscadora calcule um pouco mais de meio campo (3o) e comece a perscrutar por um pequeno triangulo de estrelas. Com este centralizado na buscadora procure uma estrela “suspeita” a sul-sudoeste. Será Ngc 1851.

                Um interessantíssimo globular com um forma realmente encantadora e que se apresenta longe da maioria dos globulares, que costumam  se localizar em direção ao centro galáctico. Juntamente com M79 forma uma dupla de globulares deslocados e disponíveis para o verão.