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terça-feira, 10 de maio de 2016

Coma-Virgo Reloaded

   

                Há algum tempo eu não tentava a sorte no Reino das Galaxias. Na verdade há anos.  Desde os tempos em que as coisas não eram tão politicamente corretas  e que eu ainda podia chama-lo de Aglomerado de Coma-Virgem e não ser acusado de sexismo pela minha própria filha...
                Observar visualmente as galaxias do aglomerado é uma tarefa difícil  especialmente de locais afetados pela poluição luminosa. Da Stonehenge dos Pobres é perda de tempo.  Phill Harrington no seu já clássico "Starwatch" nos diz que " mesmo sendo possível observar todas as Galaxias Messier ( Galaxias que foram descobertas e/ou incluídas no Catalogo Messier de Nebulosas  publicado no século XVIII)  com o auxilio de um binóculo de 50 mm estes não são alvos indicados para novatos " Ele recomenda que você de uma polida nas suas técnicas observacionais antes de tentar a sorte com alvos tão difíceis.
                Em experiencias anteriores , ainda nos tempos do "Galileu" ( meu bom , velho e confiável  refrator 70 mm f13) eu já descobrira que é melhor manter baixas as expectativas. Com este eu só consegui observar acima do patamar de "Objetos Imaginários que gostaria de estar vendo" as Galaxias mais luminosas. Sendo estas: M 49 , M 60  e M87. Na categoria dos " Objetos que Percebo mas não Vejo" ficariam ainda M 84e M 86. Nestas o núcleo comparece e se suspeita não ser uma estrela de campo.
                Desta vez eu estava sedento de sangue. Armado com o "Newton" ( meu mais novo porem nem tao jovem  refletor 150 mm f8) e com Mme. Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 pro com "go-to") eu preparei a emboscada. Parti para Búzios pronto para pegar a noite de lua nova de maio com a casa quase vazia. Iriamos somente eu , a cara metade , minha filha e o meu filho.  Organizei uma derrota realista e coloquei tudo no papel. Ou melhor no "Notepad" do Windows...
                                         
                O cronograma era bem apertado. Iria pegar as crianças na escola as 13:00 horas  e sair direto para Búzios. Para realizar o alinhamento polar eu deveria estar com tudo pronto no quintal dos fundos da casa as 18:20 para conseguir utilizar Miaplacidus como estrela guia para o processo.  Para desespero da cara metade a estrada até Búzios é boa... Chegamos a casa as 16:00 horas tendo parado para comer croquetes na casa do Alemão. Parei ainda para abastecer no Post "Atrás do Muro" ( a gasolina mais barata da estrada: R$ 3,59 o litro) e fiz mais um pitstop no Supermercado quase chegando em casa. 
                As 18:00 Miaplacidus já se encontrava centralizada na buscadora polar e com os parafusos da cabeça foi fácil mantê-la ali até as 18:05:30.
                Depois disto Murphy faz sua visita obrigatória e começo apanhar das tomadas da casa.  Realizava o alinhamento do  Synscan da cabeça ( capaz de controlar a cabeça e garantir suas capacidade de achar os objetos que você deseja. Também e daqui para frente chamado de Go-to) e Murphy e seu amigo Osmar Contato  vinham-me visitar. E lá ia eu de novo realinhar  o "go-to" de Mme. Herschel.
                Finalmente consigo superar todas as dificuldades e a derrota planejada já tinha ido para o espaço.
                E assim decido seguir os passos propostos por Harrington no livro já citado. Este indica atacar o Aglomerado em duas frentes Uma campanha começa por leste e outra por oeste. Me decido lutar no front leste.
                A observação visual de galaxias é uma luta inglória. Muitas vezes você não vai ver nada ou quase nada ( a menos que seu telescópio seja muito maior que o Newton). A maior parte delas vai se apresentar na ocular pouco mais que seus núcleos. É por estes que você procura em um primeiro momento . Depois de localizar um destes e desconfiar que esta tênue estrela não é o que parece ser ( uma tênue estrela...) você vai utilizar as tais técnicas observacionais polidas pelo tempo que o autor já falou.A principal delas é a visão periférica. "Olhar com o rabo de olho". Outra uteis são as vezes dar um tapinha no telescópio e hiperventilar. Os olhos bem adaptados ao escuro são fundamentais.

                Duas galaxias que nunca tinha observado são a porta de entrada do aglomerado pelo leste.  Fugindo um pouco do caminho traçado por Harrigton ( que propõe iniciar em Vindemiatrix e observar a seguir Ngc 4762) escolho partir de Rho Virginis e tentar perceber  Ngc 4608 e  4596 no seu entorno. Já havia ensaiado o ataque no Stellarium ( um um hibrido de software planetário e carta celeste ) e sabia que com minha ocular de 40 mm ambas caberiam espremidas no mesmo campo que Rho. Existem outra fracas estrelas no campo para ajudar a ambas disfarçarem-se. Ngc 4596 acabou se entregando com o auxilio da 25 mm. Nada que que lembrasse o réveillon de Copacabana mas ela estava lá. Seu núcleo bem obvio acompanhado de leve nebulosidade no seu entorno. 4608 ainda mais discreta revelava somente seu núcleo.  Sabendo que estavam ambas em quadro monto a câmera e realizo 40 exposições de 30 segundos. Desta vez resolvera que ia utilizar o computador para me ajudar nas capturas e não ser obrigado a ficar com um disparador na mão.

                Havia feito o download do Astro Photography Toll para  a tarefa. Mas com pouco tempo e sem querer correr o risco de perder a única noite que tinha certeza que estaria aberta prefiro utilizar o Canon Utilities para controlar a câmera.  Escolho trabalhar em 1600 asas já que estarei capturando mais frames do que geralmente faço e tentando ter menos ruido.  Percebo logo na primeira foto que era melhor ter sido mais conservador e utilizado a já habitual 3200 asa.  Mas com tudo pronto ,  as fotos rolando e o acompanhamento indo bem prefiro deixar as coisas como estão.  E finalmente fotografo minha primeira galaxia virginiana. Na verdade as duas primeiras. ( Há quem diga que M 104 é um membro das bordas deste aglomerado . Mas não sendo uma Coma-Virgo "bona fide" eu não vou considerar as fotos que já realizei desta) .
                Depois peço para Mme. Herschel me conduzir até M 87. Esta um alvo visual fácil e que já tinha observado com o Galileu. Assim que coloco os olhos na Ocular percebo alguns esfuminhos. O campo é rico em galaxias  e como já havia percebido que nos claros céus buzianos seria difícil conseguir extrair detalhes me utilizando de minhas oculares prefiro fotografar  as vitimas. Logo na primeira foto desconfio que M 87 não esta entre elas. Mme Herschel tinha passado um pouco do ponto e acabara me conduzindo para o Inicio da Corrente de Makarian. Estou nos arredores de M 86 . Faço novamente 40 exposições . Desta vez com 3200 asa. Fico todo feliz ao perceber que tinha capturado no conjunto " The Eyes".  ( Ngc 4438 e 4435). Estas pequenas galaxias merecem o apelido e mesmo visualmente transmitem a impressão de dois pequenos olhos te observando.  Percebo mais varias galaxias no campo. Uma delas a interessante e visualmente perceptível  Ngc 4388. Vou falar de todas elas separadamente em posts futuros.
The Eyes

                Neste campo ocular você você vai perceber diversas estrelas muito tênues. Diversas delas são galaxias. Com atenção você irá perceber uma pequena nebulosidade envolvida. São todas galaxias. Ao navegar por Coma-Virgo você não realiza   "starhopping". A Brincadeira aqui é "galaxyhooping". 

                Outra descoberta é que ao fotografar o aglomerado você irá  capturar diversas galaxias em uma única foto. O campo do sensor de minha câmera no Newton ( uma Canon T3) cobre 62 `X42`. Nesta região isto implica em dezenas de galaxias em quase qualquer lugar.  Se lembramos que os membros do aglomerado estão  a  uma distancia média de 60.000.000 de anos luz de nós qualquer 1´de arco é algo como quase 6000 anos luz  e que meu sensor vai cobrir mais de 300.000 anos luz por  200.000 anos luz de latifúndio do universo. Não vamos falar em volume...  Existe uma conta meio mandrake " paracalcular  o diâmetro fisico de uma galaxia. Me foi apresentado no "Deep Sky Companions : The Messier Objects" . Neste são apresentadas 2 constantes . Uma para objetos galactico e outra para galaxias. Os valores funcionam bem para perto. Para longe acho sempre muito modestos.
                Esta foto engloba o oeste da famosa Corrente de Makarian. Esta inicia-se em M84 , passa por M86 , segue rumo a oeste pelo par que forma "The Eyes". São os membros originais da Corrente e listados por Makarian (  seu "eu profundo") . Creio que a Corrente de Makarian não tenha sido batizada pelo próprio. Este grande astrônomo foi o primeiro a perceber e/ou registrar que este grupo de galaxias caminham juntas pelo universo. Velocidade, distancia e direção são iguais ou pelo menos muito próximas.  Seu nome  em inglês é "The Makarian´s Chain" .  Mas em um arroubo "José Eustaquiano" ( lendário astronômo dos tempos do Império...) eu creio que Makarian "himself" a definiu como "The Makarian´s Stream". Algo como a "Corrente de Humboldt"  que nasce na Antártida e sobe a costa do Peru. Parente do "El Niño". 

                A corrente de nasce próxima ao centro "geográfico" do Aglomerado de Virgem e possui como "Heartland" M86. são as Galaxias originais e com movimento medido por Makarian M84 , M86, Ngc 4477, 4473,4461, 4458, 4438 e 4435.
                No lote fotografado temos  ambas as Messier e 4438 e 4435. Estas duas formando o já citado "asterismo galáctico" conhecido como "Os Olhos" ( "The Eyes" mesmo no Stellarium em português...) .
                De volta ao projeto original e achando que esta seria a grande estrela da noite me viro de costas para Virgem  e olho para o sul.  O objetivo agora seria   Ngc 4945 em Centauros.  Esta bem mais próxima que os velhos convidados e assim cobrindo uma area de sensor muito maior. Somente 12.000.000 de anos luz de nós.   Com 20´de diâmetro e aplicando a tal conta que falei ela mede menos de 30.000 anos luz. Mas 77.000 é uma valor comum na literatura. Como falei a conta é meio "mandrake".

                Fiquei um bom tempo caçando a galaxia. Com magnitude listada de entre 8,5 e 9,3 deveria ser visível mesmo com Bortle 7. Mas não era. Felizmente ela se localiza ao lado de Epsilon Centaurus. Uma dupla. E com esta visível na buscadora e com o dever de casa feito eu sabia onde ela estava. E estava. Foram realizadas 40 fotos de 30 segundos . Uma única exposição nos explica o que é brilho de superfície. com 20´o brilho de uma estrela de 8,5 magnitude é quase nada. depois do processamento ela revela alguns detalhes. É um belo objeto que para ser observado visualmente deve demandar céus muito escuros.  Depois do objeto fotografado e sabendo bem onde estava eu consegui suspeitar sua presença com a 17 mm. 
                Já ia tarde e minha cara metade queria atenção. Marte já alto no céu é um bom programa para "os não iniciados". O seeing não era essas coisas mas se percebiam algumas formações no planeta já próximo da oposição. Com a 10 mm e uma barlow 2X tive arroubos de Schiaparelli e achei que via canais escondidos na paisagem. Tempo de encerrar a função e beber uma cerveja.
                O Aglomerado de Coma- Virgo não é alvo facil. Sem duvida uma grande diversão para aqueles que os americanos chamam de "Deep Sky Die Hard". Algo como  " Fissurado em Céu Profundo".  Como no disse Harrington uma área de lazer para os mais experientes. Mesmo com telescópios maiores que o Newton achar detalhas na paisagem será um exercício de visão e experiência.
                O que pode ser melhor que isto?

P.S.  As fotos aqui apresentadas são fruto de um primeiro processamento realizado em Búzios. Por algum motivo o Deep Sky Stacker não quis funcionar por lá. Eu conseguia abrir os light frames mas ao tentar carregar os darks ele se fechava automaticamente. Desta forma recorri ao bom , velho e confiável Rot n´ Stack em combinação com o Fitswork para fazer o pós processamento. Já de volta ao Rio reinstalei o DSS e tudo voltou ao normal. Resolvi guardar estas para próximos posts e ainda são produto inacabado.
            Eu sei que preciso limpar o sensor da câmera...
               
                

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Ngc 2546: O Elefante Naif

     

           Ngc 2546 é um grande aglomerado aberto em Puppis. Mais uma descoberta original de Lacaille . Lac II.4 . Ou seja a quarta entrada de sua categoria II. Por isto entende-se que se trata de uma nebulosa somente para a vista desarmada e que se resolverá em pequenas estrelas com qualquer auxilio óptico. Como Lacaille utilizou lunetas 8X15 mm em seu levantamento dos céus austrais isto é muito verdade. E como disse Walton Welsh  todas as grandes verdades são simples ,se não são , não são verdade alguma.
            A descrição deixada por Lacaille demonstra claramente a natureza de sua classificação: " O que se vê a olho nu são dois confusos grupos de estrelas enevoadas ; mas com o telescópio eles são diversas pequenas estrelas distintas em grande numero e muito próximas."
            O Abbe é bem mais prolixo que na maioria de suas descrições ( ele é bem curto e grosso em sua descrições...) .
            É evidente a a capacidade visual de Lacaille era absurda. Perceber 2546 a olho nu mesmo em céus escuros é uma tarefa para olhos jovens e bem treinados. Com relação ao segundo grupo de estrelas é provável que ele se refira a um brilhante asterismo junto a Lambda Puppis. Este bem mais fácil de ser percebido. Ngc 2546 foi um dos últimos Objetos do catalogo que observei . Pois apesar de sua magnitude na casa de 6 ele habita um riquíssimo campo estelar e pela minha buscadora muitas vezes achei tratar-se apenas de um belo campo estelar em meio a Via Láctea. O Asterismo junto a Lambda ainda ajudava mais nisto. Por minha 10X50 me é duvidoso quem é o asterismo e quem é o DSO. Um daqueles casos que de tão a vista esta bem escondido.
            Para complicar ainda mais as coisas habita  a região o obscuro porém nem tanto aglomerado VdB-Ha 23.  Dunlop na entrada 563 de seu catalogo ( e que é aceita como sendo Ngc 2546)  nos fala em " um grande aglomerado de estrelas de magnitudes variadas , uma figura das mais extensas, não muito rico em fracas estrelas." Sua ultima frase leva a duvida se ele viu ou registrou Ngc 2546 ou VdB-Ha 23. Ngc 2456 é rico em estrela tênues. já VdB- Ha não. Mas é muto provável que ele tenha visto ambos já que seu poder de fogo era bem superior ao de Lacaille.
                   

            Para observar  Ngc 2546 localize  Naos (Zeta Puppis )e pesquisando a região ao redor com qualquer auxilio óptico você ira localizar sua vitima . Busque por  h1 é uma estrela de 4,5 magnitude e bem alaranjada que se encontra em seu caminho e servirá de marco para o starhoop. Lembre-se que Ngc 2546 será o ajuntamento evidente de estrelas na ocular . O mais chamativo na região com vários campos estelares interessantes.

            2546 é um aglomerado bem jovem como a maioria nesta região e tem cerca de 30 milhões de anos. Aceitando-se que sua distancia de nós é de 3.200 anos luz suas estrelas ocupam um latifúndio de quase 65 anos luz de Via Láctea.
Versão Rot n´Stack
            Um dos autores favoritos do Nuncius Australis adora realizar um exercício lúdico que também muito me atrai. Consiste em tentar descobrir padrões cotidianos para coisas além do nosso cotidiano. É assim batizar aglomerado (especialmente os abertos) com apelidos das coisa da Terra. O´Meara dá dois apelidos para Ngc 2546. "O Aglomerado do Coração Partido"  ( que nem ele consegue desenhar ) e o " Adaga e Coração " que lembra a clássica tatuagem de piratas com uma adaga cruzando um coração. Eu já vi seu desenho que apesar de bem bonito sofre do grave problema de as estrelas não estarem exatamente onde deveriam estar .
O Aglomerado do Elefante Naif . Reparem que ele ainda carrega uma pessoa montada.... 


            Eu em um esforço imaginativo sobre humano consegui ,no máximo, chegar a imagem de um Elefante estilo naif , mesmo assim desenhado por uma criança bem nova. Daí o apelido que dei ao aglomerado. "O Elefante Naif".  Confesso que não acho Ngc 2546 um dos mais atraentes aglomerados abertos do céus. Sua foto também foi realizada de forma meio estabanada.  Apesar disto acho que ele não merecia ser tão sacaneado.  Como disse Ibsen  " a beleza é um acordo entre o conteúdo e a forma".  

terça-feira, 19 de abril de 2016

Ngc 4833 : A Mosca, O Bode de Dunlop e a Bandeirada de Lacaille

                  

                     Quando me iniciei nas artes de ver o céu descobri uma figura histórica notável e que apesar de seu papel fundamental na construção do céu que paira sobre nossas cabeças ao sul  do equador  é praticamente desconhecida dos astrônomos amadores na Terra Brasillis.  Nicholas Louis de Lacaille , o Abbe Lacaille. Este cidadão não só criou toda uma família de constelações bem dentro do espirito de sua época ( todas possuem nome de instrumentos científicos) como deixou o planisfério que hoje utilizamos. Não bastando isto ele registrou as mais proeminentes nebulosas do céu austral.  Em seu " Sobre as Estrelas Nebulosas do Céu Austral" ( Sur les Étoiles Nébuleuses du Ciel Austral) de 1755 ele apresentou 45 nebulosas. Destas 38 ou 39 se revelaram verdadeiros DSO´s.  Todas estas entradas estão entre as maiores joias da coroa celestial austral.
                Já sabendo disto tudo e de posse de meu primeiro telescópio me dediquei primeiramente a observar todo o catalogo Lacaille. Pouco depois e já com alguma experiência achei que seria um bela escola registrar todos os "Objetos Lacaille" fotograficamente.
                Entre o inicio e o fim desta grata tarefa passaram-se cinco anos , dois telescópios ( O Galileu , um refrator de 70 mm e o Newton , um refletor de 150 mm) ,diversos binóculos e 3 cabeças equatoriais ( Eq1, Eq2-3 e HEQ5). Bem como duas câmeras DSLR ( Uma cânon 350D e uma T3 ) .
                Mas a fila tem que andar e finalmente venho falar sobre o ultimo dos Objetos Lacaille que faltava-me fotografar.  A grande novidade no front é que não falta mais nenhum.
                Ngc 4833 foi abatido na noite de 10 de abril de 2016.
                Localizado na pequena constelação de Musca este é um aglomerado globular bastante interessante. E de difícil acesso para habitantes ao norte do Equador.
                A constelação de Musca reside ao sul do Cruzeiro do Sul. Sua história remonta ao seculo XVI e faz parte de doze antigas constelações introduzidas nos céus pelos navegantes holandeses  Keyser e de Houtman  em seu caminho para as Índias Orientais.  Em seu catalogo de 1603 de Houtman a  constelação é chamada de "  De Vlieghe" ( Mosca).
                Bayer em seu clássico atlas Uranometria  chama a constelação de Apis , a abelha.
                Lacaille posteriormente chamou-a de Musca Australis em seu planisfério.  Houve um tempo em que existiu sua contrapartida, Musca Borealis ( um apêndice em Aries )... Mais tarde o nome foi encurtado para Musca.
                No caminho até Ngc 4833 não podemos deixar de perceber duas interessantes estrelas em Musca.  Beta Musca é uma interessante estrela dupla e que pode ser útil para se iniciar a navegação até nosso alvo em locais de forte poluição luminosa. trata-se de um sistema duplo bem interessante apesar do pouco contraste de cor entre suas estrelas . Serão divididos com quase qualquer auxilio óptico . Carregam ainda a curiosidade de serem estrelas "fugitivas". Passeiam pelo espaço em altíssima velocidade em comparação ao seu meio . Fazem parte da nossa já conhecida associação Centaurus - Scorpio. Seu período é de 194 anos ao redor de seu centro de gravidade...

                Agora já bem mais perto de 4833 e quase uma parada obrigatória esta Delta Musca.  Trata-se de uma dupla espectroscópica cuja a primaria é uma bela estrela alaranjada. É a estrela mais próxima da Terra na constelação. Ela se apresenta com uma companheira não relacionada na buscadora. LS Musca. Esta é uma variável. Ngc 4833 vai estar levemente ao norte. Em minha ocular 40 mm ambas se encontram no mesmo campo. É interessante retirar Delta do mesmo campo pois esta pode "disfarçar" o globular.
1X20 seg 6400 ASA

                Visualmente o globular é pouco mais que um esfuminho.  Sua estrela estrela mais brilhante arde com magnitude 12,4 e seu ramo horizontal em 15,5. Portanto resolvível em telescópios de médio porte. Em sua foto percebemos ele resolvido . Visualmente isto acontece parcialmente. Um grupo de estrelas mais brilhantes marca o centro do globular recordando de forma modesta M 4 em Scorpio. 
                Lacaille descobriu Ngc 4833 em 17 de março de 1752 e é a entrada Lac I.4. Ou seja: a quarta entrada da Categoria I. Nebulosas sem estrelas.  Sua descrição é como sempre sucinta e precisa: " Recorda um pequeno cometa. Tênue".  Em minha buscadora 10X50 mm é exatamente assim que o globular se apresenta. Lacaille possuía lunetas ainda menos potentes que isto.
                Ngc 4833 é a terceira entrada mais ao sul do catalogo Lacaille ( atrás apenas de Tuc 47 e de Ngc 2070 , a Nebulosa da Tarantula) . Seria de se imaginar que apenas os pesquisadores do céus austrais tivessem registrado sua existência .  Não me foi surpresa que Dunlop o tivesse incluído em seu catalogo. Mas que que em seu registro ele cite Bode foi , no minimo , inesperado: " (Musca 12 , Bode)  Esta é uma bela e arredondada nebulosa, com cerca de 4´de diâmetro, moderadamente condensada no centro. esta , com aumento da ampliação , tem a aparência de um globo de matéria nebulosa com estrelas bem pequenas na sua margem noroeste. Mas com poder suficiente para resolve-lo  a aparência globular desaparece e a mais brilhante e condensada parte é o lado oeste do centro com estrelas consideravelmente espalhadas do lado nordeste. resolvível em estrelas de magnitudes diversas. Uma nebulosa  a oeste (D 164)
                É interessante a inclusão do aglomerado como Musca 12 do catalogo de Bode. Pode ser que se refira a Delta Musca. O catalogo de nebulosas compilado por Bode em 1777 definitivamente não fala do Globular embora localize alguns objetos descobertos por Lacaille. Bode observou a vida toda de Berlim...
11X 20 seg 6400 ASA - Canon T3 Newton 150 mm HEQ5 pro - Percebe-se nitidamente a barra central e a estrela de 7 mag citada por Herschel- 2X Drizzle no Deeo Sky Stacker
                Como não poderia deixar de ser John Herschel em seu gigantesco levantamento do céu austral também deixa seu testemunho sobre nosso convidado:
                ”  Globular , brilhante , grande, redondo , gradualmente mais brilhante em direção ao centro . Estrelas de 14a magnitude e uma de 7a magnitude a noroeste do centro.; Interessante objeto ( h 3444)" 
                Como podemos perceber todos percebem a série de estrelas mais brilhantes a seu centro. Na verdade são um aglomerado de estrelas brihantes dentro do aglomerado que nos transmite esta impressão.
                Ngc 4833 é um aglomerado extremamente pobre em metais com  estrelas apresentando 1/60  da quantidade presente em nosso sol.  É evidentemente muito antigo sendo um daqueles objetos paradoxais quase mais velhos que o universo. Sua idade é calculada em 15 bilhões de anos. Sua distancia não é alvo de muitos conflitos  e todas as fontes nos falam em algo ao redor de 16.000 anos luz.
                Por uma daquela coincidência sem nada a ver com as leis fundamentais do universo mas por isto mesmo muito suspeitas foi o ultimo Lacaille fotografado por mim. Se não um nobre título pelo menos uma bandeira quadriculada...


               
               

                 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Centaurus A- Uma Quimera Cósmica

   

             Ngc 5128 é uma quimera cósmica. Uma galaxia que é um trio elétrico em qualquer região do espectro eletromagnético.  É a quinta  mais brilhante galaxia no espectro visível  , uma das mais intensas fontes de rádio  nos céus ( por isto Centaurus A) e brilha intensamente em raios X e Raios gamas.
                Seu aspecto visual já demonstra tratar-se de um ente especial no zoológico cósmico.  Descoberta por James Dunlop em 1826 é a quita galaxia mais brilhante dos céus. Me é um mistério que Lacaille não a tenha localizado em seu levantamento dos céus austrais. Ela pertence ao chamado grupo M 83 ( descoberta de Lacaille)  e é visualmente muito mais facilmente percebida que a mesma.  
                A verdadeira natureza de 5128 foi alvo de centenas de anos de discussão e ainda dá pano para a manga.
                "Dunlop nos deixou uma longa descrição da mesma:  " Uma nebulosa dupla , cerca de 2 1/2 ´ de comprimento , e 1´de largura , um pouco desigual: existe uma pequena e brilhante estrela na extremidade sul na mais  ao sul das duas , relembrando um núcleo brilhante: a nébula menor e mais ao norte é tênue no centro e possui a aparência de uma condensação de matéria nebulosa em cada extremidade. Estas duas nebulosas são completamente distintas uma da outra e nenhuma conexão da matéria nebulosa entre entre elas. Ha uma muito discreta estrela no espaço escuro entre as duas extremidades da nébula  que se estende em paralelo ao equador próximo."
                O equipamento utilizado por Dunlop era rudimentar. Posteriormente John Herschel ao inspecionar a nebulosa nos apresenta um paisagem semelhante porém menos confusa que  a de seu descobridor: " Um dos mais maravilhosos objetos , uma nebulosa muito brilhante , bem grande , levemente alongada , gradualmente mais brilhante em direção  ao centro em uma figura elíptica , cortada ao meio com um corte bem definido com 40´sec de largura ( a faixa escura...) As bordas internas possuem um brilho como da lua tocando o exterior  em transparência.”
                Em uma observação posterior  ele chamou Ngc 5128 d de " um objeto problemático que deveria ser registrado em uma categoria a parte já que evidentemente difere de uma mera " nebulosa dupla" não devido apenas a singular relação entre as suas duas metades mas também devido a intervenção delicada de correntes da matéria escura  entre elas.
                Na verdade Herschel assim como seu pai acreditavam que tudo no universo era composto de estrelas. Desta forma a matéria escura percebida em diversas nebulosas era uma pedra no sapato da hipótese nebular que abraçavam. Acreditavam ser estas sistemas planetários em formação...  Com o avançar da ciência e com novas ferramentas ( especialmente a fotografia)  estas nebulosas permeadas por matéria escura  , em especial as nebulosas espirais , acabaram levando a um grande passo para a compreensão e expansão do universo . E passaram a ser chamadas de galaxias espirais e as faixas escuras foram compreendidas como faixas de poeira nestas.  Fotos feitas por E.E. Barnard  da galaxia de Andrômeda em 1890 foram um marco nesta transição.
                Recentemente li uma definição de hipótese de um pensador anonimo  que se não verdadeira pelo menos curiosa me chamou a atenção:
" Uma hipótese é uma coisa que não é , mas que a gente faz conta que é , para ver como seria se ela fosse" .  
                Posteriormente achei uma pérola de Conan Doyle nos dizendo o seguinte: Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que pareça , só pode ser a verdade.
                Com isto na cabeça e sabendo que até Hubble se enrolou sobre a natureza de 5128 (Ele a classificou como uma nebulosa local e chamou a mesma de objeto patológico )parti em busca da verdade.  E como sabemos a verdade é filha do tempo e não da autoridade. Desta forma a hipótese mais aceita sobre Ngc 5128 é posterior ao Hubble ser lançado ao espaço  e diz  que nossa quimera é resultado da colisão de uma grande galaxia elíptica que colidiu e se integrou com uma galaxia espiral menor e rica em poeira.  O buraco negro estaria agora consumindo a galaxia menor e o processo de digestão deve durar algo como algumas centenas de milhões de anos.
                Hoje sabemos que este tipo de encontros podem levar ao que chamamos de Galáxias Seyferts , um subgrupo das chamadas Galaxias de Núcleos Ativos ( AGN´s).
                 Ngc 5128 é a mais   brilhante  galaxia Seyfert e também a mais próxima Radio galaxia .
                Sabemos que o centro de nossa convidada possui um gigantesco buraco negro com uma massa equivalente a 55 milhões de massas solares. Provavelmente fruto do encontro seguido de canibalismo entre as duas galaxias já citadas. Este emite jatos relativísticos que são responsáveis pelas emissões nos comprimentos de Raio X e de Radio. Medições destes jatos separadas por mais de uma década demonstraram que a parte mais interior destes jatos viaja a cerca da metade da velocidade da Luz. e suas dimensões são imensas mesmo em se tratando de distancias cósmicas. Os jatos de raio X de Centaurus A  tem milhares de anos luz de extensão e seus jatos de radio possuem mais de 1 milhão de anos luz.
                A distancia de Centaurus A ( O nome de guerra de Ngc 5128 ) é alvo de controvérsia mas sendo ela membro do grupo de M 83 a distancia mais aceita e provável é de 15 milhões de anos luz.  Assim ela se espalharia por 75 mil anos- luz.
                A colisão que nos levou ao caótico aspecto de Cen A é também responsável por intensa formação estelar . Incluindo aí raros aglomerados globulares jovens. Em fotos realizados pelo Hubble foram identificados 21 globulares típicos. Metade membros do conselho de anciões do universo. Porém com a colisão surgiram outra que habitam a infância quando falamos em Globulares . A colisão ocorreu entre 160 e 500 milhões de anos atrás.

                Localizar Ngc 5128 é uma tarefa relativamente simples. Partindo de Omega Centauro (este mesmo um outro gigante ) siga rumo ao norte pela sua buscadora. Ou escaneie a região com um binoculo antes de partir par o telescópio.  Ela vai se apresentar mesmo em buscadoras 7X30. Em meu 10X50 mm é um alvo fácil e se percebe de forma discreta  as faixas de poeira.
                A primeira vez que observei Cen A em alto estilo foi  na Serrinha do Alambari. Uma area rural de céu bem escuro e a cerca de 1000 metros de altitude. Utilizando o Newton ( um refletor  150 mm f8) e com auxilio de uma montagem com Go-to foi alvo bastante fácil. Mesmo com a cabeça um pouco errática o alvo foi fácil. Com uma ocular de 40 mm percebi seu brilho ainda que fora de quadro. Em leve ajuste e ela estava centralizada. Ao contrario da maioria das galaxias Cen A não é tímida e apresenta diversas característica com visão direta. As faixas de poeira e seu brilhante núcleo são evidentes com todas as combinações de ocular que utilizei . Com 30 X ela se apresenta na integra e se percebe um belo campo ao seu redor. Já com 120 X você começa  a perceber a delicadeza das faixas de poeira e que me fizeram entender como era rudimentar o equipamento de Dunlop . Meu 150 mm com 240 X não me transmitiam a impressão de uma nebulosa dupla . E percebia claramente o núcleo brilhante da galaxia por entre estas faixas. Dunlop possuía um telescópio com refletor com 230 mm e com 2700 mm de DF. Com um espelho de Specullum ele deveria se comportar de forma semelhante  a  meu moderno Newton 150 mm f8. Ambos com magnitude limite ao redor de 13.  
                 Em um exercicio mais da imaginação que de astrofísica eu consigo encontrar semelhanças com M 104. A galaxia do Sombreiro. Consigo imaginar que em algumas centenas de milhões de anos que aquela faixa de poeira circulando ao redor do imenso buraco negro ao centro do conjunto acabe assentando , o núcleo ativo esteja fazendo uma sesta depois do festim  e que o confuso quadro atual acabe chegando a "um esquadro mais no esquadro" o que  nos levaria  não a  uma sósia do Sombreiro mas poderia vir a ser conhecida por astrônomos de um longínquo futuro como   Chapéu de Jangadeiro ( supondo que existam ainda jangadas e chapéus de palha neste futuro distante) .  Nesta hipótese a gente faz de conta que evolução galáctica pode seguir um caminho escrito entre o Panamá e Fortaleza...
                Depois de observar longamente Ngc 5128 pude perceber que a mesma é uma vedete muito oferecida e assim não pude deixar de realizar diversas fotos da mesma.
                O Equipamento utilizado foi uma Canon T3 montada em foco direto sobre o Newton. foram realizadas.31 exposições entre 3200 e 6400 ASA com exposições entre 25 e 20 segundos de exposição. 

processado no Rn´S e no Fitswork + PS CS5

DSS

DSS

1 X 25 seg ASA 6400


                Com as fotos me parece mais fácil perceber sua natureza galáctica e suas estruturas mais marcantes de forma bem evidente. Sempre me lembro disto quando comparo minha percepção com a dos descobridores destes objetos . Estes só possuíam sua visão e talento artístico para registrar detalhes muitas vezes sutis. E claro que se viam presos ao espectro visível da coisa. Entender a natureza dos entes cósmicos ficou bem mais fácil com o advento da radio astronomia ... E Ngc 5128 é antes de mais nada uma Radio Galaxia . Centaurus A.
                Ngc 5128 demonstra  , que como disse Ibsen, a beleza é um acordo entre o conteúdo e a forma.

                

quarta-feira, 13 de abril de 2016

M 83: A Galáxia do Catavento Austral

         

               M 83 é considerada uma das maiores atrações do céu Austral. Conhecida como a "Galáxia do Catavento do Sul" é um dos alvos mais tradicionais em quase todos os guia observacionais . Foi a primeira galaxia observada além do grupo local. Anteriormente se conheciam M 31 e M 33.  ( As Nuvens de Magalhães  também. Mas apesar de galaxias, devido a sua  quilometragem, são de outra casta.) .

A foto que abre o Post foi realizada anos depois. Foi resultado de muito mais exposições e de um tratamento muito mais elaborado no processamento. de qualquer forma foi feita em céus tão ou mais escuros que esta. céus escuros são fundamentais para o registro de galaxias . 
                Foi uma descoberta de Lacaille e considero o feito um dos maiores da astronomia observacional. Lacaille possuía lunetas mais modesta que minha buscadora (10X50 mm) . Passei cinco anos de minha vida aprendendo a observar   DSO´s ( uma sigla e um  anglicismo para Objetos de Céu Profundo . Deep Sky Objects...).e posteriormente a realizar modestos registros fotográficos  destes. Por uma daquelas coincidências que tratam das coisas do universo mas nada tem a ver com suas leis fundamentais acabei decidindo que observar e registrar o Catalogo Lacaille seriam um bom começo. Provavelmente devido a razões cronológicas e geográficas. O Catalogo Lacaille foi o maior registro de Nebulosas até o meio do Seculo XVII ( 1752 ele sai da Cidade do Cabo...) e foi realizado pelo homem que criou o planisfério hoje adotado para o Céu Austral. Criou constelações e desmembrou a maior constelação do céu. Argos.
                Foi ele que descobriu e registrou pela primeira vez a posição de M83.  e como falei me custaram 5 anos para observar e fotografar M 83. O nome M83 vem do segundo homem a registrar a galaxia. Messier é o autor do mais clássico Catalogo de Nebulosas.
                Apesar de cantada em prosa e verso por autores mais modernos localizar , observar e perceber detalhes em M 83 com telescópios amadores é uma considerável realização.
                Diversas observações e descrições históricas comprovam isto.
                Lacaille operando milagre nos deixa a seguinte descrição.: " Nébula sem forma." . Sempre muito conciso.( 23 de fevereiro de 1752)
                Messier nos dá uma idéia mais clara do desafio que é observar M 83  visualmente e do grande feito de Lacaille com uma luneta de 7X 30 mm. :  " Fevereiro  17, 1781 -Nebulosa sem estrelas próxima a cabeça de Centaurus; surge como um fraco e homogêneo brilho,mas é difícil de se ver ao telescópio , tanto que qualquer luz a iluminar os fio dos micrometro a fazem desaparecer. Alguém só e capaz de vê-la com a máxima concentração: forma um triangulo com duas estrelas com magnitude estimada de 6a e 7a. Sua posição foi determinada a partir das estrela i , k e h da cabeça de Centaurus. M. de la Caille já havia determinado sua posição.
                A descrição de Messier comprova o feito de Lacaille. E creio que sua descrição é uma das mais expressivas para o observador amador que luta contra céus poluídos.
                Dunlop durante seu levantamento em Paramatta , Nova Galês do Sul na Austrália e em 1827 tem uma percepção bastante completa e curiosa da mesma: " 185 Centauri ( Bode) é uma muito bela nebulosa arrendondada com um um núcleo ou disco planetário  brilhante  ebem definido , com 7´´ ou 8´´ de diâmetro, cercado por um atmosfera luminosa ou "chevelure" ( cabeleira) com com 6´de diâmetro. A matéria nebulosa é levemente mais brilhante em direção as bordas do disco planetário, mas muito pouco. Eu posso ver diversos pontos minúsculos ou estrelas na cabeleira, mas não considero eles indicação de que seja resolvível, embora não tenha duvidas de ser composta de estrelas. 5 observações."
                John Herschel também a observou e a chamou de Bode 185. É evidente que Bode a inclui em seu catalogo. Porém é curioso que na copia que obtive deste ela habite a entrada de numero 15.. Bode 15...
                Herschel  pai ( William) também a observou. A considerou uma estrela nebulosa.
                Lassel percebe sua estrutura espiral e percebeu três braços . Deixou-nos um rustico desenho.
M83 é o terceiro desenho de cima para baixo e do lado esquerdo da imagem.( Lassel)

                Autores contemporâneos tem uma visão bem mais otimista de como M 83 é observada .
                O sempre otimista e talvez  ciborgue O´Meara,em seu "Deep Sky Companions ; The Messiere Objects"  no diz o seguinte: " Em meu local de observação M 83 é uma forte condensação no meu 4 polegadas ( um Televue...) com pouco aumento. , fácil em binóculos , no limite da visibilidade a olho nu."
                Perceber M83 a olho nu é uma tarefa ingrata para Steve Austin , o homem de 6 milhões de dólares. O´Meara observa de um sitio a quase 3000 metros de altitude na encosta do vulcão  onde habita o Keck telescope. Escuro pacas... Mas já mordi a língua duvidando dele ( Ngc 6124).
                M 83 é considerada uma galaxia intermediaria, algo entre uma espiral clássica "Grand Design"  e uma barrada.  Vaucouleuers a classificou com SAB c. Sua intricada um pouco distorcida  estrutura espiral pode ser atribuída a interação ou colisão causadora de marés  com a modesta e elíptica galaxia Ngc 5253.  M 83 é a feliz proprietária de seu próprio grupo galáctico no qual esta incluída Centaurus A ( Ngc 5138) .  Em exposições longas e de grandes telescópios se percebe nós azulados e avermelhados ao longo de toda a galaxia. São regiões de estrelas jovens (azuis) e avermelhadas ( nebulosas onde esta havendo criação de estrelas).  M 83 ainda foi a galaxia que carregou  o título de maior possuidora de supernovas registradas em período histórico. ¨no total sendo a mai brilhante em 1968 com magnitude 11. foi descoberta por um amador (John Bennet)  na Africa do Sul. Berço do Catalogo Lacaille.

                Phill Harrington é mais modesto. Nos diz que M 83 é um alvo viável para quase qualquer binoculo e que esta pode se tonar um alvo favorito para quem usa os dois olhos. O campo ao redor faz bela composição.  E propõe um star hooping saindo de Spica ( Alpha Virgo) ,passando por Gama Hydra e seguindo por obscuras estrelas fracas que podem vir a formar um padrão de ponta de flecha.  Nada a ver...

                É um caminho improvável para habitantes de latitudes austrais. Nosso caminho obvio e nem tão longo começa em Iota Cen e segue pelas estrelas i,k e h usadas por Messier para determinar a posição de M 83.   Segundo o Harrington localizar M 83 é possui um "finding factor " de  três estrelas. A escala vai até 5 sendo cinco trabalho mediúnico...
               
                Ha anos estabeleci  como objetivo observar e fotografar o Catalogo Lacaille. M83 foi o ultimo dos objetos que consegui observar e o penúltimo a ser fotografado.  Depois de varias tentativas frustradas e afins decidi acabar com a partida. M 83 era o ultimo passo da trilha. Atitudes foram tomadas e me despenquei com toda a parafernália  e mais a família em busca de céus escuro.  Lua nova na Serrinha.
                Depois de alguns percalços chega o momento do ataque. Achar M 83. Sem purismos mas nem por isto tão fácil ( nada é fácil em astrofotografia) uso uma cabeça equatorial com "go-to" HEQ 5 pro. Ainda que meio desequilibrada devido a um vacilo meu ela torna as coisas  bem mais fáceis que realizar um Star Hooping em busca de uma assombração . M 83 tem uma magnitude anunciada de 7.3 ( ha registros mais antigos e mais ao norte que falam em 10) mas apresenta um baixo valor de brilho de superfície. É como se o brilho de uma estrela de 7 mag se espalha-se por uma área de  maior que a lua cheia. ( 1102 min).
                Com a vitima supostamente dentro do campo de visão da buscadora ( a cabeça esta operando em modo de segurança...) eu tento escanear a região com minha 25 mm. Sei que o método não é eficiente mas as vezes a Dona Fortuna colabora e o alvo aparece em meio ao passeio.   Não desta vez. Assim acho que acreditar que o go-to tem precisão na casa de 5o  é uma boa ideia. Me lembro que Lacaille localizou M 83 com muito menos poder de fogo que minha buscadora. Utilizando todos os truques que conheço ( respirar fundo, piscar, , bater na buscadora e etc...) acabo percebendo quase nada. Algo entre uma estrela muito fraca e nada...
                Centralizo "a quase nada" na buscadora.
                Com concentração "shaolin" percebo apenas um estrela levemente cabeluda.A foto abaixo é uma única exposição de 20 seg. com ASA 3200.  É por isto que você procura inicialmente.

                Vou insistindo e com visão periférica percebo uma condensação muito fraca levemente oval. Conforme vou insistindo ( sempre com visão periférica ) a coisa vai se tornando mais elaborada. Com alguma boa vontade , tempo e muita visão periférica percebo com o rabo de olho quase isto...
                         

  No fim de tudo  acredito ter percebido a estrutura barrada de M 83. E uma suspeita do terceiro braço. A foto abaixo revela bem ele mas as custas de muito ruído.
                          

                        Para realizar as fotos acima tive que primeiro fotografar a moça.
                 Começa o jogo.  Com tudo preparado instalo a câmera e busco garantir que algo seja exposto de forma aceitável . Assim com  ASA bem alta (6400) e apostando em  exposições  mais curtas para garantir que o acompanhamento seja no minimo razoável dou a saída.  
                Vejo a primeira foto. Percebo que algo foi registrado no entorno do núcleo que agora é bem evidente.  Faço mais algumas dezenas de fotos. Depois disto realizo a mesma operação com a ASA um pouco mais baixa. 3200. Gostaria de trabalhar em 1600. Mas o tempo urge e não sei quando vou poder voltar a céus tão bons. Ainda quero fichar mais elementos na noite...


                M 83 é um alvo visual difícil. Requer varias estratégias e batalhas. Suas fotos não foram diferentes.

                Com dezenas de fotos entre 3200 ASA e 6400 ASA eu imagino utilizar o Deep Sky Stacker para empilhar uns e outros separadamente  e ver o melhor resultado. Mas ambos os casos acabam em um de meus desastres binários e não tem nenhum valor. 

desastre binário



                Começo a me preocupar . Mas ha mais coisas e  aterra e o ar que os aviões de carreira , como dizia o Barão de Itararé.  Me restam o fitswork e o rustico Rot n´Stack.

                "Verás que um filho teu não foge a luta  e o conjunto fez as fotos que o DSS renegou". Com mais auxilio do Photo Shop achei até bom os resultados.  As imagens abaixo revelam detalhes  muito além do que percebi em todas as combinações oculares tentadas.
favorita...
                As outra fotos são resultados de diferentes processamentos.
Esta foto é uma miniatura da foto que abre o post . Foi  feita naos depois em Lumiar. É resultado de 2 drizzle no DSS e foi "esticada" no PixInsight 1.8 e no Photoshop. Foram 10 exposições de 10 segundos + 5 darks e 5 flats. 








                           








Pop Art

                Pretendo um dia fazer varias horas de exposição em M 83. É evidentemente uma  bela e tímida musa...