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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Astrofotos , Umidade e a Morte de uma Câmera


           Não temos tempo a perder.
Férias de minha “cara metade”.
O plano inicial seria Floripa. Mas o “decorrer” e a previsão de um verão muito chuvoso nos levou até Trindade (R.J.).
Eu passara quase um mês nesta pequena vila, cerca de dois anos atrás, realizando um filme sobre a expedição de Villegagnon e uma França dita Antártida.

Me lembrava  claramente do céu.
As Nuvens de Magalhães eram nuvens mesmo.
E me  lembrava, ou me esqueci, de mais muito pouco...
Como se trata das férias da “cara metade” e ,como já expliquei , seu amor caminha na proporção inversa ao tamanho do telescópio que nos acompanha vou levar o “Pau de Dar em Doido”. É o carinhoso apelido que o Celestron Sky Master 15X70 ganhou. A razão é bem obvia: ele “guenta” a porrada. Parceiro de varias bebedeiras e viagens ele continua colimado.
Tinha planos elaborados. Todos deram “bem errado”.
Tirar fotos seria uma missão obvia. Mas vamos ser minimalistas desta vez.
Comprei um tripé “tabajara”. Lembre-se que os custos do “hobby” devem ser mantidos baixos
E levo meu outro “pau de dar em doido” (uma lente Canon 70-300) junto com a câmera (350D). .  Pensei em fazer algo assim...

Finalmente visitei o 7 timer. É um bom programa “meteorologista”.
Meteorologia é uma ciência. Mas nem tão exata. Parece que tem algo haver com borboletas e bater de asas.
Os prospectos eram cinza.
“Surfista das antigas” vou levar o “pranchão” no lugar do caixão de Newton”.
Trindade é uma pequena vila situada no extremo “sul” do estado do Rio. E local de boas ondas.
O Rio de Janeiro é um estado “fora do esquadro” no litoral brasileiro. E assim quando se fala “ao sul" poderia se falar “a oeste”... Ao “olhar para o mar” você não olha para África. Seu rumo mais próximo seria as ilhas Falklands. Este um território muito a sul e de pátria discutível...
Finalmente chegamos a nosso destino e depois de algumas aventuras nos instalamos em um belo chalé encravado no meio de uma das maiores reservas de mata atlântica do mundo. Resta muito pouco... Mas ainda mostra quão foi enorme... (Este texto, talvez, devesse ter sido  escrito entre aspas e ter somente um três pontos no fim...).
A Mata Atlântica é classificada como uma “rain forest" em diversos textos clássicos sobre sistemas ecológicos. Eu estudei no ODUM. E um dos locais que mais chove do mundo. Eu aprendi um novo parâmetro. Se chama umidade.
Meu computador rapidamente sofreu um choque. E desta forma o teclado enlouqueceu.
Uma espécie de crise “linguística”. Depois de ligado alguns minutos ele deixava de ser gago...
Umidade é uma praga. E nesta região ela atinge proporções momescas.
O computador é a primeira vitima e com o teclado errático eu me consolo que pelo menos o Stellarium ainda funciona.
Mas observar que é bom parecia um sonho distante.
Os dias amanheciam nublados e o sol só mostrava sua cara depois de 9 ou 10:00 da manhã. Só para começar a chover as 15h00min.
Mas como acordávamos cedo podíamos aproveitar bem o dia.
Desta forma descubro que a umidade agora começa a atacar a minha querida lente 70-300 mm. Percebo que minha “cara metade” fez uma serie de fotos onde um curioso efeito se abate sobre as imagens. E como se ela fotografa-se através de uma folha de papel vegetal.
Olho para lente e percebo uma condensação em uma das superfícies óticas dentro da lente. Nada que eu pudesse utilizar um “cleaning tissue” e seca-la. Em um ato desesperado coloco a lente para secar ao sol.  Funciona.  A lente se recupera.
Pardais , Bem-te-vis, Quero-Queros e Beija-flores 
E na ausência de estrelas me conformo em fotografar alguns pássaros. Não que eu entenda de pássaros ou passarinhos. Mas admito que adoro desafios. E fotografar pássaros é um pouco mais fácil que fotografar DSO´s. Mas é bem mais difícil que naturezas mortas... E desta forma vou aprendendo a identificar algumas espécies.
Depois de um dia em que tudo corria bem voltamos para o nosso belo chalé e para sua equipada cozinha. Modestamente fiz um spaghetti com camarão que ficou uma beleza. Acompanhado de duas garrafas de Santa Helena Sauvignon Blanc.
E como que por milagre o tempo abre.
Pego o binóculo e faço uma rápida sessão de observação com o “Pau de Dar em Doido”.
De novo a umidade. Tudo esta molhado e deitar no chão não é uma opção. Mas mesmo assim faço um belo tour por Orion. Isto tendo que driblar o dossel da mata que cerca nosso chalé. De qualquer maneira consigo belas visões do cinturão e dos já habituais passageiros da região. Assim M42, 43, Ngc 1981 e outros aglomerados abertos se revelam. O cinturão de Orion, do qual as Três Marias são os membros mais famosos, é um imenso aglomerado de estrelas que passeiam juntas pela via láctea. E este mega aglomerado responde pela entrada de numero 70 do catalogo Collinder (Cr 70).
O céu da região é escuro mesmo e M78 é um alvo fácil. Percebo alguma nebulosidade junto Alnitak. Embora longe das imagens fotográficas que tornaram famosa a região eu consigo (com o uso de visão periférica) perceber a existência de Ngc 2024, a Nebulosa da Chama. E mais incrível ainda percebo ou pressinto IC 434. Esta é a nebulosa brilhante por sobre a qual B 33 (a famosa Nebulosa Cabeça de Cavalo) se apresenta.  Mas ao contrario de Phill Harrington, que já observou a Horsehead com binóculos, eu não consigo perceber nada além de um leve brilho contra um céu muito negro. Algo mais para o sentimento que para a visão...
Aproveitando que o céu para o sul era mais desobstruído continuei o passeio rumo ao Cão Maior. E por lá começo por onde sempre começo: M41. O Aglomerado aberto se resolve parcialmente e percebo algo como uma dezena de estrelas.  No coração do aglomerado se esconde uma estrela vermelha que é a marca registrada de M41.  Responde pelo belo nome de TYC 5961-3331-1 ou ainda HIP32406. Dependendo do que você consultar: Stellarium ou Skychart.
Depois tento perceber o Aglomerado de Tau Canis. Mas com apenas 15X a estrela que o batiza rouba a cena e não percebo mais nenhum de seus membros.
Seguindo a maré passeio pelos grandes aglomerado do catalogo Collinder que habitam a cauda do Cão.   Cr 121,132 e 140 se sucedem em uma rápida escaneada.  Todos com 1º ou mais de tamanho são alvos binoculares por excelência.
Depois coloco M47 e M46 no mesmo campo e enquanto M 47 se resolve M46 é apenas uma tênue condensação. Formam um par interessante com suas evidentes diferenças.
Depois disto vem M93. Algumas estrelas "flicam” neste aglomerado que apresenta uma forma de cunha e que não chega a se resolver.
Depois localizo Ngc 2477 e 2451. Assim como M47 e M46 ambos cabem dentro do mesmo campo e formam uma linda paisagem celestial.
O bom de se observar com binóculo é que você otimiza seu tempo. Se você conhecer a região que esta observando é possível localizar diversos alvos interessantes em muito pouco tempo.
Depois deste passeio acho que chegou o momento de fazer algumas fotos.
Mas aí a umidade...
A câmera se recusa a ligar. Troco bateria e nada.   Tento utilizar um secador de cabelos e nada.
A minha velha 350 D morreu. A umidade foi demais para ela.
Fico desolado. Adorava minha velha DSLR. Mas até o momento que escrevo estas linhas ela ainda não ressuscitou. E não sei se vai.  Como é uma câmera velha e que comprei usada eu creio que se o custo de consertá-la passar de R$ 100,00 ela será dada como perdida em ação. Estou pesquisando uma nova câmera que irá substituir a Rebel junto ao telescópio e também em serviços gerais.


De qualquer forma a minha tão cara Rebel tem uma bela lista de serviços prestados.
E como a expedição Trindade foi um fiasco fotográfico (pelo menos no campo astronômico) apresento alguns dos melhores e piores momentos de minha câmera. Uma espécie de testamento...

Astrofotografia é algo que eu nunca vou terminar de aprender. Mas a 350D foi uma grande companheira neste começo de jornada.








Não poderia deixar de terminar este post com uma nota póstuma.

R.I.P. 350 D.

P.S. A umidade é um mal que deve ser combatido. Pacotes de Sílica gel ou mesmo naftalina devem acompanhar seus equipamentos eletrônico e óticos onde quer que você vá. Um desumidificador é uma opção mais cara, mas muito eficiente...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Ngc 2298-Um Globular a Caminho da Destruição


           
           Embora a temporada mais indicada para caça de aglomerados globulares seja o inverno, quando o centro galáctico vai alto no céu, existem alguns renegados que se aventuram muito alem de suas fronteiras. Um destes renegados fez seu ninho atrás dos belos campos estelares de Puppis.
            Ngc 2298, um solitário, foi descoberto em 30 de maio de 1826, por James Dunlop. Localizado há aproximadamente 35.000 anos luz da terra ele percorre uma orbita elíptica bem acentuada que o leva, em seu caminho, há meros 6.500 anos luz do centro da galáxia em um momento para alguns milhões de anos depois leva-lo há quase 50.000 anos luz do mesmo centro... Sua orbita completa aconteceria a cada 304 milhões de anos. 
            Um recente estudo (2008) baseados em informações coletadas pelo Hubble Space Telescope sugere que Ngc 2298 esta perdendo massa em taxa muito acima do esperado para um globular tão distante do centro galáctico .
Globulares em regiões remotas supostamente devem apresentar uma abundancia de estrelas de baixa massa maior que aqueles que se apresentam junto ao centro da galáxia (e que se apresentam no céus em noites mais frias aqui pelo hemisfério sul...). Mas o nosso cavaleiro solitário não o faz.  O estudo conclui que o aglomerado esta perdendo massa em um ritmo muito acima do esperado. Na verdade, como diz o titulo do estudo, Ngc 2298 seria um Aglomerado Globular a caminho do desagrega mento. ( G.de Marchi eL.Pulone, “ Ngc 2298 ; A globular Cluster on its way to disruption” Astronomyand Astrophysics , Vol. 467.)
            Mas não se desespere. Você tem ainda alguns milhões de anos para localiza-lo

            Este interessante e modesto aglomerado aberto é composto por Pi, uma dupla composta por v¹ e v² Puppis e uma solitária estrela de 5ª magnitude ao norte. Elas dão o formato típico de uma ponta de flecha ao grupo. Com o esta estrela centrada na buscadora se dirija pouco menos de um campo (4º) em direção a oeste até localizar um pequeno triangulo composto por três estrelas de 6ª e 7ª magnitude. Coloque sua maior ocular (25 mm). Ngc2298 vai estar a um pouco mais de 1º a oeste – sudoeste do triangulo. Bem próximo de uma estrela de 8ª magnitude que será obvia na buscadora.

            Observa-lo com meu 150 mm foi difícil. Requer visão periférica e paciência. Não se resolveu. É um belo desafio para telescópios deste porte. Telescópios de 200 mm terão uma visão mais clara do mesmo e talvez resolvam umas poucas estrelas em sua borda.  Meu binóculo de 15X70 não viu nada na posição.
         O Globular não brilha acima da magnitude 9,5 e nenhuma das suas  estrelas brilha acima de 13,5ª magnitude.
            Espere por uma noite clara e sem nenhuma lua. Este é um alvo para os austrais. Não imagino alguém vendo este bruto com Puppis indo baixa no horizonte Sul.
            Espere Pi Puppis estar perto do meridiano para iniciar as buscas , estude bem o mapa  e boa sorte... 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ngc 2362- "The Mexican Jumping Star"

15 exp. 15seg Canon 350 d Newton 150mm F8 


Ngc 2362 ou o aglomerado de Tau Canis Majoris é um aglomerado aberto muito interessante.
Este ainda responde pelo apelido de “The Mexican Jumping Star”.  Não me perguntem o porquê.
Apesar de tudo isto ele é ofuscado por M 41. Quando se pensa em Cão Maior o objeto Messier é sempre o primeiro DSO a ser lembrado. Não chega a ser uma injustiça. Mas é, no mínimo, uma boa chance de se ficar calado. Eu particularmente acho 2362 muito mais charmoso e original que seu companheiro de constelação.
Talvez por sua estrela principal ser tão brilhante e esconder seus atrativos com baixas magnificações.
Enquanto M 41 revela sua natureza facilmente em qualquer buscadora Ngc 2362 se apresenta disfarçada de estrela. Alias uma estrela bem brilhante.

Recentemente resolvi fotografar 2362 e rapidamente realizei o fato. Partindo de Wezen (Delta CMj) eu imaginei que seria fácil localizar o aglomerado. E é. Tão fácil que demorei a realizar quem era a peça. Eu já o tinha visitado anteriormente e tivera o mesmo problema. Mas esqueci. A primeira vez a gente esquece...  
Imaginando que perceberia alguma nebulosidade, que denunciam aglomerados abertos, não vi nada. Depois de consultar o Sky Atlas2000 (adoro observar sem usar o computador e adoro mais ainda o meu Sky Atlas)tive certeza que o mesmo se encontrava no campo. E se encontrava. Era a estrela mais brilhante. Em um campo muito rico.
Um campo rico...

 Incrédulo me dirigi para ela e ao olhar pela ocular vi o que queria ver . Usando a 25 mm eu tinha 48X de aumento. Foi mais que suficiente. Ela se resolveu em um aglomerado bem condensado ao redor de uma estrela brilhante e cheia de spikes...
Seu formato remete a um globular. Mas sua natureza é obviamente outra.
Me recordo do catalogo Collinder, onde os aglomerados são classificados por tipo. Eu usaria 2362 como um dos tipos. Embora o mesmo seja classificado no mesmo como do tipo μ Norma eu acho ele muito mais representativo. Na verdade não localizei nenhum aglomerado relacionado a μ Norma.
O aglomerado foi descoberto por Hodierna e apresentado em seu catalogo publicado em 1654. Mas como este mesmo catalogo só foi redescoberto nos anos de 1980 ele foi achado novamente por Herschel (pai) em 4 de março de 1783. È a segunda descoberta de Herschel. No mínimo uma honra. Este posteriormente o catalogou como H VII. 17 baseado em suas medidas realizadas em 6 de março de 1785.
O aglomerado possui cerca de 60 estrelas e é bem jovem. Ao redor de 25 milhões de anos. Tão jovem que é ainda associado à nebulosidade que lhe deu origem.  Burnham destaca que apesar de ser associado a uma nebulosa (membro do catalogo Sharpless) o mesmo não se encontra envolto pela mesma. Provavelmente devido aos ferozes ventos estelares criados por suas estrelas, em especial Tau Canis Majoris.
Tau é uma estrela do tipo O8. Uma super gigante. Ela é o membro mais brilhante de um sistema binário espectroscópico e brilha com magnitude de 4.3. Ha um paper que alega que existem pelo menos cinco membros observaveis neste sistema e que no mesmo existem as duas estrelas do Tipo O mais proximas conhecidas (o par espectroscópico) . Uma orbitaria a outra em menos de 2 dias. Estas estrelas se apresentam, em um exercício de imaginação, com a forma de "dois ovos" A massa do sistema esta por volta de 40 a 50 massas solares. Se a estrela (Tau Canis Majoris) for, de fato (tudo indica que é), membro do aglomerado que se encontra a 5000 anos luz ela será uma das super gigantes mais brilhantes conhecidas. Magnitude absoluta de -7. Uma luminosidade equivalente a 50.000 sóis.
Como Tau é uma estrela tão brilhante pelo menos um membro do aglomerado é visível a olho nu. E assim o aglomerado se faz um excelente alvo para fotografia. O foco se faz fácil. Basta fazer de Tau um ponto. 
Gostaria de destacar que 2362 é um alvo interessante para qualquer telescópio. Como um alvo binocular é mais sem graça. Com meu 10x50 é uma estrela brilhante. Com o meu 15X70 percebe-se que não é bem assim. Mas não chega a ser um “showpiece”.
 Com meu 70 mm ele vira gente grande.  No 150 mm ele resiste a grandes ampliações (300x) e é ”o tal”. (ou seria “o Tau”...).
Jake Saloranta (um observador bem experiente) o descreve assim através de um Konus de 75 mm com 126 X.
“Facilmente visível mesmo a 5º de altitude e com a pequena abertura. O aglomerado se encontra ao redor – especialmente ao sul- de Tau Canis Majoris e apresenta poucos membros e um brilho ao fundo.”
Já o famoso Steve Gotlieb o descreve assim usando um telescópio com mais de 400 mm e um aumento de 100X:
“” Este é um maravilhoso, uniformemente rico, aglomerado ao redor de Tau Canis Majoris que se encontra levemente fora do centro. Uma cadeia de estrelas orientadas WNW- ESSE lhe dá um aspecto triangular (não concordo...). Cerca de 60 membros. 6´ de diâmetro.
Ngc 2362 é uma das ”estrelas da estação” estando disponível desde cedo e um alvo perfeito tanto para observação visual como para astrofotografia.
Para os astrofotografos de estomago forte e competência idem registrar a nebulosidade associada é um desafio dos mais interessantes.
Esta é da NASA e apresenta Sh-310 

 Ela responde pela sigla Sh-310.É uma nebulosa gigantesca. Um membro do catalogo Sharpless de regiões H-III. 




quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Astrofotografia e o Caixão de Newton



A minha mulher não é exatamente uma fã da Astronomia. Na verdade seu amor pelo meu hobby diminui na razão inversa do tamanho do telescópio que eu utilizo. Ex; ela até acha viável dividir o espaço do veiculo com meu refrator 70 mm. Suporta meus binóculos. Porém sua relação com meu 150 mm(Newton) é dominada por um único desejo: guarda-lo para sempre em seu “case” e retirar o mesmo da sala de casa.
Com a chegada do ano novo e o convite de uma amiga para subirmos a Serra eu rapidamente faço meus planos. Em todos eles o “Newton” iria junto com a família. O mesmo é um pouco maior que a mala de meu carro (um Peugeot 206). Isto implicaria em que minha esposa e minha filha dividiriam o banco de trás do veiculo enquanto o telescópio iria no banco da frente. Este sistema rendeu ao Newton o apelido de “Segunda”.  Segunda esposa.
Evidentemente que o conflito estabelece-se rapidamente. Que era um absurdo aquilo e que eu deveria levar o telescópio menor e isso e aquilo. Finalmente ela achou que jogaria uma pá de cal em meu projeto astronômico. A dona da casa iria conosco.
Mas eu, incansável, parti para o plano B. O telescópio vai amarrado em cima do carro. Com o auxilio de um rack de fita e alguns pedaços de papelão eu prenderia o meu “case” no teto do Veiculo.
O “case” talvez seja certo exagero. “O caixão”, como rapidamente batizado por minha querida mulher, é um projeto caseiro. Eu herdara uma placa de compensado naval de um reality show indiano que eu tinha feito.  Depois de serrar e meter alguns pregos na estrutura eu fiz um forro com algumas placas de isopor que eu tinha herdado de outro filme e voilá: um “case” para o Newton...
Com “o caixão” amarrado sobre o veiculo, saímos rumo à Itaipava no fim da tarde do dia 28.
Apesar da descrença feminina o telescópio chega sem nenhum problema a seu destino.
Na primeira noite o tempo ia entre meio nublado e muito nublado. A lua muito cheia domina a cena e as aventuras telescópicas se resumem a uma rápida apresentação da Lua para as meninas. Júpiter e suas luas também fazem uma rápida visita a ocular. Mas nada demais. Começo a ouvir os gracejos sobre o enorme esforço envolvido no transporte do telescópio e os resultados obtidos. Não bastasse isso eu montara o dito cujo sobre um deck de madeira que basta alguém se levantar que a imagem junto a ocular batia algo como 5 na escala Richter.  Desta forma fiz alguma fotos de caráter "mais artístico" de Selene. Elas davam a certeza de que parecia dia... Ainda forcei uma barra e fiz uma foto com foco direto


Eu trouxera também meu 15X70. E na noite seguinte foi só ele que andou pelas minhas mãos. Mas o tempo estava péssimo e choveu barbaramente. O Slogan da noite era “Calamidade na Serra”. E assim faltou luz a noite toda e a astronomia perdeu seu rumo em uma garrafa de Vodka.
Dia 30 a noite toma mais ou menos a mesma forma e desta vez a operação da churrasqueira e uma coleção de cervejas também limitaram as atividades de Urânia a rápidas visitas a lua com o 15X70...
Dia 31 e o tempo limpou. Mas aí somente o ensaio de se montar o telescópio levou a ameaças de divórcio e outros impropérios por parte da D. Encrenca.  
Então o 15x70 pagou sua passagem. Sentado em uma chaise longue fiz um belo tour pelo céu de réveillon e visitei vários DSO´S.
O verão começou e logo no começo da noite Orion comanda a festa.
As Hyades se apresentam em alto estilo. E no mesmo passeio o binóculo apresenta e resolve discretamente e sem alarde NGC 1647.
Depois disto eu acompanho o nascer das Plêiades por trás de uma arvore. As Plêiades, Hyades, M44, Coma Berenice (Mel 111) são aglomerados que parecem ter sido feitos pensando no meu 15x70(e não ao contrario...).
Depois um tour por Orion.
Eu tinha lido sobre os Objetos inexistentes do Catalogo NGC que se escondem em Orion.
Walter Houston os destacou em sua coluna Deep Sky Wonders de dezembro de 1975.
Estes objetos são frutos de um “erro de escala”.  Houston destaca uma espécie de paradoxo no que se refere a grandes e esparsos aglomerados abertos descritos pelos Herschel. Dois amadores americanos (Pat Brennan e Dave Ambrosi) relataram ter observado diversos destes objetos que eram considerados não existentes na versão revisada do New General Catalog (nascido do General Catalog dos Herschel).
A confusão se inicia porque os autores do RNGC (Revised New General Catalog), Jack Sulentick e W. Tift determinara com "não existentes" todos os aglomerado do NGC que não fossem possíveis de serem identificados a partir das placas fotográficas do levantamento do céu realizado pelo Observatório Palomar (Palomar Sky Survey).
Scooty rapidamente matou a charada. A escala do levantamento bem como a magnitude limite do mesmo parece que “cancelam” aglomerados abertos esparsos.
Eu, claro, não queria perder a chance de checar um destes segredinhos.  E assim com uma rápida escaneada junto a Betelgeuse eu me deparo com o discreto, porém existente, NGC 2180. Ele esta vivo e bulindo apesar do que dizem Sulentick e Tift.
O uso de binóculos é ótimo porque me permite avistar um grande numero de DSO`s enquanto todos tomam banho e se arruma para a noitada de fim de Ano.
O 15x70 é um senhor binóculo para Deep Sky. Para Observações planetárias e lunares eu prefiro mais magnificação e o uso de um tripé se faz muito útil. Mas para DSO´S ele faz bonito.  M78 se apresenta facilmente. Eu creio que nunca a tinha avistado de binóculo.
Sigo o passeio por Orion e passeio pelo cinturão até chegar a M42. Passeando por todos os abertos que se encontram pelo caminho (NGC 1981). Chego a desconfiar da porção Leste do Loop de Barnard. Enquanto a lua não sai o céu se apresenta em excelentes condições de Seeing de transparência.  Percebo três estrelas do Trapézio...
Depois disto sigo rumo ao sul e M46, M47, M41 Pi Puppis, Tau Canis, O Collinder´s junto à cauda do Cão Maior e toda a coleção de aglomerados que habitam a finada constelação de Argo se apresentam. Antes de voltar a me dedicar aos encantos de Baco eu ainda visito as Plêiades do Sul e a Nebulosa de Carina.  
Ao longo da noite eu ainda dava uma ou outra escaneada pelo céu. A visita a serra começou a dar frutos... Os vizinhos dão um show de fogos e me parece que isto seria o mais perto de fotos de DSO`s que eu iria chegar



Mas vem o primeiro dia do ano.
Acordo bem tarde e depois de um belo café eu resolvo que finalmente chegará a hora de fazer algumas fotos “de verdade”. E assim primeiro colimo o telescópio com bastante cuidado. O passeio pelo teto do carro e as estradas do RJ haviam feito um belo serviço e ele se encontrava totalmente fora do esquadro.
Depois de colimar o Newton (estou ficando bom nisto, não demorou mais que 15 min...) eu monto todo o circo. Os motores são instalados. Baterias recarregadas. Os cartões formatados e o Sky Atlas aberto sobre a mesa da varanda. O telescópio desta vez estava montando junto ao estacionamento da casa e assim em chão bem sólido. E longe das luzes...
A ideia, como me ocorrera durante o passeio da véspera, seria o que eu chamei de “Walking the dog”. Eu iria tentar fotografar diversos DSO`s próximos a Cão Maior.
Com o alinhamento polar feito com auxilio de uma bussola eu faço uma foto de Canopus para confirmar a dignidade do mesmo.
O Alinhamento esta melhor que eu esperava. Afinal nenhum ajuste ou drift foi feito. E assim ele se apresentava como sempre. Meio mais ou menos...  
Com a câmera regulada para 1600 ISO e as exposições em 15 seg. eu começo os trabalhos com um alvo modesto.
Pi Puppis ou Cr 135
Pi Puppis é facilmente visível ao sul da cauda do Cão.   Uma estrela avermelhada. Porém cercada de outras estrelas e com uma pequena dupla fazendo par. O conjunto forma um belo triangulo que me recorda uma espécie de portal cósmico. O Aglomerado ou asterismo (é alvo de discussão se trata-se de um alinhamento casual ou não) é um bom começo. E finalmente o Newton se levanta do “caixão” e justifica seu passeio a serra.



M 41

Na véspera eu tinha percebido que M 41 tinha se apresentado em excelentes condições e sido uma das estrelas da noite. Com ele já alto achei que seria um alvo para astrofotografia. E ele foi. Curiosamente acabei sendo enganado por este e acabei o fotografando duas vezes na mesma noite. M 41 dispensa apresentações e é possivelmente o objeto mais tênue conhecido na antiguidade clássica. Olhos treinados conseguem perceber uma leve nebulosidade na região. Este apresenta uma estrela alaranjada em sua região central que se destaca entre suas estrelas brancas.
A foto dá certo e é bem representativa do que você deve esperar ver em um telescópio de 150 mm com um aumento pequeno.
Eu estou sempre na caça das nebulosas descritas no Catalogo Lacaille . Sua maioria se revelou aglomerados abertos (que em seus modestos telescópios se apresentavam como nebulosas) . Como pretendo fotografar todo seu catalogo eu ,sempre que posso, tento fazer fotos dos objetos deste belo e antigo catalogo (sec. XVIII).


NGC 2547

Logo NGC 2547 se apresenta no sensor de minha câmera. É um aglomerado aberto sem muita concentração. Ele é menor que outros na região, mas não deixa de ter seus atrativos. É facilmente percebido pela minha buscadora e depois de pouco mais de uma dezena de fotos ele é deixado para lá...


NGC2362- Tau Canis Majoris


Agora um de meus favoritos e um alvo que nunca fotografei. De volta a cauda do Cão eu localizo Wezen (Delta C maj.) facilmente. Desta se repara uma estrutura em forma de escudo e logo depois se repara Tau Canis Majoris. Na buscadora ele é uma estrela como qualquer outra. Mas como podemos ver na foto se trata de um aglomerado bem concentrado e com uma estrela dominante (no caso Tau...). Como Tau é bem brilhante o foco é fácil para esta belezinha e com isto fiz o que considero a melhor foto desta missão. O aglomerado de Tau do Cão maior é também conhecido como NGC 2362.   Forma com M 41 os dois aglomerados mais simpáticos de Canis Majoris. De uma olhada aqui...
Começa a ficar tarde e como o transporte do Newton é uma operação complicada eu decreto que farei somente mais uma foto. A bola da vez é M47. Distraído e sem um prisma eretor eu me enrolo e acabo com M41 de novo na buscadora. Tiro uma, duas, três fotos. E reparo que M47 é igualzinho a M41.


M 47

Depois de uma rápida correção estou fotografando M47. Ele possui quatro estrelas que forma uma espécie de cruzeiro. É um belo final para noite. O foco ficou um pouco a desejar. Eu já estava perdendo a vista.
Nada como carregar seu telescópio aonde quer que você vá. Afinal o melhor telescópio é aquele que você usa.

Acordo de manhã e volto para o Rio de Janeiro. Com o “Caixão de Newton” no teto e com a esposa dando esporro porque esta atrasada para ir para o trabalho. Eu deveria ter ido dormir cedo em vez de ficar fotografando Deep Sky  e bla,bla,bla.
Entra ano e sai ano e certas coisas nunca mudam... 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Trilogia de Auriga: M36, M37 e M38



Auriga é uma das 48 constelações ptolomaicas. Para nós , bem abaixo do equador, ela marca o limite norte da Via Láctea que se estica para Cassiopéia já escondida da maioria de nós, Australis. A própria Auriga não é visível a partir de 34º sul.
Capella é sua estrela mais brilhante e se apresenta baixa no horizonte norte carioca.  
Auriga é a palavra latina para Cocheiro e a constelação representa Erichthonius, filho de Hephaestus e que foi criado por Athena. Muito inteligente foi o inventor da Quadriga, uma biga puxada por quatro cavalos, que foi primeiramente utilizada em batalha contra o usurpador do trono de Atenas Amphyction. Por causa deste evento Erichthonius foi feito rei de Atenas e como a Quadriga foi feita a semelhança da carruagem do Deus Sol Zeus o colocou entre as estrelas.
Sendo banhada pela Via Láctea diversos aglomerados abertos se hospedam nesta Carruagem celestial.
Mas três deles são clássicos que não deveriam deixar de ser conhecidos por qualquer astrônomo amador possuidor de aparelhos de qualquer tamanho.
Os três foram descobertos Giovanni Batista Hodierna anteriormente a 1654. Usando um refrator bastante modesto...
Para Localizar M 36, 37 e 38 primeiro localize Capella (Alpha Aurigae). Depois localize El Nath (Beta Tauri). Com elas localizadas perceba as mais discretas Theta Aurigae e Iota Aurigae.  Estas estrelas formam um inequívoco pentágono no horizonte norte.
Na Buscadora você conseguirá perceber os três DSO. Ainda que pequenos e apagados.
Ao sul de Capella e aproximadamente no meio do caminho entre Iota e Theta você vai localizar M36. Movendo pouco mais de meio campo de Buscadora para o oeste e levemente ao sul você vai perceber M37. E Meio campo a leste e um pouco a norte vai achar M38. Encontram-se bem próximos.
M36 vai parecer um disco de estrelas levemente mais denso e mais brilhante em direção ao seu centro. Perceba uma bela dupla no centro do aglomerado. Quanto maior seu telescópio mais estrelas vão se resolver. Em telescópios pequenos as estrelas mais brilhantes ficarão envoltas em uma bruma brilhante. Da trilogia Messier em Auriga M36 é o mais interessante em pequenos telescópios.  Use pouca magnificação.
M 36 possui cerca de 60 estrelas que se espalham por uma área de cerca de 15 anos luz. Esta localizada há 4000 anos luz de nós.  A maioria de seus membros são estrelas do Tipo B. Brilhantes, azuis e quentes...
M37 se apresenta para pequenos telescópios como uma nuvem oblonga de luz com poucas estrelas se resolvendo (cerca de cinco). Uma estrela alaranjada junto a seu centro irá se sobressair.  Assemelha-se a um globular em meu 70 mm. No 150 mm começam a se resolver muitas estrelas e desaparece a sensação de uma nuvem de luz. Utilize maiores magnificações. Em telescópios grandes M 37 é o mais interessante da Trilogia.
Este aglomerado é bem maior que M36 composto de centenas de estrelas com cerca de 150 ao alcance de meu 150 mm. As estrelas se espalham por cerca de25 anos luz e se encontram há aproximadamente 4500 anos luz.
M 38 se resolve mais facilmente que M37 e, em pequenos telescópios, se apresenta como uma nuvem de luz com certa granulosidade onde cinco estrelas se resolvem facilmente com visão direta e uma dezena de outras com periférica. Dependendo de quão escuro for seu céu elas se resolverão com direta também.
Difícil de perceber pela buscadora ele se apresenta como uma coleção meio frouxa de estrelas mesmo ao telescópio. Não percebo nenhuma estrela dominante no aglomerado. Mesmo com o 150 mm não o resolvo completamente.
Este aglomerado é composto de cerca de 100 estrelas e se espalha por 20 anos luz. Esta há 4000 anos luz da terra.




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Astronomia , um Punk Velho e Sir Patrick Moore



Julian Temple e Dona Rosa - Morro do Cantagalo

O Texto é sobre astronomia. E sobre como ela deve estar presente no seu cotidiano.
É também uma homenagem.
Este mês se iniciou de uma forma bastante ativa e caótica.
Desta forma, achei, as chances de realizar qualquer tipo de atividade astronômica ficaram adiadas para o final do ano.
Passei dezesseis dias acompanhando um diretor inglês de renome (Julian Temple) na realização de um documentário para a BBC, uma TV britânica. Este cidadão foi o diretor de um famoso filme intitulado “The Great Rock and Roll Swindle”. Este conta à história da celebre banda Punk “Sex Pistols”. Ele mesmo ainda um Punk de carteirinha, apesar de sua já mais avançada idade...
O conceito de nosso documentário, batizado de " The Children of Revolution", seria apresentar a Cidade do Rio de Janeiro e sua história recente através da musica. Ou algo assim
 Parecia claro para mim que meu caro diretor não tinha a menor ideia de que filme ele estava fazendo. E eu menos ainda.
 Nossos dias consistiam em jornadas de 12 horas nas quais, às vezes, tínhamos uma ou mais entrevistas agendadas com alguma autoridade ou alguém do meio musical. Estas poderiam acontecer ou não.  Nos intervalos se filmava toda e qualquer coisa que aparecesse pela frente.
Mesmo entre deslocamentos por meio a um transito totalmente engarrafado nosso câmera man permanecia filmando através do para-brisa de nosso veiculo. E o nosso genial diretor também. Com sua pequena câmera amadora.
Este habito lhe rendeu o carinhoso apelido, por parte da equipe brazuca, de “O Tarado da Camereta”.  
Em seu quebra cabeça “filmográfico” nosso gênio criativo tinha uma tara especial por ar-condicionado. Filmávamos e capturávamos o som de diversos ares condicionados pela cidade.
 Uma completa loucura.  
 Este processo orgânico de criação era extremamente estressante para ao fotografo deste evento, Steve Organ. E este, que conhecia nosso diretor de outros carnavais, me alertou para o fato. E como seu assistente fui instruído a tentar manter um mínimo de ordem com relação ao nosso equipamento e ao que fosse filmado.
Desta forma eu mantinha sempre comigo uma mochila onde levava as lentes, baterias (duas sempre carregadas) e todo o “film Stock”. Cada uma das coisas em bolsos pré-determinados. E mais alguns acessórios. Fora o equipamento de iluminação. Este era um problema meu. Conseguir fazer tudo caber na mala da van também.


Ainda devo ser capaz de pendurar uma câmera em qualquer posição e utilizando diversas "traquitanas". Sempre que faço isto me lembro de minhas montagens para o meus telescópios. E percebo diversas possibilidades . Tanto para câmeras como para telescópios...
Este processo me lembra bastante as minhas aventuras astro fotográficas.  Nestas eu vivo um conflito de sistemas. Algo entre o processo orgânico de nosso diretor e o cartesianismo de meu querido fotografo.
Em geral quando vou fotografar eu tento (e quase nunca consigo) manter um “plano de filmagem”.
 Eu costumo iniciar o processo visitando um programa planetário e determinando quais serão as “entrevistas” da noite.

Localizar DSO discretos, para mim, é um processo orgânico e caótico.
A “La Mister Temple”.
 Eu tento localizar um alinhamento de estrelas e a partir destas achar o DSO.
Este só será percebido (se for) através da Ocular. No caso minha 25 mm.
 Isto me dá apenas 1º para acertar este “Chute”.
Na verdade é também um habito que você desenvolve com o tempo e o conhecimento das distancia quando vistas pela sua buscadora que vão tornar isto rápido (ou não).
Que nem as entrevistas do documentário...
Agora vamos à parte mais cartesiana do meu processo “criativo- astrofotografico”.  A “La Steve Organ”
Em primeiro lugar eu gosto de me certificar que possuo um alinhamento polar ao menos razoável. Em casa isto nem sempre é fácil devido às limitações espaciais do observatório.  Assim eu mantenho algumas marcas no chão e evito mexer na cabeça equatorial. Desta forma após fazer algumas fotos testes eu em geral consigo obter um acompanhamento com um mínimo de dignidade sem grandes sofrimentos.
Mantenho também, todo o equipamento necessário para a operação em uma mesa próxima a telescópio.
O “T-Ring” vive montado no telescópio. Desta forma após localizar o objeto e centralizar este eu retiro o porta ocular carinhosamente e com o auxilio de uma chave Allen acoplo a câmera com carinho a fim de não deslocar o telescópio.
Alguns procedimentos anteriores a tudo isto também me são caros.
Checar que as bateria do motor estão novas.
Que o Cartão da câmera esteja vazio e formatado.
Que as baterias da câmera estão carregadas.
Que a exposição já esteja realizada. Em geral 15 ou 30 segundos.
Que o Timer esteja “pré setado”. Preciso comprar um disparador remoto...
E que eu já tenha realizado marcas na cremalheira para auxiliar no foco.
Qua a buscadora esteja bem alinhada.
Que a buscadora Red dot tenha bateria.

Evidentemente que  sofro de algum gene bagunceiro em meu DNA.  Sempre  esqueço algum destes itens. É ahistória do astrônomo desastrado de novo...
Mas novamente sou obrigado a retornar a figura de meu diretor.
Foram 16 dias de filmagem onde eu não vislumbrava nem de longe o fio da meada que conduzirá o documentário
Apelidara o filme, a esta altura, de “Caos at the Temple”. Afinal, como já disse, diretor é Julian Temple.
Eu não tinha esperança de realizar nenhuma fotografia astronômica até o fim da empreitada. Mas...
E é aí que a astronomia se apresenta. Ela sempre se apresenta. Habita o céu sobre nós.
Desta forma, no ultimo dia de filmagem, eu tive uma luz.
Tínhamos feito a ultima entrevista do documentário com Dado Villa- Lobos na véspera ( e gravado uma nova versão , meio tosca, de Geração Coca-Cola . Veja no video acima). E eu nada de entender o filme. 
Nos dois dias (na verdade noites) finais eu sabia que filmaríamos diversas projeções de filmes brasileiros. Iríamos projetar filmes em diversos locais da cidade maravilhosa e filmar estas projeções. Um esporte chamado de “Vídeo-Arte”. Me parecia mais um nosense do “tarado da camereta.”.
Video Arte de Kombi

Desta forma projetávamos filmes sobre o cinema ODEON , dentro de um telefone publico com anúncios de travestis, no toldo do “Amarelinho” e pelas paredes dos armazéns do cais do Porto. Neste ultimo com o projetor e toda a equipe montada em cima de uma Kombi aberta e em movimento.
E nada de astronomia... E nem de entender a porra que eu estava filmando.
Finalmente chega o ultimo dia e continuaríamos na missão Video-Arte.
Mais Video Arte- Pedra do Arpoador

Primeira locação do dia é o teto de um hotel na praia de Copacabana.
E finalmente se faz a Luz.
 Projetávamos filmes de vários períodos da história da cidade sobre a lamina d’água da Piscina na cobertura. E com o deslumbrante cenário do Morro do Leme e o oceano atlântico ao fundo.

Como dizia se fez a Luz. Entendi que as projeções seriam o fio condutor do Caos. As perguntas das entrevistas seguiam sempre certa ordem cronológica. Ainda que feitas totalmente fora de ordem.  Como era o Rio na sua infância, ou nos anos 70. O que você ouvia nos anos 80 e etc...
Ele iria quebrar a monotonia de uma coleção de entrevista pontuando estas com imagens muito loucas, filmadas sobre diverso cenários cariocas, de filmes dos respectivos períodos, ou de imagens que remetessem a descrição daquele tempo pelos entrevistados. Desta forma as projeções de imagens de Tropa de Elite representariam os anos 90. Carmem Miranda os mais pacíficos anos 30. E por aí vai.
Do teto deste hotel se fez a luz. Logo... Astronomia.
Olhávamos para o Leste e conforme anoitecia pipocavam luzes. A Primeira a surgir: Júpiter. E pronto. De uma forma totalmente sem planejamento eu faço uma fotografia astronômica que embora limitada técnicamenete apresenta o gigante de uma forma clara e poética. E ainda apresenta a geografia da cidade com o pão de açucar emoldurando o céu. Júpiter e a Terra se encontram . Isto é astronomia. E usando um Telefone celular.
Júpiter: astronomia do cotidiano.

E apesar de nenhum “Plano de filmagem”, sem ter formatados cartões, sem alinhamento polar e sem nada disto tirei a primeira foto do mês e ainda fiz minha primeira sessão de observação. Usando apenas meus olhos e meu celular...
Aprendo que nem sempre é necessário planejar. Astronomia e astrofotografia podem ser um processo totalmente casual e Orgânico. Elas são frutos de se olhar para o céu e de poder captar estes momentos. Não dependem de equipamentos caros ou de um conhecimento especial. Você aprende fazendo. E que apesar de minha obsessão uma foto dita "Astronômica" não implica na presença de um obscuro DSO com um nome em forma de sigla e de baixíssimo brilho de superfície...
E assim além de fazer uma foto que é bela pelo simples motivo de que o Rio e o firmamento são belos eu ainda pude apresentar para minha equipe de filmagem algumas das belezas do firmamento.
Meu caótico e caro diretor, inglês, adorou saber que a bela estrela avermelhada próxima a Júpiter era chamada de Aldebarã.
Conforme ia escurecendo a imagens da projeção ia ficando mais definidas e mais estrelas pipocavam pelo céu. Sirius logo se apresenta também. Betelgeuse é a próxima que percebo. E conforme elas pipocam mais encantados vão ficando os amigos.

Finalmente chegamos a Patrick Moore. Um dos maiores divulgadores da astronomia do UK, recentemente falecido é invocado. E tanto o diretor como o fotografo falam dele como um velho amigo. Afinal o documentário é para BBC e Sir Patrick Moore apresentou seu show por décadas na companhia ( Entre Abril de 1957 e janeiro de 2013, quando será apresentado o ultimo episodio gravado por P.M. do "The Sky at Night"). Além de que é uma figura do imaginário coletivo inglês. E eu me choco como dois velhos Punks tem tanto carinho por um astrônomo.
Fiz minha foto e aprendi que astronomia deve fazer parte do cotidiano das pessoas. E como Patrick Moore fez disto algo comum a todos os ingleses.

                                               R.I.P. Sir Patrick Moore