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domingo, 21 de abril de 2019

Ngc 3628: O Fantasma de Hamlet


           

        Ngc 3628 é o membro mais apagado do famoso “Tripleto de Leão”. Se apresentando dentro do mesmo campo ocular de M 65 e M 66 ela escapou até aos atentos olhos de Méchain quando da descoberta de suas mais brilhantes vizinhas (se lerem o post sobre M 66 e M 65 vão ver que ha controvérsias sobre o autor da descoberta deste par). E assim sobrou para Herschel sua descoberta na noite de 8 de abril de 1784. A dupla Messier já foi apresentada aqui no NunciusAustralis.
              Ngc 3628 é uma galáxia com muitos apelidos. A “Galáxia-Hamburguer”, A Galáxia de Sarah, A Galáxia de Mahasin. O título de Galáxia Hamburguer se explica por pareidolia facilmente. Agora quem são Sarah ou Mahasin é um mistério que se perde nas brumas da história e da web...
        Os títulos de “Vanishing Galaxy” (A Galáxia que desaparece...) e “ O  Fantasma de Hamlet” são criações recentes e ambas invenções de O´Meara. O título “shakespeariano” tem uma bela fundamentação ótico semântica...
                O´Meara em seu “Deep Sky Companions: The Hidden Treasures” nos conta que nossa arredia galáxia apresenta uma qualidade: quanto mais a observamos mais acostumados nos tornamos a vê-la.  Assim como o problemático espírito da peça de Shakespeare “Hamlet”.  Logo no ato 1 cena 1:
(Entram Horácio e Marcellus. Bernardo já está em cena.  Sai Francisco):
Marcellus- Ele apareceu novamente esta noite?
Bernardo- Eu não vi nada.

(Aqui a tradução que possuo desvia da versão apresentada por O´Meara... E assim a tradução da próxima fala é minha. E em se tratando de Shakespeare isso pode ser perigoso. Mas creio que na minha versão o caráter astronômico do dialogo se faz mais evidente...)

Marcellus- Horátio diz que é nossa fantasia,
E não deixará a convicção se apegar dele
Tocando esta visão temida, duas vezes vista por nós:
Portanto eu tenho suplicado junto a ele para com a gente assistir os minutos desta noite
Que, se novamente a aparição venha
É como se Ele tenha que aprovar nossos olhos. . .
                
          O´Meara defende que o que nós podemos aprender desta conversação é a importância de se ter paciência com, e fazer repetidas observações, de todas as coisas assombradas – e aí incluídas desafiadoras galáxias vistas de borda para nós como Ngc 3628. E assim como os leitores de Hamlet ainda discutem se Shakespeare pretendia que o fantasma do pai de Hamlet seria real ou imaginário os observadores amadores ainda discutem se Ngc 3628 é viável para telescópios pequenos, sua visibilidade e de seus detalhes é uma misto de fatos e fantasia.
                Na minha opinião o fantasma existe. Mas é como aquela velha história: “Não creio em Bruxas. Mas que las hay las hay” ... O Homem é o exercício que faz.
                O Fantasma de Hamlet em conjunto com o negrume do céu e o equipamento utilizado tem que autorizar sua visão para Ngc 3628 se materialize na ocular.
                A foto abaixo foi “desprocessada” para dar uma ideia do que você deve esperar perceber.  A primeira coisa a ser feita é desapegar de M 66 e M 65. E usando estas como faróis perceber a assombração.
O Fantasma  esta acima. Formando um triangulo Isóceles co M65 e M 66. Uma exposiçã de 30 seg. "apagada" no Photo Shop. É semelhante ao que vc vai perceber em um Telescópio 150 mm f8 em um céuu escuro. Ocular de aproximadamente 26 mm.    

                O´Meara nos dá outra valiosa dica. O Fantasma não gosta de muita ampliação. Se com 23 X ela é “evidente” com mais ampliação ela começa a se espalhar mais de 1/2 campo de uma ocular média (cerca de 120 X).  E com este aumento de potência a galáxia começa a se dissolver mais e mais contra o fundo. É como sua faixa escura, que é um de seus mais evidentes detalhes e o único ao alcance de telescópios mais modestos, começasse a se destacar muito e apagasse sua área clara.  É o detalhe se sobrepondo a todo.
                Na verdade, esta faixa de poeira que habita o plano da galáxia provavelmente fez a galáxia invisível a Méchain.  E apesar de ser apenas 0,5 magnitude mais apagada que M 66 (o membro mais brilhante do Tripleto) ela se espalha por uma área maior e assim apresenta um brilho de superfície muito inferior. Para os amadores em busca de galáxias o brilho de superfície é um indicador muito mais exato do que você vai ver ou não do que a magnitude.
O Tripleto . 20X45 seg ISO 1600. 3X Drizzle no DSS . Lente Penatx 300 mm f 4.5 . Esticada no PixInsight. Se percebe claramente a distorção nos discos de Ngc 3628  e de M 66. 

                Devido a isso “O Fantasma do Rei de Hamlet” (esta é a tradução completa do apelido dado por O´Meara. Por razões estéticas eu alterei um pouco...)  escapou dos clássicos guias escritos por Smyth e por Webb.  Burnham em seu “Celestial Handbook” não entra em muitos detalhes e em sua abordagem do Tripleto nos diz apenas: “A apenas 35´ norte de M 66 repousa um outro objeto, galáxia “edge-on” Ngc 3628, caracterizada por uma fina linha de poeira. Maior, mas mais tênue que M65e M 66 e não percebida por Messier mede cerca de 12´de comprimento. Estas três galáxias formam um nobre grupo para pequenos telescópios”.

Aqui o Resultado de 20 Exposições de 30 seg. No newton ( 150 mm f8). Apesar da incrivel diferença as fotos do post foram feitas com um dia de diferença. A otica da Pentax é muito superior ao espelho do Newton. E a transparencia na segunda noite colaborou também... 

                Ngc 3628 pode ser o mais discreto membro do tripleto, mas é certamente o mais fascinante cosmologicamente. Habitando o esporão de Leão de galáxias reside a cerca de 25 milhões de anos de nós    e se espalha por cerca de 78.000 anos luz de universo (diâmetro linear).  Se percebe claramente a influência dos outros membros do Tripleto na forma distorcida de Ngc 3628. Ela é classificada como uma espiral barrada peculiar.  Isso por si só garante a entrada no catálogo Arp de Galáxias Peculiares. É Arp 317. Seu catálogo visava caracterizar uma larga amostragem de estranhos objetos que saem da tradicional classificação de Hubble e ajudar a entender como galáxias evoluem. No mesmo campo (mas não nestas fotos) habitam 2 quasares. E com isto Arp a utiliza como um exemplo para sustentar sua louca teoria de desvios para o vermelho intrínsecos. Hoje em dia parece ser língua morta. Mas as viagens de Arp são divertidas e seu livro “Universo Vermelho” é muito original. Mesmo sendo uma tremenda bobagem.
               O gás em Ngc 3628 caminha em uma direção e as estrelas em outra. Hoje é aceito que isso seja fruto de sua interação com as outras galáxias do tripleto. Bem como sua furiosa produção estelar. Suas imagens em raio X demonstram muitas características interessantes e originais. Uma galáxia muito dinâmica.

                Localizar Ngc 3628 é fácil. Ache os outros membros do tripleto acima do pernil traseiro do Leão e você estará lá. Ver já é outra história...

                O Fantasma de Hamlet é um objetivo digno de nota. E ainda garante que você visite o charmoso e oferecido par formado por M 66 e M 65.
Bom programa...

sábado, 20 de abril de 2019

Ngc 6334: A Pegada do Gato




          


         Ngc 6334 tornou-se um popular alvo para os amadores nos anos mais recentes. Possui vários nomes sendo o mais popular e assim conhecida, pelas bandas de Sucupira, como a “Nebulosa Pata do Gato. Mas vista por outros olhos e em outras bandas é também chamada de Nebulosa da Garra do Urso (Bear´s Claw Nebula). Eu gosto de chamá-la de “A Pegada do Gato”. Definitivamente ela me parece mais com a trilha de um felino deixada em meio a via láctea do que com uma pata propriamente dita. E é claro que vamos seguir este rastro na caçada deste belo DSO. 
    Quando falo que Ngc 6334 se tornou um alvo popular recentemente é porque trata-se de um alvo mais de caráter fotográfico do que visual propriamente dito. E como apenas recentemente a astrofotografia tornou-se realmente mais popular e accessível esta interessante e charmosa nebulosa passou a ser mais conhecida e visitada. 
  
       Foi descoberta e catalogada por John Herschel 7 de junho de 1837. John Herschel formou, juntamente com  Lacaille e Dunlop a divina trindade dos céus austrais. E cabe a ele o posto de “Espirito Santo” já que descobriu quase tudo que anda, caminha e brilha (ou nem brilha ‘’tanto) abaixo do equador.  Deixando assim o cargo de Pai para Lacaille e o do Filho para Dunlop....  
     Visualmente é um alvo discreto e que demanda céus bem escuros. E como cobre uma área quase equivalente a lua cheia não é adequada a grandes ampliações. Eu a percebo melhor com meu 15X70 que com 46X no Newton.  Preciso experimentar o alvo utilizando minha Ocular de 40 mm. Com 30x de aumento é possível que eu chegue ao “soft spot”.
    Observando de céus suburbanos claros ela é quase imperceptível. A foto abaixo simula o efeito. É fruto de uma única exposição de 45 segundos e foi tratada “às avessas”. Em vez de ter seu contraste e brilho aumentados estes foram reduzidos até o limite do visível. É exatamente aí que vai habitar a nebulosa visualmente em céus Bortle 6 ou 7.
Sob Bortle 6. As quatro estrelas no canto esquerdo são um bom guia até a Nebulosa... 

              Em céus mais escuros você pode ter uma visão semelhante a esta outra foto. Bem... debaixo de céus bem escuros mesmos. Como disse o alvo tem um caráter mais fotográfico que visual...   
                                  

             A Pegada do Gato é um dos mais ativos berçários estelares da Via Láctea e são estas estrelas jovens e extremamente maciças que fazem a pegada apresentar seu característico brilho avermelhado. São estrelas, em média, 10 vezes mais maciças que o sol e extremamente jovens, tendo se formado há poucos milhões de anos. Ngc 6334 pode conter dezenas de milhares de estrelas, com muitas delas ainda ocultas no casulo da nebulosa. E possui suprimento muitas mais. Sua massa é equivalente a cerca de 200.000 sóis.
3 drizzle

         Sarah Willis do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics e da Faculdade Estadual de Iowa apresentou um paper no encontro da Sociedade Astronômica Americana de 2013 onde nos diz que Ngc 6334 está passando por um “baby boom” e apresentando uma elevada taxa de nascimentos estelares. A Nebulosa está produzindo estrelas mais rapidamente que a mais famosa “Nebulosa de Orion”. Isto a faz um dos mais prolíficos berçários da Via Láctea.  A nebulosa possui cerca de 2000 estrelas muito jovens ainda envoltas em seus discos protoplanetários. A maioria destas estrelas se forma em aglomerados. Isto sugere que em alguns milhões de anos a Pegada do Gato possa se parecer com um múltiplas Plêiades, cada uma contendo milhares de estrelas. Mas não se anime sequer com a possibilidade de imortalidade... A nebulosa está a mais de 10 vezes a distância (5.500 anos luz) do famoso aglomerado e a região é extremamente obscurecida por poeira e apresenta alta extinção.
                

                Localizar Ngc 6334 não é difícil. Bem em cima da cauda do Escorpião o ferrão deste parece apontar para a área. Com um bom mapa e algum dever de casa você chega lá facilmente.
          Como alvo fotográfico por excelência devo divagar um pouco sobre as imagens aqui apresentadas. Todas são resultado de diferentes tratamentos em diversos softwares. Todas são fruto da mesma sessão de captura. Forma obtidas 20 fotos com 45 segundos de exposição em Isso 1600. foi utilizada uma Canon T3 e uma Lente Asahi Pentax serie F de 300 mm e uma abertura de f 4.5.  As imagens foram realizadas em Búzios (Bortle 6) em noite de Lua nova.
                As imagens apresentadas são resultado de empilhamentos no Deep Sky Stacker com e sem o uso da ferramenta de drizzle (http://deepskystacker.free.fr/english/technical.htm#Drizzle )  (há fotos sem, com 2 e com 3 drizzle). Posteriormente as fotos foram esticadas no PixInsight 1.8. Um dado curioso e que pode ajudar os astro fotógrafos é que como a Nebulosa emite muito no vermelho ao se decompor a imagem em canais RGB o canal R se torna uma eficiente máscara para todo o processamento a seguir.

20 X 45 seg ISO 1600 + 20 dark frames . DSS+PixInsight+ Photoshop. Repare na "ponta" da Nebulosa Guerra e Paz (Ngc 6337) no canto inferior esquerdo.  Sem Drizzle.

                A Pegada do Gato foi um belo presente em uma noite que fora toda dedicada a capturar galáxias em Virgem. Já no fim da noite e com um resto de bateria consegui uma bela captura. Gostaria de ter feito mais exposições. Creio que seria possível reduzir em muito o ruído. E Provavelmente melhorar o enquadramento para capturar a "Nebulosa Guerra e Paz" no mesmo campo. Esta se apresenta “batendo na trave “no canto" esquerdo embaixo da foto mais aberta...   Ambas são certamente um alvo mais propicio a um ataque com uma lente 300 mm do que utilizando o Newton (meu telescópio 150 mm f8).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Outono , A Virgem , a Lógica , a Visão, a Astrofotografia e outras Lendas


            

            
           Chegou o Outono logo Virgem. Se p -> q então contingência lógica.  Mas nessa Aporema que vou comemorar na lua nova de abril será uma tautologia. De qualquer forma não me lembro mais as benditas tabelas de verdade de meu curso de Lógica 101. Embora o Chateaubriand fosse um excelente professor.
                Depois de um bom tempo retorno para a Armação de Búzios para comemorar uma Aporema.   Para aqueles que não acompanham o blog:   Aporema é uma festa pagã de origem indígena e que é comemorada sempre na Lua Nova mais próxima aos equinócios e solstícios. 4 vezes ao ano. Seu nome remonta um Cacique Tupinambá de nome Aporema. É possível que devido a sua lendária acuidade visual a palavra “aporema” tenha sido incorporada a algumas línguas do tronco tupi com o significado “ver longe” ou em uma tradução bem livre como “ver antigo”.  Em uma daquelas “coincidências de Adams” que coleciono aporema é também um silogismo que demonstra o valor igual de duas proposições contraditórias. Coincidências de Adams são coincidências tão surpreendentes que parece ser relacionadas a leis fundamentais do universo. Mas são apenas coincidências. São uma homenagem a Douglas Adams.  Autor do obrigatório “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Um livro que você deve sempre ter na mochila junto com uma toalha.
                Meus objetivos foram traçados na semana anterior a viagem. Eu iria novamente me digladiar contra o Aglomerado de Virgem. De novo falando em verdades e contradições queria observar apenas as Galáxias Messier que adornam o superaglomerado galáctico mais próximo.  Se não todas pelo menos uma boa parte.  Uma longa caminhada pelos caminhos do Outono. Um passeio difícil na companhia de duas nobres donzelas que disputam o posto de Virgem celestial: Astréia e Perséfone. Já dizia Quintana em sua Canção de Outono:
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
                Há muito sem visitar a Terra de José Eustáquio , um misto de pescador, pirata e astrônomo que habitou a região no Sec. XVIII e amigo pessoal do Cacique Aporema, eu tinha me esquecido que os céus da Armação não são os mesmos de meu novo posto de observação na nem tão próxima Serra-Mar. Se na Pedra Riscada observo debaixo de céu 3 ou 4 na escala Bortle em Geribá  peno entre  6 e 7.  
                Mas tenho minha derrota toda planejada: Em um arquivo txt. habita meu plano de ataque.


                Pretendo realizar o ataque a partir de oeste. Na verdade, vou estacionar por volta das 20:00 horas no horizonte nordeste e esperar o aglomerado cruzar esse meridiano. É a área menos afetada pela poluição luminosa gerada pelo “centrão de BZ”. E desta forma vou primeiro observar os membros mais próximos que habitam próximos a Leão. São estes M 95, M96 e M 105. Seguidos de M 65 e M 66.  Depois dividi o aglomerado de Virgem propriamente dito em alguns grupos organizados de oeste para leste e encabeçados pelas galáxias que me pareciam ser as mais dispostas a colaborarem coma minha causa.  O primeiro grupo encabeçado por M 98, o segundo por M 88 e o terceiro M 49. E, estupidamente, não queria utilizar M 87e a cadeia de Makarian para coordenar o ataque pela simples razão de que já tinha fotografado a maior parte do conjunto da obra.
                A melhor forma que vejo para se explorar o Aglomerado é calcular a posição de M 87 (que é uma das galáxias mais facilmente percebidas no aglomerado) e com esta centralizada calmamente ir escaneando a região e começar a navegação.
                Tendo o Newton (meu telescópio 150 mm f8) alinhado e balanceado as 19:20 com o auxílio luxuoso de Avior. Sou muito preguiçoso para realizar o drift e assim costumo realizar o alinhamento polar utilizando uma estrela no momento que esta cruza o meridiano.  E agora obtive um aplicativo que é um nível digital preciso o suficiente para um excelente acerto... Outra coisa boa de voltar a Terra de Zé Eustáquio é que eu sei onde reside o sul celeste “de ouvido”.
                Como não poderia deixar de ser nem tudo são rosas. O vizinho da casa ao lado largou a luz da varanda acesa. E um novo poste perturba bastante.... Mas me contenho e não cometo nenhum tipo de vandalismo.  Começo a jurar que a Aporema de inverno será na Pedra Riscada...
M 96 - 20 Exposições 30 seg 1600 Iso- Newton. Nada explica porque não enquadrei também M 95 nessa foto...

                Parto para o jogo. E rapidamente me lembro que a Astronomia é sobrinha de Moira e prima irmão de Obsessão. Quando você decide passar as suas noites de sexta, sábado e domingo em busca de galáxias que, na melhor das hipóteses, vão comparecer na sua retina com o uso de visão periférica, técnicas de respiração e de horas no escuro é bom saber que nem todos vão entender e muito menos gostar. No caso meu filho e a cara metade estão já bastante contrariados. Para piorar minha esposa arrastou sua amiga mais “loca” para acompanhar a noite. Sou obrigado a determinar uma área de exclusão e todos são proibidos de ir aos fundos da casa. Bagunça só na varanda da frente da casa ou na sala. Se precisarem pegar algo na cozinha devem utilizar uma pequena lanterna. E gritar antes para que eu feche os olhos.
                O pequeno eu acalmei contando a história de “ver antigo”. Embora não seja muito fascinado pela astronomia ele adora dinossauros. E assim, quando contei a ele que aquela luz que estávamos vendo começou sua viagem no tempo que as imensas e ferozes criaturas ainda caminhavam sobre a terra ele deu sossego. E ficou encantado com a ideia de ano luz. Gostaria de realmente entender como uma criança de 5 anos realiza o espaço-tempo. Ele percebeu algo. Mas definitivamente eu não sei o que... Talvez não seja tão diferente de minha percepção. Só mais jovem.
                Meu plano faz água rapidamente. Com Mlle. Herschel (minha cabeça equatorial HEQ 5) com seu Go-to um pouco errante e caçando o invisível a noite vira uma longa série de tentativas e erros. Ainda não sei como consegui ter mais erros que tentativas...
                M 105 (e suas discretas damas de companhia), M96 e M95 (O Tripleto menos conhecido de Leão) ficou para o dia seguinte. M 65, M66 e galáxia de Hamburguer (O Tripleto de Leão propriamente dito) foram um pouco mais companheiras.
O tripleto de Leão. Achei que 100 Exposiçoes de 30 seg. Com Iso 3200 revelaria muito mais detalhe. Mas a noite estava com péssima transparencia... Já tive resultados melhores exatamente com o mesmo set up e com metade das fotos... Newton e Canon T 3. 

                Tenho que contar um segredo para vocês. Se o plano é observar as galáxias Messier (ou outras) de Virgem lembrem-se que muitas delas não serão simpáticas. A moça é Virgem não é à toa... 


 O Grupo de M 105 , M96 e M 95-30 X 45 Seg Iso 1600 Pentax 300 mm 20 Darks DSS + Pix + PS. 2 Drizzle

Realisticamente em céus como os de Búzios nenhuma delas será muito mais que uma suspeita e não terão forma. Serão todas um ponto estelar fraco (o núcleo) com uma leve nebulosidade ao redor. Será muito difícil diferenciar estas das estrelas fracas que habitam a região. E depois que você localizar uma galáxia com certeza lembre-se de onde ela está. A navegação na região é mais de galáxia em galáxia que “Starhooping”.  Como você vai perceber muitas pequenas estrelas enevoadas e suspeitas de serem mais que uma estrela na região vai ser bem difícil saber quem é quem.  As Galáxias que você terá um pouco mais de apoio são M 66, M 65, M 98, M84, M 86, M 87 e M 49. Lembrando que as belíssimas espirais “de frente” para nós (como M 100) não irão aparecer. Seu brilho de superfície é muito baixo para céus com poluição luminosa. Mesmo roubando e fotografando elas não serão muito dadas. Galáxias “face-on” não gostam de luz mesmo. Vide M 33 que está a meros 3 milhões de anos de nós. Em Virgem você pode multiplicar a distância, no mínimo, por 10...  Como já falei (e Quintana antes de mim) muitas as vezes os caminhos do Outono vão dar em parte alguma...
No coração de Virgo. 

                Outra informação interessante que descobri nesta Aporema. Há muitas galáxias na região e isso eu já sabia. Mas quase todas as IC (galáxias listadas no Index Catalog. Uma continuação do New General Catalogue) não estarão ao alcance de amadores nem com fotografias... As Ngc (Listadas no New General Catalogue) ainda dão uma força. Algumas até se rivalizam as Messier.  É importante lembrar que o NGC foi todo realizado a partir de observações visuais. Já o IC utilizou-se de placas fotográficas. É impressionante o que os pioneiros fizeram com os limões que tinham. Messier dificilmente possui um telescópio melhor que o Newton. E observava de um Paris que já era conhecido como o a Cidade Luz. Sua visão era melhor que a do Steve Austin.  (Aos leitores mais jovens: recomendo que procurem por “O Homem de Seis milhões de dólares” no google.)

M 98 21 x 45  seg 1600 iso

                Afobado que sou utilizo péssima astronomia o resto de noite. Mando Mlle. Herschel apontar para uma das vítimas e tiro uma foto. Se aparecer algo que pareça com uma galáxia eu tento observar um pouco e depois tiro mais fotos. No visual a coisa está muito feia. Nessa noite eu só vi (tenho certeza) M 87 e M 49. M 66 e 65 eu conheço o campo estelar e posso mentir para mim mesmo...
                Na segunda noite as coisas são parecidas com a primeira. Mas faço muitas exposições (100 X 30seg.) com ISO 3200) do Tripleto de Leão original e espero conseguir algo. O dia fora muito bom para a noite render.  A fim de aproveitar um pouco o tempo faço uma seria de fotos de Ômega Centaurus. Sempre bonito.
                Finalmente chega o domingo.    Mudança radical de equipamento. E aí a derrota planejada com tanta antecedência acontece. Parece até que Murphy e Clark estavam de férias. Em vez de atacar o aglomerado com o Newton decido utilizar um set up mais flexível e leve. Minha Pentax 300 mm f 4.5 Serie F. Com um fator de correção de 1,6 devido ao sensor da Canon T 3 ela vai atuar como uma 480 mm.
                Começo a desconfiar que o Newton é um pouco pesado para a HEQ 5. Pelo menos para astro fotos. Com a 300 Mlle. Herschel (utilizando apenas o 1 star align) crava tudo que peço. A Noite transcorre as mil maravilhas. Com o computador no colo rodando o Astrophotography  Tools eu não só capturo toda a derrota como ainda abato a “Pata do Gato” e faço uma linda foto de M 4.  Tudo isto conversando com a cara metade e bebendo cerveja...

                Começo a achar que já espremi o Newton até perto de seus limites. Preciso urgentemente de Evostar... Na verdade a ignorância as vezes é uma benção. O Newton é apenas um telescópio razoável para observação visual. Como astrofotografo é uma certa forçação de barra. O foco é muito difícil (cremalheira...)  e a qualidade de seus espelhos é apenas razoável. De tempos em tempos ele faz uma foto aceitável. E é extremamente suscetível ao seeing e a transparência.    Um exemplo simples de como ele deixa a desejar é o fato de ser obrigado a trabalhar com um threeshold (limite) muito baixo no Deep Sky Stacker para garantir que esse empilhe um número aceitável de frames. Com a Pentax (e outra lentes) Utilizo um threeshold muito mais alto e dificilmente um frame é recusado.  

Agora é torcer para que já que elegemos este celerado em nome de uma suposta melhora econômica que está venha a galope. Sem educação, sem ciência, sem cinema e sem educação vai ser difícil. Mas perder tudo isso e ficar duro vai ser...
                Segunda tenho que retornar correndo para o Rio já que meu trabalho foi adiantado em um dia. Na noite cai uma tempestade na cidade.
M 4 e cia. ltda.

                A Aporema de outono terminou e os céus já choram. O diluvio chegou a Rio poucas horas depois de eu devolver o carro na locadora.  Esqueci de dizer que além de ficarmos sem cultura, sem ciência, sem cinema, com bancada evangélica forte somos também negadores do aquecimento global. É bom que eu ganhe dinheiro suficiente para meu Evostar rápido...
                Com rápida análise sobre o material capturado é inegável a superioridade da ótica Pentax sobre os espelhos da Skywatcher. Só falta aumento... Não esquecendo que Mlle Herschel me garantiu 100% de aproveitamento das fotos feitas com a lente. E fazendo exposições de 45 segundos com um acompanhamento quase irretocável.  Eu não possuo um guider para o Newton. É outra coisa que é bom que entre logo o dinheiro para ter que aturar o Olavo de Carvalho gerenciando a educação no país. Sai Velez e entra um discípulo ainda mais burro.  E o diluvio rolando lá fora...
Tripleto de Leão 21X 45seg 1600 Iso. Dando um banho n Newton e suas 100 exposições com 3200 Iso. F4.5 contra F8 . Mas mesmo assim...  3 drizzle no DSS

Agora resta “revelar” as fotos. Nesse processo aprendo mais uma lição. Quando não tenho certeza do que estou vendo utilizo um site adorável que faz isso. Chama-se astrometry.net . É raro que ele não identifique algo que brilhe, pisque ou acenda no universo. Mas ele não gosta de arquivos com autosave no nome. Descobri agora. Acho que ele acha que é roubo. Tem algo a ver com um tal de “Django” Mas bastou eu alterar o nome dos arquivos para ele carregar e dar o caminho das pedras. Outro detalhe é que ele não é chegado em fotos muitos processadas.  Menos informação para ele é mais. Geralmente utilizo apenas um frame (esticado de leve no Photoshop e transformado em Jpeg. Ele não aceita Raw (CR2.) para identificar. Especialmente em alvos mais coloridos como o final da Cat´s Pawn Nebula. Na seção galáctica ele atua com brilhantismo.
M 49... Newton..

O fim do Mundo deve estar realmente próximo. Quase todos os alvos da derrota planejada foram ao menos fotografados. E os que não foram acabaram substituídos por várias novidades.  Das galáxias Messier foram registradas M 65, M 66, M 84, M 86, M 87, M 88, M91 (ainda que de esbarrão), M95, M 96 e M 105. E mais de uma dezena de Ngc´s. Quanto as IC´s uma análise nas fotos ampliadas vai provar o que disse acima. A maior parte não se apresenta. E as que se apresentam não são alvos visuais viáveis com meu equipamento nem mesmo no Atacama...
Quanto a observação visual a Virgem precisa de um quarto bem mais escuro que Búzios...

quarta-feira, 20 de março de 2019

Ngc 4349 e a Anã Marrom



Ngc 4349 é um daqueles DSO´s que todo mundo sabe que existe.  Sempre que você passeia pelo Stellarium ele está lá bem no meio do Cruzeiro do Sul. Mas entre saber que existe e existir de verdade há uma diferença. Mesmo porque o New General Catalog possui várias entradas “falsas”. Há muito eu tentava observar 4349 sem nenhum sucesso. Como o Starhooping até ele sendo facílimo eu começava a suspeitar que seria esse o caso.
                Não podia estar mais enganado. Com o projeto Dunlop 100 (observar os 100 objetos “mais interessantes” descobertos por Dunlop) em andamento isto se torna evidente. É a Entrada 292 do catalogo e a descrição de Dunlop é por demais clara para ser um equívoco.
“Um Bonito aglomerado de estrelas muito pequenas, lembrando uma grande e tênue nebulosa, com 6´a 7´de diâmetro: A concentração é bem gradual em direção a centro. Uma bela e brilhante estrela ao lado. Uma figura arredondada.”
Ngc 4349 - 2 drizzle Canon T3 6 X 30 segundos 1600 asa. As fotos ficaram muito ruins. Mas com a lua cheia nada foi feito como manda o figurino. Astrofotografia é a melhor diversão...

                Não bastasse isso recentemente foi descoberta que uma das estrelas do aglomerado (Ngc 4349-127) se trata de um sistema duplo e que sua companheira é uma anã marrom. Com essa bomba nas manchetes eu dou o braço a torcer e me vejo obrigado a localizar o bicho.  
                Para atiçar ainda mais a vontade ele se qualifica como um candidato ao “Projeto tudo que Existe” na sua forma original. (Este era o inalcançável sonho de observar todo o catalogo Ngc. Atualmente é “apenas” observar todos os objetos descritos por O´Meara na série “Deep Sky Companions”). O´Meara não o inclui em nenhum livro da série “Deep Sky Companion.
                Desta forma me vejo em Lumiar com o Newton (meu refletor 150 mm f8) debaixo de um céu onde a lua vai mais cheia que o devido.  Na verdade muito cheia, em dois dias estarei fotografando o eclipse lunar.
                Mas com Mlle. Herschel em excelente forma eu o localizo facilmente. Eu sei que ele está lá e chego mesmo a desconfiar sua presença. Não resolvo nenhuma estrela e a nebulosidade habita no limite do existir.  Isto com 48X de aumento. Com 120 não vi nada.
                Astrofotografia não é fair-play.  E após algumas exposições eu tenho mais um dos 100 de Dunlop na caixa.  Não bastasse isso o enquadramento ficou torto. Quis usar uma das estrelas mais brilhantes para garantir o foco e esqueci de ajustar depois. Como percebi que não iria tirar leite de pedra achei que estava de bom tamanho...
                Isso mostra claramente que o 100 de Dunlop não são um passeio no parque como o Catalogo Lacaille. E provavelmente mais difícil também que o catalogo Messier.
                Espero retornar a esse em noite mais adequada. Geralmente o Newton faz uma luta justa com o telescópio de Dunlop. Mas como ele viu estrelas e eu não vou colocar está na conta da lua cheia...


                Muito próxima a Acrux localizar o aglomerado não será difícil. Mas conte com céus escuros. Do Rio de Janeiro eu duvidei de sua existência por anos...
                Ngc 4349 tem cerca de 250 milhões de anos e 390 membros conhecidos. Se localiza a 7090 anos luz de nós.  Se espalha por algo entre 58 e 75 anos luz de universo. Qualquer estrela mais distante que isto não estará gravitacionalmente presa ao aglomerado (“tidal radius” é um conceito que você deve conhecer...).  A estrela 127 possui uma companheira com massa não inferior a 19,8 X a de Júpiter que a orbita a cada 678 dias. Quando descobriram isto Ngc 4349-127 a mais pesada estrela com a massa precisamente calculada onde uma companheira sub-estelar havia sido detectada e também um dos sistemas mais jovens conhecidos.  
É muita cosmologia para um aglomerado tão sem graça.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Ngc 2808 e o Ciume de John Herschel


             

            Ngc 2808 é um aglomerado globular ímpar. O fato de ter sido descoberto por Dunlop e ter sido a entrada de numero 265 (D 265) torna esta informação mais digerível e certamente acalmará matemáticos que sofram de T.O.C.
                Sendo um dos “100 de Dunlop” era um alvo que eu havia separado para última temporada observacional na Serra. Depois de ter encerrado minha missão “self-inflicted” com o Catalogo Lacaille arrumei uma nova sina astronômica. Devo observar, fotografar, apresentar e transformar em um guia observacional os 100 objetos mais interessantes descobertos por Dunlop.  A lista, acredito, ter sido definida por Glen Cozens.

5 X 30 Seg ISO 1600 canon T 3 Newton 150 mm f8. DSS + PixInsight. 

                Dunlop foi um astrônomo de certa forma injustiçado. Seus contemporâneos, ignorando os parcos meios que este possuía, inicialmente lhe renderam alguma gloria. Este recebeu a “Gold Medal of the Astronomical Society of London” por seu catalogo com 629 entradas. Em tempos que o preconceito era moeda corrente ele não pode ir recebe-la pessoalmente. Em uma sociedade “de castas” como a Inglaterra do século XIX um “camponês” como ele não era autorizado a frequentar locais tão elitizados como a “Burlington House” em Piccadilly. Mesmo que nos anos de 1820 a maior parte de seus membros fossem os chamados “gentleman astronomers” em vez de profissionais.  
                Porém o mesmo John Herschel que lhe concedeu a medalha em seu posterior levantamento dos céus austrais só foi capaz de localizar 34% das entradas (211 objetos) realizadas por Dunlop e suas críticas (nem tão duras) foram amplificadas por alguns “Gentleman astronomers” e levaram a um descrédito do trabalho de Dunlop. Este só foi redescoberto e reconhecido em seu hercúleo esforço já no final século XX. Sobretudo devido a trabalho de Cozens que localizou mais de 300 objetos do catalogo.  E como Herschel era o “cara” que deveria descobrir os céus austrais (como seu pai o fizera no hemisfério norte) uma certa dose de ciúme profissional pode ter levado a que o catalogo Dunlop tenha sido ignorado durante muito tempo.  Afinal o “creme de lá creme” foi observado por Dunlop antes de Herschel...  Agnes Clerk (biografa dos Herschel) mesma disse que o céu austral já havia sido “profanado” por Dunlop.
                De volta a Ngc 2808 poderemos ver bem como esta história se desenrola...
                Apesar de brilhante este objeto escapou ao modesto levantamento realizado por Lacaille no Sec. XVII. Avistado pela primeira vez por Dunlop em 7 de maio de 1826 ele deixa a seguinte descrição: “Uma nebulosa arredondada muito brilhante, com 3´ ou 4´ de diâmetro, extremamente mais brilhante em direção ao centro. Esta possui uma bela aparência globular. (D265)”.
 
5 Exposições de 30 seg ISO 1600 Canon T3 Newton . DSS 3 X Drizzle. 
                Ngc 2808 parece ter feito uma grande impressão sobre John Herschel. A ponto de este acabar por muito falar  do objeto. Realizou diversas observações do mesmo e parece ter ficado cada vez mais admirado com o que via. Foi ele que certamente resolveu o aglomerado em estrelas. Sua última observação demonstra claramente seu fascínio pelo objeto: “Aglomerado globular, extremamente concentrado belamente e gradualmente muito mais brilhante em direção a centro; até um perfeito fulgor; diâmetro em ascensão reta de 26.8 segundos ( de tempo) . Estrelas de 16a magnitude (todas finamente resolvidas em perfeitamente iguais estrelas). Ascenção reta duvidosa. O Espelho estando em uma case (e depois em desuso)”.
                A alegações finais a respeito da ascensão reta são confusas e não sei se se referem a entrada de Dunlop ou se o próprio Herschel teve alguma dificuldade em realizar a medição.
1 Exposição de 8 seg. Muito semelhante ao que vc verá com um 150 mm com 45 X de aumento. 

                Eu observei Ngc 2808 com diversos instrumentos ao longo de vários anos. Com o uso de binóculos o mesmo é uma daquelas estrelas “cabeludas” que revelam sua natureza diferenciada facilmente. Mas não mais... Com o Galileo (um refrator de 70 mm f 13) com 90 X é um esfuminho sem nenhum tipo de resolução, mas que tem lá seu charme. Pequeno. Com o Newton (um 150 mm f8) ele começa a se resolver nas bordas e tem mais charme. É um globular bastante concentrado e de centro realmente bem brilhante. Mas não entra na minha lista de favoritos... A concorrência no “mundo dos Globs” é terrível. Especialmente aqui pelo hemisfério sul.
Com telescópios menores vc deve esperar por algo assim. 

                Localizado a 31.000 anos luz de nós Ngc 2808 apresente grande interesse cosmológico. É um Globular Galáctico “anômalo”.
                Como sabemos globulares se dividem em dois grandes grupos. Os de “halo” e os “galácticos”. Enquanto os primeiros repousam no halo galáctico e tem uma metalicidade mais baixa os segundos caminham no disco galáctico e tem uma metalicidade mais alta.
                Ngc 2808 possui um ramo horizontal (Horizontal Branch . Daqui para frente HB) com forte desvio para o azul. O Ramo Horizontal demarca o momento que as estrelas de um globular transitam para depois do estagio de Gigantes vermelhas e passam pelo chamado “Flash de Hélio”.  Em Geral os Globulares galácticos possuem um HB mais e mais azulado (do que seria esperado para sua metalicidade) conforme diminui sua metalicidade. Porém muito s globulares acabam escapando deste padrão e possuem um HB com o as “pontas azuis” alongadas.  (EBT. Extend Blue tails). Este fenômeno implica que algumas de suas estrelas do HB perdem todo seu envelope durante a fase de gigantes vermelhas do ramo.  Além disto alguns globulares “EBT´s” possuem “falhas” na sua população estelar. Faixas claramente “subpovoadas” de estrelas.  Nenhuma explicação clara para isto foi até hoje encontrada.  
                Certamente Ngc 2808 representa um dos casos mais extremos destes Globulares “anormais”.  (L. R. Bedin 1 , G. Piotto 1 , M. Zoccali 1 , P. B. Stetson 2 , I. Saviane 1 , S. Cassisi 3 , and G. Bono 4 – 2000). 
                Na verdade, seu HB chama atenção desde 1974 quando Harris percebeu que seu HB é extremamente incomum.  De fato muito rico, em estelas azuis e vermelhas em seu HB, mas este faltando completamente em objetos com coloração intermediaria.

                 Apesar de considerado um globular galáctico "anormal" atualmente ha alguns "papers" que dizem este tratar-se de um globular capturado da "Galaxia Anã de Cão Maior".  Esta descoberta em 2003.... 


                Repousando aproximadamente no meio do caminho entre Miaplacidus (Beta Carinae) e Aspisdiske (Iota Carinae e a estrela a sudeste no “Falso Cruzeiro) e perceptível com quase qualquer auxilio ótico em céus suburbanos é um alvo fácil de se localizar. A primeira vez que o observei foi como se tivesse feito uma “descoberta”. Apenas passeava com uma buscadora 8X50 pela região...

                Um interessante objeto recheado de história e astrofísica. O Único Globular de Carina...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ngc 3201: O Globular Bishop- Thorton e o Telescópio de Dunlop



         Ngc 3201 é um dos mais interessantes globulares que conheço. Visualmente falando é um dos mais cativantes. Cobre uma área grande de ocular e com um brilho de superfície mais baixo que a média não é um oferecido que se resolva a primeira olhadela.
A primeira vez que o observei era noite de lua bem cheia e este tinha aquele aspecto assombrado das coisas que esbarram com o existir. Mas que com um olhar atento este começa a apresentar formas muito além dos esfuminhos arredondados que caracterizam muitos globulares. Neste primeiro encontro, com ajuda de visão periférica, percebi inicialmente o seu existir. Depois que este não tinha a forma arredondada e regular típica da maioria. E finalmente suspeitei de um “v” sobre sua superfície formado por estrelas mais brilhantes. Algo como a barra que caracteriza M 4. Fiquei muito satisfeito com minha visão quando essa estrutura surgiu de forma inequívoca após sua captura fotográfica. Naquela noite eu o chamei de Aglomerado Fantasma por recordar, de certa forma, o ainda mais fugidio Ngc 5897, em Libra e o verdadeiro Aglomerado Fantasma.
Ngc 3201 é um dos “100 de Dunlop”. Lista onde reúnem-se os 100 objetos mais significativos do catalogo organizado por James Dunlop nos anos de 1820. O Globular é uma descoberta original de Dunlop e este o descobriu na noite de 1 de maio de 1826. É a entrada D 445 do já citado catalogo.
“James Dunlop: (maio 1, 1826): Uma bem grande, bem brilhante arredondada nebulosa ,4´ ou 5´ de diâmetro, gradualmente condensado em direção ao centro, facilmente resolvível em estrelas, o formato é mais para irregular e as estrelas são consideravelmente espalhadas no lado sudoeste. As estrelas são também de magnitudes levemente misturadas.”

13X 30 Seg Iso 1600 + 7 darks. Empilhadas no DSS e pós no PixIn Sight-Canon T3 e Newton 150 mm f8
A foto que abre o post foi submetida a 2X Drizzle no DSS.

Como é de se esperar telescópios diferentes e noites diferentes chegam a resultados diferentes. O telescópio de Dunlop era um refletor de 230 mm com uma distância focal de 2740 mm. Ou seja um 230 mm f 12 (F 11, 9 para os mais Caxias). Com um espelho especular. Glen Cozens, Andrew Walsh e Wayne Orchiston, em um paper intitulado “James Dunlop´s Historical Catalogue of Southern Nebulae and Clusters”, apresentam uma interessante equação que permite comparar o telescópio de Dunlop com um telescópio moderno com um espelho aluminizado. Chegam a conclusão que este seria comparável a um telescópio de 160 mm atual. Isto depois de 6 meses de uso. Pela magnitude máxima dos objetos descobertos por Dunlop eu imagino que o Telescópio de Dunlop e o meu “Newton” (um newtoniano 150 mm f8) lutem uma briga justa.
Eu, definitivamente, vejo um aglomerado maior que os 5´ ou 6´ descritos por Dunlop. Algo entre 15´ ou 20´. Mas provavelmente devido a noite clara não posso concordar que o mesmo se resolva facilmente. No mais concordo em gênero número e grau com a descrição do “Astrônomo Cavalheiro de Paramatta”.  Estrelas com alguma variação de magnitude são obvias graças ao” V” já citado. E esparramadas em um dos lados garantindo o formato irregular.
Não bastando seu apelo visual Ngc 3201 é uma espécie de renegado. Um daqueles objetos que parecem caminhar na contramão do universo. Literalmente.
Como nos conta O´Meara em seu “Southern Gems”, um dos poucos guias observacionais dedicados as maravilhas do céu austral, não há “em cima” ou “embaixo” no espaço. Os equivalentes celestiais de norte, sul, leste e oeste são convenções uteis que nos permitem ver as engrenagens de nosso universo. Ao adotar estas convenções permitiu-se aos astrônomos encontrar certos padrões no esquema cósmico das coisas. Por exemplo: a maioria dos planetas em nosso sistema gira em seus eixos de oeste para leste. Mas Vênus é retrogrado. Lá o sol nasce no Oeste e se põe no Leste...  Da mesma forma que alguns renegados parecem andar na contramão no nosso sistema solar existem diversos corpos que correm contra a maré na galáxia. Embora a grande maioria das estruturas girem ao redor do centro galáctico em um sentido há uma minoria que não acompanha o padrão. Ngc 3201 é um dos exemplos mais famosos deste bando de renegados. Quem já viu (e lembra...)  “The Wild Bunch” (Meu Ódio será sua Herança nos cinemas nacionais) vai entender o apelido que dei ao aglomerado. O Globular de Bishop- Thornton.


Ngc 3201 tem uma idade estimada de 16 bilhões de anos (globulares são algumas das estruturas mais velhas do universo) e reside no halo galáctico a 17.000 anos de nós e a cerca de 30.000 anos do centro galáctico. Sendo um globular cheio de detalhas especiais é o aglomerado com a maior velocidade radial conhecida e se aproxima de nós a incríveis 490 km por segundo. Mesmo se removendo o efeito da velocidade do sol ao redor do centro galáctico (lembre-se que Ngc 3201 caminha na contramão...) ainda restam 240 Km por segundo. A velocidade não permite que este escape da galáxia. Mas permite suas excentricidades. Quando falo em excentricidade me refiro ao aspecto humano do termo e não de orbitas. Mesmo que possa. 
Apesar de tantos traços especiais Ngc 3201 continua sendo um globular “típico”.  Não parece tratar-se de um globular capturado por nossa galáxia nos primórdios de sua formação.  Nada também impede que seja o núcleo de uma galáxia anã. Algumas teorias defendem que o halo galáctico inteiro tenha sido formado desta maneira.

Localizar Ngc 3201 não é tão fácil como pode parecer. Primeiro localize o asterismo do falso cruzeiro. Depois localize m Velorum (O topo da Vela) logo a oeste p Velorum. A distância entre estas é uma unidade. Alongue esta linha duas unidades rumo a oeste e você vais estar por perto de Ngc 3201. Em tese ele será perceptível pela buscadora em um local escuro e em noite sem lua. Eu mesmo nunca o percebi pela buscadora.
O seu “v” é uma das estruturas mais marcantes que já percebi em globulares e conseguir nota-lo sem sequer ter resolvido estrelas neste é um desafio observacional extremamente prazeroso. Ele é notável mesmo utilizando o “Galileo” (um refrator 70 mm) com 45 X de aumento.  Começo a resolve-lo com 120 X no “Newton”. Em noites escuras.
Um lindo globular que caminha na contramão. Seu aspecto chamou também a atenção de Sir Patrick Moore que o inclui em sua lista que reúne o DSO´s mais interessantes que não tenham sido descobertos por Messier. O Catalogo Caldwell. Neste é C 79.