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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Astrofotografia, Galáxias, Nebulosas , Aglomerados e Champagne

      


        O fim de ano foi novamente nas terras de José Eustáquio , o mitológico  primeiro  astrônomo da Armação dos Búzios. Como não poderia deixar de ser neste período do ano a chegada foi regada mais a  champagne do que a  astronomia. 
                No dia 4 a casa já ia mais vazia e a lua mais minguante e finalmente me digno a montar Mme. Herschel e o Newton ( uma montagem equatorial HEQ5 Pro e um Refletor de 150 mm f8 respectivamente). Não que os primeiros dias do ano tenham passado em branco. Entre um copo e outro eu as vezes me esticava em uma cadeira de praia e brincava com a buscadora 8X50. Me sentia como José Eustáquio, Silvano Silva e o patrono de todos: Lacaille. Com minúsculos aumentos e uma ótica duvidável explorava pequenos esfuminhos pelo céu e me divertia nos grandes abertos que adoram buscadoras. E assim passava vários minutos passeando pelas Híades , Plêiades e outros aglomerado mais obscuros na cauda do Cão Maior. Me divertia em ver M 41 de forma discreta e M42 como um modesto borrão.
                De volta ao dia 4 me deparo com a triste realidade . Havia esquecido o pino que fixa a cabeça ao tripé. Gritos , xingamentos e culpas mais tarde me conformo e volto a buscadora. Na manhã seguinte vou até "O Parafusão" ( a melhor loja de ferragens em um raio de vários quilômetros...) e consigo resolver o problema. Um parafuso e uma arruela fariam o truque.
                Ao anoitecer as nuvens dominam todos os horizontes. Mas como sou teimoso vou em frente. Realizara o alinhamento polar de forma a deixar José Eustáquio orgulhoso. Simplesmente apontei o eixo polar para onde sabia que deveria estar o sul e com o auxilio do "Angle Meter" ( um app que agora habita meu celular) cravei 22 quase 23 graus. José embora tenha vivido no seculo XVII era um amante da tecnologia...  E voilá. Exposições de 25 segundos  por entre as nuvens com estrela "quase" sem rastro.
                Com o horizonte leste com alguns clarões entre as nuvens realizei o alinhamento da buscadora utilizando M 42. Pode parecer estranho utilizar um DSO para alinhar uma buscadora mas tenho feito isto frequentemente. É bem mais fácil navegar com a ocular 25 mm em campos conhecidos e ricos em estrelas do que em busca de uma estrela solitária. Para alinhar o go-to de Mme.Herschel utilizei Sirius e Alcyone. Em geral tenho utilizado Sirius e Aldebarã mas resolvi variar. A precisão do mesmo ficou bastante satisfatória. Conhecendo o backlash da mesma sempre conseguia ter meus alvos dentro do campo de minha ocular de 10 mm. Muito bom mesmo... Aproveito que já estou pela região e visito tanto as Plêiades como as Híades com mais aumento. Ambas são alvos que definitivamente ficam melhores na buscadora que no Newton.
                Com muitas nuvens no céu e com Órion em um buraco entre estas não poderia deixar de iniciar a primeira noite de observação deste verão com M 42. Fiquei um bom tempo namorado a Grande Nebulosa utilizando minha 25 mm. Depois parti para a 10 mm para imagens mais ginecológicas do Trapézio ( uma estrutura formada por 4 estrelas que reside no centro da nebulosidade...) . Chamei minha esposa para dar uma olhada nesta beleza e ela pareceu tão encantada como sempre. Não muito.


             

   Foi interessante fazer algumas fotos de M 42 lutando contra as nuvens. O resultados  demonstram bem quão nublada estava a noite.

                Provavelmente saudoso das histórias de José Eustáquio e com a Popa da finada constelação de Argos em boa posição entre as nuvens me deparo com Naos , a estrela que deveria ser Alpha Puppis mas que não é pois como a Constelação de Argos foi desmembrada por Lacaille a popa da navio dos Argonautas se tornou uma constelação inteira e que tem como estrela mais brilhante Zeta Puppis ( outrora Zeta Argus)... 
                Na popa do Barco que conduziu os Argonautas em sua busca pelo velocino e na Armação do Búzios só me restava lembrar do mitológico José Eustáquio , um pescador astrônomo e que que se referia a aglomerados abertos como cardumes de estrelas. E desta forma me lançar a uma pescaria de corrico celestial.
                Premiado pela minha insistência acabo por conseguir observar e fotografar  3 belos abertos nos arredores de Naos. Ngc 2477 era um dos últimos objetos do Catalogo Lacaille que me restava fotografar. Não é mais... Este forma com Ngc 2451 uma espécie de aglomerado duplo e que podem ser observados no mesmo campo com binóculos ,buscadoras e mesmo em telescópios .  E assim mais peixes na linha.
Ngc 2477 - 11X20seg 1600 ASA 




Ngc 2451


                Outro belo cardume é Cr 135. Dominado pela brilhante Pi Puppis ( uma estrela muito vermelha) é um daqueles abertos pouco falados mais que deveriam ser mais conhecidos . Um belo objeto do Catalogo J.E.S.S.  Já fotografei este aberto  em outro fim de ano. Nos tempos de minha falecida Canon antiga...
                Depois disto o tempo fecha de vez  e recolho o circo. Para aproveitar o alinhamento polar satisfatório embalo tudo com vários sacos plásticos e me retiro ainda a tempo de ver o jornal. Mas acabo vendo Masterchef com as crianças que já dominavam a televisão...
                O dia seguinte se apresenta sem uma única nuvem no céu. Fiquei impressionando como um céu de brigadeiro pode se tornar coberto de nuvens em tão pouco tempo. Por volta de 17:00 horas uns poucos rabos de galo surgem sobre a praia de Geribá. As 19:00 o céu esta totalmente encoberto. Mas com tudo no lugar fico sentado em uma cadeira de praia ao lado do telescópio. E assim entre as nuvens capturo alguns cardumes. M 37 em Auriga é provavelmente meu favorito entres os Messier´s de Auriga. Capturei os três. Não mais que 15 fotos de 20 segundos de nenhum deles . 1600 ASA.


M 35 acabou se apresentando...

M 36


M37


M38


                José Eustáquio , bom marinheiro, sempre defendeu que nas noites em que se conseguia perceber facilmente o aglomerado no pé de Gêmeos era sinal de sol de rachar no dia seguinte. É claro que se referia a M 35.  Sendo este o mensageiro do bom tempo deveria ser mau presságio sempre que eu pensava em apontar em sua direção  o horizonte norte fechava por inteiro quase instantaneamente.  E assim acabei me dirigindo a um interessante e menos manjado aberto em Touro. Ngc  1647. 


                Tento novamente M1 mas dentro do domo de Luz da Armação é um alvo difícil e que não rende nada....
                A observação aqui em Búzios é sempre melhor quando se almeja ou o Horizonte Leste ou Oeste.  O Horizonte Sul luta contra o domo de Cabo Frio. E o Norte contra a Armação. Cabo Frio embora mais distante é muito maior e seu domo embora menos intenso se espalha por uma grande área do céu. Já o domo da Armação é mais obvio mas menor.
                Finalmente se abre uma janela entre as nuvens liberando a região de Puppis , do falso Cruzeiro e mais um pouco. Namoro alguns abertos na região.  E revisito a Tarantula. É provavelmente a melhor foto que já fiz desta nebulosa extragaláctica.
Tarantula -Ngc 2070

                Meu irmão chega do Rio por volta de 2:00 da manhã. Com  a noite mais aberta e Júpiter no céu decido fazer uma visita ao maior dos planetas. Curiosamente em noite outrora tão enevoada a transparência se apresenta boa e o seeing idem... Nunca tinha visto Júpiter com tanto detalhe. As luas galileanas alinhadas e a grande mancha evidente. Utilizando minha 17 mm e um barlow 2X  fiquei horas observando Júpiter. Bem como os convivas... Meu irmão que não bebe nada ha mais de 20 anos  começa  a pagar o preço de tanta sobriedade e repete sem parar que Júpiter é o guardião da terra , nosso grande protetor  e toda a ladainha Halle -Bop da vida. Ele adora Blake  e todo aquele papo misticóide.
                Visito e capturo mais diversos abertos. Tento novamente capturar a Nebulosa da Roseta.
                Em noites muito enevoadas é difícil conseguir capturar tênues nebulosas. Vai sempre ocorrer muito ruído em suas fotos.  M 78 é um exemplo claro do que pode acontecer... E ainda vacilei no foco. 
M 78- Só ruído; Visualmente estava melhor... 
               A Roseta vai ter que aguardar outra chance ... Talvez aconteça algo se um dia eu tentar alinhar as mais de 70 fotos no Rot n´ Stack. No DSS não deu certo...
                 M 79  foi o único globular da temporada. Aproveito uma rápida janela e o capturo para posteridade.
M 79 
                Certamente a "estrela" da noite foi a  Tarantula na Grande Nuvem de Magalhães. (Ngc 2070). Uma eterna favorita e a primeira entrada do Catalogo Lacaille ( Lac 1 I)
                Irei adiar minha partida ao máximo... Mas não conto isto para ninguém.
                 Finalmente lua nova e uma noite sem nenhuma nuvem no céu...-Ohh , glória!!!
                 Na véspera eu percebera que Júpiter trafegava entre Leão e Virgem ( o convívio com o meu irmão começava a me afetar...) e assim penso : - O tripleto de Leo. M66 , M65 e uma Ngc que nunca lembro o numero.  Seria uma longa noite. Afinal meus alvos primários só seriam viáveis depois das 2:00.
                Começo a noite alinhando o go-to novamente utilizando Sirius e Alcyone. E como é cedo decido me dedicar novamente a M 42 enquanto  os DSO´s que realmente desejo não se chegam ao outside...
                Vai tudo correndo bem. A noite ainda vai se iniciando e em terra de cego quem tem telescópio só se f...  Todo mundo acende  luzes , velas , isqueiros e sempre resolvem se confraternizar onde você planeja observar.  Como eu tinha tudo planejado já tinha levado isto em conta e M 42 é capaz de sobreviver a tudo isto. Vou fazer varias fotos e tentar finalmente fazer uma foto a altura da vitima. Utilizando meu novo método de "Acompanhamento" tudo parece correr  bem. Até que minha cunhada decide tomar uma ducha e liga a bomba de agua. Pronto.. Um monte de rabiscos no LCD da câmera e eu apavorado tentando descobrir porque tudo parara de funcionar.  Descubro que quando a bomba é ligada a tomada de onde alimento a Mme. Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 pro da Skywatcher)  com energia se suicida e algum disjuntor desarma...
Revisitando o Aglomerado de Tau Canis Majoris  3X Drizzle
                Com tudo corrigido e com Mme. Herschel devidamente alimentada a partir de uma outra tomada refaço todo o alinhamento. Sirius e Alcyone novamente. Mas na hora que a cabeça se dirige para Alcyone percebo que esta cruzou o meridiano e não se presta mais a função. Você deve preferir utilizar duas estrelas do mesmo lado do meridiano quando alinhando o Goto de sua montagem. Esta escrito no manual...Começo de novo e Sirius e Aldebarã fazem o serviço.
                Nas próximas noites eu planejo levar a astrofotografia mais a sério. Geralmente a pratico como um complemento de minhas observações. Especialmente quando tratam´se de aglomerados abertos (que amo de paixão) me bastam uma ou duas dezenas de exposições; Na verdade não gosto de registros muito pirotécnicos que fazem dos registros mais arte que observação. Mas quando se tratam de alvos mais difíceis e que muitas vezes quase não são percebidos na ocular seria uma bobagem não  aproveitar o maior poder de fogo dos modernos sensores fotográficos. Mas isto implica em mais capricho , mais frames capturados , mais paciência e pós processamento.  E assim serei um pirata menos sanguinário neste final de temporada. Passarei mais tempo com os navios que irei saquear...
                Com tantas aventuras o alvo inicial já chegou em boa posição para o ataque. A Nebulosa do Esquimó em Gêmeos. Não é um alvo fácil pois com apenas 9´´  é dificil de se destacar na multidão. Mas Mme. Herschel , Sirius e Aldebarã combinaram me ajudar e consigo que a nebulosa planetária se apresente senão centralizada pelo menos no canto da ocular de 10 mm. Esta revela uma estrela levemente desfocada  e bem azul. Com aquela pinta de disco planetário que batiza as ditas nebulosas deste tipo de planetárias.  Com esta eu completo mais um capitulo de um de meus primeiros livros de Astronomia. Turn Left at Orion. Com o Eskimó completo o capitulo dedicado aos meses de Inverno .Os livros são sempre escritos com o hemisfério norte em mente. Falta ao brasileiros o que chamo de folclore astronômico. Não possuímos em nossa literatura clássicos devotados a astronomia observacional nem autores classicos como Putnam , Webb e mesmo os mais atuais Houston, O´meara , Harrigton , Consolmagno e cia. A astronomia se encastela e não temos tradição de fazer da ciência uma coisa do nosso dia a dia e do homem comum. É uma pena . Brasil...   
Ngc 2392

                Mas ainda em Turn Left at Orion eu tento M1 . Continua se recusando a comparecer dentro do domo de luz da Armação. Outro objeto do livro que me sacaneará esta noite é Castor . Não consigo separar as componentes desta dupla com nenhuma combinação de ocular e barlow. Mesmo com 240 X não arrumo nada...
                Depois de fazer mutas fotos de Ngc 2392 (  o Esquimó ou a nebulosa Cara de Palhaço) eu me preparo para a longa espera ate o nascer de Leão. Júpiter dará o alarme...
                Enquanto isto passeio por Câncer ( a derrota planejada para noite era altamente zodiacal... Touro , Gêmeos , Câncer e Leão eram as constelações por onde pretendia passear) .



                M 67 é um lindo aberto e bem mais delicado que M 44. Ambos são visitados. M44 possui varia duplas que me levam a lembrar que Câncer possui varia estrelas múltiplas dignas de nota e que nunca visitara. E Contando com o Auxilio luxuoso de Mme. Herschel e seu sistema de goto acabo conhecendo Iota Cancri. Vai ser uma nova favorita. Uma dupla sensacional. Do naipe de Albireo embora bem mais difícil de ser localizada. Na ocular ( 17 mm + Barlow 2X) o contraste entre a primaria amarela e a secundaria azul é lindo.
                Depois desta visito, por indicação do Synscan, Theta 2 Câncer. Uma dupla bem apertada e com um contraste menos acentuado mas bastante interessante . Uma graça.
                Júpiter surge o no horizonte leste. Curiosamente apesar da noite muito mais limpa e menos enevoada ele não apresenta metade dos detalhes que vi na véspera. É engraçado que na noite mais sem nuvens e teoricamente mais seca eu tenho mais condensação presente no tubo do telescópio. Nada que chega a comprometer mas é estranho que na noite sem nuvens eu tenha menos transparência e mais umidade...  Me preocupo com relação a próxima etapa. Transparência e Galaxias se gostam... 
                Digito M 66 no Synscan de Mm. Herschel e começo a procurar pela dupla de galaxias. Não as percebo imediatamente. Mas sei que elas estão no campo.
                Todas as pessoas tem um olho dominante. eu , por exemplo, só consigo piscar meu olho esquerdo e assim meu olho dominante é o direito. Sempre ,ou quase, observo com ele. Mas segundo meu oculista eu vejo melhor com o olho esquerdo. Acho que o convívio com meu irmão esta me influenciado mais do que supõe a vã filosofia. E assim inicio um exercício capaz de abrir as portas da consciência. Fechando o olho direito com auxilio de minha mão utilizo o esquerdo na ocular. É um recurso extremo em busca de meus alvos. Funciona. Percebo que duas tênues estrelas de campo são acompanhadas de leve nebulosidade. Uma mais evidente que a outra. São os núcleos das galaxias que caço. Instalo a câmera , aumento o ISO para 3200 e a exposição para 25 segundos.  É golllll!!!!.

M66 e M65

                Realizo mais de 80 exposições utilizando meu novo método de acompanhamento.

                O novo método de acompanhamento é na verdade mais um método de correção . Com a imagem no LCD da câmera eu marco a posição de uma estrela brilhante com auxilio de um papelzinho cortado como uma seta. E assim a cada x exposições corrijo o desvio entre as fotos . Desta forma consigo minimizar os danos de um alinhamento polar menos que perfeito. Com a velocidade de movimento do Synscan regulada em 2 eu dou pequenos toques no controle de direção ( descubra qual é a direção do desvio utilizando paciência0 e assim o drift a final de dezenas de exposições não leva a catástrofes como a da foto abaixo... Não chega a ser um acompanhamento feto com auxilio de uma câmera e um software dedicados mas ajuda bastante .
                Já vai alta madrugada é vejo Corvus no céu. Com o sucesso ainda me embriagando decido ajudar a embriaguez começo a dar pequenos shots de vodka enquanto me encaminho para M 104. A Galaxia do Sombreiro.
M 104 - O Sombreiro

                Esta se apresenta na ocular facilmente mesmo com visão direta. Faço mais de 50 fotos.
                A noite foi sensacional e uma das sessões de astrofotografias mais recompensantes que já tive. Me resta sentar na cadeira de praia  e testar os limites de minha visão a olho nu enquanto me embriago de céu e vodka...
                No dia seguinte fiquei em casa processando os resultados da véspera . Nem fui a praia... O Dia esta mais nublado mas não chega a me preocupar.     
                De noite desafiando as nuvens resolvo fazer uma brincadeira diferente. Utilizando apenas os anéis de montagem do Newton monto a Canon como em Pigback. Com a 70-300 mm  @ 70 mm f6.3 descido tentar a sorte e realizar a manjada e difícil foto de Órion que captura a Nebulosa Cabeça de Cavalo,  a Nebulosa da Chama , M42 e The Running Man  tudo ao mesmo tempo e agora.  Depois de mais de 100 exposições acho que tenho alguma chance.
                Na manhã seguinte seleciono as fotos e a grande presença de nuvens me permite escolher 91 fotos para o processo de empilhamento. Foi pouco. A transparência na noite anterior não era nem de longe suficiente para a missão.  M 42 da as caras mas mesmo a Nebulosa da Chama ( que não é exatamente dificil...) só é um apagado registro...
                Como acabei por conseguir adiar o retorno para o Rio por mais um dia aproveito que a Noite de Domingo se apresentou com condições excelentes e refaço todo o processo e além. Começando cedo consigo Capturar  217 frames antes de Orion cruzar o meridiano. Se não conseguir nada desta vez vou processar a Canon...
                Como já tinha percebido Mme. Herschel estranha trabalhar com pouco peso e depois de 3 horas acompanhando B 33 e cia. Ltda. ela trava ao pedir que se dirija para outro endereço. Aproveito para colocar o Newton de volta a batalha.
                Apesar de ter dito acima que não se deve utilizar estrelas de lados distintos do céu faço exatamente isso e curiosamente consigo um alinhamento do Go to bem aceitável.
                No cair dos panos e quase sem bateria na câmera tento um alvo que me iludiu a temporada inteira. M1. Ainda bem que insisti. A percebo visualmente com a ocular de 25 mm e acabo conseguindo 25 fotos da mesma  antes de a bateria abrir o bico... Ha anos M1 me envergonhava e nunca a conseguia fotografar.
M 1


                Para encerrar a temporada decido brincar mais de estrelas duplas.  A grande novidade foi 135 Canis Majoris. Conhecida como a "Albireo de inverno" pelos observadores boreais esta é uma versão miniatura da famosa dupla de Cisne. Sensacional.
                Estrelas duplas são um divertimento garantido para astrônomos urbanos e atormentados pela poluição luminosa. As "favoritas "assim o são chamadas por diferentes razões. O Contraste de cores de suas componentes , dificuldade em se separar pares muito "apertados" , a diferença de magnitude entre seus membros ou todos estes juntos   são as principais...
                Rigel é uma delas pela diferença de magnitude entre a primaria e a secundaria.
                Para encerrar uma longa e frutífera temporada visito uma bem apertada. h 375.
                Agora é desmontar tudo e voltar para o Rio. O ano já começou e tenho contas a pagar e preciso fazer dinheiro. Tenho milhares de fotos para processar e estou com saudade de casa.
M 93 também fez uma visita 

                Este ano não prometi que iria pra de fumar ou de beber. Pretendo apenas diminuir o Rock n´ Roll .Mas comprei uma camiseta dos Ramones e outra do Sex Pistols em uma promoção na "The House of  Rock and Roll" no Shopping da Armação.  Comprei também uma ocular Plossl de 40 mm que não chegou a tempo de acompanhar-me na viagem...


                Que venha 2016.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

M 18 : O Aglomerado do Cisne Negro


                Definitivamente a aquisição de Mme. Herschel aumentou em muito a produtividade no Nuncius Australis ( Mme. Herschel é uma cabeça equatorial Skywatcher Heq 5 Pro) . Durante o inverno, mesmo que observando pouco capturei  imagens de Dezenas de DSO.
                Varias em cada uma das noites. Anteriormente , utilizando minha fiel HEq3-2 eu conseguia no máximo algo como 5 ou 6 objetos. A menos que estes fossem muito manjados e em áreas intimas da via láctea. Me orgulho de se Centauro ,o Cruzeiro e a finada constelação de Argos se apresentarem no céu sou capaz de localizar varia dezenas de DSO´s em pouco minutos . Com um binoculo 15x70 parece até  helicópteros russos nas estradas próximas ao reduto do EI.  Altíssima contagem de corpos.
                Mas em busca de alvos menos manjados e em regiões não tão nobres  a coisa demorava mais. Star Hopping era a ordem do dia e navegação era uma palavra semore muito repetida.
Com o sistema Synscan melhorou muito... Agora  mesmo com um alinhamento péssimo do goto as coisas andam e dificilmente um alvo não é encontrado...
                Desta forma embora o inverno já tenha se encerrado a muito e a primavera já adiantada me restam diversos DSO´s visitados na temporada e mais adequados a outra estações de que não falei.
                Este é um deles. Um dos Objetos Messier menos admirado mas nem por isto menos admirável. Burnham em seu "Celestial Handbook" fala que este aglomerado é um dos mais injustiçados do Catalogo Messier.  M18 é um aglomerado aberto que sofre de um problema recorrente nas boas vizinhanças . Com já falei ha certas regiões no céu  em que DSO´s são alvos  de extermínio em massa. E sempre entre estes existem as grandes estrelas. E assim alvos alguns DSO´s caem no esquecimento . Habita-se M18 em outra constelação seria ele um destaque. Já na região central da via lactea, seguindo a linha magica de nebulosidades que emanam  do "bico do Bule" em Sagitário,   esta  torna-se se não um patinho feio pelo menos uma mula manca...
                O visitei ,creio que pela primeira vez, da Stonehenge dos Pobres. Em condições bem adversas.
                Estava eu passeando com Mm.Herschel quando me ocorreu digitar M18 no Syscan. Rapidamente e em um bom momento esta aparece cravada no centro da buscadora. Apesar de dever acontecer isto nem sempre acontece. Mme. Herschel tem suas vontades, back lash e outra coisas que nem sei.
                Ganhou logo minha simpatia . Um aberto modesto clássico. Quase um asterismo. Mas que me ensinou sabia e percebo que ele tem mais a mostrar do que isto.
                Collinder criou um catalogo que classifica aglomerados abertos por certos padrões. Estes padrões se referem a forma aparente de aglomerados mais conhecidos e tradicionais. Eles poderia sr do tipo Plêiades ou de  Tau Canis e assim vai... Acredito que m18 seria classificado com do Tipo "Plêiades em seu catalogo.
                Eu gosto de buscar padrõe e assim costumo também associar os abertos que observo muito em relação a sa forma. E visualizo ceras "famílias" de aglomerados abertos. O formato triangular sempre me remete a Ngc 4755. E assim nasce a família dos Aglomerados galácticos associados a triângulos. Este grupo ainda se subdivide em "triângulos mesmo" e "Arvores de Natal".  É um exercício sem nenhuma pretensão cosmológica ou fisica. Talvez uma pratica mais apropriada  a biblioteconomia do que astronomia.
                M 18 é um daquelas arvores de natal bem modestas. Entre suas estrelas mais brilhante e que lhe emprestam a forma percebem-se alguns enfeites. Com a forte poluição luminosa em nosso registro estas modestas estrelas não chegam a parecer a decoração natalina que habita a Lagoa Rodrigo de Freitas e  patrocinada pelo Bradesco. Porém não irão ruir com um pé de vento. Mas em céus mais escuros  certamente irão acrescentar  seu charme ao aglomerado...
                M 18  é um objeto "original de Messier. Esta foi primeiramente registrada na noite de 3 de junho de 1764. Messier realiza o seguinte registro:
" Aglomerado de fracas estrelas logo abaixo do anterior, numero 17, Cercada por tênue nebulosidade. Este é menos evidente que o penúltimo, numero 16. Com um refrator simples de três e meio pés este aglomerado se apresenta como uma nébula. Com um bom telescópio apenas estrelas são visíveis. "
                Descrição é riquíssima . Varias conclusões ( também chamados de palpite...) podem ser tiradas dele. A primeira  é que M 18 habita a cerca de 1o da nebulosa do Cisne. Difícil ser percebido e menos ainda amado...  A outra é que Messier realmente quando observou M 16 não viu a nossa famosa Nebulosa da Águia e os famosos Pilares da criação. Ele viu o aglomerado aberto associado. Mesmo no catalogo Ngc a descrição fala apenas em "Aglomerado de estrelas brilhantes e fracas...". Dreyer , em sua checagem, não deve ter observado M 16. Ele teria percebido mais que isto...
                Localizar  M 18 é fácil. Ele reside em uma daquelas regiões do céu que falei acima.  Onde você esbarra em DSO´s mesmo sem querer. Localizar M17 é muito fácil e M18 esta logo ao lado .

                O´Meara acha que M 18 forma um padrão que lembra um cisne negro com sua asa levantada. Com pequenas ampliações é possível possui M 17 e M18 no mesmo campo ocular. E assim você pode observar um interessante cena com "dois patinhos na Lagoa. Eu confesso que perceber um cisne negro em M18 está além de minha imaginação. De qualquer forma isto empresta o apelido de "Aglomerado do Cisne Negro" ao nosso aglomerado. O próprio O´Meara ressalta que o nome tem um que de duplo sentido devido a proximidade de M 17 .
                O aglomerado é fisicamente pequeno cobrindo algo como 6 anos luz . Contam-se 40 membros e muitas das pequenas estrelas são na verdade estrelas de fundo.
                Este descreve bem também a nobre localização  de M18:
"Pequenos aumentos ( eu gosto de observar a área com meu 10X50)  apresentam M 18 em uma luz bem favorável.  Com o rico cisne ( M 17 ) ao norte, uma bela peça de nebulosidade ( IC 470) ao noroeste e a Pequena nuvem de Sagitário ( M24) ao sul. Esta pequena e parecendo insignificante  de magra luz estelar é cercada de desconcertantes gigantes cósmicos. "
                Realizei poucas fotos de M18.
                As condições eram péssimas, o alinhamento polar deixava muito a desejar e confesso que sou um astrofotografo bastante preguiçoso. Acho que nunca irei realizar uma foto com horas e horas de exposição. Um registro honesto e que revele segredos que escapem a minha visão junto a ocular são o ordem do dia. 
                Desde criança eu sonhava em tirar fotos de objetos astronômicos. Naqueles tempos isso era algo quase impensável para um amador duro. E assim quando as coisas se tornaram mais fáceis e  eu menos duro fiquei bastante feliz em conseguir registros fidedignos da maior parte do DSO´s que arrisco. Com pretensões galácticas sei que terei de me tornar mais paciente e focado. Mas mesmo assim não me vejo realizando fotos em narrow band ou mesmo LRGB . É possível que com o tempo venha a me dignar a guiar minhas fotos. Mas serão raras estas ocasiões. Sou um tipo de pirata que gosta mais da batalha do que do saque. E assim gosto de abordar vários alvos em uma única viagem.
                O diário de bordo nos diz o seguinte a respeito da derrota fotográfica:
" Foram realizadas 8 fotos de M18 com 25 segundos de exposição em ASA 3200. destas foram aproveitadas 7. Foram empilhadas no DSS. Posteriormente seguiram seu rumo em direção ao Photoshop onde o Nivel e a s curvas forma mexidas. O Alinhamento polar não foi acurado ".

2X Drizzle


                                                                              
1 exp. de 25 Segundos ASA 3200
                O registro é  fiel ao que se observava. Apresenta mais contraste e certamente mais estrelas. 
                As fotos foram feitas com o Newton ( um refletor de 150 mm f8) em noite de lua e com forte poluição luminosa na "Stonehenge dos Pobres" ( também conhecido como "O Observatório mais Urbano do Mundo".). Se localiza na laje de um condomínio no Leblon. No Rio de Janeiro. Posicionado a sudoeste deste no momento da captura M 18 desafia as luzes de um Shopping. É um DSO valente e bem brilhante como deve-se perceber.
                As estrelas mais quentes de M 18 são do tipo B3. Isto nos revela que trata-se de um aglomerado bem jovem e com menos de 40.000.000 de anos.  Esta a 4.900 anos luz de nós.
                Ha quem o chame de " O Cisne Negro" . Mas habitando em Sagitário esta mais para patinho feio.... 

                

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Riders of the Storm: Transparência e Astrofotografia

         
               Vem chegando sexta feira e depois de passar o dia lutando contra um comerciante que envergonharia a classe mesmo em um mercado no Oriente Médio acabei por conseguir retirar meu novo veiculo automotor e ainda fazer o seguro do mesmo.  Lógico que pretendo ir para Búzios aproveitar a lua  quase nova. Depois de arrumar mala ,cuia e todos os "quéri queris" astronômicos vejo  que,q apesar das ideias homicidas, valeu a pena insistir com o picareta da concessionária e retirar o veiculo ainda a tempo de aproveitar o fim de semana. Agora toda a tranqueira cabe com sobras na mala do veiculo automotor.       
                Astronomia não é para os fracos e  chegando no portão da casa já pronto para começar os trabalhos descubro que minha querida filha ( uma aborrescente puro sangue) deixara  a chave na outra mochila dela. Achar o caseiro , ressuscitar o cabra e finalmente conseguir entrar em casa. Lógico que o céu já ia fechando. A terrível maldição da sexta feira 13 parece se comprovar. Mas como é uma tradição astronômica lutar  contra as trevas e a superstição monto todo o circo  e depois de algum tempo estou com a buscadora alinhada. Curiosamente utilizei M 42 para tal. Nunca tinha alinhado uma buscadora utilizando um DSO como referência...
                O alinhamento do go-to foi difícil. Com nuvens entrando e saindo e com mais de 70% do céu encoberto as estrelas oferecidas pelo "Synscan" ( é o aparelho que comanda o o mecanismo de acompanhamento e de busca de  da montagem. Me refiro a ele tanto como Synscan como simplesmente  "go-to") e pelo céu propriamente dito não chegavam nunca a um armistício. Depois de muita luta e blasfêmias que chocariam  até um marinheiro russo bêbado em um prostíbulo em Santos  eu acabo conseguindo alguma precisão utilizando Sirius e Aldebarã como ancoragem. Em um ato de sensatez incomum decidi que nem tentaria montar o set up para astrofotografia. Com o mar de nuvens e observando "o que desse" nos buracos que se abriam nestas   apontava o "Newton" ( Um telescópio 150 mm f8) hora ao sul , hora ao sueste e raramente para horizonte norte . Eu sabia que fotografar seria uma tremenda perda de tempo. 
                E assim pilotando por aparelhos calculava qual o  DSO que iria se encontrar com os buracos nas nuvens e mandava o Synscan se dirigir para o destino e ficava aguardando com um olho na buscadora e outro na ocular. 
                Aprendi  que a escala de transparência deve ser uma escala aberta . Não ha limites para quão ruim pode ser a transparência atmosférica e quão obcecado pode ser um astrônomo amador.  Desta forma em uma escala de 0 a 10 eu observei M 42 , M41 e Ngc 2244 com a transparência em -2.   M 41 eu observei literalmente escondida nas nuvens. O no aglomerado de Tau Canis Majoris eu percebia a estrela matriz claramente e o aglomerado em si de forma muito discreta com estrelas "flicando" ao seu redor. Mesmo assim somente com auxilio de visão periférica. .  Como muita sensatez torna as coisa muito chatas eu tentei ainda M 78. A duplinha que se esconde na nebulosa eu percebi. Mas a nebulosa já era querer demais.
                Apesar das condições extremas e talvez por causa delas me dei por feliz e realizado. As 3:00 eu estava dormindo...
                No dia seguinte acordei as 9:30 e bem disposto. Nada como não encher o pote na véspera.  Depois de fazer as compras para o "almo jantar" a família parte para a praia.
                Camarão ao alho e óleo, Anchova na Brasa e um Sauvignon blanc me separam de uma nova luta.
                O céu se apresenta menos encoberto . Mas a transparência continua na parte negativa da escala...
                Começa a batalha. O go -to se recusa a colocar algo dentro do campo até mesmo da buscadora. Eu sei que devemos respeitar alguns pré-requisitos na escolha das estrelas do alinhamento do mesmo. Mas nada parecia resolver tirei um pouco de chumbo do contrapeso. Nada. Virei o telescópio. Nada ainda. Descobri que estava usando Peacock em vez de Alnair e assim mentindo para a maquina. Mesmo assim nada. Só me resta melhorar o alinhamento polar que era apenas um sentimento devido as péssimas condições da noite anterior.
                As 22:55:53 eu estou com Achernar cruzando o meridiano e  um alinhamento polar digno de nota foi obtido. Novamente utilizando Sirius e Aldebaran como faróis consigo algum sucesso. M 41 aparece centralizado na ocular de 25 mm. Yessssss!!!!
                A foto de Sirius  ( a que abriu este post...) com um "Halo Lunar" ao redor demonstra bem o conceito de escala de transparência aberta. - 2 ou -3...
                Mas resolvo fazer algumas fotos de meu velho conhecido Aglomerado de Aristóteles ( M 41) . Não chega a ser de tirar o folego. Mas astrofotografia é a melhor diversão. Depois o mesmo com M42. Dois manjados show pieces que sobrevivem a nebulosidade. Esta estava tão forte que impossibilitava observar até mesmo Tuc 47. O Horizonte sueste era o que apresentava as condições mais aceitáveis . E assim decido realizar  umas fotos de um desconhecido. Ele deve  ser bem interessante em condições menos desumanas. De qualquer forma Ngc 2244 , o aglomerado do satélite é uma nova aquisição e um fardo a menos na minha auto imposta e quixotesca missão de observar "' tudo que existe".
                Depois disto fico lutando com Ngc 2477 .Começo a achar que o go-to enlouqueceu novamente. Mas como 2477 fica muito próximo de Ngc 2451 ( os dois cabem no mesmo campo com meu 15X70) eu rapidamente descubro que a luta contra as brumas esta sendo perdida.  Encerro a sessão e parto para dentro dos restos de bebida que existe pela casa e coloco Riders of the Storm ( uma versão remix do Snoop Dog) para rolar.
                 Já de volta ao Rio me preparo  para tratar as imagens obtidas. Monto um play list que desfia Charlie Parker, Herbie Hancock, Ella Fitzgerald e todo o "Take Five" do Brubeck. Sei que deverei ser paciente.   O material não é exatamente de primeira... A transparência era muito baixa e as imagens que fiz de meu velho conhecido M 41 deveriam indicar quase uma magnitude a menos do que seria normal... M 42  que visualmente se apresentava de uma das formas mais discretas que já vi ( e trata-se de  uma vedete...) nas fotografias não chegava a ser inspiradora. Ngc 2244 aparece como um aglomerado aberto  bem modesto. Estranho para um aglomerado apresentado com  apelido no Stellarium e membro do catalogo Caldwell. Perceber a Nebulosa da Roseta que habita em seu entorno ( Ngc 2237) seria considerado um caso de delírio grave e invocara cuidados psiquiátricos urgentes...
                A primeira série a ser empilhada foi M 42. Aprendi que nebulosidade além de apagar as estrelas e as nebulosas se traduz em ruido na imagem final... Depois de passear pelo DSS , Fitswork, Photoshop e Noiseware o resultado melhorou um pouco . Mas ficou muito aquém de suas possibilidades. Curiosamente as péssimas condições tornavam fácil fotografar o "Trapézio" de estrelas no centro de M42. Ele em geral fica muito super exposto. com o filtro de nuvens ele se apresentava facilmente mesmo em exposições mais longas . E com exposições mais curtas era praticamente a única estrutura de M42 que se apresentava claramente... As condições estavam tão precárias que a companheira M 43 não chega a se revelar claramente nem nas fotos.  Foram empilhados 21 frames de 25 segundo de exposição , 7 dark frames e 7 Bias. E em outra versão não foram utilizados bias frames. . O ruido ficou menor sem estes... 
Quase 9 minutos de exposição costumam revelar muito mais coisas em M42. Na verdade já realizei fotos com 30 segundos melhores do que isto...

 
8 segundos de exposição...
                M 41 apesar de mais apagado que de costuma pareceu sofrer menos com a nebulosidade. Na verdade estava em uma brecha de céu privilegiada e assim não  foi necessário tanto pós processamento. É um de meus DSO´s favoritos e com uma bela estrela vermelha em seu centro é sempre um bom parâmetro sobre as condições do céu. No caso eu não percebia nenhuma cor observando visualmente .  Foram realizadas 11 exposições de 25 segundos com 1600 ASA, 7 darks e 4 bias

                Ngc 2244  se apresentou praticamente entre nuvens . E  ruido presente revela isto. Após muito processar a imagem ele ainda se apresenta bem aquém de sua possibilidades. Visualmente era mais com um ajuntamento de estrelas do que como um aberto . Poderia passar facilmente por um asterismo.  7 exposições de 25 segundos 1600 ASA , 4 darks e dois bias.
Depos de muito passear pelo Photoshop ... Levels , Curves , Brilho e saturação . Ruido removido tanto no Fitswork como no Noiseware...

                Como falei eu abandonei a batalha derrotado por Ngc 2477. Mas sabia que estava no lugar certo. Por desencargo de consciência  fotografei 2541 ( apenas um frame) só para confirmar que não estava sendo enganado pelo Go-to. Um velho conhecido que achei difícil até mesmo reconhecer tão desfigurado se encontrava pelas brumas. Uma violência... Mas o "Astrometry" fez a analise de DNA e confirmou sua identidade.  
 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Ngc 6940: O Aglomerado de Mothra



          O habito de dar nome a DSO´s é um ato lúdico e que nos aproxima de objetos que na verdade habitam uma escala que de outra forma seria inimaginável para simples criaturas baseadas no carbono como nós . A grandiosidade das estruturas cósmicas que o astrônomo amador visualiza em seu telescópio são enganosamente pequenas junto a ocular. Isto permite associarmos estas estruturas a coisas que habitam o nosso cotidiano. De muito longe elas até se parecem com coisas próximas a nós...
            Ngc  6940 é um pouco conhecido aglomerado aberto que habita a pouco visitada constelação de Vulpécula, a pequena raposa. É importante ressaltar que pouco conhecido especialmente pelos observadores austrais. Mais provavelmente devido a ausência de cultura astrônomica e de "autores observadores" clássicos como Webb, Smythe, Burnham, Houston e cia. ltda. 
            Foi  através de um autor mais contemporâneo que cheguei até 6940. O´Meara , em seu " Hidden Treasures", lista este aglomerado aberto como o tesouro escondido de no 101. E nele exercita o lúdico habito de apelidar as maravilhas celestiais. E o apelido que ele dá a Ngc 6940 demonstra bem o tamanho e a natureza deste grande aglomerado aberto. O Aglomerado de Mothra.
            Para os mais jovens convém informar que Mothra é um monstro fictício , arqui-inimigo do Godzilla. Uma gigantesca mariposa que foi retratada pela primeira vez em um clássico do cinema de ficção classe Z realizado pelos estúdios Toho em 1961. Eram os primórdios dos animatronics e esta gigante e docil criatura que era tratada como uma deidade pela tribo de uma ilha perdida no Pacifico parecia muito com uma marionete ...
            A nossa mariposa , como dito anteriormente, reside na constelação de Vulpécula . Vulpécula passeia baixa no horizonte norte do Rio de Janeiro e é mais lembrada como porto para  a Nebulosa do Haltere (M 27) e do asterismo travestido de aglomerado conhecido como "O Cabide" ou o Aglomerado de Brocchi.
            Apesar de que para burocracia astronômica o CEP de Ngc 6940 indicar que esta reside na Raposa a pratica nos leva a associar a mesma a mais manjada constelação de Cygnus , o cisne. Eu mesmo a registrei fotograficamente e como não tinha certeza de quem era a criatura fotografada batizei esta como "Aberto em Cisne" antes de investigar de fato quem era o elemento.  Localize 41 Cygnus e você estará muito perto de seu alvo...


            Um belo , grande e colorido aglomerado que foi registrado sob fortíssima poluição luminosa e disputando brilho contra as antenas no alto do Morro do Sumaré. E toda zona norte carioca brilhando ao fundo. Mesmo assim ele se destacava contra o brilho dos vapores de  sódio e mercúrio e chamou-me  atenção.
            Como falei o aglomerado é pouco conhecido por estas bandas mais devido a ausência de literatura especializada do que por culpa própria. Ngc 6940 é um dos 400 de Herschel e reside em diversas listas observacionais.
            Trata-se de um belo aglomerado galáctico que se espalha por 30´de arco no céu ( uma lua cheia) e possui varias dezenas de membros visíveis com qualquer auxilio  óptico . É uma descoberta original de William Herschel ( o pai) , o maior observador visual de todos os tempos. É a entrada H-VII 8 de seu catalogo . Este foi a fundação que posteriormente embasaria o Ngc organizado por Dreyer.  Ele descreve o Aglomerado de Mothra da seguinte forma :
" (observado em 17 de Julho de 1784) Um  muito rico e bonito aglomerado de pequenas estrelas de tamanho similar espalhadas. 20´dimaetro".
            Ngc 6940 foi alvo de um interessante estudo realizado por astrônomo holandês T. Belloni e por seu companheiro italiano G. Tagliaferri. Neste eles utilizaram o atual defunto satélite ROSAT para estudar a atividade coronal de estrelas em Ngc 6940. Aglomerados abertos são mantido juntos por fraca gravidade e são fadados a se desagregarem e desaparecerem. Os mais antigos conhecidos sobrevivem cerca de 5 bilhões de anos juntos. A atividade coronal em aglomerados depende , crucialmente . da rotação estelar. Esta tende a diminuir com a idade devida o redução  da atividade eletromagnética. Em Ngc 6940 ainda existe atividade coronal. mas restrita a estrelas tardias e especialmente em binarias tardias. Isto revela um idade na casa de 1 bilhão de anos. Uma idade avançada para a maioria dos aglomerados abertos... Utilizar atividade coronal para datar aglomerados abertos é uma técnica interessante e uma novidade para mim. Vivendo e aprendendo...
            O aglomerado possui cerca de 170 membros e com 1 bilhão de anos apresenta o ramo gigante já bem desenvolvido. O colorido é evidente.
            O´Meara percebe claramente a gigante Mothra e com sua descrição não é difícil ( para quem viu o filme...) entender o apelido:
"... a estrela dupla junto ao centro do aglomerado, nas costas gigantes da imensa mariposa, são ( evidentemente) as duas fadinhas irmãs e  telepáticas que galopam nas costas de Mothra e que cantam apelos a sua deusa sempre que precisam".


            Ele evidentemente se refere a duas pequenas fadas gêmeas que sempre acompanham Mothra. As gêmeas são consideradas semi-deusas pela tribo local que irá lutar para defende las. Dependendo do filme elas terão diversos títulos . Entre eles " The Cosmos"... No mais recente " A Volta de Mothra" seu papel é ampliado e elas ganham os nomes de Lora e Moll. E uma irmã malvada chamada de Belvera.


            Foi uma curiosa experiencia o pós processamento das fotos realizadas do Aglomerado de Mothra. Talvez devido a seu parentesco cinematográfico eu testei varias formas de processamento .  Talvez também devido aos nefastos efeitos da poluição luminosa nas capturas iniciais. As diversas fotos apresentadas tem como matriz 20 fotogramas de 25 segundos de exposição realizados com uma Canon T3 . 3200 ASA. O telescópio utilizado foi um refletor de 150 mm f8 montado em uma HEQ 5 pro. O alinhamento polar ficou a desejar...  Os resultados são os mais diversos . Infelizmente onde se consegue um menor ruido se perde o colorido. Foram utilizados diversos programas e métodos na série de fotos abaixo apresentados. Os principais foram:
Deep Sky Stacker , Fitswork 4, Maxim DL, Photoshop e Noiseware...










            Infelizmente nem eu sei exatamente qual foi a peregrinação que foi realizada por cada um dos resultados. Trata-se de uma degustação as cegas. Após a captura das imagens e durante o processamento foram consumida duas Garrafas de Casillero Del Diablo Devil´s Edition e uma de um Pinot Noir da Miolo...  Assim como batizar DSO´s beber vinho também faz parte do corpo lúdico da astronomia amadora... 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

M15 e M2 : Cinema-Novo e Astrofotografia

         
         Estive o inicio da primavera afastado da astronomia. Me vi envolvido com a busca pelo vil metal e acabei engajado em um projeto cinematográfico de caráter altamente experimental dirigido por um antigo diretor cuja a história inicia-se  nos tempos do Cinema Novo.  Não bastasse que o texto e as ideias  remontassem loucuras que,  embora não fossem glauberianas, eram da mesma estirpe. O projeto ainda apresentava dois fotógrafos nem tão experientes quanto nosso "herr director" e nem tão de acordo um com outro  . A Primavera tornou-se uma estação do ano que se passava dentro de um cenário maior que o estúdio que o continha e com três sóis iluminando o mesmo apartamento.

            Geralmente quando as coisas ficam neste pé eu começo a beber e fumar demais e o casamento começa a azedar. Ao terminar nosso projeto eu me sentia pronto para passar alguns dias pendurados em um cabide.
            Mas me lembrei que astrofotografia é sempre a melhor diversão e que depois de três sóis fotografar dois aglomerados globulares que não conhecia seriam uma boa ideia para voltar a realidade . E assim parti atrás de M 2 e de M 15.
            Depois de tantas aventuras  a la " nouvelle vague" continuidade tornou-se  uma palavra sem sentido . Resolvi que vou apresentar os dois na ordem inversa da sua entrada no catalogo Messier.

                M 15 é conhecido como o "Grande Aglomerado de Pegasus". Visualmente é como um gêmeo de M 2. O termo "grande" no título demonstra claramente como  os habitantes de latitudes boreais mais elevadas são inustiçados em matéria de aglomerados globulares.
            Apesar de sofrer quando comparado com maravilhas como Omega Centauro , Tuc 47, M22 e outros aglomerados visíveis mais ao sul da terceira rocha a partir do Sol M 15 é cheio de surpresas e atrações cosmológicas. Uma das grandes atrações do horizonte norte no Rio de Janeiro durante a primavera.


Esta foto teve u tratamento diferente da de cima. é a primeira vez que utilizo o fitswork para empilhar as fotos . Na foto superior o empilhamento foi realizado no Deep Sky Stacker. O  fits oferece muito mais possibilidades para o pós processamento . Mas ainda prefiro o DSS para realizar o empilhamento e alinhamento inicial.



            Ele é um dos seis globulares visíveis a olho nu a partir de latitudes boreais mais elevadas , ainda que necessitando de condições excelentes para este feito.  ( os outros são M2, M 3 ,M 5 ,M 13 e M 92)  .
            M 15 é facilmente localizado a partir do "Grande Quadrado" que forma o corpo de Pegasus. A partir deste siga para as estrelas que formam o pescoço e a cabeça do mitológico cavalo e estendendo-se a linha que liga Biham a Enif mais 4o você chegará ao aglomerado. Uma pequena estrela de 6a magnitude habita a oeste de M 15 e juntamente com este simula uma estrela dupla. mesmo pela buscadora você perceberá que uma delas é uma impostora... Esta é M 15.
            M 15 nos conta uma história comum as entradas do Catalogo Messier . Este DSO foi primeiro observado anteriormente por alguém , catalogado posteriormente por Messier e foi resolvido e determinado como um aglomerado globular  por uma observação realizada por Herschel... No caso foi descoberto por Maraldi II em  7 de setembro1746 , incluído no Catalogo Messier em 3 de junho de 1764. Herschel o observou em 1783.
            Messier o descreve da seguinte forma: " Nebulosa sem estrelas entre a Cabeça de Pegasus e Equuuleus. É circular e com centro mais brilhante. Sua posição foi determinada em relação a 8 Equulei. Maraldi menciona esta nebula no Memoires de l´Académie 1746..."
            Curiosamente Maraldi II descreve a nébula como uma brilhante e nebulosa estrela composta de pequenas estrelas. Uma visão muito mais exata do que nos descreve Messier anos mais tarde.
            Como a maioria absoluta dos globulares M 15 é um membro ancião do conselho do universo e possui mais de 12 bilhões de anos. Mas apresenta características que o tornam único . É possivelmente o mais denso aglomerado globular de nossa galaxia. É um dos 21 globulares de nossa galaxia a ter passado por um processo conhecido como colapso de núcleo ( existem mais candidatos a terem sido submetidos a este processo...) e assim apresenta um núcleo central muito pequeno em comparação ao tamanho do globular como um todo. M 15 se espalha por mais de 175 anos luz e sua parte mais central se concentra em menos de 2 anos luz. Mais da metade da massa de M15 se reúne  em um raio com menos de 10 anos luz. É duvidoso se isto ocorre devido as estrelas serem tão concentradas ou se isto é a prova da existência de um buraco negro em seu núcleo. Foto realizada pelo Hubble parece desacreditar a existência do mesmo...
            Não bastasse tantas peculiaridades M 15 é um dos 4 ( os outras são M22 , Pal 6 , e Ngc 6441) globulares a possuir entre seus membros uma nebulosa planetária. embora fora do alcance de Telescópios amadores ( mesmo grandes) Pease 1 habita entre as estrelas de M15 . Foi levantada a suspeita da existência de mais um NP entre suas estrelas em 1976 por Petterson mas estudos posteriores levaram a sérias duvidas sobre a natureza deste  objeto.  
            Não bastasse tudo isto M 15 é também um dos globulares com o maior numero de estrelas variáveis e possuidor de uma bela coleção de pulsares. Alguns motorizados por estrelas de nêutrons duplas ( PSR 2127+11C). Um prodigo da natureza e um colecionador de raridades cósmicas. Antes que me esqueça: esta a 33.600 anos luz de nós

            Agora vamos a M 2.
            Este é bem mais difícil de se localizar que o anterior. Habitando a apagada constelação de Aquarius. " O Jarro" é um asterismo que ajudara você a localizar a peça. Procure ao Sul de Enif ( que é a estrela que marca o nariz de Pegasus) . Com a ajuda de um atlas estelar tente perceber uma ponta de lança formada pelas estrelas Pi Aquarii , Zeta Aquarii, Sadachbia e Sadalmelik. O conunto da obra aponta para M 2. Tenha paciência. É importante em quase tudo que faz...

            M 2 assim como seu companheiro neste post é um aglomerado bem denso e não espere resolver estrelas no seu núcleo com menos de 300 mm de telescópio...
            É um desafio para ser observado a olho nu mas ele vai se revelar com qualquer auxilio óptico. è um interessante objeto binocular e escanear a região em busca deste com um destes pode ajudar em muito localiza-lo com telescópios.
            Assim  como M 15 ele foi descoberto por Maraldi , catalogado por Messier e resolvido por Herschel. Uma daquelas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do universo : Maraldi descobriu M2 exatamente 14 anos antes de Messier redescobri-lo de forma independente e cataloga-lo na noite de  11 de setembro de 1760...
            Messier o descreveu assim:
"Nebulosa sem estrelas na "cabeça de Aquarius. O centro é brilhante e cercado por uma nebulosidade circular. Recorda a bela nebulosa que repousa entre o arco e a cabeça do Sagitário. É claramente visivel com um  telescópio de 2 pés. No mesmo paralelo que a Aquarii. " Ele comenta que Maraldi observou a mesma nebula quando em busca do cometa de 1746.
            Penso e não chego a nenhuma conclusão do  porque ele citar M 22 na descrição e este ser uma entrada tão posterior em seu catalogo... Mesmo porque reza a lenda que ele somente decidiu-se a realizar um catalogo de nebulosas a não serem observadas depois de descobrir M 3...
            Um pouco mais distante que o aglomerado anterior este reside a 37.500 anos luz de nós. Se espalha por 175 anos luz e possui cerca de 150.000 membros. classificado como do tipo II na escala Shapley ele é extremamente denso.
            Apesar de não possuir a mesma riqueza de "estranhezas" de nosso convidado anterior neste post ele apresenta sua quota de variáveis: 42.  Uma de suas características mais notáveis é apresentar uma excentricidade orbital elevada. Assim ele pode se encontrar a menos de 30.000 anos do centro galáctico em um momento e a mais de 150.000 em outro. Momento, em escalas astronômicas, é um período de tempo bastante longo...
            M 2 e M 15 são semelhantes na forma. Tanto que devido a método de captura utilizado durante a sessão e provavelmente herdado do cinema-novo eu cheguei a achar que as fotos de um eram do outro. Felizmente venho desenvolvendo o habito de realizar uma rápida visita ao site  "astrometry" para descobrir se ha alguma novidade ou estrela curiosa nas capturas . E assim não misturar alhos com bugalhos.

            As fotos são resultado de pouco mais de uma dezena de frames de cada um dos DSO´s em questão. Todas com 25 segundos ( 3200 ASA)de exposição e realizadas sobre forte poluição luminosa na "Sobreloja da Stonehenge dos Pobres". Acrescentei 5 dark frames e 5 Bias . Nenhum flat.  As fotos foram empilhadas no Deep Sky Stacker e posteriormente visitaram o Fitswork onde tiveram seu gradiente reduzido e alguns outros processos básicos foram aplicados. As imagens apresentam mais detalhes do que você deve esperar ver junto a  ocular . Utilizei o Newton na captura e na observação ( Um refletor de 150 mm f8).  Creio ser o mais perto que se pode chegar ao lema  "Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão" quando se trata de astrofotografia.