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domingo, 2 de junho de 2013

Mestre João e o Cruzeiro do Sul


O mês de maio foi bastante ingrato para a astronomia. Fui transferido para um universo paralelo cheio de luzes e sombras. Uma espécie de “Wonderland” onde não existia Alice.  Realizando um comercial pra uma grande marca esportiva eu e uma imensa equipe fomos parar no mundo dos espelhos. Uma gigantesca tenda com 400 m² cheia com estes entes reflexivos nos mais variados formatos e tamanhos. Um espaço muito louco e com horários de funcionamento determinados pelas vontades de um craque de bola que não nos dava muita pelota...  Foi assim por 20 dias (ou noites). Tudo isto em um estádio “condenado”. E nunca por menos de 18 horas em cada 24...
“Voltar para casa” foi muito bom. Olhar pela janela e avistar o Cruzeiro do Sul foi extremamente reconfortante. Realmente me senti de volta ao Brasil...
A história do Cruzeiro do Sul é intimamente relacionada à história do próprio Brasil. A menor das constelações é também uma das mais famosas. Com seu característico formato de cruz ele é conhecida e cantada nos dois hemisférios.

Cruzeiro do Sul e Saco de Carvão 

Mas até ser o Cruzeiro do Sul muitas navegações foram necessárias. E segundo as lendas a primeira vez que esta teve sua forma característica identificada foi durante a viagem de Pedro Álvares Cabral. A mesma que “descobriu” o Brasil.
Embora mais famosa a carta de Pero Vaz de Caminha é aqui ofuscada pela carta de João Faras. O Mestre João. Esta deve se tratar do mais importante documento astronômico de toda expedição de Cabral. Não só ela apresenta o primeiro esboço de céus austrais, identifica a forma do Cruzeiro e levanta a lebre de que as terras visitadas por Cabral não eram novidade nenhuma...
Mas fugindo das conspirações ela não deixa duvida de que foi o Mestre João o primeiro a atribuir o Nome de Crucis (Cruz) para a constelação que agora chamamos de Cruzeiro do Sul.  Suas observações são muito mais claras e evidentes que as realizadas pelo navegador italiano Américo Vespúcio.
Há pouca informação sobre este tão esquecido explorador, coomólogo, cientista, médico, piloto e etc... Em um site de origem suspeita descobri somente o seguinte:
João Emeneslau, Johannes Meister, Meister Johanne, o Mestre João de Fares ou João Faras – conforme registro na Torre do Tombo em Lisboa – astrólogo (?), médico e piloto da esquadra de Pedro Álvares Cabral, batizou e fez o primeiro levantamento oficial das estrelas que compõe a constelação do Cruzeiro do Sul. Registrou as coordenadas de Porto Seguro e a 1 de maio de 1500, em carta a Dom Manoel, o Venturoso, rei de Portugal à época dos descobrimentos, relatou suas descobertas.
Descobri ainda, agora graças ao grande Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, que ele era também um dos dois únicos judeus conhecidos na frota de Cabral.
Em sua carta ele fala:
“Senhor, ao propósito, estas guardas nunca se escondem, antes sempre andam em derredor sobre o horizonte e ainda estou em duvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o polo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes como as do Carro; e a estrela do polo antártico, ou sul, é pequena como a do Norte e muito clara, e a estrela que esta acima de toda Cruz é muito pequena”.
No texto podemos perceber certa confusão. Mas de qualquer forma a referencia a Cruz e ao Cruzeiro são claras. Parece-me evidente que Mestre João talvez tenha avistado Sigma Octans (estrela polar sul) nestes tempos pré-telescópicos. E quais seriam as guardas que ele se refere também é difícil afirmar de quem se tratem. Afinal Alpha e Beta Centauro não são circumpolares da altura de Porto Seguro.  Mas sua comparação ao Carro (uma parte da Ursa Maior) e aos guardas (estrelas no Carro que apontam para a estrela polar Norte) deixa claro que ele realmente esta falando do cruzeiro e das cercanias do Polo celeste Sul.
È provável que o piloto de Cabral tenha avistado Nu Octans. E acreditado que esta trata-se da estrela polar Sul. Eu mesmo já fiz isto... E com Buscadoras, Binóculos e telescópios a meu dispor.
De novo graças ao Prof. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão as únicas estrelas circumpolares facilmente visíveis a olho nu e logo ao alcance de Mestre João nas latitudes baianas seriam Beta e Gamma Hydra. As estrelas de Octans são bem discretas... E As estrelas do Cruzeiro não são circumpolares nas Latitudes por onde andava João quando pela Terra Brasilis.
Ainda em seu livro “A Astronomia na época dos Descobrimentos” o Prof. Mourão apresenta a poesia de Gerardo de Melo Mourão, na “Invenção do Mar” apresentando nosso herói:
“Mas na terra de Cabral
Elas foram primeiro reveladas
E nominadas por Mestre João-Mestre João Alemão-
Johannes artium et medicinae bachalaurius
descobridor de estrelas
e o físico-cartografo nelas viu o signo santo
                                              seu pentestrelo persignado
                                       desde a a estrela ao pé da cruz
                                                           até à g na cabeça.
Alpha e Gama crucis
Medidas em seus graus, chamadas por seus nomes.”

Em meio a esta carta de enorme valor ele apresenta o que é o primeiro mapa celeste do Brasil. E levanta algo da bruma que seu rebuscado texto causa aos modernos leitores... O piloto, cientista, médico e etc. parece que possuía uma visão muito desenvolvida.


Pelo desenho se deduz que o Mestre João de Farras identificou as seguintes estrelas: Delta Crucis, Acrux, Gacrux, Beta Crucis, Beta Centauri, Alpha Centauri, Alpha Circini, Beta Triangulo Austral, Gamma Triangulo Austral, Alpha beta Triangulo Austral, Épsilon Apodis, Xi Pavonis, Delta Apodis, Gamma Apodis, beta Apodis, Nu e Sigma Octans. É importante ressaltar que as modernas constelações austrais só foram definitivamente estabelecidas no século XVIII com o trabalho de Lacaille.
Se o antigo astrônomo localizou, de fato, a estrela polar sul permanece um mistério. Assim como se os antigos navegadores sabiam ou não de terras por estas bandas...

Com as histórias de Mestre João ou João Alemão na cabeça e com saudades de observar algo, tirar a poeira do “Newton” (meu refletor) e mais ainda de fazer algumas fotos eu me preparo para visitar as estrelas que formam o meu hospitaleiro Cruzeiro que, nesta época do ano, fica bem de frente para a minha janela na “Stonehenge dos Pobres”.
Nunca tinha fotografado todas as principais estrelas do Cruzeiro. E com meu corpo antigo e cansado deste meu viver no “Pais da Maravilhas” acho que seria um programa legal e fácil. Usando de exposições relativamente curtas e com alvos facilmente visíveis pelo LCD da câmera eu poderia ter uma calma e tranquila noite de astrofotografia e ainda visitar a “Cruz de João” e as estrelas que o mesmo batizou. Depois poderia ainda fazer umas fotos com minha zoom 18-55 mm do conjunto da obra. De novo sem alinhamento polar, mascaras de Bathinov, duvidas sobre o foco e contorcionismos junto a ocular. E ainda me sentido de volta ao lar.
Alpha Crucis ou Acrux é um belo sistema binário facilmente separável. Mesmo as mais modestas lunetas serão capazes de resolver este belo par. Ambas com uma cor esbranquiçada. Trata-se de um sistema binário verdadeiro e ambas as estrelas dividem um centro de massa comum. Na verdade trata-se de um sistema triplo com a componente c muito próxima para ser percebida de forma ótica (apenas 1 UA). Ambas as componentes visíveis são da classe B e muito quentes. Encontram-se à aproximadamente 321 anos luz de nós e sua orbita é bastante longa ao redor do dito centro de massa. Mais de 1500 anos. É também conhecida como a “Estrela de Magalhães”. Foi a Primeira estrela dupla que observei. E creio que a primeira que fotografei...
Depois de fazer algumas exposições de 4 segundos desta eu parto para Beta Crucis ou Mimosa. 
Esta é também uma dupla. Otica e espectografica. A estrela que voce ve a sua esquerda não é relacionada a ela fisicamente. Não chega ao esplendor de sua irmã maior, mas ainda assim é um espetáculo a parte. É uma estrela do tipo B e uma variável do tipo Beta Cephei. Apesar de jovem já consumiu a maior parte do hidrogênio em seu núcleo. É possivelmente a estrela de 1ª magnitude mais quente conhecida. 27.000 k. É uma daquelas que prefere viver dez anos a mil que mil anos a dez. Se encontra há 280 anos luz do Sol. Ela serve como marco para se chegar Ngc 4755, a Caixa de Joias. O DSO mais famoso do Cruzeiro do Sul.

Seguindo o sentido horário chego até Gama Crucis. A Rubiácea. Minha favorita. Uma bela dupla ótica de esquisito colorido. Sua principal merece o nome. Parece um grão de café cereja. Maduro e pronto para a colheita. O colorido da dupla garante o espetáculo. Também conhecida como Gacrux é a gigante vermelha mais próxima do Sol. 88 anos luz. Sua companheira ótica se encontra a 400 AL...






A próxima parada é Delta Crucis . A Pálida. Já mais apagada que suas colegas ela chega a sumir em noites de lua cheia e de forte poluição luminosa. Com um brilho branco azulado ela merece seu nome. Uma beleza pálida. Seu colorido me lembra de alguns filmes de vampiro. Ela já se encontra saindo da sequencia principal e esta se desenvolvendo rumo a tornar-se uma gigante vermelha. Seu tipo é B2 IV (subgigante) e ela se encontra a 345 AL da terra. Ela também é candidata a ser uma variável do tipo beta Cephei



E finalmente a Intrometida. A estrela que não devia estar lá. Apagada e avermelhada ela é difícil de perceber a olho nu aqui no Rio de Janeiro. Ela é uma gigante laranja da classe K3 III. Encontra-se há 228 anos luz da terra.









Como já vem se tornando um habito apresento abaixo as fotos realizadas e devidamente empilhadas tanto pelo Rot n Stack como pelo Deep Sky Stacker. Nem sempre consigo me decidir sobre qual é o melhor resultado. Embora saiba que o DSS é mais poderoso...
 
DSS - 50 exp. X 20 Seg  Canon 18-55 @ 35 mm f5


 
RnS- 50 X 20 seg Canon 18-55 @ 35 mm f5 ( Modo Mean)

Novamente percebo mais detalhes no DSS . Mas mais cores no RnS. Achei que tinha descoberto um meio de aumentar a saturação das fotos no proprio DSS. Mas desta vez não funcionou...

As fotos não sofreram grandes processamentos. E o resultado é "pretty much" o que sai do resultado de empilhamento. No DSS eu apenas ( como sempre é necessario) "desço na curva" RGB. No Rns (como sempre) faço um pequeno crop no Photo shop. 
As fotos das estrelas são apenas uma exposição de 4 segundos em cada uma sem acompanhamento. 


sábado, 11 de maio de 2013

Rot n´Stack 1.2- A Nova Versão


            

            Saiu uma nova versão do Rot n´ Stack
O Rot n´Stack é um programa que , como diz seu nome, serve para girar e empilhar fotos. Vejam que eu disse girar e não rotacionar . A razão é simples. O verbo rotacionar  existe . Mas...
           O motivo deste post  é um freeware e foi criado Guillaume Dargaud.
            Nas palavras do próprio criador (ou quase):
“Este programa é similar a diversos programas astronômicos no qual o objetivo é obter diversas imagens e junta-las em uma única. Este processo é usado , principalmente, em imagens escuras para remover o ruído. A diferença entre ele e outros programas “mais profissionais”: ele é grátis , ele aceita imagens  no formato  Jpeg e PNG e assim compatíveis com a maioria das câmera digitais, e por fim é muito simples. Você pode tirar uma série de fotos com 30 segundos de exposição do céu noturno (mais que isto as estrelas deixarão trilhas) e depois empilha-las para realçar o contraste”.
            Sua primeira versão foi lançada em 2005 (1.0). Ainda neste ano foram corrigidos alguns pequenos bugs e lançou-se a Versão 1.1.
            Durante 2 anos usei esta versão.
            Apesar de não tão poderoso como o Deep Sky Stacker eu sempre gostei do Rot n´ Stack. Ele é mais “pé de boi” e apesar de certas limitações ele sempre foi garantia de que suas fotos seriam empilhadas. Mesmo  que a captura das imagens fosse realizada de forma estabanada e com um alinhamento polar abaixo da critica.
 O DSS muitas vezes se recusa a aceitar imagens com muitas trilhas ou outros problemas que nâo sei quais são. É mais fresco.
            Desta forma o Rot n´Stack sempre foi uma ferramenta fundamental aqui no Nuncius Australis...
            Seu uso é bastante simples.
            Primeiro faça o download dele - http://www.gdargaud.net/Hack/RotAndStack.html
                Abra o programa em seu PC (creio que não roda em Mac). Ele vai apresentar esta tela.

            Depois clique em “open” e na janela que ira se abrir escolha as fotos que você pretende utilizar. Todas as imagens devem estar na mesma pasta. 


                Clique em “Add” e dê “OK”. O Rot n´ Stack vai carregar as fotos e abrir a 1ª foto.
            Selecione duas estrelas usando o botâo esquerdo do mouse para a primeira e o direito para a segunda nesta primeira imagem. 


Depois ele pedirá para você fazer a mesma coisa na segunda imagem. E depois ele irá perguntar se você quer fazer isto manualmente ou automaticamente.
            Escolha manualmente e selecione as mesmas estrelas em todas as fotos que você carregou.  Com isto ele vai girar e alinhar as fotos da melhor forma possível.
            Na nova versão (1.2) lançada em 29 de dezembro de 2012 surgiram mais algumas opções na aba Advanced. 


             Com ela é possível se subtrair um Dark frame das imagens e assim se livrar de hot pixels e outras coisas nefastas . Ele pode utilizar um dark frame definido por você ou gerar um ele mesmo. Foi um grande avanço mas ainda é um recurso experimental.
            Uma vez feito isto pressione “Rot n´ Stack” na aba superior direita da barra de ferramentas do programa.
            E espere. Quanto mais fotos mais tempo...
            O Rot n´Stack vai gerar quatro arquivos com quatro resultados diferentes:
·         Uma imagem onde cada pixel é o mais brilhante das imagens originais. (modo Max)
·         Uma imagem onde cada pixel é o menos brilhante  das imagens originais (modo Min)
·         Uma imagem onde cada pixel é a média  de todas as imagens originais (modo Mean)
·         Uma imagem onde cada pixel passa por um algoritmo muito doido e que maximiza o contraste. Os resultados parecem arte pop ou surrealismo. Depende do dia... ( modo Sort)


O modo Max é interessante . Mas somente utilizando-se dark frame. Caso contrario se perceberá muito hot pixels.

O modo Min  não é exatamente o que se procura quando esta se empilhando fotos sub expostas... Mas em alguns DSO´s ele resolve

O modo Mean é o mais realista e o que eu acho que apresenta os melhores resultados.

O Modo Sort não gera imagens realistas mas pode revelar detalhes que não seriam percebidos de outra forma.  

Um dos maiores avanços da nova versão é suportar fotos maiores. Com o aumento do formato das fotos em câmeras mais modernas e com mais resolução  a antiga versão 1.2 não estava suportando. Quando troquei minha câmera Canon Rebel 350D pela Canon T3 ele alegava ( na maioria das vezes ) não possuir memória ( na verdade alegava ter que aumentar a memória da pagina...) para empilhar as fotos . Na nova versão isto foi solucionado.
O Rot n´Stack é um bom programa. Apesar de algumas limitações ele é bem amigável e com seus novos recursos ele consegue obter bons resultados e ajudar o amador na astrofotografia mesmo quando lutando contra recursos insuficientes para realizar captura de imagens “perfeitas”.
Vejam estes resultados em um rápido teste com um velho conhecido. Ngc 3766.

Primeiro foram escolhidas 16 de 24 fotos feitas com uma Cannon T3 acoplada a meu newtoniano de 150mm. Foi utilizada ASA 3200 e as exposições foram de apenas 10 segundos.  O alinhamento polar foi feito no chute. Dei um chute no pé esquerdo do tripé e um no direito e pronto...
Abaixo o modo Min. Sem  e com o uso de um dark frame auto-gerado.
Min

Modo Mean
Mean

Modo Max
Max

Modo Sort
Sort


Percebo que o uso do dark auto-gerado reduz o ruído, resolve em parte os hot pixels no modo Max e apresenta um certo desvio para o verde. Veja o Master dark gerado...

 O modo Sort é um exagero. Mas com o tempo aprendi que se passando por maciças doses de processamento pode revelar coisas que nenhum outro pode... Em um post futuro apresentarei uma das surpresas que ele me causou.
Mesmas fotos no Deep Sky Stacker

Ainda que achando o DSS “o programa” pare empilhar não posso deixar de elogiar o Rot n´Stack e suas características mais rústicas.Ele é  mais simples de se utilizar que o DSS mas também implica em muito mais trabalho manual (clicks e mais clicks de mouse para se marcar as estrelas que servirão pra o alinhamento de todas as fotos capturadas...) para se obter resultados bastante honestos. È amigável com iniciantes e sua interface é bem instintiva. É um excelente programa e a iniciativa de Dargaud em disponibiliza-lo gratuitamente é elogiável. Sua nova versão continua muito simples de se utilizar e possui mais recursos. Acredito que o processo de subtração de Darks, que ainda esta  na fase experimental, vai evoluir e que o RnS  possa melhorar mais ainda. Serve ainda para se empilhar fotos "terrestres". E aí não é necessário se marcar os pontos para alinhamento. 
P.S. O recurso de utilizar um dark frame realizado por você mesmo melhora muito o resultado sobre o dark frame auto gerado. O equilíbrio de cores se torna muito mais fidedigno. A unica ressalva é que você deve obter o dark frame em raw ou Jpeg (pelo menos na minha câmera...) e antes de utiliza-lo deve converte-lo para PNG no photoshop. O RnsS só aceita darks neste formato.  

domingo, 5 de maio de 2013

A Nova de 1066, Burnham´s Celestial Handbook e Dom Quixote


Com o outono se apresentando claramente a fim de me sacanear eu não tenho observado muito. Apesar de tentar tem sido uma luta constante contra a nebulosidade que insiste em apagar a vista de minha janela. Mas mesmo assim tenho tido algumas aventuras quixotescas junto a ocular e lido bastante.
Desta forma tenho visitado frequentemente meu exemplar do Vol. II do Burnham´s Celestial Handbook.
            A obra magna de Robert Burnham, Jr. É um dos maiores clássicos da astronomia amadora e merece a honraria.
            "Burnham´s Celestial Handbook- An Observer´s Guide to the Universe beyond the Solar System" é o nome completo do tratado. Se divide em 3 volumes “tijolescos” e o conjunto apresenta mais de 2000 paginas. Na verdade 2138 paginas...
            Em minhas Quixotescas lutas contra as nuvens eu não poderia ter melhor companhia. Burnham é, sem duvida, o Cavalheiro da Triste Figura da astronomia.
            Nascido em 1931 em Chicago e tendo se mudado para Presscot, Arizona em 1940 ele conclui o “High School” em 1949. Este foi o ponto culminante de sua educação. Tímido, duro e de poucos amigos ela passava a maior parte do tempo observando em um telescópio feito por ele mesmo.
            No Outono (olha ele aí de novo...) ele obteve um relativo sucesso tendo descoberto seu primeiro cometa. Por isto acabou contratado pelo Observatório Lowell em Flaggstaff, Arizona. Ele iria participar de um levantamento para determinar o movimento próprio de estrelas. Ele comparava “plates” fotográficos...  
            Durante este período ele descobriu mais cinco cometas e diversos asteroides.
            E depois de cumprir suas obrigações nosso Quixote estelar dedicava todo o seu tempo livre a seu livro.
            Este foi lançado de forma independente e descontinua (quase que mimeografado...) a partir de 1966. Em 1978 foi apresentada a sua versão revisada e definitiva e esta foi publicada pela Dover. Reza a lenda que Burnham (que nunca foi exatamente um cara bom em negócios) vendeu os direitos por US$ 10.000,00. E posteriormente viveu uma eterna luta com a Dover...
            Nosso Dom Quixote então sofre sua maior desgraça. Com o fim do levantamento no Lowell ele, que não possuía formação acadêmica, se vê sem emprego. O Observatório lha ofereceu um emprego de guia e ele declinou a oferta. 
            Com seu livro sendo alçado a um dos maiores clássicos da astronomia amadora ele vê suas condições financeiras indo de mal a pior. E ele se torna um recluso e por fim desaparece.
            O pior é que a comunidade astronômica o confundia com Robert Burnham, editor da Revista Astronomy.
            Ele termina seus dias abandonado e na miséria vendendo desenhos de gatos que ele fazia em um Parque em San Diego... Morreu e foi enterrado sem que nem mesmo sua família soubesse. Em 1993. Existe um tópico no Cloudy Nights onde ocorreu um debate acalorado sobre “as culpas” na história de Burnham Jr.
            Apesar de sua modesta formação acadêmica qualquer um que ler o seu Celestial Handbook vai perceber sua enciclopédica sabedoria sobre os mais diversos assuntos.
            Lutando com minha limitada área para observação e uma poluição luminosa na casa de  9  ( Escala Bortle de poluição luminosa-Mega cidade: Nelm 4.o ou menos, Todo céu é claramente iluminado, Diversas constelações familiares são invisíveis) devido aos sinais luminosos da nova obra da administração Eduardo Paes eu me identifico com Burnham e lendo o Segundo volume de seu tratado resolvo me lançar contra Moinhos de Vento.
            Em geral observar uma estrela sem maiores destaques não é uma das operações favoritas da maioria dos astrônomos. Mas com níveis alarmantes de poluição luminosa e nebulosidade achar Beta Lupus seria uma batalha. E a luta não era por ela, mas por algo ainda mais inalcançável. Minha Dulcinéia Del Toboso.  A história que Burnham me contara no capitulo sobre Lupus ( uma constelação) em seu livro me deixara fascinado com a ideia de procurar algo que eu não tinha nenhuma condição de ver.  Nem mesmo de fotografar. Mas o Cavalheiro da Triste Figura do Arizona tinha me fisgado. Eu tinha que buscar pela Nova 1006.

             Ela se encontra  muito perto de  Beta Lupi .
            Burnham, que é o Dom Quixote deste post, em seus delírios, me convenceu (Sancho Pança...) que esta seria a posição da primeira supernova historicamente autenticada.  E que eu ia ver algo que ninguém viu nos últimos 1007 anos...  Eu ainda não sabia que ela já tinha sido "fotografada em HD" pelo Chandra x Rays. É engraçado como um livro antigo pode apresentar novidades para quem está desinformado...
            Segundo o meu senhor ( e mais alguns estudiosos) o aparecimento desta brilhante “nova estrela” esta registrada na crônica em diversas fontes medievais. Seus registros estão na literatura da Europa, China, Japão e o Egito Islâmico.  
            Apesar de sua posição ser discutível ( nos tempos de Burnham...) os diversos registros não deixam duvida que este brilhante objeto- segundo Burnham  uma Supernova do Tipo II- apareceu nas proximidades de Beta Lupi na primavera de 1006 D.C.
            Com isto mais antiga que a mais famosa e menos discreta  supernova de Taurus de 1054 D.C. Esta deixou-nos M1, a Nebulosa do Caranguejo.
            Burnham nos conta que o estudo realizado por Bernard R. Goldstein (Yale University) estabeleceu que o objeto, de fato, existe além de qualquer duvida razoável.
            Entre os registros que sobreviveram as brumas do tempo se encontra o testemunho de um Astrólogo (isso mesmo...) egípcio de nome Ali ibn Ridwan. Ele a percebeu pela primeira vez na noite de 1º de Maio ou ainda na noite anterior.
            “Um espetáculo que observei no inicio de minha educação. Esta apareceu no signo zodiacal de Escorpião em oposição ao sol... Era uma grande estrela, redonda e seu tamanho era de 2 ½ a 3 vezes o tamanho de Venus. Sua luz iluminava o Horizonte e cintilava muito... seu brilho era como ¼ do brilho da Lua. Ela continuou a aparecer... até o sol chegar ao signo de Virgem... e desapareceu subitamente. Outros estudantes a observaram também”.
            Ibn Ridwan usou um raro termo arábico para descrevera o objeto. “Nazyak”. De origem persa o termo serve para descrever estrelas, meteoros ou cometas.
            Diversos são os registros de do objeto pelo oriente médio. Podemos citar ainda as Crônicas de Ibn Al-Athir. E o relato  no Bar Habraeus.
            Pela Europa os registros de Hepiddanus, um monge de St. Gall, (cidade mais famosa por sua cerveja que pela sua astronomia) também se referem a uma estrela de brilho incomum e visível durante três meses no extremo sul.
            Registros do oriente distante nos dão confirmação independente da “nova” estrela.
            Em um relato presenteado a um Imperador da Dinastia Sung em 1044 D.C esta escrito:
            “Ao inicio da noite, no segundo dia do quarto mês (Maio 1, 1006) uma grande estrela amarelada apareceu a leste de K´u Lou ao oeste de Ch´i Kuan. Seu Brilho foi aumentando gradualmente. Segundo os manuais estelares existem quatro tipo de estrelas auspiciosas, uma delas conhecidas como “Chou-po”, amarelas e brilhantes... estas anteveem prosperidade para o estado sobre o qual brilham.”.
            Existem diversos registros sobre a Nova na história oficial da Dinastia Sung.
            A fim de fechar o caixão com relação à existência da mesma Burnham ainda nos apresenta o relato encontrado no “Meigetsuki” de Fujiwara (1235 D.C);
            “No segundo dia do quarto mês no terceiro ano do reinado Kanko no período de Ichijo-In (adivinhem... 1 de maio de 1006) uma grande “estrela convidada” apareceu por sucessivas noites ao sul da constelação de Kikan”.
            Depois desta maratona medieval vamos a batalha propriamente dita.
           Para o observador moderno toda a história contada pelos antigos e por Burnham depois deles consiste na exata localização desta estrela e nos possíveis restos que esta deve ter deixado. Pelo grande brilho e pelo longo período de brilho evidente é muito provável tratar-se de uma supernova. E muito mais próxima ao sistema solar que as conhecidas “Estrela de Tycho” de 1572 ou da “Nova de Kepler” de 1604.
            Através de estudos, especialmente dos estudantes orientais, foi possível reduzir a área de nossa busca a poucos graus ao redor da estrela hoje conhecida com Beta Lupi.
            Eu, em minha "quixotada" particular, fui olhar. Passei ao redor de Beta durante uns quinze minutos. E confirmei que já sabia. Não tem nenhum resto de supernova na área. Pelo menos não para meu bico...
            Mesmo Baade (o de Janela...) com fotos realizadas com um Schmidt de 1200 mm não encontrou resíduos de nebulosidade na região.
            Minkovsky , em 1965, achou algumas estruturas filamentosas na região, mas ele mesmo confessou poderem se tratar de agrupamentos de estrelas muito tênues.
            Ainda na região um tênue anel nebuloso ao redor de uma estrela de 17ª magnitude foi reportada próxima à região . Acabou sendo identificada como uma nebulosa planetária. Não poderia ser a Nova de 1006.
            Mas apesar de toda certeza e das diversas paginas dedicadas a ela por meu querido Burnham Jr. ele não chegou a ver e ter a certeza que agora tenho..
            Uma fonte de radio foi detectada na área com o radio telescópio de Parkes, na Austrália. Em 1964. É daí a imagem abaixo...

             E a apenas 1º ½ de Beta Lupi e a menos de 1º de Kappa Centauri este era um sério candidato. Ainda mais que foram obtidas fotos com o refletor de 4 metros do Cerro Tololo no Chile onde se percebem filamentos nebulosos na área.
            Finalmente o Chandra, em Raio X, conseguiu imagens que comprovam  os contos de Burnham e as velhas histórias...  Com uma correção . Tratou-se de uma supernova do Tipo 1a. E aí a foto definitiva . Lembrando que esta se dá em raio X. Muito além do espectro visível. Na verdade para lá do ultravioleta... (ver espectro eletromagnético aqui)
         


            Eu admito que apanhei dos moinhos. Mas aprendi muito com O Cavalheiro da Triste Figura Astronômico. E isso só em um de seus capítulos. O tratado é sem duvida um dos mais belos livros de astronomia amadora que conheço. Me orgulho muito de meu exemplar (comprado usado) do Burnham´s Celestial Handbook- An Observer´s Guide to the Universe Beyond the Solar System.
            Não posso deixar de falar sobre o que vi lutando contra os moinhos e contra o Eduardo Paes.
            Beta Lupi com sua magnitude de 2,69 só foi visível com auxilio da buscadora. A coisa esta feia. Alem da poluição luminosa soma-se a poluição atmosférica. O Rio precisa de chuva...
            Ela é membro do grande grupo móvel de Scorpio – Centaurus. Encontra-se há 540 anos luz do sol.
            E depois localizei Kappa Centauro. Se você passear entre uma e outra usando uma ocular wide Field você "verá" a Nova de 1006. 
           Afinal a imaginação é guia e conselheira para Dons Quixotes, Astrônomos Amadores e outros Conquistadores do Inútil.
No optico e com um telescópio de 600 mm você não vai ver o que o Chandra achou...
As estrelas mais tenues desta foto são de 17a mag...

            

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Ngc 2808 - Tropeçando em Estrelas




 Às vezes a gente atira no que vê e acerta no que não vê.
Com a lua quase cheia eu não tinha nenhuma pretensão. E assim soltei o parafuso que prende o Motor drive ao eixo de R.A. do “Newton” ( refletor 150 mm) .  Sem nada em mente aponto para aquela região que é meio Centauro, meio Carina. A área é tão rica que costumo nem utilizar a buscadora. Eu calço a 25 mm no porta ocular e fico brincando com os comandos lentos para lá e para cá até esbarrar em algo.
Provavelmente por uma razão geográfica a primeira vitima é quase sempre IC 2602. As Plêiades do Sul. Estas eu gosto mais de observar de binóculo. É um daqueles casos onde não se vê a floresta pelas arvores. E cobrindo uma área de quase duas luas cheias é muito para minhas modestas oculares.
E a partir daí é só seguir a maré. É curioso como se percebe o disco galáctico. Conforme você brinca com o comando do eixo de declinação você percebe claramente que você passa por uma área de uma densidade estelar maior e aí ela diminui. Balança para o outro lado e idem.  É o disco Galáctico. Ou o braços da galáxia. Ou a Via Láctea. Chame como quiser...
Com o “Newton” girando para lá e ara cá, que nem uma baiana em desfile de Carnaval, vou esbarrando nos diversos aglomerados abertos que habitam os braços do tal disco galáctico.
Ngc 3766, 3532, 3114, 3293, 3324. Não posso esquecer de Eta Carina e sua nebulosa. Mas esta sofre muito com a Lua cheia. 
E no balanço resolvo fugir um pouco da rodovia galáctica e começo a passear nas cercanias do disco. E logo esbarro em algo que não conheço. Um globular. E ainda próximo  daquele carnaval de abertos na estrada principal ele salta aos olhos. Com certeza eu nunca o tinha visitado. Paro tudo e tento me localizar. O globular esta próximo de Miaplacidus (Beta Carina). Avalio a posição para posteriormente descobrir quem é a criatura.
Como não pretendia fotografar o alinhamento polar tinha sido feito de uma forma bastante aproximada. Melhor dizendo não tinha sido feito. Mas eu percebera que apesar disto eu estava acompanhando tudo que caia na minha frente utilizando somente uma mão.
-Ohhh sorte!!! Penso comigo.
E assim antes de correr para o computador para baixar a ficha do elemento eu resolvo arriscar umas fotos. 
Definitivamente o alinhamento polar “tabajara” estava bem aceitável. Aqui em casa ele dificilmente fica melhor que isto. Como já falei, recentemente,  a área junto ao polo tem-se encontrada envolta em bruma e com a lua cheia os tímidos habitantes da região estavam todos bem escondidos. Confesso que nem tentei...
Tirei 20 fotos e depois fiz 10 Dark frames.
De volta a pesquisa descubro rapidamente o nome do bruto. Ngc 2808.  Não há muito globulares na região e o trabalho foi fácil.
O globular é bem brilhante e levemente alongado. Não resolvo nenhuma estrela. Não espere isto  a menos que você possua pelo menos 400 mm de diâmetro. O aglomerado se classifica na classe 1 da escala Shapley- Sawyer de concentração. A escala vai de 1 a 12 . 1 é o Maximo de compressão e 12 o mínimo.  Vocês verão uma condensação de luz bem brilhante... Em um campo com algumas estrelas.
Apresento alguma fotos com diferentes tratamentos. Todas se apresentam bem lavadas. A Lua...

O modo “sort” do Rot n´Stack é um sempre me lembra da palavra pirotecnia. Mas no caso aqui ele serve para apresentar claramente quão concentrado é 2808. E o único que resolve algumas estrela em suas bordas.
17 exp. X 15 seg. Rot n´Stack  em " sort mode".

As demais fotos são bastante semelhantes ao que você observará junto a sua ocular.
17 x 15 seg. Modo mean. ASA 3200 Canon T3

1 Exposição de 15 seg. ASA 3200

O Deep Sky Stacker ,em seu já tradicional mau humor, só aceita 4 das fotos . E ainda deixa a imagem extremamente vinhetada. Mas ele é mais poderoso queo o RnS e acredito ver um pouco mais de detalhe no globular. Pode ser só vontade...
Esta foto percorreu um longo caminho... começou com 17 frames dos quais o DSS escolheu 4...
Depois visitou o Iris, o Photoshop e o Noiseware. Acho que cansou...

Localizar Ngc2808 não é difícil. Ele é bem brilhante e será percebido pela buscadora. Um bom ponto de partida é Miaplacidus ( Beta Carina). Eu tropecei nele...


Foi descoberto por James Dunlop com um refletor de 225 mm. Em 1826. Historicamente é um DSO bastante jovem. Cosmologicamente ele é tão antigo como podem ser a as coisas no universo.Algo em volta de 12,5 bilhões de anos.
Ngc 2808 é um globular com características bem especiais.  Em 2007 um time liderado por Gianpaolo Piotto , na Universidade de Pádua , utilizou imagens do Hubble realizadas entre 2005 e 2006 e descobriu fatos inesperados. A maioria dos globulares possuem apenas uma geração de estrelas. A razão disto é que esta primeira geração geraria forte radiação e nesta “ventania atômica” o gá residual seria perdido. Sem gás, sem estrelas. Simples.
Mas Ngc2808 possui três gerações estelares , todas nascidas em um espaço de 200 milhões de anos a partir de sua formação.
Mas como o dito globular é um dos mais maciços conhecidos foi elaborada a hipótese de que sua grande massa tenha sido suficiente para que ele ,gravitacionalmente , apresentasse uma contra partida para perda gasosa.
Outra hipótese é que ele seja o resultado de uma galáxia anã que chocou se com a Via láctea.  

terça-feira, 23 de abril de 2013

Ngc 5281- Um Sorriso Misterioso


          
 
          Tenho estado a passear ao redor de Alpha e Beta Centauro quase diariamente. Sua posição é favorável para a limitada área de visibilidade permitida no “Stonehenge dos Pobres”.
            Logo ao início da noite a posição dos “apontadores do Cruzeiro” é favorável e como que por milagre meus vizinhos não estão com as luzes todas acesas. Desta forma consigo rapidamente realizar um alinhamento polar no limite do aceitável e ter minha buscadora afinada.
            O outono tem sido ingrato para o alinhamento polar no Rio de Janeiro. Mesmo com o céu limpo há muita nebulosidade até bem alto no horizonte. E assim a região do polo celeste se encontra sempre muito apagada. Tenho que “ralar um dobrado” para localizar Sigma Octans e assim poder fazer um alinhamento que vá um pouco além de um sentimento...
            Parto de Hadar (Beta Cen) e tentando acertar minhas contas com Ngc 5316 eu acabo encontrando um dos poucos objetos Lacaille que nunca tinha observado.
            O Abade Nicolas Louis De Lacaille (1713-1762) descobriu o meu convidado esta noite durante seu levantamento realizado no Cabo da Boa Esperança, África do Sul, realizado entre 9 de abril de 1951 e 8 de Março de 1753. Equipado com um modestíssimo telescópio de 12,5 mm F/50 (isto mesmo...) ele percebeu Ngc 5381 como um “pequeno e confuso local”.
            Ele o inclui em seu catalogo como Lac I. 7.
            É curiosa sua inclusão na categoria I de sua classificação. Nébula sem estrelas.
            É curioso porque mesmo pela minha buscadora eu percebo o aglomerado como uma brilhante estrela um pouco alongada. Algo como uma estrela dupla no limiar da separação. Com pouco esforço percebo três estrelas levemente curvadas. Como em um sorriso. O´Meara, em seu “Hidden Treasures”, destaca que Ngc 5316 que se encontra a 20´a nordeste de 5281 é um aglomerado muito maior e de magnitude semelhante e não se resolve em sua buscadora (na verdade em uma antiga luneta) e que pela descrição de Lacaille em seu trabalho” Sobre nebulosas do Céu Austral” ele certamente não os confundiu.
            Lacaille descreve a categoria I de sua classificação assim: “nada mais que áreas indefinidas, esbranquiçadas, mais ou menos luminosas e de formato irregular: estas regiões são muito semelhantes ao núcleo de um tênue cometa sem cauda”.
(Memoires de l’Academie Royale des Sciences1755)
             Descrição não deixa duvidas e é bem representativa do que percebo pela minha buscadora em uma primeira impressão.
            Em céus bem escuros Ngc 5281 vai se apresentar como uma estrela no limiar da percepção (6ª magnitude) para o olho humano.


5 exposições x 20 seg. 1600 asa  empilhadas no Rot n´ Stack. Perceba HR 5171 abaixo e a esquerda do Aglomerado.  


            Observando com o “Newton” (um refletor de 150 mm) com um ocular de 25 mm eu tenho aumento de 48 X. E assim 5281 se apresenta pequeno e gracioso. Um arco de estrela coloridas, que vão desde o branco até um vermelho bem vivo adorna sua “barra” central e algumas outras estrelas ainda mais fracas emolduram o conjunto. As condições da observação não são ideais e acredito que resolva ainda mais estrelas em céus mais dignos. Mas o pequeno aglomerado é uma grata surpresa e apresenta um colorido muito interessante. Não sei por que me recordei do Gato de Chesire. Como disse Alice: - Eu já vi gatos sem um sorriso, mas nunca um sorriso sem um gato... Ngc 5281 é mesmo uma maravilha.

            Encontrar Ngc 5281 não é difícil. Partindo de Beta Centauro localize HIP 68191. É uma estrela evidente e que vai aparecer claramente no mesmo campo da buscadora com Beta centauro bem no canto. (Buscadora 8x50 mm com um campo de cerca de 5º). Com esta centralizada 5281 vai estar em quadro. Em condições muito extremas de poluição luminosa coloque sua maior ocular e procure pelo aglomerado partindo de HIP 68191. Com a 25 mm calçada no meu telescópio o aglomerado se encontra a pouco mais de um campo ocular da estrela. Com magnitude 5.9 o aglomerado é bastante obvio embora pequeno ( 14´). Apesar de se encontrar em campo rico o aglomerado vai chamar sua atenção.
Outra referência é uma estrela bem vermelha que se encontra na região. Responde por BSC HR5171 ou V0766 Centauri e só é identificada no Cartes du Ciel.  Sua cor me chamou a atenção e brilhando com 6ª magnitude é um excelente farol. Trata-se de uma supergigante vermelha e já vai adiantada rumo a seu fim...
Ngc 5281 é um aglomerado jovem. Sua idade é estimada em 45 milhões de anos.
É um aglomerado pouco estudado e não consegui descobrir a distancia e nem  outras informações sobre o aglomerado.
Um sorriso misterioso...

P.S. Uma nova foto de Ngc5281. Desta vez com um acompanhamento polar mais digno.


.1 exposições de 15 segundos ASA 3200 . Deep Sky Stacker e Photoshop CS5


É interessante perceber a diferença entre a primeira e a segunda imagem. A primeira foi feita cm um refrefrator de 70 mm ,o Galileu,  e a segunda realizada com o ""Newton" . Um refletor de 150 mm.