Canon 350d 5 Exp 30 seg . 18 mm f4 Rot and Stack |
Depois de alguns dias relativamente infrutíferos em Manaus o 15X70 ( binóculo) seguiu viagem rumo ao sul do Pais.
E com uma diferença de temperatura da casa dos
dois dígitos o filme que estava realizando me levou para um lugar ainda mais
longe. O Cânion do Encerra.
A distancia é relativa.
Se você mora em São José dos
Ausentes ( R.S.) o Cânion no qual seria realizado o novo comercial de um grande
provedor de internet (grande nos EUA) fica a apenas 20 kilometros em estrada
carroçável.
Mas se você sai do Rio de Janeiro com escalas
em Manaus, Porto Alegre, Cambará do Sul e São José ele fica para lá do fim do
mundo. Para se chegar lá é recomendável um veiculo 4X4. Pode ser alugado na
região...
ad astra et ultra |
Era uma piada recorrente na
equipe que nos dirigíamos para o Além.
E assim para um lugar longe , escuro e frio.
E é aí que as coisas começam a ficar boas...
Se a escala anterior no norte do país tinha sido apenas um teste agora seria a sério.
Lua Nova em um pequeno hotel
ecológico onde a cidade mais próxima se encontra a mais de 20 km.
No dia anterior a nossa transferência
para o tal eco hotel (pouco mais que um rancho) fiz uma visita de locação junto
com parte da equipe para resolvermos aspectos relativos à filmagem. Nada foi resolvido.
Como podem ver abaixo o clima não era exatamente inspirador e na margem do
cânion não se via um palmo à frente do nariz.
Na véspera... |
Mas o clima é uma incógnita. E assim
a surpresa foi incrível.
No dia seguinte amanheceu sol e
assim partimos para o posto avançado no Eco Hotel Pousada dos Cânions. Depois
de horas de traslado tudo corria bem. O equipamento já fora levado para a beira
do abismo aguardávamos calmamente no rancho pelo anoitecer. Eu ansioso para ver o
céu.
Uma ultima emoção. Assim que entardeceu o tempo nublou completamente e eu
já perdia as esperanças.
Mas como da mesma
forma que tinha nublado o céu Limpou e a temperatura caiu.
Eu estava debaixo de um céu que
se encontraria entre 3 e 2 na escala Bortle.
Por 3 entende-se o seguinte:
Por 3 entende-se o seguinte:
“Céu Rural:
· Nelm 6.6 a 7.0
· Alguma poluição luminosa evidente ao
longo do horizonte
· A via láctea apresenta estrutura
complexa
· Aglomerados globulares brilhantes (Omega
centauro, M22 etc..) são facilmente percebidos a olho nu.
· M33 é notada com visão periférica.
Objetos
terrestres vagamente percebidos entre 6 e 10 metros.”
Dois é melhor ainda...
Penso em começar fazendo algumas fotos.
Mas como em casa de ferreiro o espeto é de pau eu não tinha exatamente o
equipamento certo para isto. No meio de uma filmagem eu não possuía nem mesmo
um tripé nas proximidades. O Equipamento já havia sido enviado para depois do
“Além” ou estava no fundo do caminhão.
Assim faço algumas exposições do
centro da galáxia, Na fronteira entre Escorpião e Sagitário, utilizando como
suporte um mourão de cerca...
Adoro o RnS em "Artistic Mood"... |
Tento também algo “contra” a Grande Nuvem de Magalhães, mas não consigo uma posição adequada com meus parcos recursos.
Mas agora vamos ao que interessa.
Armado de meu 15X70 e debaixo de um céu muito escuro eu começo a caçada.
Como já tinha fotografado a
região e em breve esta iria se esconder eu começo pela cauda do Escorpião.
Pela foto que abre este post você
deve ter notado que os aglomerados de M7 e M6 eram óbvios a olho nu. Mesmo estando muito baixos no horizonte. M7 se
apresenta majestoso pelo binóculo. E M6 se resolve totalmente. Eu sempre
imaginei que o Skymaster 15X70 fosse capaz disto “under a bloody dark sky”. E ele é.
Mas as coisas agora começam a se
tornar realmente interessantes.
Na região próxima a M7 e M6 existem dezenas de
aglomerados abertos que, em geral, não tem muita graça. Aqui eles têm...
Ngc 6416 se destaca no céu mesmo
a lado de tão nobre vizinhança. Embora não tão denso quanto seus companheiros ele
seria um aglomerado de destaque em vizinhanças mais plebeias. Este aglomerado
galáctico foi “descoberto” por Dunlop em 1834. Ele é facilmente localizado
próximo a M6.
Ainda pela região visito Cr 336 e
Ngc 6400. Este ultimo com magnitude 9.00 mostra o potencial do local e do
binóculo.
O céu tal e qual na locação... |
Esta região do firmamento é o maximo para ser
escaneada de binóculos. Seguindo a Via láctea se revelam vários velhos
conhecidos. Todos apresentando muitos detalhes ( mesmo já quase se pondo no horizonte oeste). M8 , M20 , M21, M22, M23, M25, M17 , M16 e quase toda a coleção Messier da região se apresenta em alto estilo
E muitos membros do New General Catalog também se apresentam sob livre e
espontânea vontade. Nada de visão periférica, hiperventilação e outros truques
tão necessários em céu menos generosos.
Observar de binóculo , depois que
você já tem um certo conhecimento da “geografia” do céu, é sempre um prazer
pois sem grandes navegações você localiza quase todos os DSO´s que procura de
forma rapida e indolor. E com o uso de um Binoculo gigante o numero de objetos
possíveis é enorme e garantirá diversão
durante muito tempo.
Agora a Grande Nuvem já vai alta
e aponto o binóculo para ela.
È uma visão chocante. Percebem-se
varias condensações ao longo da galáxia. A Nebulosa da Tarântula , Ngc 2070, se apresenta
de tal forma que não posso deixar de pensar em M42. Caso ela estivesse tão
próxima quanto sua companheira em Orion ela cobriria uma parte enorme de nosso
céu e causaria sombras no chão noturno. Percebe-se também claramente Ngc 1966 e 1962.
Ambos aglomerados extragalácticos residentes na GNM. Um destaca-se " no meio e a esquerda" da Nuvem e outro em seu " topo. Com atenção se percebem ainda mais estruturas
na grande Nuvem.
Depois faço um rápido passeio pela
pequena nuvem , que não é tão imponente quanto sua irmã maior.
Tuc 47 rouba a cena se apresentando com uma área enorme no campo de visão e brilhando intensamente. Ngc 362 é facilmente percebido. Não são membros da PNM mas sim Globulares da Via Láctea.
Tuc 47 rouba a cena se apresentando com uma área enorme no campo de visão e brilhando intensamente. Ngc 362 é facilmente percebido. Não são membros da PNM mas sim Globulares da Via Láctea.
Neste momento percebo que alguém
se aproxima em meio a breu. É o técnico de som. Grande amigo e conhecido como
P.R.
Com isto é “show time”. As
Plêiades já vão mais altas no horizonte norte e com uma rápida inspeção me
certifico que elas deixarão o camarada de queixo caído.
Dito e feito.
M45 (As Plêiades) quando vistas em um céu assim escuro e com um binóculo gigante são um dos maiores espetáculos da Terra. Ou seria do céu ?
Dito e feito.
M45 (As Plêiades) quando vistas em um céu assim escuro e com um binóculo gigante são um dos maiores espetáculos da Terra. Ou seria do céu ?
Depois apresento as Híades. Assim
garantindo continuidade no espetáculo para o novato.
Orion e a condensação... |
M 42 também se apresenta. Logo
M43 também. E todos os aglomerados envolvidos no corpo de Orion. Tento alguma s fotos da região mais a minha
tele começa a ter problemas com a condensação.
Apresento ainda Jupiter e suas luas para o P.R. As luas impressionam mais que Jupíter propriamente dito. Planetas demandam maiores ampliações.
O frio espanta o amigo. Mas eu
tenho ainda algo em mente.
Um céu muito rico e em um lugar
novo pode pregar peças. E assim demoro a localizar o quadrado de Pegasus. Lógico
que pretendo visitar M31. A grande Nebulosa de Andrômeda.
Mas com tantas estrelas e muito
mais ao sul do que estou acostumado acabo batendo de frente com M33.
Rapidamente percebo que não se trata de Andrômeda. Mais fico boquiaberto de
como foi fácil notar esta tão tímida galáxia. Sempre que observei M33 precisei usar periférica. Mesmo em céus bem escuros. Percebo que os 70 mm são muito bons
para mim. Afinal M33 é um alvo binocular por excelência e cobre uma área enorme
no campo do 15X70. E aí minhas
experiências anteriores com meus modestos 10x50 se tornam “obsoletas”.
M33 é conhecida também como a Galáxia do Catavento. Nome que tem em comum com M101. Ela é ainda conhecida
como Galáxia do Triangulo em homenagem a constelação que a hospeda. Ela foi
catalogada pela primeira vez por Hodierna em seu misterioso catalogo escrito em
Palermo ainda nos sec. XVII.Posteriormente foi incluída no catalogo Messier de onde herdou seu nome mais conhecido. Lord Ross e seu gigantesco telescópio foi o primeiro a perceber sua estrutura espiral e isto fez dela um dos maiores mistérios cosmológicos por muito tempo. Sua verdadeira natureza ( e de outra galáxias) só foi entendida muito mais tarde.
È um objeto que apesar de sua
magnitude de 5.4 apresenta um brilho de superfície muito baixo e assim é
enganadoramente fácil. Não se engane. M33 é fácil aqui do “Além”. Mas qualquer
traço de poluição luminosa a torna um grande desafio.
Depois de te-la localizado com o binóculo
reparo que consigo notar uma pequena nebulosidade no local usando apenas meus
ohos. E sem óculos... Procure próximo a Alpha Triangulo
Aqui percebo até mesmo algo como
uma estrutura nesta bela galáxia em espiral. Ela é a terceira maior galáxia do
grupo local. Juntando-se a Andrômeda e a nossa Via Láctea neste pódio.
Andando na contramão parto de M33
para Mirach e procuro por Ngc 404. Desconfio de sua presença, mas esta requer
mais ampliação para se mostrar evidente.
Dali par M31 é um passo e ela se
apresenta espetacular. Seus satélites se apresentam. M110 é obvia e M 32 somente uma suspeita...
São um excelente teste para o 15X70 e um desafio binocular proposto por Harrington
em seu livro “ Cosmic Challenge”.
A noite se encerra. O Encerra me espera no amanhecer para
trabalhar...
Acordei um pouco antes de servirem o café (04h30min)
e assim ainda dou uma rápida passeada por um dos mais belos recantos da galáxia.
A região em volta de Carina e do Falso Cruzeiro. Esta se apresenta espetacular e em
menos de 5 minutos observo alguma dezenas de DSO em toda sua gloria. Vou da nebulosa de Eta Carina para As Pleiades do Sul ,Ngc 3532 , 3324 , 3247 e muito mais em menos de um minuto. Mais rapido que a luz...
Depois desta viagem cheguei a conclusão, que contraria muita opiniões, de que se você pretende comprar um binóculo para a pratica astronômica decisão mais acertada é comprar um 15X70. Embora um pouco mais pesado ele é totalmente compatível com o uso sem tripé. E ainda possui uma capacidade da coleta de luz muito superior aos tradicionais 10X50. A maior magnificação também colabora em muito para uma maior nitidez e detalhamento dos objetos observados. Por fim ele continua sendo pequeno suficiente para ser colocado em sua mala. E com isto ser um excelente companheiro de viagens. E assim visitar locais muito mais escuros que seu telescópio.
Binoculos 10X50 e menores são
muito uteis para se ter ao lado do telescópio , permitindo a localização de DSO´S. Mas como instrumentos observacionais são
bastante limitados. Já um binóculo gigante apresenta muito mais
possibilidades. Com o uso de um tripé o
15X70 é capaz de observar objetos muito tênues e de realizar feitos impensáveis
com um binóculo mais modesto.
Depois de um dia de filmagens
retorno a Pousada Ecológica dos Cânions. E abduzo minha equipe a passar mais uma
noite no local. E desta forma, enquanto grande parte da equipe parte para
Cambará, eu e meus assistentes permanecemos no nosso posto avançado no Além...
Afinal, além de meus assistentes,
são todos meus grandes amigos. E vocês sabem que nossos amigos nos impõem
certas coisas.
O Cânion Bela Vista fica a 400 metros da Pousada e esta junto ao Pico mais alto do R.G.S. . O Montenegro |
Mas desta vez o simpático casal
que dirige o negocio me sabotou. Comi um dos melhores churrascos de minha vida
e bebi um mar de pinga. De quebra a transparência não chega aos pés da noite
anterior. Em uma rápida escaneada percebo que o “Encerra” esta encerrado. Assim
acordamos bem cedo e em 5 horas nos encontramos com o resto da equipe no
Aeroporto de Porto Alegre.
Para quem quer conhecer um lugar longe,
com um céu escuro de verdade e de quebra ver uma das mais belas paisagens do
mundo aconselho que vá aos Aparados da Serra.
O céu dos Aparados é incrível.
Recomendo que procurem a Pousada
Ecológica dos Cânions. http://www.visiteausentes.com.br/site/hospedagem/11
Cânion do Encerra |
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