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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Rainha Má, Galileu, Enchentes e Astrofotografia


         

         O ultimo semestre foi bastante ocupado. E com uma nova cria de apenas três meses há muito não tinha  chances de observar de locais mais escuros .
                Após uma longa e edificante diária de mais de 20 horas em um comercial de desodorante eu declarei que só iria trabalhar de novo no ano que vem. E assim se organizou-se a expedição da família  rumo a Búzios.
                A cidade sofreu a maior enchente de sua historia  há poucos dias . Mas segundo informações de meu irmão a casa se encontra habitável. Apesar de alguns danos. Ele é um cara bem otimista.
                A viagem transcorreu bem. Só cinco horas de porta até porta. Com o novo filho preciso de um carro maior. Com o veiculo abarrotado vou levando apenas o "Galileu", meu refrator de 70 mm. Mas com a montagem do " Newton" , meu refletor de 150 mm. Uma EQ 2-3. Com muito menos peso eu acredito que a cabeça vá se comportar melhor que o normal para a pratica da astrofotografia.
                No caminho para Búzios surgiu uma fabula familiar. Nela o novo rebento seria o " Dengoso", eu o " Zangado", minha filha a "Branca de Neve" e minha cara metade a "Rainha Má".  
                Ao chegarmos em casa e realizar  o cenário de calamidade os apelidos não poderiam ser mais apropriados.  E a fim de evitar a ruína da relação eu adentro o anexo da casa mal acompanhado de vassoura, rodo ,baldes e cia ltda. A faxina canta. Depois de deixar um dos quartos com cheiro de frutas cítricas eu consigo uma rápida alforria e aproveito para montar meu circo. Preparo o o telescópio, motorizo a cabeça e ainda ensaio um alinhamento polar. O "Galileu" se encaixou bem na paisagem. Com um dove tail adaptado e um monte de "gaffer tape" fixando o telescópio este parecia outro sobrevivente da enchente.
                O telescópio não é nenhuma "Brastemp". Um refrator com foco frouxo, aberrações as mais diversas. Mas ele as vezes surpreende. Quando comecei na astronomia achava-o excelente. Nada como a inocência da juventude.
                Depois de uma ultima missão instalando uma TV e o receptor da SKY para minha filha vou aguardar o céu se acender. Faço isto com frequência aqui em Buzios. Como não poderia deixar de ser a primeira estrela que percebo é Sirius. Mas quase simultaneamente pipocam Rigel , Canopus e em um intervalo de pouco minutos estão lá as familiares figuras de Órion e Cão Maior. Mais um pouco e as Plêiades se acendem.
                Uso Rigel para ajustar a buscadora. E depois resolvo testar o seeing tentendo separar sua pequena e apertada dupla. Se revela acima das capacidades do " Galileu". E ainda serve para eu perder mais um dos sonhos de minha infância e decretar que a pequena Plossl 4 mm de origem chinesa é uma péssima ocular.  Já separei Rigel com o " Newton" ( refletor 150 mm) utilizando uma 10 mm em conjunto com uma Barlow 2x. Desta vez no maximo uma suspeita,
               
                Tinha em mente seguir um roteiro que está na " Sky and Telescope" de janeiro de 2014. A matéria de Rod Molisle ( o Uncle Rod) propõe um tour pelos aglomerados abertos do catalogo Messier que estão presentes no nosso verão.  

                Mas estando tão perto não posso deixar de visitar M 42. A Nebulosa de Órion se apresenta , como sempre, magnifica.  Próxima a tão famosa companhia  Ngc 1981 quase passa desapercebido. Mas é um dos mais belos aglomerados abertos do céu. Fico passeando pela região e namorando diversos D.S.O´s que habitam a região em volta de M 42 ( Ngc 1973 , 1977 ...) . Resolvo fazer algumas fotos da Nebulosa e percebo mais ainda as limitações do equipamento e do alinhamento polar . Rot n´Stack faz algo com as fotos e com um pouco de Noiseware viram um registro tosco desta maravilha celestial. logico que o trapézio não se resolve e o centro da nebulosa fica superexposto mesmo no modo Minimo do RnS. 


                Depois disto volto a plano original e faço uma rápida parada em um eterno favorito : M 41. O aglomerado de Aristóteles.  Minha filha vem me visitar e aproveita para dar uma olhada pelo telescópio. E percebe algo que andei falando por aqui recentemente. A presença de estrelas vermelhas( gigantes) no centro de aglomerados abertos.
                Agora vou visitar grandes damas. M45 . As Plêiades. Apesar do tosco set up faço algumas fotos das "Sete Irmãs". Nem de longe honram a tão grandioso DSO. As meninas se espelham por uma área muito grande e não enquadro de forma apropriada. Não cheguei nem a empilhar .  O Ruido é absurdo. Vale o registro.Nem sinal da nebulosa em frente do aglomerado. Eu disse em frente.  Até algum tempo achava-se que a nebulosa que percebe-se em M 45 faria parte do mesmo. Hoje aceita-se que é apenas um encontro casual com a nebulosa sendo um ente que esta  passando em frente do aglomerado. Não são associados e cada um segue seu caminho. Dois dias depois retorno as Sete Irmãs disposto a um acerto de contas. E utilizando minha 70-300 @ 100 mm me acerto com a moças. As Plêiades demandam muito mais campo do que eu consigo com o Galileu. E agora os traços de nebulosidade são evidentes.





                Aproveitando da bela paisagem aproveito e chamo minha mulher para dar uma olhada. E depois faço o clássico desafio de quantas estrelas você percebe a olho nu quando olha para Plêiades. Ela contou 7. É um grande feito.Minha vista já mais gasta e sem óculos conta apenas 3 com uma quarta flicando esporadicamente. Reza a lenda que o grande Walther Houston ( autor da coluna Deep Sky Wonders por varias décadas)  contava 14.
                As fotos das Plêiades demonstram claramente as limitações do "Galileu". Mesmo com o recurso de se fazer foco com o Live View da câmera as estrelas não são nunca pontos. Mesmo dando o desconto de um alinhamento polar meio tosco. Na verdade estrelas não são pontos perfeitos nem com minha melhor ocular. E a camera registra isto com mais clareza que minha já velha retina. ( vejam bem que a foto que vocês vêem a cima não foi feita com o " Galileu". Não tive coragem de apresentar a que foi...) 
                Depois disto o plano seria visitar a Trilogia de Auriga. M 36 , M37 e M38. Mas depois de 5 horas de direção e mais uma faxina minha lombar não gosta muito da posição que será exigida para caçar as moças junto a buscadora ( preciso arrumar um eretora de imagem para minha buscadora com urgência)  e me conformo com apenas M36. Isto porque ele aportou meio que sem quere em uma escaneada usando a Plossl 25 mm.
                Júpiter é bem mais fácil de se localizar que discretos DSO`s e assim vai visitar a ocular. Brinco com todas as combinações de oculares e Plossl´s que possuo enquanto namoro a lenta dança das Luas galileanas ao redor do gigante. E assim o "Galieu" segue os passos de Galileu com mais de 400 anos de delay. Como bônus percebo ainda que discreta a Grande mancha Vermelha. Nem tão vermelha assim. Resolvi fografar o planeta. E me lembrei que fotografia planetária é um outro jogo . E que não sei joga-lo.Decidi que devo comprar uma web cam e tentar fazer isto de outro jeito...

                 E creio que aprendi porque devo procurar uma web cam que possa filmar bem rápido ( tipo 48 e/ou de preferência  mais frames por segundo). O disco planetário fica extremamente superexposto com o diafragma regulado para 1/60 ( e assim com a captura de video pela web cam a 24 fps não me parece ser o ideal...)
                Resolvo continuar na seara do fácil e visito Castor. Uma bela dupla que se resolve com a ocular  10 mm.
                Gostando de brincar de estrelas duplas e aproveitando um excelente seeing vou visitar Sigma Orionis. Os três membros comparecem e " Galileu"  surpreende.
                Agora fugindo completamente do plano original me viro para o horizonte sul e em rápida escaneada ao redor da Falsa Cruz visito velhos conhecidos. IC 2391 , Ngc 2669 e 2516.
                A seguir  localizo rapidamente as Plêiades do Sul e faço algumas fotos da mesma. E com isto fotografo  todas as Plêiades do céu na mesma noite.  Estas me dou ao trabalho de empilhar .  Uso o DSS.  De 14 fotos só aceita 6. Assim como suas irmãs boreais vale o registro. o ruído é absurdo e não me dou ao trabalho de passear muito com esta matriz pelas terras do pós processamento . 
                Depois fico brincando a olho nu e percebo diversos DSO´s em potencial.  Ngc 2244 é o aglomerado associado a Nebulosa de Roseta e percebo claramente uma luminosidade na região.
                Abro uma cerveja.
                Acordo com uma crise. A Rainha Má aos berros dizendo que não ficaria nem mais um minuto naquela casa. O "Dengoso" teve seu primeiro contato com mosquitos. E minha esposa não acredita na sobrevivência do mais bem adaptado. Já eu prefiro acreditar que meu filho seja um deles.  E assim os custos da operação aumentam. Alugo uma suite em uma pousada próxima e em uma ladeira. Desta forma não fora inundada pelas aguas. Um ar condicionado garantiria a super proteção necessária para que a cara metade permanecesse na Armação dos Búzios .
                Nesta noite o céu resolve brincar . Anoitece nublado. Depois abre o horizonte nordeste. Fazendo um churrasco para a minha filha ( a esposa e o filho ficaram na pousada) eu ainda consigo ir visitar Júpiter de novo e acompanhar mais um ato do balé de suas luas. Ao perceber uma bela janela no horizonte sul parto em busca de Ngc 3228. Um dos últimos objetos do Catalogo Lacaille que me restam observar. este é um caso diferente de um "Objeto Lacaille Perdido". Ou melhor de astrônomo perdido. Pois saindo de Kapa Velorum eu acho que será uma fácil navegação. Mas depois de localizar um obvio aglomerado "disfarçado" de estrela cabeluda...  chego a Ngc3293.  Um belo aberto bem denso.  Mas com a crise matinal não o fotografo. A câmera ficou na Pousada.
                Abro varias cervejas.
                Amanheço novamente com a Rainha Má transformada em Mr. Hyde. Depois de muito choro mando ela e a filha para praia e fico estreitando a relação com meu filho no quarto da pousada.  Espero que o descanso acalme a fera.
                Funcionou. depois de 6 horas de praia e algumas cervejas a rainha má volta ao normal e parece que desistiu de superstições.
                Dia não . E assim sóbrio ,levar as crianças ao parque de diversões e  todo mundo para comer comida mineira. Menos o "Dengoso" . Sempre  me lembro de porque somos  mamíferos. 
                Hora de fotografar. Afinal eu também mereço algum lazer.  E tentando adaptar a Canon com uma lente 75-300 mm descubro que o plate de minha cabeça greika serve como um dove tail perfeito para a cabeça EQ. Faço algumas fotos de Orion e do Cão Maior sem utilizar acompanhamento. Isto vai ficar para outro dia. Mas ficaram legais e revelam alguns DSO´s na paisagem. Na de Orion começa a se perceber a Nebulosa da Chama.  E  em seu cachorro percebe-se M41 muito evidente. Os resultados são fruto dos logaritmos pirotécnicos do Rot and Stack.







                Mas sou um homem de palavra e meu objetivo é fotografar Ngc 3293. Mas as palavras são muitas vezes vãs. E o meu objetivo mesmo seria fotografar 3228. O meu " Objeto Lacaille Perdido". Mas a verdade é que ele será mais acessível mais a frente na estação. Ou terei que abandonar o sono... 
                Astrofotografia pode ser bem exigente. Mas não comigo e não hoje. Estou a passeio. E assim o alinhamento polar é feito por inspiração . Nada de drift. No máximo uma bussola e um" inclinômetro". E vamos lá.
                Antes de tentar 3293 e aguardando este chegar   um pouco mais alto  no horizonte sul disparo 20 light frames contra IC 2391.Ou C 85. O "Stellarium" agora deu para listar os DSO´s  utilizando o Catalogo Caldwell como referência. Ou ainda BZ 1. É um aglomerado querido. Já contei aqui que foi o primeiro aglomerado que "descobri". Ele me recorda Cassiopéia. A mais vaidosa das constelações . E assim ele ainda se torna o "A Pequena Cassiopéia" ( Little Cassiopéia cluster)  Depois mais 7 dark frames. Em posterior seleção escolhi apenas os 10 melhores light frames e os empilhei utilizando  o Deep Sky Stacker( DSS).


                Nada como um dia após o outro. Apesar das limitações eu começo a me entender com o foco do "Galileu".  Estava há muito sem observar e um pouco sem pratica . Começo a me mover melhor. As fotos , ainda que com diversos problemas,estão melhores que as anteriores. 
                Finalmente 3293. Serão muitos light frames com 20 seg. de exposição. ASA 3200 pois já percebi que se uso 6400 o ruído vai para as alturas. Perceba nas fotos das Plêiades.... E os mesmos darks que fiz para  "Little Cassiopéia'.
DSS




Rot and Stack


                Ao fim selecionei os 27 melhores light frames obtidos de meu novo Lacaille . Em conjunto com 7 dark´s  o resultado vai para a "peregrinação dos frames". As possibilidades de pós processamento são infinitas. No Nuncius Australis o  objetivo é obter uma imagem o mais semelhante possível do que se observa na ocular.  Desta vez como as capturas dos lights foram feitas com alguma dignidade e com um alinhamento polar melhor que em geral  eu utilizei o DSS para o processo de Stacking e depois visitei o Photshop e o Noiseware. Em dias piores uso muito o Rot n´Stack para a primeira etapa. Os resultados costumam ser menos realistas. Embora como possam perceber acima as coisas podem ser ainda mais confusas. Astrofotografia , no Nuncius Austrlais , é uma ciência assim como a metereologia...
               

                Desta forma se aproxima o dia 31 e o fim do ano. Foi um belo começo de temporada em Búzios. Apesar das dificuldades foi muito agradável e fiquei feliz com os resultados obtidos.

             No primeiro dia do ano visitei uma velha conhecida.  E que ha muito merecia um registro mais digno. O "Galileu" em sua melhor forma. A Nebulosa de Carina e seu arredores. Trinta e seis fotos aceitas de quarenta e duas. A minha média no DSS vem melhorando...

Feliz Ano Novo.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

M 41- O Aglomerado de Aristóteles

M 41 - O Aglomerado de Aristóteles


            Registros demonstram que M 41 (Ngc 2287) foi descoberto muito antes  do telescópio. De fato , o cientista grego conhecido como Aristóteles foi o primeiro a noticiar o que atualmente chamamos de M 41. Em 325 A.C. Ele simplesmente o descreveu como uma "região nebulosa". Embora hajam controvérsias eu acredito que ele realmente avistou o aglomerado. Isto faria de M 41 o objeto mais tênue conhecido nos céus durante a antiguidade clássica.  Depois , antes de 1654, Giovanni Batista Hodierna foi o primeiro astrônomo a cataloga-lo. O aglomerado se torna popular depois de ser redescoberto por Flamsteed em 1702 e Messier o acrescentou a sua lista em 16 de Janeiro de 1795.
            M 41 reúne cerca de uma centena de estrelas às empacotando em uma área de aproximadamente 25 anos luz de diâmetro.
            Este post nasceu de um passeio pela tal da "Cloud". Localizei varias fotos perdidas no hoje quase extinto PICASA. E entre elas estava M 41. A foto foi realizada com minha falecida câmera. Uma Canon 350D.
            Recentemente li  um interessante artigo na "Sky and Telescope" onde em um daqueles quadros informativos Tony Flanders nos conta que aglomerados abertos não são apenas como doces para os olhos ; você pode dizer  muito sobre eles apenas através de sua aparência através de telescópios. Mesmo que modestos. Obviamente aglomerados mais próximos são mais fáceis de se resolver porque suas estrelas individuais se apresentam mais brilhantes. As Plêiades são um exemplo óbvio. Aglomerados jovens como M 35 apresentam estrelas variando muito em brilho. Estrelas jovens e maciças brilham muito e azuladas, fumando seu hidrogênio rapidamente. Em aglomerados mais maduros as estrelas mais brilhantes já queimaram até a ultima ponta e assim os membros restantes apresentam uma aparência mais uniforme. Estrelas muito maciças tendem a migrar para o interior dos aglomerados conforme estes envelhecem. Freqüentemente estas estrelas se apresentam com avermelhadas porque já atingiram sua fase de gigante vermelha tendo assim deixado a sequência principal em seu caminho para anã branca. Mais em evolução estelar aqui. Desta forma é comum localizarmos estrelas avermelhadas próximas ao centro de aglomerados abertos.  
             E assim chegamos de novo em M 41. Diversas de suas estrelas são ou laranjas ou gigantes vermelhas. Aí se inclui a chamativa estrela vermelha bem central e claramente percebida em nossa foto. Esta estrela é uma estrela gigante do tipo espectral K cerca de 700 vezes mais brilhante que o nosso sol. Ela é facilmente percebida com quase qualquer aparelho.
            A observação da foto me levou a devanear. Querendo me enganar e posar de cientista sério tirei certas conclusões e devido ao colorido da paisagem imaginei que M41 fosse um aglomerado de meia idade. Mas para jovem que para velho. E também nem tão longe nem tão perto. Tudo isto devido ao que eu já sabia sobre as Plêiades. Estas seriam mais jovens e muito mais próximas . Meus palpites se mostraram corretos.
            M 41 tem algo ( segundo "cientistas de verdade") entre 190 e 240 milhões de anos. Desta forma suas estrelas mais maciças já tiveram tempo para ficarem mais "coloridas". Mas ainda apresentar uma bela diversidade de brilhos e magnitudes...
            E a 2.300 anos luz de nós se encontra quase seis vezes mais distantes que as Plêiades. 
            E agora vamos ao que interessa. Como ver M 41. E tirar suas conclusões sozinho. Como falou Burnham : "Nada como ver o Original ( ou mais ou menos isto...)".

            M 41 se localiza há um pouco mais de meio campo de buscadora (10x50) ao sul de Sirius , a estrela mais brilhante do firmamento. Imagine um triangulo retângulo formado por Sirius , Mirzam e um ponto invisível ao sul de Sirius e olhe na buscadora. M 41 e procure por uma pequena nuvem de luz. M41.
            Como os relatos de Aristóteles nos dizem esta nuvem de luz é percebida mesmo a olho nu de locais escuros.  Eu sei que é possível. Mas o local tem que ser escuro mesmo.
            Através de binóculos e buscadoras eu percebo algumas dezenas de estrelas "flicando" em meio a nevoa da região.
            M 41 é uma paisagem sensacional mesmo em pequenos telescópios. M 41 é um dos mais coloridos aglomerados que conheço , mas a sensibilidade a cor varia de pessoa para pessoas.  Um truque : desfoque levemente o telescópio e tente perceber mais cores. 

             Com 38´ arc seg. ela cabe certinho na minha ocular 17 mm. 

            Através do "Newton" ( meu refletor de 150 mm) M 41 é um dos aglomerados abertos que mais gosto. Um dos favoritos do Verão.  Estará disponível a noite toda...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Deep Sky Stacker e a Vingaça da Tarântula

      
     

          No ultimo post falei sobre a Nebulosa da Tarântula. Ngc 2070. Tratando-se de um DSO extra galáctico não é exatamente  um objeto simples de ser fotografado. Especialmente em condições de forte poluição luminosa como no "Stonehenge dos Pobres". Nada como os aglomerados abertos tão mais comuns no Catalogo Lacaille e consequentemente a especialidade desta casa. A Tarantula foi um dos últimos membros do catalogo a ser registrado...
            Caso queira saber mais sobre os DSO´S da Grande Nuvem de Magalhães clique aqui. Ou aqui.http://www.mnassa.org.za/html/Feb2011/2011MNASSA..70..Feb..29.pdf
            Este post é dedicado para aqueles que se interessam pela tal da  astro fotografia e desejam tomar pé sobre as capacidades do Deep Sky Stacker  e  seus poderes para revelar o universo.  Pressupõe também algum conhecimento prévio sobre a matéria...
            Como ha séculos não fotografava DSO algum e muito menos "brincava de laboratorista" com meus programas cometi uma injustiça.
            Todas as fotos apresentadas no ultimo post foram "empilhadas" (stacking) com o auxilio do Rot and Stack (RnS).
            E  falei que o Deep Sky Stacker (DSS) é um programa cheio de manias.
            Não chega a ser mentira. Mas em nome da justiça não posso deixar de dizer que apesar disto ele é um programa muito mais poderoso que o RnS.
            O RnS é um programa amigo de  iniciantes e de preguiçosos. Mesmo sendo necessário um numero muito maior de "clicks" de mouse para determinar os pontos de alinhamento em cada um dos frames a serem alinhados ( ele possue a opção de determinar de forma automática os pontos de alinhamento, mas não recomendo...). No caso de nosso post anterior significaram 140 clicks para 70 frames. Mas ele permite que a preguiça se apresente de outra forma. Sendo um programa bom para os iniciante ele irá empilhar qualquer coisa que você ofereça pontos para sua orientação ( são os 140 "clicks" que falei). Fora isto ele dispensa foco, alinhamento polar , dark , flats e cia LTDA. no momento da captura de suas imagens. Um programam bom para preguiçosos e sua interface é a prova de imbecis...
            Abaixo alguns dos resultados obtidos com ele. Percebam que a foto do modo Sort parece boa. Mas é também atingida por muita "pirotecnia"... De qualquer forma aí estão todos os 70 frames que mandei empilhar. Obediente...
Este é o resultado de horas de processamento posterior ao stacking feito no RnS
               
Modo Mean do RnS. O mais reaalista...

Modo Sort

               Já o DSS demanda e oferece mais finesse.
            No post passado eu me encontrava por demais afoito em fotografar algo e ver resultados. Desta forma o DSS simplesmente me ignorou e apesar das tentativas os resultados finais não apresentavam nenhuma imagem sequer semelhante a Ngc 2070.
            Logo apelei para o RnS e consegui minhas fotos e meu post ha tanto sonhado. Os últimos meses foram uma maratona de trabalho e o Blog assim como os céus se encontravam bem abandonados.
            Não podia me deixar ser vencido pela mãe de todos os vicios e assim com mais calma resolvi obter uma foto digna da Tarântula utilizando o DSS como laboratório.
            A primeira coisa foi obter Dark Frames. 25 deles. E também 15 flat frames.  
            È claro que como quase tudo aqui no Nuncius Australis eles não foram obtidos pelo método indicado pela mídia especializada e nem pelo bom senso. Os Black frames foram simplesmente obtido com a tampa da lente montada em minha 50 mm. E os flats foram feitos embrulhando a câmera com sua 50 mm em uma camisa branca e apontando para uma lampada Day Light que mora em meu quarto...
            O DSS possui varias opções de calibragem para realizar o stacking no menu "Parâmetros de Integração". Em primeiro lugar eu alterei o método pelo qual o programa determina o resultado final do processo de empilhamento ( stacking). Mudei a configuração do modo standart para o modo de Intersecção. Este era mais apropriado para as fotos que obtive e com um acompanhamento dos mais medíocres. Desta forma garantiria que alguma coisa estivesse alinhada com a mesma coisa na coleção de frames bem diferentes uns dos outros.

            Depois alterei o  o modo Light de Kappa Sigma para Proporção. Não sei o porque . Foi mais um sentimento e o fato de que na véspera utilizara o Kappa Sigma com resultados nefastos...
            Por fim  fui no menu "registrar configurações". E na aba " Avançado" baixei a detecção threshold  da estrela para apenas 4%. Mais que isto e o DSS não aceitava empilhar nada... Cheio de frescura.

            Com isto e sem medo de ser feliz mandei empilhar tudo... 69 frames de light,25 darks e 15 flats.
            Depois de muito minutos de processamento o DSS fabricou um Master dark e um master flat os quais foram subtraídos dos 28 melhores light frames escolhidos por ele e me deu um resultado que se não bom pelo menos aceitável.
            Depois disto esta foto ainda visitou o Photo Shop CS5 e o Noiseware.  Não utilizei o IRIS , mas ele seria capaz de gerar um fundo negro para foto e disfarçar a vinhetagem. Para saber mais sobre estes e outros programas clique aqui.
            Depois disto tentei varias outras combinações mas a única que apresentou um resultado ( ainda que pífio) aceitável foi utilizando no modo Light dos parâmetros de integração o método High Entropy. Mas como podem perceber o  ruído foi parar na lua.. Com o Auxilio do Photoshop e do Noiseware as coisas ficaram um pouco melhor. Neste método o DSS só empilhou 19 dos 69 light frames...




           E com o Kappa Sigma os resultados , mesmo utilizando Darks e Flats , foram abaixo da critica. Melhor dizendo : da autocritica...
           
            Os resultados obtidos com o DSS são sempre mais naturais que os obtidos com os algoritmos dos Rns. O Modo mean do RnS é o que mais se assemelha aos resultados do DSS.
             Acredito que se possuísse um equipamento melhor ( uma cabeça equatorial mais solida e precisa...) eu usaria mais o DSS. Mas no meu humilde set up o RnS se encaixa melhor.  É fundamental lembrar que ambos tem uma relação de dependência com outros programas. O Photoshop (ou o Lightroom ou o GIMP e etc...)  é fundamental para o tratamento após o processo de stacking. 
            
Ngc 2070 - 28 de 69 light frames de 10 segundos de exposição+ 16 darks+ 12 flats- ASA3200 empilhados no DSS. Posteriormente a imagem foi submetida ao Photo shop CS 5 e o Noiseware.
Canon T3 + Newtoniano 1200mm 
P.S.  I    Combatendo o maior de todos os vícios em doses homeopáticas levei o produto final mais bem acabado obtido com o DSS e que já havia visitado o PhotoShop e O Noiseware algumas vezes para fazer um tour pelo IRIS. Este é um progrma bastante  complexo mas que realiza diversos milagres. Depois de conseguir um fundo sintético para a nossa foto de Ngc 2070 ele conseguiu eliminar a vinheta e uma parte do ruido pré-existente. Mais uma visita ao Photoshop e é este o resultado final da peregrinação de nosso light frames. ( acrescente isto aos 160.000 anos luz que estes já haviam viajado e tenha uma ideia de quão longa é a jornada deste fótons até você...)          


Com visita ao Noiseware...

Sem visita ao Noiseware...

         Ainda acho que o DSS vai requerer mais estudo e prática de minha parte para que se torne a primeira opção aqui pelo Nuncius Australis. Mas os resultados são muito mais naturais e a razão sinal é incrementada de uma forma muito mais bem feita que no RnS. 


P.S. II - Anos passaram-se e o DSS virou um amigo mais próximo. A primeira coisa que você deve fazer é esquecer os modos Kappa Sigma e Proporção para realizar o empilhamento. Os melhores resultados serão obtidos no modo HDR ( Proporções avaliadas de Entropia).   O Rns é uma memória quase distante ( que as vezes uso para brincar... seu resultados são "divertidos"). Atualmente utilizo o DSS para empilhar os frames e realizo o pós processsamento com o PixInSight 1.8. O set up tembém melhorou. Utilizo uma Canon T 3 e a cabeça equatorial se tornou uma HEQ 5 pro. A foto abaixo demonstra bem como as coisas evoluem se vc insistir... foi realizada na Rua da Passagem com muito mais poluição luminosa que as apresentadas acima. E foram feitos 30 frames de 30 seg. com ISO 1600.  O Pix empilha também mas é bem mais enrolado e o DSS chega a resultados semelhantes com bem menos esforço. É possível que um dia eu volte aqui e diga que passei a empilhar no Pix. conheço muito poucas pessoas que o façam.. Mesmo astrofotografos muito mais sérios que eu prefrem empilhar no DSS também.  As fotos abaixo demonstram bem como as coisas evoluiram.


       

            São dois tratamentos muito semelhantes. E descobrir recursos no Photoshop também será uma parte importante da evolução...





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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ngc 2070 : A Nebulosa da Tarântula e Outros Amigos

            



             Após muito tempo sem poder me dedicar aos meus tão amados D.S.O´s (um anglicismo e uma sigla: Deep Sky Objects) eu finalmente tinha a chance de tentar a sorte com um dos poucos objetos descobertos pelo meu tão caro Abbe Lacaille que eu ainda não tinha fotografado. Ngc  2070. A Nebulosa da Tarântula. 

A foto que originalmente abriu  este post. A que abre atualmente é resultado de uma captura posterior e de um processamento bem diferente. O PixInSight combinado com o DSS apresenta resultados melhores que os que obtia nos primórdios...

 

            Localizada na Grande Nuvem de Magalhães, uma das galáxias mais próximas de nós no grupo Local, ela é um objeto fácil de perceber-se de locais mais escuros que o Rio de Janeiro. Na verdade a GNM é facilmente percebida a olho nu de ambientes rurais. Sua presença tão óbvia que seus registros remontam a Américo Vespúcio no ano de 1503. Mas os registros de Magalhães em sua saga pelos mares austrais levaram a melhor e este acabou por ter seu nome eternizado no firmamento. Vespúcio por sua vez desbancou Colombo e teve seu nome eternizado em forma de continente... 
           
            Ngc 2070 é apenas um dos DSO´s ao alcance de meu querido " Newton" (meu refletor de 150mm) que habitam a GNM.                             . 
           
      Mas como continuo com o "Projeto Lacaille" e assim devo fotografar todos os membros do catalogo realizado pelo abade francês em seu levantamento dos céus do sul realizado entre 1751 e 1752 na Cidade do Cabo "ela" (A Tarântula) seria meu alvo primordial na caçada desta noite.
           
             De lambuja eu levaria para casa mais algumas presas intergalácticas. 

            A Nebulosa da Tarântula é extremamente brilhante (em céus muito escuros e por volta do sec.XVI) e devido a isto foi inicialmente confundida por uma estrela.. Daí seu nome 30 Dourado. Evidentemente que a GNM mora dentro das fronteiras da constelação de Dourado.
            Também conhecida com Bennet 35 a grande Nebulosa da Tarântula dispensa comentários sobre a razão deste apelido.                        . 

            Tarântula é na verdade uma coleção de DSO´s com Ngc 2070 sendo o coração da mesma. No centro da mesma reside o aglomerado R 136 onde foram recentemente descobertas algumas das estrelas mais maciças conhecidas no universo. Algumas (suspeita-se...) com mais de 200 massas solares               . 
           
            Situada aproximadamente a 190.000 AL de nós a nebulosa se espalha por entre 600 e 700 anos luz em diâmetro. Reza a lenda que fosse ela tão próxima quanto a Nebulosa de Órion  lançaria sombras na noite...                       
           
            A nebulosa lança longos braços de gentil nebulosidade rasgada por canais mais escuros e um núcleo extremamente brilhante ( R 136). 
             É uma região HII e uma das áreas de mais intensa formação estelar conhecidas no universo próximo.

            Foi nas bordas da Tarântula que explodiu a Supernova 1987. Foi uma explosão titânica e deixou provavelmente uma estrela de Nêutrons de recordação... A estrela Sanduleak -69o 202 brilhava com magnitude 11.7 antes da explosão. Explodiu com a força de de 100.000.000 de sóis e brilhou 2000 x mais forte que antes. Ainda que atualmente brilhando 1.000.000 de vezes menos que em sua glória ela começa a apresentar ecos de luz que começam a mostrar seus arredores... 
           
            Star hopping no Rio de Janeiro não é para impacientes ou fracos de espírito. Em geral você tem que começar bem longe de seu destino o e contar com a pratica e a sorte para achar seu destino final. Não poucas vezes mirei no que vi e acertei no que não queria ver.                                    . 
           

           

           
              Meu caminho até Ngc 2070 começa em Canopus. ( a Carina) e com esta centralizada na ocular eu calculo um pulo de cerca de 13 graus para o Oeste e assim espero estar por perto de b Dourado. Após diversas tentativas acredito estar com a segunda estrela centrada na Buscadora. E assim partir par a ocular. Estou usando minha Plossl 25 mm e depois de um ensaio realizado no Stellarium calculo os movimentos que me levarão até a Tarântula... Ela não será visível pela buscadora em tempos de obras faraônicas ao pé do Observatório mais urbano do mundo... Antes das obras do metro eu conseguia percebe-la ainda que de forma discreta em minha 9x50 mm. 
            Claro que a lua já vai em seu primeiro quarto. Afinal porque tentar o que é fácil...
            Partindo de b  devo localizar d Dourado e desta dar um pequeno salto para Ngc 2070. Utilizando-se uma ocular com cerca de 1 grau de campo de visão a tarefa exige um pouco de paciência e concentração. Após algumas tentativas , sempre voltando até b eu acabo com a Tarântula centralizada e com diversos DSO´s extra galácticos escondidos no campo. Nenhum deles é tão evidente quanto 2070 e só percebo (com visão periférica) Ngc 2100. Os outros DSO vistos nas fotos são fruto da sensibilidade do sensor e de muito pós processamento das imagens obtidas          
70 EXP DE +- 10 SEG - Canon T3 refletor 150 mm. Rot and Stack + PS CS 5+ Noiseware - imagem ampliada e cropada posteriormente no PhotoShop
. 
           
            Realizei cerca de 70 exposições com diferentes tempos e diferentes asas. O grosso do caldo consiste de exposições de 10 segundos com asa 3200. Foram utilizadas também no empilhamento cerca de 12 fotos feitas com exposições de 15 segundos e ainda algumas de 10 seg. e 15 segundos com asa 6400. Deste samba do crioulo doido obtive melhores resultados utilizando o Rot and Stack que o Deep Sky Stacker. As fotos sofrem de um foco bastante soft e o RnS é mais "pé de boi" e lida melhor com as capturas desastradas que são uma marca registrada no Nuncius Australis.  A foto que abre este post foi realizada depois do post original.  E é resultado de algumas dezenas de exposições de 20 seg. com asa 3200. Fotos realizadas em Búzios em condições bem melhores que as originais. O DSS , o FITSWORK  e o Photoshop foram utilizados no pós-processamento

            .           Astro fotografia é a melhor diversão e alinhamento polar é algo muito chato de fazer-se a sério.                       . 
           
            Foi  ainda utilizado o Photoshop CS 5                  .                   
           
            As fotos demonstram a riqueza que a GNM apresenta facilmente em ambientes bem escuros. Sempre me recordo de um passeio pela mesma que fiz de um lugar longe e escuro. E utilizando apenas meuquerido "Pau de dar em doido " (meu binoculo 15x70mm). 

            Existem diversos DSO´s no campo desta foto.        
Os DSO´s destacados (além de 2070) são apenas os mais faceis de serem visualizados . Mesmo assim não espere moleza em areas urbanas.
      . 

           
            Ngc 2100 é um aglomerado aberto. Tem cerca de 15 milhões de anos e esta localizada a aproximadamente 163.000 AL. Embora seu formato 
as vezes nos confunda com um globular trata-se de um aglomerado aberto bastante denso 

Ngc 2074 é um aglomerado aberto com nebulosidade envolvida. É uma descoberta de John Herschel 
(O Filho).                              . 

            E por fim 2080 é outra região H II de intensa formação estelar também conhecida como Nebulosa cabeça de fantasma ( Ghost Head Nebula). Outra descoberta do filho de Sir William Herschel. 
           
            Na foto ainda podemos perceber de forma discreta diversas outras formações. E apesar dos pesares confirma-se a minha suspeita de que só não vê nada no céu quem não tenta.

               Alguns devaneios:
- Nunca pendure o controle ou o batery pack do motor drive na sua cabeça equatorial.
-O Auto dark frame do RnS é verde...
-O uso de um dark frame capturado por você melhora o resultado. Mas ele tem que ser salvo em PNG.
- O Deep Sky Stacker é um programa cheio de manias...  



Abaixo varias fotos e diferentes resultados....
Modo Mean do RnS

1 exp. 15 segundos asa 3200

Modo sort do RnS com auto dark frame