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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Eclipse de 21 de Janeiro de 2019: Uma Time Line



Tendo terminado o período de explorações do céu profundo e com a lua com mais de 90% do disco iluminado eu deixo Lumiar e subo ainda mais a serra rumo a Friburgo. O eclipse se aproxima e eu e meu pequeno seguimos para casa da Bisa. A cara metade e a mais velha irão nos encontrar lá para o encerramento das aventuras deste verão. E o eclipse deverá coroar o momento.
É claro que o Murphy, Clark e Cia. Ltda. querem ser implacáveis. O Céu nublou completamente ao entardecer e Selene vem toda camuflada.. 
 

Mas mesmo assim eu insisti. Montei o Newton, acoplei a câmera e esperei por alguns buracos. Afinal adiei a Aporema, atrasei meu projeto e abdiquei de meu querido céu profundo em nome da bendita efeméride. As Aporemas são sempre comemoradas nas luas novas mais próximas aos solstícios no verão e no inverno e aos equinócios no outono e primavera.
Iria fotografar o eclipse. Nem que fosse para morder minha língua e realizar um trabalho de cunho puramente artístico. O Eclipse, as Nuvens e a Teimosia do Nuncius visitam Dunlop. Belo nome para um post... Quem leu o ultimo post vai entender a (péssima) piada.  A coisa está feia as 22:50. 


 Comecei a ouvir trovoadas as 23:30.  Mas estou fotografando com 4000 de obturador e ISO 3200 as 23:39.  Algumas fotos anteriormente me obrigaram a utilizar 1/30 de obturador para tentar “furar” o véu de nuvens e chegar a morada de Jorge.  Outra foto as 23:52.   Parece que vai abrir...  As 00:20 estou resolvendo Acrux. A mais bela dupla do Cruzeiro. Enquanto aguardo as coisas fico brincando “free hand ao telescópio”. Desde os tempos de Hipátia (Minha Eq 2-3) Não fazia isso.  Recordar é viver.
O eclipse será só para os boêmios. Aos poucos vou ficando só. José é filho de minha cunhada e com 10 anos é o ultimo a se render. Seremos somente eu e Newton (meu refletor 150 mm f8). Newton, na verdade, está com sua tampa e assim sua razão focal é f 24.
As 00:33 ainda não começou o espetáculo. Mas Murphy parece tentar mais uma vez. Aproveito o momento e “flipo” o contrapeso do telescópio. O eclipse vai acontecer a oeste do meridiano.  Há um halo lunar gigante atestando a umidade. Mas curiosamente esta noite não terei nenhum problema com condensação.
A Lua Cheia...

As 1:28 começo a serie de fotos. Serão 349 no final do programa. Como não poderia deixar de ser um pequeno Cirrus entra em campo. Mas desiste e terei condições muito boas para registrar o evento.

As 1:30 Schickkard (cratera) já foi levada pela sombra.  


As 1:45 O pequeno Mare Humorum já está praticamente submerso. 


As 1:54 Tycho já perdeu muitos de seus raios. 


As 1:58 Copérnico já era bem como todo Mare Nubium e bom pedaço do Insularum . A parte escura é negra e ainda nada do tom avermelhado do ultimo eclipse.


As 2:05 A sombra caminha sobre o Mare Insularum e atinge os Monte Apeninos 


As 2:16 as sombras já invadem o Mare Imbrium e se aproximam de Archimedes 


As 2:21 mais da metade do Mare Serenitatis foi engolido e o céu já vai bem brilhante. A Via Láctea é evidente no horizonte sul.  


As 2:30 o obturador que vinha sendo de 1/250 na maior parte do tempo já caiu para 1/100. Só resta o Mare Crisium totalmente visível. 


As 2:34 as sobras se aproximam da borda do Crisium. 


As 2:37 quase metade do Crisium se foi e o obturador está em 1/60 


As 2:40 só as margens mais opostas do Crisium resistem. A lua é um fiapo. 






De 2:40  até 2:44 a parte acesa definha até se aproximar a totalidade. . O Obturador está trabalhando em 1/13.

Seria o Incio da totalidade...

2:41 Início da totalidade segundo o site do planetário do Rio. Não me parece ... Esta me parece ocorrer as 2:44. 


As 2:45 faço a última foto do apagamento. Com 1/30 de obturador. Daqui para frente as exposições serão mais longas e buscarei cores e detalhes na totalidade. A Lua é rosa.


As 2:46 com 2 segundos de exposição.


As 2:47 2 segundos 


As 2:51 2 segundos 


As 2:54 já com 4 seg. de exposição. 



As 2:55 com 2 segundos e com 4 segundos 



As 2:59 com 2 e com 4 segundos. O céu é escuro e M 44 e M 35 são evidentes a olho nu. Pena não estar com duas câmeras e duas cabeças. Seria legal obter umas imagens com uma lente grande angular.  
Maxima totalidade 2 seg.


Maxima 4seg.

As 3:12 é o momento máximo da totalidade. 2 segundos e 4 segundos 


As 3:23 ainda na totalidade com 5 seg. 


3:39 se aproxima o fim da totalidade 5 segundos de exposição. 

Fim da totalidade.

3:43 Fim da totalidade. 5 segundos de exposição. 


3:46 A lua parece começar a sorrir timidamente na borda oeste. 


3:49 “vai nascendo”.

3:50 

3:54   Começa a se acender de fato. A lua já vai mais baixa no horizonte oeste e eu exausto começo a perceber muitas nuvens se aproximando. É o fim para mim...



O Eclipse foi lindo. De um colorido rosa. Baseando-me na Escala Danjon achei que este oscilou, durante o parcial e até se apagar este seria 0. A lua quase negra. Já na totalidade este ficou entre 3 e 4. Sem nunca atingir o vermelhão do eclipse passado (julho 2018). Não sei se porque a atmosfera no rio seja muito mais poluída que em Friburgo. Foi um tour de force que brindou uma semana muito especial pela serra.   
As 4:02 o galo cantou...

As Crianças , Os Amigos , Os 100 de Dunlop e a Lua Cheia


            
            Como já foi dito por aqui atualmente quase não mais observo da Stonehenge dos Pobres (a.k.a. o observatório mais urbano do mundo). A astronomia observacional sob céus urbanos (Bortle 8 ou 9) é possível e até mesmo indicada para o iniciante. Porém depois de algum tempo os alvos se tornam escassos ou meras assombrações. Desta forma me vejo obrigado a procurar por locais mais escuros. Durante muito tempo o meu posto avançado foi Búzios. Mas mesmo este se tornou muito claro e a arquitetura do local se tonou inadequada. E assim deixei as terras de José Eustáquio rumo a Serra de Friburgo. Debaixo de céus rurais (Bortle 3 ou 4) sou mais feliz. E agora comemoro as Aporemas (um misto de festa pagã, lenda e mentira...)  nos entornos de Lumiar.
                Desta vez a festa não vai acontecer na lua nova mais próxima aos solstícios (ou equinócios) como manda o figurino. Haverá um eclipse lunar e como obriga a geometria estes só ocorrem na lua cheia. E seria um absurdo não o registrar. Parto rumo a serra com a lua já bem crescente.
                Entre os vários projetos observacionais que realizo decidi que devo me concentrar. Com o projeto Lacaille concluído e publicado me decidi por centrar esforços no próximo livro. O Sul Profundo: O Catalogo Dunlop. 
                Quando se fala no céu austral três nomes devem ser levados em conta. Lacaille, Dunlop e John Herschel. Com todo o Catalogo Lacaille registrado e devidamente apresentado o próximo passo lógico é atacar Dunlop. James Dunlop.
                Dunlop é um renegado. Certamente o maior amador de todos os tempos. Sem nenhum suporte ou apoio este “descobriu” mais de 600 nebulosas ao sul do tropico de Capricórnio. Ainda que nem todas tenham sido confirmadas realizou um trabalho magistral e pouco conhecido. Especialmente aqui pela Pindorama. Com um telescópio construído por ele mesmo e sem nenhum apoio ele explorou o céu profundo a partir de Paramatta, na Austrália.
                Meu objetivo é a observar e registrar fotograficamente (nesta ordem) os 100 DSO´s mais interessantes de seu levantamento. Os “100 de Dunlop”. É uma lista organizada por Glen Cozens. Um dos maiores especialistas na história dos céus austrais. Quiçá este se torne os “200 de Dunlop”.
                Desta forma parto para Lumiar com um plano (que como sempre não será seguido e é para lá de ambicioso) observacional. Segundo este devo observar 25 objetos Dunlop por estação. A inspiração é o Guia para os “400 de Herschel” de O´Meara. Neste ele traça um plano para realizara a façanha ao longo de um ano. Acho que vai demorar mais para registrar os 100. No final da expedição visitei os seguintes objetos de Dunlop: IC 2488, Ngc 3201 , Ngc 3114 , Ngc 2808, Ngc 4349 e só... Faltam 96. Na verdade já fotografei e visitei todo o Catalogo Lacaille. Que está contido dentro dos “100 de Dunlop”. Mas é questão de honra revisitar e fotografar tudo de novo nesta nova empreitada. Desta forma são novidade apenas 2808, 3114 (este já apresentado aqui no Nuncius Australis) , 3201 e 4349.

                Depois de muito tempo sem observar partimos novamente eu, meu filho e Newton (um telescópio refletor de 150 mm f8) para Lumiar. Eu vou visitar velhos amigos e céus mais escuros. Meu filho vai encontrar os “amigos Capoeira”. É assim que ele chama os filhos de meu antigo professor de geomorfologia e um dos velhos amigos que vou encontrar.




                Como sempre digo os maiores inimigos do homem e da astronomia são ele mesmo, os amigos e a cachaça. Crianças também não ajudam muito. Desta forma as duas primeiras noites não são exatamente astronômicas. Muitos amigos e muita cachaça. Mas na segunda noite faço um exercício fundamental. Observar o céu a olho nu. Depois que a lua já tinha se posto e em um vale esquecido om Boa esperança passeio pelos céus. Saindo do Cruzeiro e seguindo até Orion percebo quase todo o catalogo Lacaille a olho nu. São velhos amigos também. E sabendo onde buscar todos são alvos fáceis. Durante muito tempo impliquei com O´Meara, que fala em seus livros de diversos DSO´s que são visíveis e mesmo óbvios a olho nu, achava conversa fiada. Não é. Estes se apresentam, mas de um jeito diferente. São nebulosas, estrelas suspeitas ou “algo suspeito”. Mas uma vez se sabendo o que são e onde estão fica mais fácil. O homem é o exercício que faz.
                Finalmente abandono a casa do velho mestre e vou para meu refúgio na Pedra Riscada. Eu e as crianças. Lá monto e telescópio e me preparo para “trabalhar. O céu na região é Bortle 3. Uns poucos domos de luz a sudeste (Sana) e a nordeste (Lumiar). Nada grande. O horizonte sul é bem aberto e a paisagem deslumbrante. Em noites sem lua o N.E.L.M. (uma sigla e um anglicismo. Significa “Naked Eye Limit Magnitude”. Magnitude Limite a Olho Nu.) atinge facilmente 6a magnitude. Em noites sem lua. Não é o caso. 
                Acreditando na sorte faço um alinhamento polar de ouvido. Não funciona. Finalmente decido por um método mais científico e este funciona de maneira impecável. Os objetos que busco sempre aparecem no campo de minha ocular 26 mm. Utilizei Canopus e Betelgeuse para realizar o alinhamento do Synscan de Mlle. Herschel (uma cabeça equatorial HEQ 5).
                De uns tempos para cá tenho percebido que a astrofotografia pode ser um perigo. Me prometi que sempre tentarei ver o que procuro antes de fotografar. Outro dia, “conversando” no Facebook, perguntei a um amigo qual era sua impressão de um determinado DSO visualmente. Ele me contou que não tinha olhado sequer na ocular. Cada um com seu cada um. Mas eu acredito que a fotografia é uma importante ferramenta. Mas enquanto astrônomo a observação visual é fundamental. A astrofotografia não pode ser um fim em si mesma. O registro visual dos céus é fundamental. Mesmo que não seja possível se extrair tanto detalhe é importante se saber o que se vê até mesmo para saber que detalhe se deve buscar extrair. Sob a pena de seu registro fotográfico ser algo de caráter artístico e não astronômico. Fotos com “false color” e quase pinturas acabam por afastar muitos da astronomia. Quando se fala em astrofotografia o prefixo deve ser mais importante que o sufixo. Com o barateamento e a facilidade do equipamento para astrofotografia a preguiça pode se abater e técnicas como o uso de “averted vision” e conhecimentos básicos de ótica podem acabar sendo relegados. O conhecimento da combinação correta de telescópio, ocular e seeing podem ser a diferença entre ver e não ver um determinado DSO. É mais fácil simplesmente acoplar a câmera e depois de uma dezena de exposições obter uma confissão.  Outro risco é o surgimento de astrônomos sem nenhum conhecimento real. Belas fotos são legais mais conhecer evolução estelar é obrigatório...
                Inicio a noite me lembrando que a lua é cruel. Tudo lavado e alvos óbvios quase difíceis. Já disse que o inicio da noite foi desastrado e com um pobre alinhamento polar só observei os DSO´s mais claros. E  fotos eram só rabiscos. Mesmo utilizando comprimentos focais cada vez mais curtos.
                As 11:32 Canopus cruzou o meridiano e eu alinhei o Newton. A lua quase se pondo e finalmente ataquei Dunlop.


                Comecei a noite revisitando IC 2488. Um dos 100 de Dunlop e membro de Lacaille também. Composto de pequenas estrelas é bastante atacado pelo “bafo lunar”. Refiz o registro fotográfico deste que nos tempos do antigo livro foi muito apressado. Muito bacana. Um aberto delicado. E que continua merecendo um tratamento melhor...


                Sigo para uma novidade. Nunca tinha visitado. Ngc 3021. Um globular frouxo e obrigatório. O melhor da temporada. Fico feliz em ter percebido visualmente o “V” ou cunha que se apresenta tão facilmente em sua foto. Visualmente este é desafiador. Me recorda em algo o “Globular Fantasma” em Libra, Ngc 5867. Mas de formato mais irregular, e provavelmente devido a presença da lua, ainda mais tênue.

                Ainda seguindo o plano Dunlop Ngc 2808. Um Globular clássico. Pequeno e denso.

O aglomerado está no lado direito da foto.

                Decido acertar as contas com um aberto no Cruzeiro que sempre me traiu. Ngc 4349. Um dos “100 de Dunlop”. Um aberto bem discreto e ao lado de um asterismo que pode acabar roubando a cena e enganando o caçador. É ,com certeza,  um  alvo do velho projeto “Tudo que Existe”. Nenhum guia observacional clássico ou moderno o aborda detalhadamente. Não resolvi o aglomerado. Em noite mais aprazível talvez consiga . Mas com a lua presente é apenas um esfuminho bem discreto. Nestes momentos a fotografia realmente se apresenta como ferramenta fundamental. Sem esta seria difícil dizer a real natureza desta “nébula”.
                Voltando no tempo e ainda no inicio da noite fiz algumas fotos da lua. Com o eclipse vindo por aí é bacana registrar o andamento das coisas...

                De volta ao céu profundo e ignorando o fato que a lua quase cheia faz estragos mesmo depois de se pôr eu visito o Sombreiro (M 104). A foto fica péssima, mas esta é uma galáxia fácil. É sempre legal visitar galáxias...No visual ela é bem melhor do que se imagina. Sem vergonha.
                Depois tento coisas mais difíceis, M 95 e 96. E algo em Virgem. Fracasso total. O céu apresenta bastante umidade e em noite de lua já quase cheia não consigo perceber as galáxias que abundam pela região.
                   antes que me esqueça fiz uma muito rapida captura de Ngc 3114. ou pelo menos parte dele. 
Single frame de 3114. 

                Já vai 3:00 da manhã e devo dormir. As crianças desmaiadas no quarto e sei que não irão até muito tarde na manhã seguinte. Para piorar o velho professor passou pelo posto avançado e está com um machucado feio na perna. Prometi ver a situação na manhã seguinte e conforme a necessidade o levar até o posto de saúde. E aqui na roça isto tem que ser cedo. Ou não há médico. Sistema de saúde de M...
                A tarde cai uma daquelas tempestades típicas de verão. E a noite há muita neblina. Apresento a lua para alguns turistas e é só o que consigo. Sempre faz sucesso . Especialmente quando você acopla a camera com uma Barlow e dá um passeio por algumas das estruturas mais manjadas.  Uma rápida olhada em M 41 me mostra que seria perda de tempo insistir na missão. desmonto tudo . Mlle. Herschel não está gostando da umidade e nem a Canon. 




                Às vésperas da lua cheia volto para Boa Esperança. É novamente tempo de amigos e cerveja. Na manhã seguinte vou seguir para Friburgo onde irei encontrar a cara-metade e minha filha e torcer para que a noite do eclipse se encontre aberta enquanto comemoramos os 96 anos da bisavó das crianças. 
                Mas isto é outra história.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

M 80 : O Favorito de Herschel


               

          M 80 é um de meus globulares favoritos. Talvez por isto tenha guardado sua foto por anos antes de apresenta-lo aqui no Nuncius Australis. Mas mais provavelmente isto foi resultado da mecânica observacional que possuo. Geralmente realizo algumas rodadas observacionais por ano (as Aporemas) e nestas capturo diversos DSO que irão ser o esteio do Blog pela estação. Quando capturei M 80 capturei muitos objetos e depois de processar todas as fotos fui apresentando os objetos frutos da ultima expedição. Atualmente é difícil observar da Stonehenge dos Pobres. Embora continue achando que é possível observar sob céus Bortle 8 e 9 e que inclusive isto é um excelente exercício para o iniciante não obtenho mais o mesmo prazer.  Desta forma e muito provavelmente eu ainda não tinha chegado até M 80 quando parti para outra rodada observacional. E pronto. M 80 ficou perdido no HD e guardado na minha memória biológica. Eu provavelmente achando que já havia abordado este no blog ha varias Aporemas...    (Aporema é uma festa pagã de origem indígena que ocorre sempre nas luas novas mais próximas aos equinócios e aos solstícios. Ou quase isso. E que habita o terreno das lendas aqui do Nuncius Australis)

                 A foto que abre o post é resultado do stacking de cerca de 10 exposições de 30 seg. com ISO 1600. O Newton ( Refletor 150 mm f8) montado na Mdle. Herschel ( Montagem equatorial HEQ 5pro) . Camera Canon T3. Foi utilizado o DSS (Deep sky Stacker) para empilhar as fotos e posteriormente a foto foi "esticada" no PixInSight 1.8. Foram utilizados uns poucos dark frames. Nem Flat nem Bias.... 

                Finalmente tendo reparado o esquecimento vamos ao que interessa: M80
                M 80 habita Escorpião. Certamente é a mais desafiadora entrada do Catalogo Messier em suas franjas. Não chega a ser um grande feito. Todas as outras entradas do Catalogo do caçador de cometas na constelação são muito fáceis e perceptíveis a olho nu mesmo de locais nem tão escuros. Trata-se de um globular pequeno e extremamente denso. Shapley II. O Mais denso dos Globulares do tão famoso catalogo de impostores cometários.  Na verdade, é um exemplo didático destes. Com pequenos aumentos é um exemplar perfeito de um “cometa paraguaio”. Messier iniciou seu trabalho buscando relacionar DSO´s que pudessem confundir astrônomos na sua caça por cometas. Era essa a moda na época. As pequenas e grandes nebulosas que encontravam pelo caminho não eram tão dignas de nota. Ele organizou um catalogo de objetos a não serem procurados...
            M 80 é um clássico globular do halo interno. Com uma orbita pequena e nunca se afastando muito do downtown galáctico. Sua orbita completa ao centro da Via Láctea não demora mais que modestos 70 milhões de anos. O nosso sol realiza seu percurso (um ano galáctico) em 225 milhões de anos. Mesmo com tal diferença de velocidade o sol teria meros 25 anos (aproximadamente) e M 80 será um Matusalém cósmico com cerca de 200 anos.  Globulares e suas estrelas são algumas das coisas mais velhas que se pode observar...
         Ngc 6093, o outro eu de M 80, é um aglomerado relativamente pobre em metais e isto atesta sua idade.
              Localizado a pouco mais de 4o NO de Antares (Alpha Scorpio) M 80 tem a paternidade disputada. Messier e Méchain eram um misto de colaboradores e concorrentes. Apesar de algumas fontes falarem o contrário tudo indica que M 80 é um Messier original. Ele teria chegado até o mesmo 3 semanas antes de Méchain no amanhecer de 4 de janeiro de 1781.  
Ele nos lega este registro: “[4 de janeiro 1781] nebulosa sem estrelas em Escorpião. Entre as estrelas g (atualmente Rho Ophiuchi) e d . foi comparada a g para ter sua posição determinada. Essa nebulosa é circular, o centro é brilhante e recorda o núcleo de um pequeno cometa circundado por nebulosidade.  M. Méchain o Observou em 27 de janeiro de 1781”.
                Em minhas pesquisas acabei por esbarrar em no que pode ser um antigo erro tipográfico ou um deslize de uma de minhas astrônomas favoritas. Mary Proctor, em seu adorável Evening with the Stars ( 1924) , alega que M 80 teria sido descoberto por Herschel em 1781 ( pag. 98). É um mal-entendido evidentemente. Herschel é o primeiro e resolver o Globular em estrelas e este é um objeto que o fascina e que é significativo para a cosmologia que este “cria”. Ele fala: “A mais rica e condensada massa de estrelas que o firmamento oferece a contemplação para os astrônomos.”.  devido a M 80 se encontrar junto a uma região com muita poeira e de varias nebulosas escuras Herschel passa a acreditar que ele teria capturado toda matéria e estrelas na região deixando aquele vazio no espaço a seu redor. O “Loch on Himmel “. Herschel inclusive apresenta um artigo no Philosophical Transactions de 1785 chamado “Uma abertura no Céus” (An opening in the Havens) relacionando o globular e a região escura...   
               A seguir Smith (grande fã de Herschel) o apresenta no que pode ser considerado o primeiro guia observacional da história (A Cycle of Celestial Objects- The Bedford Catalogue): “Um comprimido aglomerado globular de estrelas diminutas no pé direito de Ophiuchus, que é as costas do Escorpião. Este belo e brilhante objeto foi registrado por Messier em 1780 (outro equivoco histórico) que o descreveu como lembrando o núcleo de um cometa, que de fato de seu brilhante centro para suas bordas atenuadas possui um aspecto cometário.”  Smith também nos fala da importância do objeto para o entendimento da dinâmica dos céus e apresenta as ideias de Herschel.
               M 80 é um dos poucos s e foi o primeiro globular a ter uma Nova registrada. T Scorpii. Esta é já registrada no que veio a ser o segundo guia observacional da História. Web em seu celestial Objects for Common Telescopes nos diz que “... quase central, ou mais provavelmente entre o aglomerado e nós está a estranha variável T que em 1860, entre 18 de maio e 21 brilhou com sétima magnitude ofuscando o globular inteiro, e já havia se extinguido quase completamente em 16 de junho. Nunca reapareceu.”
              Web parece ter se equivocado e hoje é aceito que T Scorppi seria um membro do aglomerado. A explosão foi provavelmente fruto de uma colisão estelar. Devido a sua densidade tais eventos parecem ser relativamente comuns em M 80.
              A nova foi primeiro percebida por Auwers. Agnes Clerk também, dá um relato bem completo dos acontecimentos. Burnham, em seu Celestial Handbook, nos apresenta os estudos de J.G Hill e C.A. Day (1976) realizados na Universidade de Michigan. Em um aglomerado contendo um milhão de estrelas   cerca de 335 colisões devem ter ocorrido ao longo de 12 bilhões de anos.    Em um globular denso como M 80 este evento pode acontecer 2700 vezes.
            M 80 possui cerca de 1 milhão de estrelas e a massa de 400.000 sóis. Sua distância parece ser alvo de controvérsia. O meara nos diz 27.000 anos luz. Já Stoyan fala em 48.260.  A pagina da SEDS aposta em 32.600.  Parece que a maior parte das fontes que visitei parece concordar com a SEDS.
                O Hubble localizou 305 “Blue Stragglers” no aglomerado (são estrelas em uma fase evolutiva anterior a que deveriam ter dada a idade do aglomerado.) Parecem corroborar a colisões calculadas pelo time de Michigan.

        Localizar M 80 não chega a ser difícil. Repousando aproximadamente no meio da reta que liga Alpha e Beta Scorpii  ( Antares e Acrab (ou Graffias) uma busca atenta com uma buscadora 8X50 vai revelar sua natureza para o observador atento.
               M 80 é um objeto interessante. Com pequenos telescópios ela vai ser exatamente o que Messier viu. A conforme for aumentando o poder de fogo vai ir cada vez mais se assemelhando a visão de Herschel. 


            A região no seu entorno é maravilhosa e M 80 habita um dos campos mais interessantes da Via Láctea.  


sábado, 29 de dezembro de 2018

M 53: Um Globular na Cabeleira de Berenice


        

         Depois de alguns meses de hibernação o Nuncius Australis volta a ativa. Nada melhor para este exercício que apresentar M 53. Trata-se de um globular do catalogo Messier. O penúltimo de minha coleção. Resta somente capturar M 72 em Aquário. Infelizmente este terá que aguardar pelo ano de 2019.   
            M 53 foi observado em julho do ano passado, porém como o segundo semestre foi bastante tumultuado aqui pelo Nuncius e também no país inteiro este ficou na reserva até o momento.
            Mas como o objetivo aqui é astronomia e não divagação sobre como a política pode revelar o que de pior existe na humanidade vamos ao que interessa. M 53.
            Observando sob céus bens escuros M 53 não chega a ser um espetáculo. Embora relativamente grande ele apenas ameaça se resolver em suas bordas com visão periférica. De locais de muita poluição luminosa será apenas uma impressão. Graças a três evidentes estrelas no campo você será capaz de ter certeza de sua posição e aí então desconfiar de sua presença em céus urbanos. Isso com um telescópio de pelo menos 90 mm e nada mais que uma pequena bola de luz enevoada e tênue. Observei M 53 pela primeira vez há muito anos atrás com o Galileo (meu refrator 70 mm f 13) a partir de Búzios.   Alguns autores entusiasmados alegam ser possível perceber M 53 com binóculos 7X 50 mm. Pela buscadora do Newton (meu refletor 150 mm f8) eu o percebo quase estelar e bastante discreto. Mesmo assim com muito esforço. Novamente em céus escuros (abaixo de Bortle 4). Não espere resolver nenhuma estrela com menos que 150 mm de abertura.  Sua região central, ainda que sem se resolver, possui um formato triangular bastante evidente e percebido por diversos autores. As fotos aqui apresentadas e minhas observações sustentam esta impressão.

Foto com 2 drizzle . DSS + PI . A Foto que abre este post é resultado da mesma captura mas não foi submetida a Drizzle durante o processo de empilhmento no DSS. E foi também tratada no Photoshop. 

            M 53 foi descoberto por Bode em 3 de fevereiro de 1775. Messier o redescobre de forma independente em 26 de fevereiro de 1777. E comenta: “Nebulosa sem estrelas descoberta abaixo e próxima a Come Berenice, próximo a estrela 42 Flamsteed desta constelação. Esta nebulosa ´e circular e conspícua. O Cometa de 1779 foi diretamente comparado esta nebulosa e M. Messier o marcou na carta para este cometa que será publicada no voluma de Academia de 1779. Observada novamente em 13 de abril de 1781. Lembra muito a nebulosa que existe abaixo de Lepus. (M 79)  
            Como sempre Herschel é o primeiro a resolver o aglomerado e sua descrição demonstra bem como os globulares visíveis do hemisfério norte deixam a desejar em relação aos nossos... Ele o descreve como “um dos mais belos objetos que me recordo de ter observado nos céus. O aglomerado se apresenta como uma bola sólida, consistindo de pequenas estrelas, bastante comprimido em uma luz brilhante com um número considerável de estrelas soltas ao seu redor e distintamente visíveis na massa geral”.
            M 53 é um globular bastante distante e se encontra a 63.000 anos luz de nós bem como do centro galáctico. Um membro didático da chamada população o halo. É um grande globular com uma massa de 750.000 sóis e espalhando-se por 230 anos luz de espaço. Nele habita um pulsar com um período de 33 milissegundos descoberto pelo famoso radio telescópio de Arecibo (aquele enorme...). estudos indicam que este orbita uma outra estrela a cada 256 dias e possui ao menos 1 bilhão de anos.


            Localizar M 53 não é difícil. Bem próximo a Alpha Coma (Diadem) a navegação até ele é fácil e três estrelas facilmente percebidas no campo são faróis bem evidentes.

            Realizei cerca de 10 exposições de 30 segundos e o Deep Sky Stacker selecionou 7 apenas. Acrescentei 6 dark frames a formula e o resultado final foi processado no PixInSight. A captura (1600 iso) acabou apresentando muito ruído....

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Ngc 6352, Dunlop e Algumas Hipóteses.de Evolução Galáctica


              

           Ngc 6352 é uma descoberta original de Dunlop. E é uma das poucas entradas do catálogo organizado pelo “Astrônomo Cavalheiro de Parammata” que se provou real e que escapou a John Herschel em seu gigantesco levantamento de nebulosas dedicado aos céus austrais realizado entre 1834-38. Dunlop foi o segundo grande explorador do céu austral. Seu catalogo supera em muito o trabalho anteriormente realizado por Lacaille no século anterior. O mais incrível é que este foi realizado de forma totalmente independente e sem nenhum suporte de academias ou observatórios. E em um espaço de 6 meses no ano de 1826.  É o astrônomo “amador” mais bem-sucedido de todos os tempos. Um verdadeiro herói.

                A sua entrada de numero 417 foi posteriormente incluída no trabalho de Bayer e acrescido no New General Catalog (1888) com o numero 6352. Quase um século mais tarde foi apresentado como a entrada 81 da lista observacional criada por Sir Patrick Moore (C 81).

                Habitando bem ao sul e tendo escapado de John Herschel este belo e interessante aglomerado não foi descrito por nenhum dos chamados autores clássicos (Smith, Webb, Olcott e Cia. Ltda).   Dunlop deixa esta breve e bastante precisa descrição: “Uma nebulosa bastante fraca, de um formato arredondado irregular ligeiramente ramificada, facilmente resolvida em estrelas com uma leve concentração em direção ao centro.”

                Bayer (que nunca deve ter observado este de fato) nos fala no Ngc apenas o seguinte: “Aglomerado (não nébula), bem fraco, grande.”
                Habitando a constelação de Ara ele não é sequer descrito, detalhadamente, por Burnham em seu “Celestial Handbook”. É sempre esquecido em detrimento de Ngc 6397 que é mais brilhante e candidato a ser o globular mais próximo da terra.
                Ele é finalmente descrito por O´Meara em seu “The Caldwell Objects” de uma forma que não me parece fazer jus ao mesmo. Provavelmente devido a sua posição extremamente austral para um habitante das Ilhas do Havaí. Ele nos fala de (com 72X de aumento) “um terrivelmente suave brilho “no qual com tempo e atenção começa a revelar uma barra destacada de luz a sudoeste do principal globo leitoso. Segue dizendo que todo o corpo central do aglomerado é cercado por um suave brilho. A imagem é incomodamente assimétrica e que esta assimetria se acentua mais e mais conforme se observa este detalhadamente. Fala em alças ... Seu desenho do aglomerado deixa claro que sua observação deste foi modesta. Uma raridade...
                Observei Ngc 6352 em uma noite extremamente favorável de Lumiar debaixo de um céu Bortle 3 (rural). Com a Lua nove e este já alto no céu achei o aglomerado bem evidente mesmo pela buscadora. Não grande mais de nebulosidade evidente. É um aglomerado XI na escala Shapley. Ou seja, pouquíssimo concentrado. Mas em uma noite temática (observei diversos aglomerados globulares frouxos) este não foi exatamente difícil. Comparado ao alvo anterior na noite (Ngc 5897- O Aglomerado Fantasma) este é evidente, grande e se resolve bastante. Na verdade, acho este bem mais acessível e fácil que diversos dos Messier difíceis (M 71 é um alvo bem mais difícil...). resolvi muitas estrelas com visão periférica e achei obvia a barra descrita por O´Meara com 60X de aumento. Com 120 X ele é ainda mais “estrelado”.
2 drizzle 
                Ngc 6352 é um aglomerado de disco e com alta metalicidade. Por isto mesmo um alvo de grande interesse cosmológico. Globulares se distinguem em duas populações bem características. Os chamados globulares do disco e os globulares do halo. Os do Disco possuem, em geral, uma metalicidade maior que os de halo. Um típico globular do halo possui 1/100 de Ferro (em relação ao hidrogênio) que o nosso sol. Já um globular de disco esta relação cai para 1/50. Desta forma aglomerados como 6352 formam uma espécie de elo perdido entre globulares de halo e antigos abertos como M 67.
                Uma hipótese é algo que não é, mas que fazemos de conta que é, para ver como seria se ela fosse.
 Um paper do Astrophysical Journal de 1995 utilizando dados do Hubble Space Telescope  revelou que que Ngc é extremamente semelhante ao protótipo globular de disco Tuc 47. Teriam estes idades semelhantes (14,5 bilhões de anos?) e metalicidade bem próxima. Desta forma os globulares de disco seriam mais velhos que a população do halo. Isto contraria o amplamente aceito conceito de os globulares de halo são mais antigos que os do disco. Se isso for verdade (a hipótese) os globulares de disco se formaram juntamente com o restante do disco galáctico enquanto os globulares do Halo se formaram a partir da canibalização de galáxias satélites. A descoberta da galáxia esferoidal de Sagitário em 1994 parece ter entusiasmado muito o meio acadêmico. Esta galáxia parece estar passando por um processo de destruição por forças de  maré e depositando seu sistema de globulares e estrelas no halo de nossa galáxia. Atualmente é mais aceito um modelo hibrido com uma diversidade maior de cenários e que parece muito mais sustentável e realista.
             Hubble sempre associou a desenvolvimento da cosmologia a evolução da tecnologia. E assim o foi. Após o estudo de 1995 o HST passou por uma missão de reparo e um estudo realizado por Faria e Feltzing e publicado no Observed HR Diagrams and Stellar Evolution, ASP Conference Proceedings, Vol. 274 já em 2005 revelou uma idade de “modestos” 12,6 Bilhões de anos para Ngc 6352 e outros diversos globulares de disco antes considerados mais anciões. A técnica utilizada é bastante interessante, mas foge ao escopo do Nuncius Australis. O paper em questão pode ser acessado em http://adsabs.harvard.edu/full/2002ASPC..274..373F .  E assim caminha a humanidade e a ciência ...
               Localizar Ngc 6352 é relativamente fácil a partir de Alpha Ara. Em céus escuros este irá comparecer como um tênue esfuminho em uma buscadora 10X50 mm e é bem evidente com um binóculo 15X70 mm. Em céus menos generosos é mais difícil mesmo ao telescópio.
                Com poucas exposições de 30 segundos e ISSO 1600 este revela bastante detalhes. Sua assimetria é bem evidente e um de seus traços mais característicos.  O equipamento utilizado foi uma Canon T3+Newton 150 mm f8+ HEQ 5 Pro. O processamento foi realizado no DSS + PixInsight+ Photoshop.
                Ngc 6352 é uma descoberta original de Dunlop. E é uma das poucas entradas do catálogo organizado pelo “Astrônomo Cavalheiro de Parammata” que se provou real e que escapou a John Herschel em seu gigantesco levantamento de nebulosas dedicado aos céus austrais realizado entre 1834-38. Dunlop foi o segundo grande explorador do céu austral. Seu catalogo supera em muito o trabalho anteriormente realizado por Lacaille no século anterior. O mais incrível é que este foi realizado de forma totalmente independente e sem nenhum suporte de academias ou observatórios. E em um espaço de 6 meses no ano de 1826.  É o astrônomo “amador” mais bem-sucedido de todos os tempos. Um verdadeiro herói.
                À sua entrada de numero 417 foi posteriormente incluída no trabalho de Bayer e incluído no New General Catalog (1888) com o numero 6352 e quase um século mais tarde foi apresentado como a entrada 81 da lista observacional criada por Sir Patrick Moore (C 81).
                Habitando bem ao sul e tendo escapado de John Herschel este belo e interessante aglomerado não foi descrito por nenhum dos chamados autores clássicos (Smith, Webb, Olcott e Cia. Ltda).   Dunlop deixa estar breve e bastante precisa descrição: “Uma nebulosa bastante fraca, de um formato arredondado irregular ligeiramente ramificada, facilmente resolvida em estrelas com uma leve concentração em direção ao centro.”
                Bayer (que nunca deve ter observado este de fato) nos fala no Ngc apenas o seguinte: “Aglomerado (não nébula), bem fraco, grande.”
                Habitando a constelação de Ara ele não é sequer descrito, detalhadamente, por Burnham em seu “Celestial Handbook”. É sempre esquecido em detrimento de Ngc 6397 que é mais brilhante e candidato a ser o globular mais próximo da terra.
           Ele é finalmente descrito por O´Meara em seu “The Caldwell Objects” de uma forma que não me parece fazer jus ao mesmo. Provavelmente devido a sua posição extremamente austral para um habitante das Ilhas do Havaí. Ele nos fala de (com 72X de aumento) “um terrivelmente suave brilho “no qual com tempo e atenção começa a revelar uma barra destacada de luz a sudoeste do principal globo leitoso. Segue dizendo que todo o corpo central do aglomerado é cercado por um suave brilho. A imagem é incomodamente assimétrica e que esta assimetria se acentua mais e mais conforme se observa este detalhadamente. Fala em alças ...
              
        

          

              



segunda-feira, 3 de setembro de 2018

IC 4756: O Aglomerado dos Muitos Nomes


            IC 4756 é um aglomerado aberto com muitos apelidos. Até hoje haviam três registrados. Creio que agora possam ser quatro...
            O enorme aglomerado aberto é conhecido como Graff 1, O Aglomerado Tweedledee e O Aglomerado Jardim Secreto. Foi descoberto através de uma placa fotográfica em 1908 pelo astrônomo de Harvard Solon Bailey enquanto analisava fotos realizadas com uma lente Cook de 25 mm f13 na Estação de Harvard em Arequipa.
            Foi redescoberto em 1922 pelo astrônomo alemão Kasimir Graff. Durante muito tempo diversas fontes o consideraram entes distintos no universo. Não eram e o aglomerado acabou levando o nome de Graff que o descobriu visualmente. Já seu segundo apelido, Tweedledee é dado por O´Meara em seu “Hidden Secrets”. Este o reúne a seu vizinho Ngc 6633 nas entradas 92 e 93 de seu livro. E batiza IC 4756 como Tweedledee e seu vizinho como Tweedledoo. Estes são dois pequenos e gordinhos pugilistas gêmeos que são encontrados por Alice no quarto capítulo de “Alice através do Espelho” de Lewis Carrol.  Desde então o nome dos gêmeos se tornou sinônimo de quaisquer duas pessoas, lugares ou coisa que justifiquem uma comparação.
            Já o terceiro apelido demandou mais pesquisa e dedução para se chegar a sua origem e o trabalho definitivamente remonta mais a Conan Doyle do que a Lewis Carrol. Seu autor foi certamente um inglês. The Secret Garden é um clássico da literatura inglesa. É um dos mais suaves livros que já li embora aborde questões muito espinhosas, especialmente para o publico a que é, em geral, indicado. Um Livro infantil que aborda negligência e abandono de seus “heróis”.  Observar IC 4756 é quase como interpretar da forma correta o texto de France Hodgson Burnet. É como entrar no jardim Secreto (um dos muitos dentro da mansão Craven) e fazer uma pausa no dia (ou na noite) e se impregnar na magia que é sempre percebida por Collin (uma das crianças...) e aproveitar a natureza e poder refletir sobre verdades simples, mas que por isto mesmo não são obvias.  Sabendo isto minhas apostas são que Patrick Moore seja o padrinho de batismo de nosso aglomerado. Era inglês, certamente leu “Jardim Secreto” (nenhum inglês de seu tempo sairia da escola sem ter o lido. Afinal na Inglaterra não é como aqui onde crianças terminam o ginásio sem sequer terem lido ‘” O Gênio do Crime”). Porque este não inclui este no Catalogo Caldwell é um mistério para algum Sherlock de plantão...


4X 30 seg 1600 ISO 

            IC 4756 é um aglomerado enorme, cobrindo quase 10 de firmamento. E que habita, como no livro, sobre um jardim rico e maltratado. No caso campos estelares da via láctea. Ele é feito sob medida para minha ocular de 40 mm que quase o abarca na integra e revela seus encantos que não são poucos. É um daqueles grande e antigos abertos que remetem a M 44 e cia LTDA. com cerca de 1 bilhão de anos ele é de fato antigo para um aberto. E pouco denso deve habitar uma tênue faixa onde esses agrupamentos ainda resistem as intempéries e se mantem no limite da coesão como entes físicos.
            Este conjunto da obra nos ajuda a entender como este DSO passou desapercebido pelos observadores clássicos do século XIX. O faz um Jardim Secreto... Ainda que IC 4756, com magnitude ao redor de 4, seja percebido a olho nu ele é visto contra o esplendor e brilho da via láctea. E com sua enorme área ele simplesmente era grande demais para os estreitos campos dos telescópios destes pioneiros. Como eu disse, ele é feito para minha ocular 40 mm ou meu 15X70. Com a 26 mm demanda um certo passeio para ser coberto na integra e sem ter visto a floresta antes as arvores talvez passem desapercebidas.

            Localizar IC 4576 é fácil. Em locais de céu escuro basta localizar dois esfuminhos óbvios (o outro será Ngc 6633) no meio do caminho entre Theta Serpens Cauda, uma bela dupla amarelo limão siciliano que vai se resolver na buscadora, e um par de estrela de brilho próximo, 71 e 72 Ophiuchi. As duas últimas estrelas representavam a ponta do chifre da finada constelação de Touro de Poniatovii.
            O aglomerado é uma grata surpresa e agora possuindo um quarto apelido: “O Aglomerado dos Muitos Nomes”. Mas confesso que “O Jardim Secreto” será sempre meu favorito. Recomendo a observação e a leitura... 

            As fotos não fazem justiça a beleza deste. O sensor da Canon  T3  montada no Newton ( 150 mm f8) não cobre toda a área e como disse este   aglomerado é um bom momento para se entrar em um jardim secreto e fazer uma pausa no dia (ou na noite) e se impregnar de magia e perceber a natureza. É um alvo visual por excelência.