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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

M 29 - O Aglomerado Nuclear

              
             M 29 é um pequeno aglomerado aberto em Cygnus ,o Cisne.  Já o tinha observado de latitudes boreais com um binóculo 10X50. Não tinha achado nada de notável no pequeno ajuntamento de estrelas. Com um diâmetro aparente de 9´ e com menos de 50 membros não chega a ser nenhum espetáculo . E habitando a riquíssima região de Cygnus e do grande Rift não se destaca muito entre os maravilhosos campos estelares que abundam na área. 
                Estrelas se organizam de diferentes formas mas todas se formam de nuvens de hidrogênio , hélio e uma pitada de outros elementos . O tempero depende de quando estas se formaram ao longo da história química do universo. A grosso modo quanto mais antigas menos tempero terão...
                Em uma hierarquia de agrupamentos estelares podemos iniciar com o que astrofísicos em geral e Stevenson em particular  definem como uma afiliação difusa de estrelas  também  chamados de associações estelares. Estes são agrupamentos frouxos de estrelas que iniciam sua vida em uma única nuvem de gás e que se movem pelo espaço juntas.  Suas estrelas são tipicamente separadas  por 1 ou mais anos luz e não são "cimentadas" umas as outras pela gravidade. São como carros em um mesmo engarrafamento que se movem em um mesmo passo.  cedo ou tarde seus membros vão acabar se afastando uns dos outros e seguir seu caminho. Um dos exemplos mais famosos destas associações é o Cinturão de Órion. Tais associações tem sua expectativa de vida na casa dos milhões ou dezenas de milhões de anos. Quase  nada em termos estelares...
                Subindo um degrau na hierarquia chegamos a M 29. Um aglomerado aberto.. Assim como as associações aglomerados abertos podem possuir centenas ou mesmo milhares de membros mas neste caso a gravidade dos membros atua sobre outros membros. E assim como nas associações seus cidadãos tem uma idade semelhante. No universo associações estelares podem conter um ou mais aglomerados abertos em seu conjunto. Algo como um vale com diversas vilas ao longo...
                M 29 é um aglomerado pobre. Com menos de uma centena de membros. De qualquer forma segue o modelo padrão destes. Um distinto e evidente núcleo central mais populoso com uns poucos anos luz  e um halo mais disperso com membros mais afastados uns dos outros.  Como a gravidade entre seus membros não é exagerada aglomerados abertos também acabam por se dispersar mas tem uma expectativa de vida maior que as associações e de um modo geral são constituídos de estrelas bem jovens. Existem casos de aglomerados abertos que se mantem unidos por bilhões de anos. Mas como regra geral suas idades são expressas na casa de dezenas a centenas de milhões de anos.  Isto vai depender muito da massa  e da densidade do aglomerado. Bem como de sua localização na galaxia.
                M 29 é uma descoberta de Messier que o observou em 29 de julho de 1764: " Aglomerado com 7 ou oito estrelas fracas que esta abaixo de Gama Cygni e que se parece com uma nébula em um refrator simples de três pés e meio. Sua posição foi determinada a partir de Gama Cygni. Sua posição foi marcada na carta do cometa de 1779"
                Com equipamentos menos toscos que os de Messier se contam algumas dezenas de estrelas no aglomerado e percebem-se claramente as oito as quais ele se refere. Com uma magnitude de 6.6 ha registros de o mesmo ser percebido a olho nu como uma pequena estrela próxima a Sadr ( Gama Cygni).

                Localizar o mesmo é bastante simples a partir da estrela já citada. O mesmo será discreto mas mesmo assim obvio em quase qualquer buscadora óptica. Como um bom representante dos aglomerados abertos M 29 é um jovem de 10 milhões de anos e habita a associação OB 1  Cygnus.  Localizado a 4.400 anos luz de nós ocupa cerca de 11 anos luz de galaxia.
                Acabei por visitar M 29 novamente utilizando o Newton ( um refletor de 150 mm f8) devido ao apelido pelo qual o mesmo é apresentado no Stellarium. "Torre de Refrigeração". E definitivamente ele se parece com isto. A mim lembrou muito as chaminés de uma fabrica. Primeiro me ocorreram  a Refinaria de Duque de Caxias e a  Companhia Siderúrgica Nacional. Mas depois lembrei da usina nuclear de Three Miles Island na Pensilvânia e palco de um desastre nuclear nos anos 70.  

                Achei que ele é mais interessante sem grandes ampliações. Parece ser uma opinião unanime entre quase todos os relatos que localizei. Minha visão favorita  foi realizada com minha ocular de 40 mm (30X). A região é bem interessante e a pequena torre acaba sendo como um pingente na rica região de Cygnus.  Existe alguma nebulosidade na região.

2 X  Drizzle -DSS
                Sendo um alvo brilhante realizei um registro fotográfico rápido. Apenas 4 exposições de 30 segundos foram suficientes para apresentar M 29 de forma honesta e permitir sua fácil identificação. Mas não capturei nebulosidade envolvida.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Corona Australis e o Céu Profundo

          

          Corona Australis  é uma constelação de  elegância discreta. Espremida entre as ostentadoras e zodiacais Sagitário e Escorpião    e com suas estrelas mais brilhantes atingindo não mais que magnitude 4.1 ela não chega a se destacar. Mas seu formato é evidente e esta é uma  das 48 constelações listadas por Ptolomeu no seculo II.  Os antigos gregos não percebiam uma coroa. Para estes ela mais se parecia com uma grinalda e a associavam a Sagitário ou a Centauros. 
                Sua estrela mais brilhante é Alpha CrA. Esta é a única estrela na constelação que recebe um nome próprio. Alfecca  Meridiana. Sua 11 estrelas mais proeminentes foram destacadas pelo padrinho do Nuncius Australis , o Abbe Lacaille, que utilizou as letras gregas de Alpha até Lambda para as registrar. Por alguma razão desconhecida o mesmo designou duas das estrelas de CrA como Eta e omitiu Iota...
                Apesar de disputar com duas das constelações mais ricas em DSO´s dos céu Corona Austrina ( seu outro nome...) possui peças dignas de nota e uma notável região.  Ela possui um adas regiões de formação estelar mais próximas do sistema solar.  Uma poeirenta e escura nebulosa denominada de "Nuvem Molecular de Corona Australis". Por isto a nossa discreta e educada Coroa possui diversas estrelas e proto estrelas muito especiais e no começo de suas vidas. R e TY CrA são dois tipos de variáveis que são modelos clássicos de estrelas que estão ainda assentando a sequencia principal.  A Região é rica também em nebulosas de reflexão que são alimentadas por estrelas jovens e sem massa suficiente para criarem nebulosas de emissão. Na região também se encontram diversos objetos Herbing-Haro ( proto estrelas).
                Registrei ainda que de forma tímida e preguiçosa uma das áreas da constelação de maior interesse para astrônomos amadores. Nesta pequena area de menos de 1ox1o  se encontram diversos DSO´s de características diferentes e todos bastante atraentes para pequenos telescópios.
                Na foto de abertura  podemos perceber claramente Ngc  6723 ( um aglomerado globular) ,Ngc 6726-27 (nebulosas de reflexão)  e  Ngc 6729 ( Nebulosa variável) de forma mais discreta. Se esconde ainda IC 4812.
                Ngc 6723 curiosamente escapou as observações de Lacaille. E este apesar de utilizar um refrator minusculo ( 8X 12,5 mm) descobriu globulares bem mais difíceis de serem observados e percebidos .  Desta forma sua descoberta teve que esperar por Dunlop iniciar seu levantamento em Paramatta , Nova Gales do Sul na Austrália. Este é a entrada 559 de seu catalogo e foi avistado em 3 de Junho de 1826.
                Ele escreveu: " Uma bela nébula arredondada e brilhante , com 3  1/2´ de diâmetro , moderada e gradualmente condensada e para o centro.  Ela se resolve. A moderada condensação e a cora azulada das estrelas que o compõe lhe dão  uma aparência suave e agradável. É muito difícil de se resolver ainda que a condensação não seja muito grande."  
                Segundo Glen Cozens  em sua tese de Phd " An analysis of the first Three Catalogues  of Southern Star Clusters and Nebulae" o telescópio de Dunlop teria o mesmo poder de fogo de um moderno refletor de 150mm. E desta forma o que percebo com o "Newton"  em muito se assemelha ao que o "Astrônomo Cavalheiro" viu.

                Ngc 6723 é um globular muito antigo. Sua metalicidade esta no limite inferior dos globulares . Trata-se de um Globular do bojo galáctico com  cerca de 1/16  do ferro presente no Sol ( por atomo de hidrogênio). Isto indica que ele se formou em um momento em que a história química do universo ainda estava nos primórdios.  Sua metalicidade combina com a variáveis RR Lyrae que habitam  bojo. A idade idem. Isto nos leva até 13.5 bilhões de anos atrás quando o bojo galáctico estava se formando e os disco espirais que hoje enfeitam nossa galaxia sequer existiam.  Acredita-se que  a formação do bojo galáctico levou cerca de 8 bilhões de anos.
                Muito próximo de Ngc  6723 esta Barnes 157, uma nebulosa escura e parte da Nuvem Molecular de CrA. Pelo menos para quem as observa. Barnes 157 esta a meros 420 anos luz da nós enquanto 6723 esta a  29.000 anos luz.    Esta proximidade ajudaria a sustentar uma hipótese defendida por William Herschel que embora equivocada é bastante poética e faz parte da evolução da cosmologia.  Herschel , no seculo XVIII, tivesse visto Be 157 e Ngc 6723 iria denominar a escura nebulosa como mais um Loch im Himmel  , um buraco nos céus , "um curioso vazio através do qual parecia que navegamos por um infinito ininterrupto". Herschel achava uma coincidência que estes vazios encontravam-se frequentemente próximos a a ricos aglomerados. Ele suspeitava que estes aglomerados coletavam o seu material destas regiões e deixavam para trás estes vazios.  Ele considerava o conjunto de   Rho Ophiuchi com M 80 um modelo padrão. Tivesse ele avistado 6723 e e Be 157 provavelmente suspeita iria fortalecer-se.
                Ngc 6726-27(descoberta por Julius Schimdt em 1861)   e Ngc 6729 são nebulosas de reflexão que  me recordam muito M 78 em Orion. Nebulosas de reflexão são uma das faces que regiões de formação estelar podem tomar.   Alimentadas por TY Corona Australis e  R Corona Australis , um interessante objeto que é melhor observado em infravermelho e que trata-se de uma protoestrela que continua acretando material e que tem a luz de HIP 93425 e HiP 93371 ( ambos sistemas múltiplos)  participando da brincadeira  vemos uma das  nebulosas de reflexão  mais fáceis de serem observadas no céu. ( M 78 é a mais fácil...) .
                Esta é uma região de formação estelar.  Neste caso especifico temos estrelas de massa intermediaria se formando. ( menos de 10 massas solares) que nunca alcançarão temperatura suficiente para fissão do Ferro. As estrelas no extremo desta categoria poderão terminar sua vida como supernovas mas a maioria ( entre 7 e 2 massas solares)  jamais viverá este fim tão glorioso.  Estas não atingirão temperaturas para queimar nada muito mais complexo que Helio. Mas devido a suas interações com a física , a química e o universo elas criarão nos inicio de sua vidas belas nebulosas de reflexão. Sem força suficiente para ionizar suas bandas do universo e emitindo  a maior parte de sua energia no parte azul e ultravioleta do espectro elas vão formar belas nebulosas de reflexão ao se relacionarem com a matéria interestelar poeirenta de suas matrizes. Um processo parecido com o que faz nosso céu azul.  Diversas destas Nebulosas se espalham por Be 157 e por estas plagas do universo.
Esta foto passou por menos pós processamento e ée bastane semelhante ao que você verá com uma buscadora wide field ( no meu caso uma Plossl 26 mm) 

                Ngc 6729 , embora seja a  mais discreta em nossa foto, é uma das favoritas de Sir Patrick Moore e a entrada de numero 68 de seu Catalogo Caldwell. Foi o ultimo DSO a ser descoberto de nossa lista até o momento.  Não só escapou de Dunlop como de John Herschel e só foi descrito por Alberth Marth também em 1861 com o uso de um telescópio de 48 polegadas.
                6729 assim como R Corona Australis é uma variável. Uma nebulosa variável cujo o brilho de superfície varia. Sua estrutura também é bem dinâmica. Em fotos feitas entre Junho de 1920 e agosto de 1921 demonstram clara mudança de brilho e formato da nebulosa. Seu brilho pode apresentar modificações em menos de 24 horas. Estrelas pré sequencia principal são bem temperamentais...
                Localizar todos os DSO aqui descritos é bem fácil. Ache Epsilon CrA. E com uma ocular wide field estarão todos lá . E mais alguns convidados.

                Corona Australis é uma pequena constelação riquíssima em DSO´s bastante interessantes tanto pelo desafio observacional como por sua importância cosmológica.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

J.E.S.S. 120 - O Aglomerado nem tão Perdido

          
              Em recente visita ao posto mais avançado do Nuncius Australis , nas terras de onde José Eustáquio e o Pd. Silvano e Silva compilaram e /ou observaram o lendário Catalogo J.E.S.S. de Nebulosas e Objetos Estelares ,  eu acabei fotografando o que poderia ser uma entrada obscura e um interessante campo estelar que acabou por confundir nossos astrônomos seminais .
                O  Catalogo J.E.S.S  é fruto de alguns papéis muito velhos , cartas mais velhas ainda, um "ajuntamento" de tradições orais comuns a pescadores e outros mentirosos na Região dos Lagos no Litoral Norte ( geograficamente falando ele poderia ser chamado de Litoral Leste e a Região dos Lagos de Região das Lagoas .) do Rio de Janeiro  e lendas por mim reunidas. Resultado de uma cruza entre História, Etno-Astronomia, Romance e conversa fiada.  Cientistas sérios e técnicos em geral devem sentir calafrios neste momento...
                De qualquer forma em um dos papéis muito velhos ( pouco mais que uma pedaço de pagina rasgada) encontra-se escrito em moldes que remetem a José Eustáquio :
"  120 - Cardume.  Luminosae -  37 35   17 35- Pequeno e esparso cardume entre  Lam e Kap Sco"


                A descrição do aglomerado como cardume não deixa duvida que a nota é de punho de José Eustáquio. Silvano Silva jamais se permitiu a tal liberdade. A classificação deste como Luminosae ( como Hodierna o fazia) também substância a suspeita.
                Mas entre as notas mais organizadas de nosso Padre desterrado as entradas do catalogo J.E.S.S só chegam até o numero 101. Este então seria um objeto perdido do catalogo.
                Eu mesmo me deparei com este DSO totalmente ao acaso. Na verdade nem ao acaso . Foi um erro mesmo. caçando por Ngc 6400 e com o go-to de Mdm. Herschel sem nenhuma precisão cai neste campo estelar. Posteriormente em analise feita do campo no site da "Astrometry" identificou-se apenas estrelas do Catalogo elaborado por Henry Draper ( HD) na região. Pesquisando no Stellarium não ha nenhum DSO na região. Mas decido aprofundar as investigações e utilizando o Simbad descubro que algumas daquelas estrelas possuem um desvio para o vermelho semelhante e andam em velocidades semelhantes pelo universo. Dai até pesquisar por algumas delas no Cartes do Ciel é um passo. Parece-me que J.E.S.S. 120 existe e compartilha pelo menos uma parte de Cr 338.  Embora as coordenadas deixadas por José não sejam cravadas são mais próximas que muitas entradas aceitas no Catalogo Dunlop e a posição entre Lambda  e Kappa Scorpio não deixa muitas duvidas.

                Este modesto e disperso aglomerado  não possui muita bibliografia. Localizando a distancia até algumas das estrelas do Catalogo Tycho que parecem ser membros reais do mesmo determinei uma distancia estimada entre 2500 e 3000 anos luz de nós.  Segundo o CdC  possui 8a magnitude. Com cerca de 30 ´ de diâmetro aparente e "chutando" uma distancia de 2500 anos luz ele se espalha por mais de 19 anos luz. Algumas das estrelas mais brilhantes   na região são estrelas de massa intermediaria em estado já mais avançado na sequencia principal.   Muitos  dos aglomerados abertos ´próximos  são associados a Cinturão de Gould e possuem estrelas um pouco mais jovens em sua maioria.  De qualquer forma Cr 338 parece ter quase 500.000.000 de anos segundo Dias e Alessi.
                De qualquer forma J,E,S,S, 120 ou Collinder 338 são um campo interessante e que levantam suspeitas. Sendo estes um asterismo ou um DSO " bonne fide" vale uma visita a região.  Na verdade a cauda de Escorpião é uma das áreas mais ricas em aglomerados abertos que conheço. Ha muitos que nunca visitei.
                É importante frisar que o campo que fotografei não engloba toda a área que Cr 336 reside. Supondo que JESS 120 é de fato o grupo fotografado este divide algumas estrelas do sul do aglomerado descrito por Collinder. Mas tendo passeado bem pela região o "cardume" fotografado tem muito mais pinta de aglomerado aberto do que qualquer outro "ajuntamento" em uma área de pelo menos 1o.

                Não posso deixar de recordar algumas entradas no Secret Deep do O´Meara que ele acreditava serem descobertas originais suas e que depois habitavam o Catalogo Alessi. Este um catalogo elaborado por Bruno Alessi , um astrônomo paulista , contém algumas dezenas de entradas e  reúne possíveis aglomerados dispersos e vários asterismos. Eu sei que o trabalho dele já vai mais adiantado mas podem dar uma boa olhada em algumas de suas primeiras  entradas em   http://www.deepskypedia.com/wiki/List:Alessi  . Foi em uma tabela organizada por ele que achei os dados mais confiáveis a respeito de Cr 338.  Parece que Collinder também chegou atrasado ...

                                                                                                                                                                   

                

domingo, 25 de setembro de 2016

A Armação dos Ventos Uivantes e a Galáxia de Escultor

              
               O primeiro fim de semana  de lua minguante depois do equinócio de primavera é quase como a Pascoa nas terras de José Eustáquio  ( mítico astrônomo  do Catalogo J.E.S.S.) .  E assim eu não poderia deixar de abduzir toda a família em direção da Península  onde esta a antiga Armação dos Peixes e  a atual Armação dos Búzios.
                O clima da Península é dominado por seu regime de ventos. E com os ventos do quadrante leste dominando se produz ali  um microclima bastante propício a observação astronômica. Segundo reza a lenda contada por José  este regime deixa o clima na região sempre agradável .  Uma temperatura média anual de 26o C ( "meteorologicamente provado") e (começa a lenda...) uma média de dias de sol e noites estreladas cerca de duas vezes maior que a  "Capital" (Rio de Janeiro) e três vezes maior que Angra dos Reis , na Baia da Ilha Grande. 
                Tendo planejado tudo com precisão quase cirúrgica eu tinha consultado o 7Timer ( site metereológico) com antecedência e "sabia" que a noite de sexta feira  (23/setembro/2016) seria quase perfeita para meu projeto. E como terminaria   meu trabalho na quinta preparo tudo para pegar as crianças na saída da escola sexta (na verdade o menor sequer foi para a escola...) e estar em Búzios a tempo de utilizar Eta Pavo como estrela para realizar o alinhamento polar. Isto aconteceria as 18:25:18 no horário local.   Depois de "arrastar" a cara-metade ainda no horário consigo pegar a filha com pequeno delay e assim chegar em Búzios 16:00 horas sem correr muito.
                Definitivamente o vento nordeste estava roncando na Península. O Céu não poderia estar mais limpo.     Ainda na saída do Rio percebera boa transparência. Ao cruzar a Ponte Rio-Niterói consegui vislumbrar a crista da Serra do Mar. Recortados contra o céu percebia , ainda que com leve nebulosidade envolvida , claramente o Monte Escalavrado ,o Dedo de Deus , Nossa Senhora e o Cabeça de Peixe. Lá em Teresópolis... Equipamento montado e pré alinhado antes da 17:30.
                Mdm. Herschel é uma cabeça equatorial HEQ 5 da Skywatcher. Sólida o suficiente para sobreviver ao vendaval.  Me lembrei logo de uma noite que passara aqui com minha  velha EQ 3 que perdia mais das metades das fotos feitas para o vento.  Curiosamente caçando por um outro objeto descoberto por Caroline Herschel ( Ngc 253 é uma descoberta dela)  ; Que foi  posteriormente  homenageada no apelido da HEQ 5 que hoje me acompanha. Mais uma daquelas coincidências que nada tem a ver com a leis fundamentais do universo que abundam por ai e sem a menor importância. 
                O vento é um inimigo cruel para a astrofotografia. Um mal alinhamento polar pode ser solucionado  com uma redução do tempo de exposição, o aumento da asa e um auxilio do Fitswork... O vento inutiliza as fotos onde interfere. Estrelas viram um borrão como se o telescópio tivesse levando uma trombada durante a captura.
                Quando observo geralmente possuo um roteiro "meio-que -montado". Uma derrota celestial registrada em papel. E desta vez tinha em mente observar algumas galaxias no Grupo de Escultor  e fotografar (possível sendo) ao menos Ngc 253 e Ngc 300.
                Mas o primeiro alvo da noite era  um recanto rico em DSO´s e uma bela esquina galáctica.
                Ainda cedo meu menor acompanhava as observações. Com 3 anos a brincadeira era que caçávamos.  O conceito de caçar amplo como o de uma criança. Poderiam ser tesouros , peixes ou animais. E assim íamos até o computador e escolhíamos um alvo e depois retornávamos ao telescópio onde tínhamos que falar bem baixo para não espantar as nossas presas. Depois eu disparava a arma ( no caso a câmera fotográfica )  e 30 segundos mais tarde (o tempo de exposição ) eu comunicava que tínhamos acertado o tiro e festejávamos nossa conquista . Ele olhava para a foto e fazia de conta que entendia quando eu lhe explicava que tratava-se de uma região com um aglomerado globular e "matéria intergaláctica" . Nossos grandes tesouros.  Depois disparava novamente e câmera e fazíamos tudo de novo.
                Desta forma  caçamos um tesouro que ficara enterrado por muito tempo na região da Corona Austral. Uma constelação espremida entre a cauda do Escorpião e o Sagitário. Para meu filho ainda todas as constelações do céu são um Escorpião...
                Na mesma foto pode-se ver Ngc 6723, 6726 e Epsilon Cor A.

            


            Depois disto as coisas começam a se complicar e percebo que o alinhamento do Synscan (sistema de localização de Mdm. Herschel) estava recalcitrante e muito pouco preciso. Alguns ajuste s e uma nova escolha de estrelas para realizar o alinhamento acompanhado de um leve ajuste no alinhamento polar e retorno a missão. Agora já nos moldes de Joshua Slocum e velejando em solitário fico correndo com o tempo enquanto aguardo por Ngc 253 , A Grande Galaxia de Escultor.  Navegando em meio a "porranca de nordeste" tento em vão localizar M 71. O go-to não esta bom ... M 71 a mim  parece ser um dos globs mais arredios do catalogo Messier.  Deve ser algo pessoal.
                Com tesouros mais profundos a frente acho melhor refazer o alinhamento do Go-to pela enésima vez...
                Finalmente a coisa parece estar funcionando a contento. E assim finalmente  localizo Ngc 253 com o apertar de um botão.  Percebo logo  que existe mais algo na ocular que os "aviões de carreira".  Observo e realizo algumas exposições . O Vento continuava forte e após tentar algumas fotos com exposição de 1 minuto acho melhor me conformar com 30 segundos. O alinhamento polar estava apenas quase a altura e durante um minuto  era difícil que o a "lestada"  não desse uma lufada mais forte  e acabasse logo com a foto.

                Preparo o computador e utilizo o APT ( software) para realizar a captura. No final tenho 50 exposições  de 30 segundos da galaxia. Aproveitáveis entre 30 e 35 dependendo do humor... 
                Ngc 300 acabou por fugir de mim. Não consegui visualiza-la mesmo depois de ajudar o go-to com um pouco de starhopping e com consultas ao Stellarium e a  meus atlas.

J.E.S.S 120 ?

                A fim de relaxar tento Ngc 6400 já baixo no horizonte. Acabo sendo enganado e fotografo um interessante asterismo onde pretendo realizar uma analise mais detalhada. Me parece um aberto bem esparso . Talvez venha a ser a entrada 120 do Catalogo J;E;S,S, . Em todo caso um interessante campo na cauda de Escorpião. 

                Depois disto resolvo sair do Script e  acabo visitando M 29. Um aberto do catalogo Messier que só tinha observado com binóculos. Umas poucas fotos para posteridade.  

                Com os dois alvos mais almejados de minha derrota já no porão e devidamente registrados ( Ngc 253 e o campo em Cor A)  acabo indo revisitar Albireo. Muito baixa no  horizonte noroeste  ainda se presta a um belo espetáculo. Minha  dupla favorita.
                Depois disto passo um bom tempo namorando Andrômeda. M31 em uma noite sem bafo de vapores de poluição luminosa. Sem nuvens e com  a afamada noite Buziana  devidamente amansada pelo vento e pela  temperatura bem abaixo dos 26o  da lenda M 31 se apresenta com muito mais dignidade do que na minha ultima visita ( 3 setembro 2016) . Com visão periférica , hiperventilação e reza braba acredito perceber detalhes em seus braços espirais. Faixas escuras ...  Com meu casaco mais pesado sobre a carcaça faço umas poucas imagens de M31 e sigo meu passeio. Novamente M 33 é decepcionante de Búzios. Eu sei que estou olhando para ela e não a  vejo.
M 31 e 32


                De volta a derrota planejada tento Ngc 55. Mas não arrumo nada. O go-to ou minha visão não estavam localizando a galaxia.
                Já vai tarde e visito as Plêiades. Em breve a Lua vai nascer. Em rápida sucessão visto   M 79 , M 42 e M78. Da ultima até realizo algumas fotos mas nada que prestasse. Deletei todas depois de selecionar as capturas.
                A noite vai chegando a fim e de posse de um Ballantines vou transferir o cartão da câmera e ver meu butim. Muitas das peças haviam sido danificadas pelo vento...


                A derrota segue como planejada e acordo cedo para comprar camarão. Depois ir até a praia.   Voltar para casa. O tempo começa a fechar ( exatamente como o planejado) e  faço meu churrasco. Espetinhos de Camarão ao Curry na brasa ( com limão). E depois uma Costelinha de Porco com Sal , Mascavo e pimenta ( e mais limão) , O tempo fica fechado e conforme o previsto passo a noite junto a família bebendo cerveja e brincando com as fotos ao computador.
Brincado com as fotos 1




 No domingo amanhece chovendo  e parto de volta para a "Capital".
M 16 preguiçosa- 4X 30 seg não foram suficientes nem para a saída...


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terça-feira, 13 de setembro de 2016

M 30 : A Cara de Capricórnio

            
                 Ao ler-se o  "Mémoires de l´Académie Royale" para 1771 (publicado em 1774) o cidadão vai se deparar com a primeira versão do Catalogo Messier.  Esta famosa lista de "cometas impostores" possuía aí apenas 45 entradas. É incrível ler ao diário onde Messier revela a construção de seu Catalogo. Parece realmente que você esta no Observatório da Marinha em Paris ao lado do Ilustre astrônomo.

                Seguir os caminhos percorridos por Messier na noite de 3 para 4 de agosto de 1764 é um roteiro interessantíssimo.
                Eu de forma desavisada acabei por percorrer este exatamente 252 anos e um mês mais tarde que Messier. E na noite de 3 de Setembro de 2016 coloquei meus olhos pela ´primeira vez em M 30 e revisitei M 31 e M32 (A Grande Galaxia de Andrômeda e sua pequena companheira) . A grande diferença é que quando Messier enquadrou M 30 em seu telescópio gregoriano com 150 mm de diâmetro e 104 X de ampliação  ninguém nunca o tinha feito antes. M 30 é um objeto original de Messier. Uma descoberta sua.
                Ele escreve: " A noite de 3 a  4 de agosto 1764  ,  descobri uma nebulosa abaixo da cauda de Capricórnio e muito próximo de uma estrela de 6a  "grandeza" . A quarenta e um desta constelação segundo o Catalogo Flamsteed : é difícil  ver esta nebulosa com um telescópio comum de três pés (distancia focal)  ; ela é arredondada e ali não vi nenhuma estrela: Eu a examinei  com um bom telescópio Gregoriano que amplia 104 vezes ( esta é uma frase recorrente no texto de Messier. Parece ser seu telescópio favorito), ela pode ter um diâmetro de 2 minutos.  Eu comparei seu centro a estrela Zeta de Capricórnio , de 5a magnitude, & determinei sua posição...  Esta nebulosa foi marcada  sobre a carta  do celebre Cometa de Halley  que observei em seu retorno em 1759."
                Sua descrição é rica em detalhes e demonstra claramente como seus equipamentos eram modestos. Embora M 30 não se resolva no Newton ( um telescópio newtoniano de 150 mm de diâmetro , o mesmo que  Messier) com 120X de aumento algumas estrelas comparecem. Especialmente as de seus cornos.  Este me parece ser um dos mais interessantes traços de nosso globular. Ele é um Globular "com chifres". Não poderia estar mais bem parado do que em Capricórnio. Ele é , indubitavelmente, o "DSO simbolo" desta constelação.
                Smyth em seu "Cycles of Celestial Objects"  e com equipamentos quase cem anos mais desenvolvidos ( ele possuía Refrator Tulley  de 5.9 polegadas) já fala em "duas linhas ou colunas de quatro ou cinco estrelas " pertencentes ao globular.
" Um belo aglomerado branco e pálido, sob a barbatana caudal  da criatura e a cerca de 20o oeste-noroeste de Fomalhault, aonde precede 41 Capricorni , uma estrela de 5a magnitude , a menos de 1o. Este objeto é brilhante e a com  fluxos dispersos de estrelas na sua borda norte , possui um aspecto elíptico, com forte brilho central: existem outras estrelas envolvidas e algumas "outliers". "
                Smyth ainda destaca que o aglomerado foi primeiro resolvido por William Herschel em 1784 utilizando um Newtoniano de 20 pés (Distancia focal) .
                Posteriormente diversos autores mais modernos percebem  os "fluxos dispersos " da banda norte. São os  chifres de M 30.   Hartung os chama de dedos ( fingers) e posteriormente O´Meara se refere a chifres ( horns). 
                Em seu "Deep Sky Companions; The Messier Objects" O´Meara coloca M 30 como residente de Sagitário. Deve ser  um erro de impressão.
                Neste ele destaca que perceber os "chifres" de M 30 visualmente é o grande desafio a ser enfrentado por amadores em modestos telescópios.

                Localizar M 30 não chega a ser muito difícil.  Mas   Capricórnio não tem estrelas muito brilhantes e achar Zeta Cap pode ser duro em regiões com poluição luminosa. Desta localizar 41 Cap não é tão complexo com auxilio óptico. E dai para M 30 é mais um passo... Sua magnitude é de 6.9.
                Com pequenos aumentos M 30 é apenas uma área esfumaçada sem nenhuma resolução. O observei em noite de transparência bem ruim e não o percebi pela buscadora ( 8X50) .  Com 46X eu começo a desconfiar que ele pode ser resolvido. E com 120X percebo os chifres mas não consigo resolver o aglomerado completamente. Como M 30 sofreu um colapso em seu núcleo suas áreas centrais são muito povoadas e resolver sua parte central é tarefa dura mesmo pra grandes telescópios.
                M 30 cresceu muito desde aquela noite em agosto de 1764. Hoje em dia ele tem 12´ de diâmetro aparente. Os espelhos e lentes melhoraram bastante desde então.  E assim estando ele a  26.700 anos luz este se espalha por 93 anos luz de diâmetro. 

                Fotografei  M 30 sem grandes compromissos mas ele e seus chifres se revelam mesmo com umas poucas exposições curtas em noite de transparência ruim.  
                M 30 é a "cara" de Capricórnio. E um dos mais ingratos objetos para quem realiza Maratonas Messier. Você terá que lutar contra o sol nascente...



domingo, 4 de setembro de 2016

Projetos Observacionais e Livros Antigos

      


               Gosto de projetos observacionais. Também gosto de livros antigos.  E assim parto solitário rumo a Búzios acreditando na previsão do tempo que obtive no 7Timer ( vocês podem utilizar o link aí ao lado para visitar o site...) . Este apresenta diversos "perfis" de previsão. Um dos defaults é o "astro". Neste ele vai lhe dizer o seeing , a transparência , a cobertura de nuvens e cia ltda. de hora em hora para as próxima 48 horas. Apesar de borboletas ainda bateram suas asas na Tailândia ele costuma ser bem preciso.
                Levo na bagagem todas as tranqueiras para observar os globulares Messier que me faltam observar ( meu projeto observacional) e minha cópia do "Cycle of Celestial Objects " do Captain e depois Admiral William Henry Smyth ( o livro antigo). Lançado em 1844 e dedicado ao grande John Herschel o livro é composto de 2 volumes. O Prolegomena e o Bedford Catalogue. Quase dois séculos mais tarde não foi traduzido para a língua de Camões nem nada  sequer do gênero foi escrito por estas bandas. Dada a atual situação da politica educacional ( e em geral) na nação é desnecessário buscar razões para entender tal fato.
                Uma vez na terra de José Eustáquio eu monto tudo e me preparo para esperar Beta Ara cruzar o meridiano e  poder realizar um alinhamento polar eficiente. Minha derrota é ambiciosa. Pretendo observar e fotografar nove dos onze globulares Messier que me faltam.  Correndo contra o relógio. Na verdade entre 19:00 e 23:30. Depois ainda queria capturar pelo menos uma galaxia no Grupo do Escultor. Isto tudo ignorando a péssima transparência prevista no 7Timer.  Lógico que não deu certo.   Para piorar seria a única janela de tempo "aberto" no fim de semana.
                Agosto foi um mês que fez jus a sua fama. E eu esperava que a maré passasse assim que entrasse setembro. Esqueci de Murphy e Clark...
                Meu plano era uma derrota bem planejada. As 19:00 horas eu teria o telescópio , buscadora e "go-to" todos funcionando como um relógio suiço.  Sem muito tempo o alinhamento polar não ficou bom , o go-to ficou com uma precisão no máximo medíocre e em vez de ter M 5 em quadro as 19:00 eu estava com M 4 centralizado na ocular por volta de 20:30. E percebi que o 7Timer estava certo. A transparência era péssima e eu não conseguia resolver estrelas  em M 4 com nenhuma combinação de oculares que tenha tentado. Nem sua famosa "barra central " era evidente.
                Depois de muita luta acabei por conseguir abater dois globulares dos nove planejados. M 19 e M 30.
M 30

M 19


                O go-to sempre oferece algumas estrelas para realizar o seu alinhamento. Geralmente utilizo o alinhamento utilizando 2 estrelas.  Para usar uma única estrela depende-se  de ter um alinhamento polar cravado. Três estrelas você tem que possuir todos os horizontes muito livres. Não é o caso.  Já descobri que algumas combinações de estrelas dão mais certo que outras . Desta vez nenhuma das escolhas foi muito feliz.  Definitivamente Alnair com Altair deve ser evitada. Péssima precisão. E Alnair com Atria apenas um pouco melhor. Mas com apenas uma noite para me divertir não podia ficar testando muitas possibilidades.  
                Depois de perceber que objetos mais difíceis estavam fora do baralho com a transparência que me era oferecida eu me dou por feliz com meus dois "globs" novos e parto para um aproach mais modesto. M 17 é uma eterna favorita. Fácil de localizar e por alguma razão habitando um buraco de céu menos esfumaçado é revisitada.  Faço algumas exposições da mesma. O alinhamento polar não colaborando decido fazer uma coisa que sei não dar  belos resultados. Mas astrofotografia é a melhor diversão e não ia me aporrinhar por bobagens. Como já falei agosto tinha sido um mês de m...
                De volta ao "Cycles" a descrição de Smyth de M 17 é algo entre a prosa e a poesia. E em tempos que besteiras evangélicas proliferam pela web ele demonstra que nem sempre religião , ciência e sabedoria são inimigos figadais. Lembrando que o livro é de antes da lei aurea. Smyth em vez de negar a ciência em nome de Deus acha que estudar o Universo é uma forma de tentar entender a seu Deus e assim reverencia-lo. Recentemente vi algumas paginas na web onde cidadãos do século XX alegavam que não seria a Terra um planeta e nem o Sol uma estrela a fim de sustentar a insustentabilidade de sua fé. E com o History Chanel sendo um canal onde assisto programas cômicos o futuro parece-me  bem sombrio...
             Nos tempos do Admiral M 17 habitava a finada constelação do  Escudo de Sobieski. Como já falei o seu livro não foi traduzido. Recomendo a todos aqueles que gostem de astronomia que estudem inglês...

                Fiquei satisfeito com o resultado de 44 exposições de 8 segundos em ASA 6400. E com não tinha grandes pretensões artísticas sequer processei as fotos no Deep Sky Stacker utilizando o Método HDR. Demora muito... ( veja foto que abre o Post)
1 frame de 10 segundos de exposição ASA 6400. 

                Gostei muito do resultado de uma única exposição ( nenhuma com mais que 20 segundos) em quase todos os objetos capturados durante a noite. São bem fiéis ao que eu tinha no visual.  Na verdade melhor.  O CMOS (sensor) da Canon é  mais eficiente que minhas pupilas velhas de guerra...
                A noite avança e o céu embora sem nublar vai ficando cada vez pior.  Cravo M 31 no Synscan. Andrômeda é impressionante. Baixa no horizonte e navegando pelos vapores luminosos da Armação ela ainda ( seu núcleo e bojo) se faz evidente mesmo pela buscadora. Mas após poucas exposições percebo que será perda de tempo insistir. Mesmo ela  carece de melhores condições para se obter detalhes nos braços.  Mas fico feliz que a fotografia capte M 32 . Esta não se apresentava visualmente de jeito algum.
1 frame 15 segundos ASA 6400

                Tendo em mente que a transparência era péssima aponto para Ngc 104. Ou Tuc 47. Este globular é o segundo globular mais brilhante dos céus. Conhecido como "uma estrela" desde a pré-história era um ideia razoável. Visualmente resolvo algumas estrelas em seu entorno. Faço algumas imagens...
1 frame 15 seg ASA 6400
                Já cansado me lembro que estrelas duplas são melhor diversão que fotos sem graça. E acabo visitando varias duplas que nunca tinha visitado. Acamar e Almach são fáceis e um bom passeio.  E 107 Aquário é uma delicada dupla que brinca com sua percepção de cor. A primaria é avermelhada e a sua companheira azulada. Mas conforme você se concentra em uma ou outra elas parecem trocar as cores. Sendo uma dupla mais apertada só a resolvi com minha 17 montada e uma barlow 2X.  No Bedford Catalogue ( o segundo volume do livro velho...) Smyth nos diz que é "Uma dupla extremamente atraente".  O trabalho de Smyth apresenta alem de nebulosas muitas estrelas duplas reunidas em seu catalogo.  Na verdade mais estrelas duplas que nebulosas. Estas em seu tempo eram mais curiosidades de natureza quase divina que objetos de estudo propriamente ditos.  Seriam demonstração dos "...Diversos Céus que ha no Céu. Uma demonstração da grandeza de Criador"...
Acamar 1 seg

Acamar 6 seg.

Almach

                Albireo é sempre um espetáculo . Deve ser a estrela dupla mais famosa dos céus.Ou deveria. Você já foi aAlbireo?  Uma pedra de âmbar e uma agua- marinha. Ou ametista.
                Quanto as Galaxias de Escultor eu tentei a sorte com Ngc 55. Não vi nada. Nem insisti muito. Seria perda de tempo.
                Ngc 55 embora conhecida de seu grande amigo John Herschel não foi incluída no Bedford Catalogue...
                No noite seguinte o churrasco , a cerveja da tarde e mais as nuvens não chegaram a impedir de tudo a observação. Mas lembrei que a umidade é um inimigo a ser respeitado.  Madame Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5) começou a noite muito recalcitrante e dando diverso "paus" durante o alinhamento do "go-to". Depois de muitas malcriações visitei dois velhos amigos antes do tempo nublar de vez e eu entregar os pontos para o Balantines que olhava para mim desde a véspera...
Globular em Pavo

M 28


                Ainda insisti no menu "named stars" do Synscan de Madame por entre as nuvens. Fui a Diphda , Enif e mais algumas... É sempre bom para aprender novos caminhos pelo céu. Em outro livro antigo (Evening with the Stars de Mary Proctor) vi as sabias palavras de Thomas Carlyle :
" Why does not someone teach me the constelations, and make me at home in the starry heavens, which are always overhead and which I don´t half know to  this days?"
                Embora desnecessário vou dizer que nunca foi traduzido para o português.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Ngc 2477: Um Rico Aglomerado Aberto



             Abbe Lacaille ( Nicolas Louis de Lacaille 1713-62) foi o primeiro grande explorador do Céu Profundo austral. O esforço que resultou em um pequeno catalogo com 5 entradas realizado por Halley debaixo do inclemente clima e da mão de ferro de seu "governante" na Ilha de Santa Helena  não chegou sequer a arranhar as maravilhas que se escondem abaixo do equador.
  O
                Durante sua expedição ao Cabo da Boa Esperança  realizada entre 19 de abril de  1751 e 8 de março de 1753 o Abbe catalogou 42 "nebulosas"  das quais  32 se revelaram DSO´s verdadeiros.  Em seu trabalho ele dividiu as nebulosas em trés categorias : Nebulosas sem estrelas ( tipo 1),  aglomerados nebulosos (tipo 2) e estrelas acompanhadas de nebulosidade (tipo 3).  Em seu relato Lacaille nos diz "  Encontrei um grande numero dos três tipos de nebulosas na parte sul do céu , mas eu não me engano com a ideia de que observei a todas , especialmente dos tipos 1 e 3 porque estas só podem ser percebidas após o anoitecer e mesmo assim em noites sem lua . Entretanto tenho a esperança que esta lista seja completamente passável em relação as mais notáveis dos três tipos".
                Uma outra apresentação do Abbe demonstra claramente em que pé andava o conhecimento das estruturas de céu profundo no século XVIII e do hercúleo trabalho por ele realizado de posse de parcos recursos : "  As assim chamadas estrelas nebulosas  oferecem aos olhos daqueles que as observam um espetáculo tão variado que sua exata e detalhada descrição pode ocupar os astrônomos por um longo período e dar  origem a um grande numero de curiosas reflexões por parte dos filósofos... eu estou esboçando  estas descrição e lista para servir de guia  para aqueles com disposição e equipamento para estuda las com telescópios maiores. Eu adoraria apresentar algo mais detalhado e instrutivo neste artigo mas com refratores comuns de  15 a 18 polegadas ( distancia focal)  como os que possuía no Cabo da Boa Esperança eu não possuía instrumentos nem adequados e nem convenientes para este tipo de pesquisa."
                Ngc 2477 é a entrada numero 3 da classe 1 do Catalogo Lacaille . Lac  I 3.  Habitando a constelação de Puppis ( também uma "criação" de Lacaille ao desmembrar a antiga e enorme constelação de Argus Navis) é um dos mais ricos aglomerados abertos que conheço. Recorda em muito M 46. Por uma daquelas coincidência que nada tem a ver com as leis fundamentais do universo ele também forma uma espécie de aglomerado duplo assim como M 46 e M 47. E desta forma ele é o mais belo e mais difícil de ser observado de sua dupla cósmica. Ele faz par com o brilhante e nem tão charmoso  Ngc 2451.

2451 em uma noite bem nublada...1 exposição 15 seg asa 1600. O aglomerado é bem mais interessante que isto em condições normais de temperatura e pressão...
                Localizar Ngc 2477 não é tão fácil como parece . Especialmente devido a proximidade de 2451. Não leve gato por lebre. O Original parece com um pequeno cometa em binóculos e buscadoras. Já  2451 se resolve claramente.  Mas ele se resolve rapidamente com auxilio de um telescópio mesmo com aumentos na casa de 30 ou 40 X.  Sua navegação deve começar a partir de  Naos ( Zeta Puppis)  . E com esta na  buscadora e percebendo a estrela b Puppis ( mag. 4,5)no campo  com um pouco de atenção você vai distinguir 2477. Se chegar até 2451 volte um "pouco" e escaneie  com sua maior  ocular. 

                2477 é um aglomerado galáctico muito rico e sua aparência pode lembrar alguns globulares menos densos como M 71 e M 55. Mas como já falei das semelhanças entre M 11 e M 55 o diabo esta nos detalhes. E assim Ngc 2477 possui "apenas" 1,3 bilhões de anos. Uma idade avançada para aglomerados galácticos mas um juvenil se comparado a liga sênior  onde jogam os globulares.  Ngc 2477 possui 1981 membros conhecidos e confirmados e estando a 3.700 anos luz de nós  e com um diâmetro aparente de quase 30´ele ocupa  22 anos luz de espaço.
                Ngc 2477 é ainda uma testemunha da era de ouro da exploração dos céus austrais entre os seculos XVIII e XIX. Após ser avistado como uma nebulosa sem estrelas por Lacaille  sua verdadeira essência é descrita pela primeira vez por Dunlop :  " Uma nebulosa bem grande e tênue facilmente resolvida em estrelas pequenas , ou melhor , um aglomerado de estrelas..."
                Posteriormente e completando a trindade dos exploradores do céu austral o mesmo é descrito por John Herschel da seguinte forma : " Aglomerado soberbo ( gradualmente mais brilhante em direção ao centro) 20´ de diâmetro. Muito mais do que suficiente para preencher todo ao campo. Estrelas de 10a  e 11a magnitude , todas quase iguais"

                Observando sob céus "Bortle 6" ( Céus suburbanos brilhantes) o aglomerado é alvo difícil de se perceber pela buscadora mas se revela facilmente e riquíssimo com auxilio do Newton ( meu telescópio newtoniano 150 mm f8) com 30 X de aumento ( ocular 40 mm). Sua melhor forma é obtida utilizando minha 26 mm onde enche o campo e apresenta mais contraste. Com a 40 mm é possível espremer partes de 2477 e 2451 no mesmo campo.  Formando assim um belo aglomerado duplo. Com telescópios "wide field" sera uma vista maravilhosa. 
                As fotos aqui apresentadas foram feitas com o Newton montado sobre Madame Herschel ( uma montagem equatorial HEQ 5 ) e utilizando uma Canon T3 sem nenhuma modificação . São resultado da soma de cerca de 20 fotos com  25 segundos de exposição ASA 3200.