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sábado, 10 de agosto de 2013

Softwares Amplo Espectro




Comprei um novo  laptop. O meu antigo sofreu muitos baques e abusos nos últimos tempos. E com um tour amazônico ele realmente começou a apresentar sintomas de alguma doença tropical grave e desconhecida. Desta forma comprei um Pen drive e pesquei do HD o que realmente interessava e me conformei em manda-lo para o sacrifício.
      O meu novo lap é em tudo superior ao anterior e  fiquei bastante feliz com a nova aquisição. Após alguns dias de choque cultural causado pelos Windows 8 acabei me acostumando com o nova paisagem e também com o novo sotaque.
     Mas aí começa a trabalheira. Afinal meu computador é também astrônomo. E com o passar dos anos meu antigo lap tinha acumulado muito lixo em seu HD. Algumas dezenas de softs destinados a observação e a astrofotografia tinham sido instalados e em sua maioria eram apenas entulho. Apesar de agora possuir 1TB de espaço vazio no me novo HD não queria já começar entulhando a área de trabalho com diversos atalhos para programas que eu nunca usaria.
      Desta forma organizei uma lista dos softwares que eu quero  instalados em minha maquina e que são realmente uteis.
       Vou iniciar pelos Freewares. Seguindo a ordem dos downloads que realizei :

         Stellarium: Um programa planetário que deve ser conhecido de quase todos os leitores. É um programa fundamental para você planejar as suas observações e saber aonde procurar os objetos que lhe interessam. Uma descoberta interessante é que como fiquei muito tempo acomodado e não atualizei nenhum destes programas diversos melhoramentos foram realizados. O Stellarium especialmente se tornou um programa melhor. Os menus sobre DSO´s e estrela que se abrem quando se clica sobre um determinado objeto se tornaram muito mais completos. Um maior banco de imagens ( que agora também inclui  NGC´s interessantes além dos Messier´s...) foi implementado. Outra melhoria é com relação a possibilidade de se ver a imagem com diversas combinações de oculares , Barlows e afins... O programa se aprimorou em cerca de 1 ano ( talvez um pouco mais) .


          Outra melhoria é poder se passear pelo céu virtual utilizando qualquer uma das combinações de oculares. E assim pode-se ensaiar o Star Hooping para se localizar objetos mais difíceis
               Baixe em :  http://www.stellarium.org/


               •         Cartes du Ciel -  Outro programa planetário. Nunca consegui decidir entre este e o Stellarium. O CdC possui mais catálogos e um banco de imagens superior aos do Stellarium . Mas o primeiro tem uma apresentação mais bonita do céu. Acho que ambos acabam por se completar. Por isto ambos vão para o HD. O cartes du Ciel não evolui tanto desde a ultima versão que eu possuía instalada. Parece ter se acomodado mais. Mas ainda possui mais informações nas abas sobre DSO específicos e  todo o catalogo NGC apresenta fotos .

           Ainda que de baixa qualidade.   Ambos permitem controlar montagens computadorizadas...
           Baixe aqui:  http://www.ap-i.net/skychart/start



         Deep Sky Stacker - Um programa devotado a astrofotografia. Ele permite que você empilhe fotos e assim consiga melhorar a "Razão Sinal- Ruído" de suas fotos astronômicas. É um programa bem poderoso e fundamental para quem pretende praticar astrofotografia com alguma dignidade.


         Rot n´Stack- Semelhante ao DSS mas mais pé de boi . Ele aceita empilhar imagens que o DSS pode vir a recusar. Esta em uma nova versão que aumentou suas potencialidades e com a possibilidade de se utilizar Dark frames capturados por você ou auto gerados por ele tornaram suas fotos mais bem acabadas. Sua interface é mais amigável e ele é muto mais complacente com capturas de imagens mais mambembes que o Deep Sky Stacker ( DSS)

         Ainda na seara da astrofotografia eu baixei o IRIS. Este é um programa bastante poderoso e que poderia se comparar ao caríssimo MAXIM. Ele realiza todas as operações imagináveis . Desde permitir o controle da captura das imagens em sua câmera até o processamento final das imagens. Mas é bastante complexo e eu o uso quase que exclusivamente para reduzir o gradiente e a vinhetagem comum em fotos astronômicas.
         Baixe aqui:  http://www.astrosurf.com/buil/us/iris/iris.htm

  • Outro programa util , poderoso e gratuito com diversos recuersos para tratamento de astrofotos é o Fitswork.  Bom possuir embora já tenha sido mais fão dele. possui uma boa ferramenta para retirar gradiente e evitar flats frames...  
  • http://www.fitswork.de/software/


         Finalizando a coleção de freewares eu recomendo que se instale o Noiseware Community Edition. Ele permite que se diminua o ruido tão comum em fotos realizadas com ASA muito alta e  também o ruido térmico causado  em por exposições muito longas. Este apresenta também uma versão paga ( Pro) a qual permite você trabalhar com mais formatos ( Tiff ) . Na sua versão gratuita somente Jpeg é aceito...

       Baixe aqui:http://en.kioskea.net/download/download-439-noiseware-community-edition

Agora apresento alguns Softwares que não são gratuitos mas que são extremamente uteis para a pratica da Astrofotografia:


         Photoshop CS- O Photoshop é um programa não só importante para a pratica da Astrofotografia ( especialmente as ferramentas Levels e Curves...) como para a fotografia em geral. O Potencial dele é enorme e seus recursos são imensos. Na verdade sempre se pode descobrir algum recurso novo. O Photoshop é um programa caro. Embora não apóie a pirataria sei que é possível  obtê-lo de forma "gratuita" em sites com Kickass Torrent e Pirate Bay. Cuidado em ambos os sites. Você pode acabar  com vários invasores e ainda terminar sem o Photoshop. 
      Uma opção freeware é o GUIMP. Eu acho o Photoshop mais poderoso por algumas centenas de dolar... Mas é uma excelente opção.        http://www.gimp.org/




         Canon Utilities: É o programa que acompanha as câmeras Canon e que permite o controle da câmera a partir do computador . É a forma mais rápida de se controlar a aquisição de imagens e de se poder obter exposições superiores a 30 segundos.
         Digital Photo Professional - Outro programa   que vem " bundled" com as câmeras Canon. Permitiu você manipular fotos em RAW.
      Os dois últimos programas provavelmente você obterá facilmente na web.
     Acredito serem estes os programas necessários para fazer de qualquer computador uma plataforma útil para Astronomia em geral e Astrofotografia em particular. Claro que sua câmera deve ser uma Canon. Senão um pequeno ajuste se fará necessário... 


  •        Astrophotography Tools- É um parente do Canon Utilitiies envenenado para astrofotografia. Atualmente é o prrograma  que utilizo para as captturas. Sua versão gratuita posssi quase todas as funções liberadas. Muito bom.
       
      Provavelmente instalarei ainda o Registax. Pretendo um dia ter uma web cam para fotografia planetária...
    
   Outro programa que é interessante mas que depois de algum uso acaba perdendo o interesse é o Celestia.  Permite simulações . Ou o Universal Sandbox.
      De uma forma geral estes são os programas que acho interessante possuir em meu computador.
   Pessoas tem necessidades diferentes mas a coleção apresentada vai atender a maior parte das necessidade de astrônomos amadores.
       Sei que existem alguns outros programas que podem ser fundamentais para a pratica astronômica . Mas já no terreno da especialização. E aí cada um tem a sua... 

         Esta lista seria uma proposta " amplo espectro".

      

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ngc 6067: Uma Joia Austral

            

          
             Ngc 6067 é um dos mais interessantes aglomerados abertos que conheço. Quando me iniciando na astronomia me deparei com ele meio que por acaso. Era uma noite de lua nova em Buzios e reparei uma leve nebulosidade ao longo da via láctea.  Utilizando meu antigo “Trucuçu” (um enorme binóculo de 80 mm com zoom e lentes “mercúrio cromo coated”.) eu apontei a besta para a região e fiquei boquiaberto. Emoldurado por varias estrelas bem brilhantes eu via um evidente aglomerado aberto bem concentrado e de muitos membros.

          Não tinha a menor ideia de que aglomerado se tratava. Adoro quando “descubro” algum DSO.

          Posteriormente fui procurar pelo tal no Cartes du Ciel. Rapidamente descobri tratar-se de Ngc 6067. A descrição com códigos de Dreyer que acompanha o mesmo é bastante representativa:

Descrição: Cl (cluster = Aglomerado)
   vB ( very bright)
   vL ( Very Large)
   vRi ( Very Rich)
   lC (creio ser Irregular cluster...)
   *10... (estrelas de 10a mag.)
   Fine Field (campo interessante)

            Como nunca tinha visto nenhum comentário semelhante sobre qualquer outro aglomerado (fine field) e achei muito apropriado fiquei com o aglomerado na cabeça e pretendi estuda-lo melhor e se possível realizar um registro fotográfico do mesmo. “Devil is on details”. O pequeno adendo na descrição do CdC deixou 6067 habitando algum lugar no meu imaginário HD cerebral.

            Mas o tempo se passou e ele acabou indo para a pasta de "arquivos perdidos para a claridade urbana”.
            Recentemente visitei novamente céus mais escuros e novamente percebi aquela condensação obvia no rio galáctico. E novamente utilizando um binóculo (15X70) eu visitei esta joia austral

            É um tesouro austral que reside na “Nuvem de Norma”.  Já disse por aqui que entre as joias da coroa austral Ngc 6067 seria uma peça importante. Um belo bracelete ou algo do gênero. Fosse o aglomerado um pouco mais ao norte e ele seria cantado em prosa e verso como os mais famosos M7 e M6.

            Finalmente voltei à batalha da astronomia urbana, mas trouxe desta vez a lembrança de que deveria fotografar esta peça. Afinal com magnitude 5.6 ele sobreviveria aos céus urbanos Bortle 8.  (Bortle é uma escala para determinar quão escuro é o céu que você observa). Afinal agora já possuo o equipamento e quase a competência para fazê-lo.  


            Localizar Ngc 6067 é bastante fácil em céus relativamente escuros. Mesmo em céus suburbanos é tarefa simples. Em condições extremas de poluição luminosa eu recomendo que você parta de beta Triangulo Austrinus (1) e marche pouco mais de um campo de buscadora (5º 42´) até localizar Iota Norma (2). É uma estrela dupla facilmente percebida pela buscadora. Ambas brilham há um pouco mais de 5ª magnitude. A partir de Iota caminhe um pouco mais de meio campo de buscadora (3º 25´) até Kappa Norma (3). Esta se apresenta para mim com um tom levemente alaranjado e com Magnitude 4.9 é evidente na buscadora (9X50). Com ela centrada e utilizada sua maior ocular Ngc 6067 estará em quadro com Kappa. Passeie ao redor de capa utilizando os controles finos de seu telescópio e não tem como não localizar o aglomerado.

            Ngc 6067 é um aglomerado relativamente pouco estudado, mas depois de muito caçar pela web localizei um paper bem completo sobre o mesmo. Este pode ser acessado aqui: 


                O aglomerado tem características bastante singulares. Com diversos membros avermelhados ele talvez mereça o titulo de caixa de joias até mesmo mais que o famoso aglomerado de Kappa crucis. Por uma ironia do destino este também é flanqueado pela Kappa de sua constelação.

            O contraste de estrela avermelhadas e azuis trazem um charme todo especial ao aglomerado e um diagrama HR bem interessante e diferente das Plêiades, que são um aglomerado aproximadamente da mesma idade de Ngc 6067. Diversa estrela do tipo K está presentes e uma Gigante G habita próxima a seu centro.

            A partir do diagrama podemos perceber algumas características marcantes em 6067:
  • ·         Um ramo bastante populoso de estrelas intrinsecamente azuis desviando “para cima” do marco zero da sequencia principal.
  • ·         Uma falha muito bem definida de membros no centro do diagrama.
  • ·         Uma coleção de supergigantes brilhantes logo acima da falha citada. Todas comprovadas como membros do aglomerado.
  • ·         Uma grande coleção de estrelas de diversas cores abaixo de 14ª mag.


As estrelas azuis deste ramo principal permitem calcular a idade do aglomerado como sendo contemporâneo das plêiades. Ou seja, algo em torno de 100.000.000 de anos.
6067 é, talvez, o único aglomerado da galáxia a conter um grupo tão grande de supergigantes do tipo K Ib. Esta diferença das Plêiades é tributada por um tal de Johnson a maior riqueza de tipos estelares que povoam 6067 em relação às irmãs mais famosas.

Ele possui mais de 200 estrelas confirmadas como membros verdadeiros do aglomerado e diversas duplas envolvidas.

O Aglomerado se encontra a cerca de 6000 anos luz de nós (1.91kpc).

Ngc 6067 14 exposições de 10 Seg asa 6400. Rot n Stack +PhotoShop+Noiseware (B/W)

Ngc 6067 é melhor observado com oculares de Wide Field já que o campo que o emoldura compõe o show. Com maiores aumentos é possível perceber mais detalhes da estrutura do aglomerado em si bem como algumas das duplas citadas. Mas se perde um pouco da graciosidade desta bem guardada joia austral que reside no coração da Nuvem de Norma.


domingo, 4 de agosto de 2013

Astrofotografia, Obras Publicas e Ngc 6025 e 6067

            
            Depois de céus amazônicos (Bortle 2) o retorno ao meu “canteiro de obras” aqui no Leblon me deixou bastante desgostoso. O péssimo habito de utilizarem luzes apontando para o céu em vez de para a obra continua a todo vapor. Mesmo depois de diversas visitas e de já ter explicado isto para quase todos os mestres de obras do projeto. As obras publicas deveriam ser baseadas no principio da eficiência previsto em lei. Como é habito em nosso país mais uma lei é rasgada.
            No meu negocio sempre se diz que quando se tem que escolher entre o bom, o rápido e o barato só é possível ter duas dessas variáveis. Por exemplo: Se é rápido e barato não pode ser bom...
            No sistema de obras publicas nacionais ocorre algo que supera qualquer lógica. As obras são lentas, caras e ruins... 
            De qualquer forma não posso me render ao poder publico e sua incapacidade. Moro muito próximo a nosso governador e este já parece ter entendido que o recreio acabou e que ele não se elegerá nem mesmo sindico de prédio daqui para frente. E desta forma me sinto realizando um exercício de desobediência civil enquanto planejo uma sessão de fotos de diversos aglomerados abertos que estarão desfilando pela minha janela.  E não corro o risco de tomar uma bala de borracha no meio da cara.
            Com os alarmantes graus de poluição luminosa este projeto não é fácil.  Preparo de véspera um plano de ataque. Com o Stellarium aberto em meu computador (que parece estar em fim de carreira...) eu percebo que partindo de Alfa Centauro, que é uma das poucas estrelas que resiste aos refletores patrocinados pelo meu dinheiro, e torcendo para conseguir perceber Beta Trapézio Australis e utilizando de “reza braba” para perceber alguma coisa no corpo de Norma eu imagino que tenho três aglomerados abertos lindos e bastante claros para vitimar. Seriam eles Ngc 6025, 6087, 6067. Como back up tenho Ngc 5662, bem perto de Alfa Centauro. Acredito nunca ter fotografado nenhum deles.
Área de Navegação
            Finalmente sabadão. A lua quase nova. Parto para meu plano. Começo pela manhã comprando pilhas para o motor drive e movendo moveis pela sala. Com a chegada de um novo rebento prevista para breve a casa se encontra de pernas para o ar e diversos móveis ocupam locais que não deveriam na minha “Stonehenge dos Pobres”.
            Pretendendo começar a observar por volta dos 21h00min h (quando a cara metade e a filha estariam concentradas na novela...).
Esculturas na Catacumba: Nijinski.

            Muito antes disto vou passear com minha filha pelo Parque de Catacumba e ter um maravilhoso steak tartar no Bar Lagoa. De volta  eu chego ao lar. E começo os trabalhos mais cedo.
Novamente o alinhamento polar. Assim faço uma aproximação razoável e me dou por satisfeito. Os aglomerados que tenho em vista são bastante claros. Todos eles entre 5ª e 6ª magnitude. Lembrava-me deles na Amazônia e todos eram evidentes a olho nu naquele paraíso de céu escuro. Aqui em compensação...
           Para testar o alinhamento polar resolvo fazer algumas fotos de uma velha conhecida. Ngc 4755, A caixinha de Joias de John Herschel. Embora uma descoberta de Lacaille o primeiro a associar seu colorido às pedras de uma caixa de joias foi “Herschel, o filho”.
            De novo (como se fosse para eu lembrar...): todos os aglomerados aqui citados são bastante claros e se o alinhamento me permitir algo como 15 segundos de exposição e utilizando 3200 asas terei um registro bastante fidedigno do que se poderá ver pela ocular... Aqui no Nuncius a missão é sempre esta. Nada muito além do que se pode observar visualmente já me deixa bastante satisfeito.
            Claro que as coisas não correm tão bem e depois de mais alguns (muitos...) ajustes me parece possível fazer algumas fotos com um mínimo de dignidade.
RnS  14 exp.X10seg.  6400 asa

          



Caixa de Jóias DSS+ Photoshop 


          Uma das maiores qualidades da Canon T3 sobre a minha antiga350D é que posso utilizar ASA mais alta nas fotografias. E assim acabo com exposições de 10 segundos e ASA 6400. A nova câmera suporta bem o ruído gerado por este abuso.
            Mas não deixarei que a Caixa de Joias roube a cena. Já a fotografei anteriormente e a quem interessar possa clique aqui para um post só dela ( o qual prometo melhorar em breve...)
            A poluição luminosa se encontra em níveis que nunca imaginei. Mas seguindo meu plano e com muita atenção junto à buscadora acabo por localizar Ngc 6025.
            Já tinha tentado fotografa-lo. Mas os resultados foram abaixo da autocrítica. E Assim fico muito feliz por ter obtido um resultado um pouco mais honesto desta vez. Na verdade o fotografei duas vezes. A poluição luminosa esta tão brava por aqui que iniciei todas as navegações (“Star Hooping”) partindo de Alpha Centauro.  Para chegar em 6025 eu calculei que deveria marchar dois campos de buscadora para o Norte e um pouco menos de um campo para leste.  E depois torcer para que o mesmo estivesse por perto. Dificílimo de perceber pela buscadora. E Assim era chutar e olhar pela ocular 25 mm. Balançar um pouco para lá e para cá e depois de uma dezena de tentativas conseguir entrar na vaga. 
RnS 14 exp X 10 seg


          
DSS + PS
  Faço logo a substituição da Ocular pela câmera e realizo 14 fotos rapidamente. Depois me dou por satisfeito e num rápido balançar e num tremendo golpe de sorte e acabo navegando as cegas e muito rapidamente até Ngc 6087. Mas não vai ser desta vez que ele vai ser fotografado. Um descuido, uma trava solta e perco-o. Tento retornar, mas já é tarde demais. Depois tento refazer o caminho a partir de Alpha Triângulo Austrais. Mas o caminho só me leva de volta até 6025 e acabo por fazer mais fotos deste desta vez com a câmera em outra posição em relação ao tubo do telescópio.
            O DSO em questão estava nos meus planos. Já o havia observado anteriormente. Mas se me recordo bem jamais com o “Newton” (um refletor 150 mm). Mesmo com tanta PL ele se mostra mais “completo" que no meu pequeno refrator ou em qualquer de meus binóculos. Ela ocupa uma boa área da ocular 25 mm. É o que eu chamaria de um aberto típico... Nem barro nem tijolo. Bastante brilhante ele é um bom alvo para qualquer instrumento. Em condições de forte poluição luminosa ele é bem discreto na buscadora.
            Ngc 6025 é um aglomerado galáctico bastante estudado. Foi descoberto por Lacaille em seu levantamento dos céus austrais realizado entre 1751 e 1752.  Localizado dentro das fronteiras de Triangulo Australis ela é também conhecida como o Aglomerado de Lambda Circinus. Um mistério a ser respondido pela IAU. Seu membro mais brilhante é a estrela HD143448. Esta uma “ Blue Straggler”. Uma estrela que é mais jovem que a maioria dos membros do aglomerado. O Processo de formação de “Blue Stragglers" ainda é objeto de estudos. A idade estimada do mesmo é de 84 milhões de anos. Sua modulo de distancia é de 9.08_+ 0.006 (psc). Sua Magnitude é de 5.10 e ele se espalha por cerca de 12´ de céu. Entre as joias da coroa austral eu diria trata-se de um pequeno adorno. Talvez um delicado broche.
            Mais informações e diversos papers podem ser encontrados em:

            Mas a noite não acabou.  Retorno pela enésima vê para Alpha Centauro e com esta centralizada na buscadora parto saltitando pela poucas estrelas que resistem aos refletores patrocinados pelo nosso dinheiro espero chegar ao “perdido” Ngc 6087. Conforme o previsto chego perto. Ngc 6067 fica pertinho de Kappa Norma.  É um belo campo estelar e o pequeno aglomerado é bem concentrado. È a estrela da noite. Também creio que é a primeira vez que o observo com o refletor. E certamente a primeira vez que o fotografo.   Kappa [e bem evidente na foto logo abaixo do aglomerado]. Outras estrelas relativamente brilhantes o emolduram e o mesmo apresenta um belo colorido com diversos membros avermelhados.
RnS 18 exp X10 seg. ASA 6400

         
DSS + PS
  
        Ngc 6067 é uma descoberta de James Dunlop. Apesar de seu brilho só foi identificado em 1826.  Brilhando com magnitude 5.6 e ocupando 13´de firmamento ocupa uma vizinhança nobre na Via láctea e seu campo estelar (com Kappa norma envolvida) é uma bela visão com o auxilio de qualquer instrumento ótico. Localizado a 1800 parsecs o aglomerado deve ter meia idade com diversos membros já se afastando da sequencia principal. Entre as joias da coroa eu o consideraria um belo bracelete.
            Mais sobre a peça em:
             Há algum tempo sem fotografar DSO eu me esquecera de alguns truques que são de grande valia. O primeiro é marcar o ponto de foco da câmera  na cremalheira. Para isto uso um pilot.
Marcando o foco...
            E o segundo é travar o espelho da câmera suspenso. Basta para tal utilizar o “Live View” da câmera. Embora você talvez não veja nada no LCD você vai evitar muitas vibrações na câmera e na sua foto
               Depois de lutar contra a absurda poluição luminosa e o desperdício publico eu acabo me dando por muito satisfeito. Fiquei muito impressionado como vai mal a situação por aqui depois de meu passeio amazônico. Todos os aglomerados que suei para localizar por aqui eram evidentes a olho nu na Aldeia Kaunã.
Apesar de tudo e de um alinhamento polar no limite do aceitável a noite acabou rendendo bastante e dois novos aglomerados foram fotografados e uma velha conhecida me deu uma canja. Não levei as fotos para grandes peregrinações durante o pós-processamento. E assim novamente percebo que em se tratando de uma astrofotografia mais “mambembe” o Rot n´Stack não faz feio. Pela primeira vez utilizei um dark frame que eu mesmo obtive nele (em vez do auto gerado). O resultado meu pareceu bem melhor.  O dark frame "auto gerado" tem forte desvio para o verde.
Já o Deep Sky Stacker, embora mais poderoso, demanda mais tempo de computador e maior capricho na captura das fotos. E para extrair dele o máximo são necessários outros programas no HD. Especialmente se pretende obter mais cor e saturação na imagem gerada por este.

Foto do DSS sem nenhum tratamento posterior.

O resultado mais obvio é que as imagens obtidas via RnS são mais semelhantes ao que se observa na ocular. 

Como dizem os montanhistas: “Desistir nunca. Retroceder jamais.”.

domingo, 28 de julho de 2013

A Ursa Maior, Mizar , Alcor e os Algoquines


A Ursa Maior não é exatamente o que se pode chamar de uma constelação austral.  Nas latitudes cariocas ela é dificilmente percebida e suas estrelas mais boreais não chegam a ser visíveis. Mas como andei viajando pelo norte do país e não há como não admitir que ela seja uma das constelações mais famosas do céu e que apresenta atrativos inegáveis ela vem hoje nos visitar.

Na verdade um asterismo que pertence à Ursa Maior é uma espécie de Cruzeiro do Sul dos céus boreais. As sete estrelas mais brilhantes do grupo são tão famosas que tem apelidos em quase todas as culturas.  Formam o que os norte-americanos chamam “Big Dipper” (que é aquela concha que usamos para servir sopa), os ingleses se referem ao asterismo como “The Plough” (o Arado) e os franceses a chamam de “Cassarole”. Não bastando isto o grupo é ainda conhecido na Escandinávia como a “Carroça de Thor” ou como” O Vagão de Odin” (pai de Thor e por isto dono de um veiculo mais luxuoso...). A História continua com os antigos egípcios imaginando o Pernil de um Touro. Os árabes e judeus viram um caixão. E os primeiros cristãos batizaram o asterismo como “O Caixão de Lazaro”.
Agora quem percebeu as sete brilhantes estrelas e suas companheiras mais apagadas como um gigantesco urso é uma história perdida nas brumas do tempo. Curiosamente esta impressão transcende diversas culturas que, supostamente, jamais se encontraram. São encontradas referencias ao “grande urso” em fontes tão diversas como os antigos gregos e romanos como em tribos de nativos americanos. Seria isto uma coincidência? Ou um indicativo de uma origem comum escondida nas raízes de uma Ásia há muito esquecida?
Existem diversas lendas ao redor deste urso celestial.
Os antigos gregos contavam que esta seria uma encarnação de Callisto , uma jovem e bela mulher por quem Zeus se apaixonou. Temendo o ciúme de sua esposa Hera ele a transfigurou em uma ursa e a colocou em segurança no céu. Posteriormente ele coloca seu filho, Arcas, ao seu lado. São respectivamente a Ursa Maior e a Ursa Menor.
Do outro lado do mundo e muito antes de influências europeias existirem por aqui diversos nativos americanos possuíam mitos em que as mesmas estrelas também representavam um Urso.
Casal Algoquine
Entre os Algoquines, da América do norte, a lenda gira entorno de um malvado urso que deixa sua toca todas as primaveras e que vem trazer morte e destruição para sua tribo. Finalmente em uma desesperada tentativa de impedir esta carnificina os lideres tribais mandam seus três melhores guerreiros para caçarem a besta. . Nesta história as estrelas que formam o cabo da concha representam estes guerreiros. Na maioria das outras lendas estas estrelas formam a cauda da Ursa... De qualquer forma estes guerreiros continuam a caçar a ursa pelos céus durante o verão e quando se aproxima o outono um dos caçadores a atingem com uma flecha. E conforme o sangue da ursa pinga pela paisagem as folhas outonais são empasteladas de vermelho, laranja e amarelo. Parece que a ferida não foi mortal já que a ursa e seus perseguidores retornam aos céus todas as primaveras.
Agora vamos falar das estrelas razão deste post.
Se você perceber a estrela que se encontra no centro do cabo e prestar bastante atenção poderá perceber uma companheira mais discreta. Os Algoquines viram esta discreta companheira como uma grande panela que um dos guerreiros carregava em suas costas para cozinhar o urso quando o capturassem. Outras tribos imaginavam um cavaleiro e um cavalo. Eles utilizavam estas estrelas para testar a acuidade visual de seus guerreiros.
Hoje sabemos que a dupla de cavalo e cavaleiro possuem os nomes arábicos de Mizar e Alcor.
Mizar, a mais brilhante, brilha com magnitude 2.3. Alcor é de magnitude 4.0, ou cerca de cinco vezes mais tênue. A companheira foi batizada, em Latim, de Eques Stellula, “O Pequeno Cavaleiro Estelar”.
Na verdade sabemos muito mais que isto.
Mizar é um sistema quádruplo composto por duas binárias.  O movimento próprio de Mizar e Alcor indica que ambas viajam juntas pelo espaço (são ambas membros do Grupo Móvel da Ursa Maior).  Entretanto ainda ha duvida de serem gravitacionalmente associadas. Mas estudo recente (2009) indica que Alcor é ela mesma uma binária e que o sistema compartilharia de um centro de massa em comum com Mizar. Isto faz do nosso pequeno cavaleiro estelar um sistema sêxtuplo.
Observar Mizar e Alcor e separa-las a olho nu é um desafio desde a antiguidade. Não chega a ser tão difícil quanto parece. Com um pequeno passeio a latitudes mais boreais que as do Rio é fácil. A separação é enorme. 11,5 minutos de arco.
Na verdade se percebe também mais uma estrela no conjunto.  Tyc 3850-257-1. Com magnitude 7,5.  Também conhecida como Sidus Ludoviciana.. Sua descoberta é uma história interessante. Foi um dos mais famosos equívocos astronômicos e Johann Georg Liebknecht jurava tratar-se de um planeta...

Sir Patrick Moore dizia que o verdadeiro desafio seria perceber este discreto membro (apenas óptico) no conjunto. Não há a menor duvida. Chega a ser duvidoso que isto seja possível. Mas...
Com auxilio de qualquer aparelho óptico (no meu caso foi um binóculo 15X70) existem mais surpresas.  
Mizar foi a primeira estrela dupla telescópica descoberta. (Mizar A e B) descoberta, provavelmente, por Benedetto Castelli (que também observou a tal Sidus Ludoviciana e enterrado as pretensões planetarias de seu colega quase cem anos antes destas surgirem...)  em 1617 . Este pediu a Galileu que a observa-se. Este então produziu registros detalhados da dupla. Posteriormente Riccioli a descreveu como dupla (1650). 
Mizar A e B

A estrela secundaria, Mizar B, tem magnitude 4 classe espectral A7. Chegando a 380 UA (unidades astronômicas) uma da outra Mizar A e B demoram alguns milhares de anos para completarem seu passeio em volta uma da outra.
Mizar foi ainda a primeira Binária espectral a ser descoberta.. Por Pickering em 1889. Binárias espectrais não podem ser separadas visualmente e são descobertas estudando-se as linhas espectrais de um sistema por longos períodos de tempo.
Mizar e Alcor são excelentes alvos para o astrônomo urbano sendo visualizadas mesmo baixas no horizonte e em área de poluição luminosa.  E são parte da história da astronomia desde a pré-história.

Separa-las a olho nu é um desafio que acompanha a humanidade desde os seus primórdios. E uma honra.